12.7.16


ESTRANHOS CONHECIDOS...
 
 
- De onde você veio? – ele perguntou todo alegre, todo sexy, todo imbecil, todo bêbado, com um copo de cerveja na mão direita e um cigarro na mão esquerda – De onde? – Qual planeta? Não entendo, não sei, não conheço. Outra galáxia?
O Clube Varsóvia estava lotado.
Muito.
Absolutamente lotado para um dia de semana chuvoso.
Um dia de semana normal e comum.
Muito chuvoso.
Muito chuvoso.
E ela apenas sorriu.
Muito tédio, pouca prosa.
Nada disse.
Mudez total.
Nudez da alma total.
Apenas o som do DJ do Clube Varsóvia.
- Então, me conte, de onde veio? – ele repetiu ansioso.
- De lugar nenhum. Não vim de nenhuma outra galáxia, de nenhum outro planeta, de nenhum outro bairro. Porra nenhuma. Eu sempre estive aqui. Sempre. Sempre estive. E você nunca percebeu. Nunca. Acho que  este foi o problema ou o mal entendido. Não sei. Entenda você.
Ele a olhou desconfiado, cético, sem graça. Não respondeu.
Tomou mais um gole da sua cerveja, deu uma tragada funda em seu cigarro barato e apenas sorriu nervoso. Muito nervoso.
Ela sorriu ainda mais.
Nada nervosa.
Um sorriso largo, branco, grande e lindo.
- Da onde você veio? – ele perguntou novamente, como um imbecil.
- Você nunca me viu, certo? – ela perguntou com um sorriso cínico, irônico, lindo. Femme fatale – Nunca? – insistiu.
Ele meneou a cabeça e confirmou de forma negativa.
- Sempre te vi – ela disse direta – Sempre! Sempre mesmo! – pontuou.
Ele a olhou com surpresa e espanto e não entendeu nada. Não alcançou o que ela queria dizer. Nada. Pobre otário.
- Sempre te vi. Sempre. Você que nunca me notou – ela cravou direta, certeira, fatal.
E como em um relance infantil, raso e rasteiro, o flashback veio. Totalmente. E veio com força. Muita força.
E ele lembrou.
Lembrou de verdade.
Lembrou mesmo.
- Você? – perguntou com a voz trêmula, com a voz zonza - Você? - repetiu.
Ela apenas sorriu.
- Vamos conversar? Por favor? Qual seu nome? – ele perguntou.
E ela deu um belo e gordo gole em sua cerveja, sorriu e piscou para ele. Virou as costas e foi embora. Sem dizer adeus, sem dizer nada mais.
E ele nunca mais a viu.
Nunca mais.
Ao menos no Clube Varsóvia.
Ao menos em qualquer outro lugar.
E assim, mais uma história de amor se perdeu. Mais uma história de amor se perdeu.
Ah, os dias de chuva...
Ah, os dias de chuva...
Mistérios e sorrisos surpreendentes.
De cair os queixos incrédulos...
 
 
 

Nenhum comentário: