28.4.16


 

O RIDÍCULO CANSAÇO EM UM BALCÃO DE BAR.



Chovia. Muito.

Madrugada alta.

Chovia para caralho e eles estavam lá. Tolos, sentados, entediados, apenas bebendo e esperando a chuva passar.

Amigos.

Muito amigos.

Cúmplices.

Muito mais que isso.

- Cansado? – ela perguntou suave e gentil, sabendo da exaustão dele.

Exaustão física e psicológica.

Exaustão.

Física e psicológica.

Apenas exaustão.

Muita.

Muita exaustão.

Ele apenas consentiu com cabeça enquanto tomava mais um gole da sua vodka e tragava seu cigarro mentolado.

Ficou em silêncio.

Ela sabia o que ele queria dizer.

O que queria responder.

- Você não está bem, certo? – ela insistiu, afirmando e concordando. Sabia que era isso. Tinha certeza do que falava. Conhecia ele há "séculos".

- Sim. Muito cansado. Saco cheio. – ele respondeu sem energia

- De saco cheio e muito, mas muito cansado mesmo. De tudo – ele emendou.

Ela ficou com a expressão triste.

Nada disse.

O silêncio é fundamental em certos momentos.

Fundamental.

- Sabe o saco cheio? – ele continuou - Quando você não suporta mais a sua vida. As coisa estão sempre erradas? É isso. Apenas isso. Nada dá certo para mim na porra desta vida – desabafou.

Ela apenas o olhou. Nada disse. Prosseguiu silente, tomando sua bebida barata e vagabunda. Muito barata e muito vagabunda.

- E o pior. A música aqui é ou está muito ruim. Padaria idiota. Não dá para confiar em rádios baratos. Canalha – praguejou.

Ela apenas sorriu.

Ele era divertido mesmo irritado.

Divertidamente divertido.

Respondeu com sorrisos. Apenas isso.

- Mas tirando isto, o resto está bem – ele ironizou com um sorriso simpático.

- Sabe de uma coisa – ela disse, tentanto quebrar o gelo.

- Não – ele respondeu.

- Eu te amo – ela disparou sem freios e sem paradas.

Amores?

São assim.

Inesperados, delicados e deliciosos.

Inesperados, delicados e deliciosos....

 
AFOGANDO EM NÚMEROS.


- Perita? – ele perguntou, surpreso.

Ela retrucou o olhar com desdém e descaso. Puro desprezo.

E respondeu seca e direta – Sim, Perita. Algum problema? – questionou.

Ele a olhou por breves instantes e disse na maior cara de pau – Perita em que? Seduzir e destruir? – e riu.

Ela não ficou puta, nem brava, nem nada. Apenas respondeu – Perita contábil imbecil. É isso o que faço. É isso o que quero fazer e faço muito bem.

O som do Clube Varsóvia estava alto.

Muito alto.

Alto e claro.

Lindo.

- O seus olhos são grandes e gordos e lindos – ele disse, tentando desviar a conversa. Levar para um terreno mais amistoso e confiável e seguro a ele.

Achava que podia dominar.

- Você é um babaca – ela retrucou.

- E você é Perita. Luma linda Perita, aliás – ele respondeu.

Ela sorriu e tomou uma dose da sua vodka.

- Quer saber? – ela disse

- O quê? – ele perguntou.

- Nada – ela emendou.

- Vamos dançar? – ele sugeriu

Ela sorriu.

Seu sorriso mais lindo.

- Qual a probabilidade de você aceitar, Sra. Perita? – ele provocou e insistiu.

Ela apenas sorriu.

Novamente.

Ela topou.

E eles dançaram.

Muito.

A noite toda?

O tempo suficiente para eles.

Ele e ela....

Apenas ele e ela...

Nada mais além disso, pois os números não querem saber...

Não querem saber...

O Amor nunca é matemático.

Definitivamente...

Ele apenas acontece.

Apenas acontece...


 

25.4.16

 
APENAS UM TOLO



- Você me ama? – ela perguntou.

Ele desviou o olhar. Não quis responder. Preferiu ficar mudo.

- Ama? – ela insistiu, muito brava, muito grossa.

Ele estava suando, suando e suando.

Um caleidoscópio de emoções confusas.

Confusas e tontas.

Nervoso, nervoso e nervoso.

Suado, confuso, atrapalhado e idiota.

- Não vai ou não quer me responder? – ela quase gritou.

Ele permaneceu em silêncio. Nada disse.

Inerte e burro.

- Imbecil – ela disse, furiosa.

- Não sei – ele murmurou, quase como um gemido.

- O quê? – ela perguntou – Eu escutei direito? – ela prosseguiu.

Ele acenou com a cabeça.

Ela começou a chorar como uma tola, praguejando contra ele.

Ele?

Também.

Choro, lágrimas e lua cheia.

Dois jovens, duas crianças.

Amor?

Unilateral.

Apenas unilateral.

Apenas amor.

Pobre tolo suado de nervoso.

Apenas um tolo...





A FELICIDADE E O NÃO



Ela gostava de amar. Gostava de amar.

Muito.

Apaixonada, vidrada, viciada, encantada, apaixonada. Simplesmente isso.

Ele?

Não.

Nada disso.

Ele não era assim.

Nada apaixonado, nada vidrado, nada viciado, nada apaixonado, nada encantado.

Um imbecil.

Simples assim.

Apenas um imbecil.

Movido a vácuo.

Movido a álcool.

Força maior.

Desinteressante e vazio.

Um nada.

Um ninguém.

Ela?

Luz.

Pura luz.

Ele?

Idiota.

Puro idiota.

Mas eles se encontraram na pista de dança do Clube Varsóvia.

Na pista de dança do Clube Varsóvia.

Ao som de algum hit antigo dos anos sessenta.

Um hit qualquer.

Ele?

Deixou de ser tão imbecil.

Ela?

Deixou de amar tanto.

Juntos?

Foram muito felizes.

Muito felizes.

Para sempre?

Quem sabe...

Quem sabe...

15.4.16



ASSISTÊNCIA TÉCNICA
 
- Quem é esta vagabunda, Edu? – perguntou aos gritos Malu segurando o celular dele como se fosse uma foice.
Ele a olhou com surpresa e respondeu – Vagabunda? Você está louca? – respondeu de forma defensiva, acuada, temerária.
- Quem é esta vagabunda? Com quem você fala, conversa, explica, se abre. Quem é esta puta Edu?
Ele engoliu em falso e nada disse.
- Não vai falar nada seu filho de uma puta. Quem é a vaca que você está comendo?
Ele a olhou com uma certa dose de compreensão e uma grande dose de desdém e respondeu – Pára Malu. Você está ficando louca. Uma amiga. Uma amiga. Apenas uma amiga Posso ter uma amiga? Porra – gritou.
- Vai se foder Cadu. Você não tem amigas. Você tem vagabundas. Seu filho da puta. Quem é ela? É minha amiga? Eu conheço? Eu que te apresentei? É um codinome? – surtou Malu.
- Para. Fica tranquila – tentou apaziguar Cadu.
- Vai se foder. Você e todas as suas vagabundas – Malu gritou e arremessou o celular dele como nas melhores jogadas de futebol americano ou rugby. Como se fosse uma All Black.
O celular espatifou na parede.
Uma cena de cinema.
Tela destroçada e as palavras também.
Malu chorou.
Cadu também.
Vagabunda?
Nenhuma, claro. Apenas uma amiga.
Ciúme? Muito claro.
Como sempre e todo dia.
E a tela ficou despedaçada.
E as palavras?
Caídas no chão.
Caídas no chão

13.4.16


TOQUES
 
Mãos.
Suaves e delicadas mãos.
Subiam e desciam as suas pernas, explorando, investigando, descobrindo, enfim, circulando sem nunca chegar aonde deveriam.
Aonde deveriam...
Mãos.
Suaves e delicadas. Como se fossem luvas. Finas e adoravelmente suaves.
Nunca chegavam ao destino.
Nunca.
Por mais que se suplicasse por isso.
Por mais...
As mãos, doces, delicadas e suaves, circulavam pelas coxas fortes e deliciosas, virilha, barriga, umbigo, costas, nuca, pescoço, orelhas, lábios, pés com as unhas bem e deliciosamente pintadas, enfim, tudo.
Chegavam a tudo e a todos os lugares, mas NUNCA ao destino.
Dedos longos, dedos ágeis, dedos deliciosos.
Mas lentos.
Lentos demais.
Lentos demais para os desejos dela.
A vontade, o tesão e o desejo dela.
Mãos.
Suaves e delicadas mãos.
Querendo e conseguindo obter o desejo, o tesão, a ânsia, a excitação, enfim, a vontade de foder.
Mãos.
Suaves, delicadas e ágeis.
E muito bem usadas.
Muito bem usadas.
Ela tremia ao senti-las.
Muito.
Muito mesmo.
E ela nunca chegava ao lugar em que ela queria.
Lentas demais.
Mãos?
Não. Lábios.
O beijo que ELAS se deram foi fantástico.
Cena de cinema.
Cena de amor.
Cena de paixão.
Apenas isso.
Cena real.
Os dedos?
Ah, elas não lembraram deles.
Ao menos naquele momento.
Os lábios foram mais importantes...
Muito mais....
Muito mais...
 

12.4.16

 
VOYEUR DE TRENS TRISTES
 
Ela não tinha carro.
Definitivamente não. Nada. Carro nenhum. Nada. Ela não tinha carro e dependia apenas das suas próprias pernas para andar.
Apenas dela e das suas longas pernas.
Só transporte público.
E ruim.
Péssimo transporte público.
Ela dependia dele e andava em trem, ônibus, táxi, bicicleta, a pé, de um lado para outro por toda a cidade. De um lado para outro. Por toda a cidade.
E nas suas viagens loucas , longas e insuportáveis, ao invés de ficar como uma idiota no fone de ouvido e num celular vagabundo ela apenas observava.
A tudo e a todas as situações.
Observava a tudo e a todos com a maior esperteza, com a maior atenção.
Esperta.
Nada de malditos fones de ouvidos brancos e joguinhos sem graça.
Nada de música ruim nos headphones.
Nada de música ruim.
Nunca.
Nem jogos idiotas.
Ela gostava de observar. E era boa nisso. Muito.
Ela parecia boba.
Mas não era.
Longe disso.
Muito longe disso.
Boba nunca.
Nunca.
Ela era muito, muito, mas muito esperta.
Muito esperta mesmo. A começar pela dispensa dos fones de ouvido brancos que todos usam hoje em dia (e na maior parte das vezes para ouvir música ruim).
Ela observava, nas suas viagens de trem, os casais se beijando e percebia que "ele" não amava a "sua" companheira. Beijos por obrigação. Apenas isso.
Ela observava, nas suas intermináveis viagens de trem, os casais se beijando e percebia que "ela" não amava o cara ao seu lado. Não. Ela não o queria. Não havia interesse.
Observava os casais e percebia quando se odiavam. Gays, héteros, enfim, qualquer porra. Ela apenas observava. Apenas observava. Apenas isso.
Era mestre nisso. Observar.
Observar.
Apenas observar.
Observava pessoas tristes, pessoas infantis, pessoas fracassadas, pessoas bem sucedidas. Pessoas de todos os tipos, de todos os sexos e de todas as cores. De todos os tipos, definitivamente.
Mas em suas andanças, quase todos os dias ela se deparava no último vagão com um casal lindo e apaixonado.
Eles sempre chamavam a atenção. Sempre.
Beijavam-se com paixão e atração, com ilusão e delícia.
Nítido o amor presente neles.
Ela adorava os observar.
Sempre juntos, sempre unidos, até a estação Pinheiros.
Daí ela partia e ele ficava triste, apenas olhando o caminho diverso dela.
Ela era alta, linda, magra, simples e maravilhosa.
Cabelos dourados e lindos.
Ele?
Baixo e feio e gordo e simples e comum, porém charmoso.
Um dia, para surpresa da nossa observadora, ele estava só.
Ela? Não estava.
Nem sombra dela.
Os olhos marejados dele a deixaram angustiados, mas ela não ousou perguntar nada. Ficou em silêncio.
Apenas o barulho das paradas do trem.
Ele deixou o vagão na estação habitual e partiu.
Ela nunca mais viu a menina bonita junto do garoto charmoso.
Nunca mais.
Pensou o que aconteceu. Nunca soube.
Ele?
Ela continuou o observar por quase todos os dias.
Sozinho.
Sempre sozinho.
Nunca mais com aquele brilho no olhar....
Nunca mais...
Pobre...
 
Tristes são as estações de trem...
Tristes.
Cheias de estórias tristes e vagões lotados...

 

6.4.16

SADOMASOQUISMO II

- Camila? – ele perguntou direto. Incisivo.

Ela olhou meio sem jeito, meio sem paciência, muito sem saco, repleta de vodka barata e energético na cabeça. A música alta do Clube Varsóvia também não ajudava nada. Nada mesmo.

- Você é quem? – ela perguntou sem o menor saco.

Ele a olhou com carinho e ternura, acendeu um cigarro e tomou um gole de cerveja. Nada disse.

- Vai ficar aí fumando e bebendo como um imbecil? – ela disse, grosseira – Como sabe meu nome? – perguntou impaciente.

- Você é bonita – ele disse.

- Como sabe meu nome seu imbecil? – ela insistiu.

- Amiga em comum. Não vou dizer quem.

- Quem?

- Jaden Smith? Conhece?

Ela bufou com raiva e disse – Músico imbecil. Não é meu amigo. Idiota.

Ele sorriu e deu uma tragada longa no seu Marlboro.

Ela nada respondeu. Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. Seduzir e destruir era o seu maior prazer.

A idéia de ter um poder quase sobrenatural sobre todos os homens a enlouquecia, a envaidecia, a excitava, a deixava má, cruel, sarcástica, fria, insensível. Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. A volúpia de seus desejos era quase inacreditável. Quase inacreditável. E por isso mesmo ela sempre pensou que conseguiria alcançar todos os seus objetivos e ser poupada de todo o tipo de dor, apenas seduzindo e destruindo. Apenas seduzindo e destruindo com os seus lindos olhos esverdeados e suas longas unhas vermelhas, sua tatuagem discreta, suas botas de couro, seus decotes generosos, seus cigarros sujos de batom, seus copos de vodka e seus delírios insanos.

Mas, é óbvio, sempre óbvio, que todos podemos cometer erros.

E, infelizmente, para ela, cometeu mais um. Mais um...

Qual?

Ficou sem palavras. Sem argumento algum. Diante dele não sabia o que dizer, como se defender.

Ele, apenas sorriu.

Ela? Apenas ficou estática.

Ele roubou um beijo longo dos seus lábios vermelhos e quentes.

Ela deixou.

Ele virou-se e foi embora.

Ela ficou ali.

Perplexa e querendo mais, muito mais.

Simples assim.

Simples?

Nunca....