31.3.16



 
TREM
 
Chovia demais naquela tarde.

Muito. Chovia muito mesmo.

O trem estava em velocidade reduzida, lógico. E eles amavam. Amavam o cenário em que estavam. A velocidade reduzida permitia que eles ficassem juntos por mais tempo.

Por eles a velocidade poderia ser eternamente reduzida.

Ela? Bem, ela era linda. Alta, pernas grossas, bunda deliciosa. Cabelos longos e claros.

Ele? Bem, ele era feio. Barba mal cortada, óculos mal arrumados e cafonas. Velhos.

Espinhas desajeitadas.

E a vida é sempre assim.

Muita sorte.

E era sempre ele.

Sempre uma pessoa tem que ter sorte na vida.

Sempre ele.

E era ele.

Um feio ficar com uma linda.

Uma menina linda de cabelos lindos, longos e claros.

Alta.

Coisas da vida.

O trem parava de estação em estação e eles se beijavam a cada parada.

Completa e totalmente apaixonados.

Ele a agarrava com tesão e paixão.

Ela cedia.

Uma delícia.

Dava par sentir a tensão sexual de ambos.

Deliciosa.

Deliciosa paixão.

Amor em 220 volts.

Amor de verdade.

E chovia demais naquela tarde.

Muito. Chovia muito mesmo.

O trem em velocidade reduzida.

E eles amavam.



E chegaram a seu destino.



Sorte?



Sempre uma pessoa tem que ter sorte na vida...



Ele?



Ela?



Ninguém sabe...



Ninguém saberá...



Jamais...



4.3.16

 
NOSSO SUOR SE MISTUROU DEMAIS...


- Nosso suor, se misturou demais... – ela cantarolou baixinho. Bem baixinho, emitindo sinais, mas não de propósito.

Ele ouviu e respondeu de pronto – Música antiga, hein? Está ficando saudosa ou velha mesmo? – perguntou grosso, tosco, otário, como sempre fez, sem desviar os olhos do seu jornal.

Ela apenas sorriu. Sabia que ele não era assim. Ele apenas se fazia – e gostava muito disso - de filho da puta.

- Canção antiga. Vintage total. Vintage total. Mas vintage tá na moda , não é mesmo? – ele emendou – Veja o bando de velhos ouvindo discos de vinil por aí.

- Você é um babaca – ela respondeu.

Ele apenas sorriu. Tinha certeza disso.

- Nosso suor, se misturou demais... – ela cantarolou novamente. Desta vez não tão baixinho, não tão tímida. Não tão baixinho, nem um pouco tímida. Forte. Segura. Decidida. Sabia o queira, mas não achava o alvo.

- Também acho – ele concordou, fechando o jornal com média força e suspirando forte – E não sei exatamente o que fazer. Definitivamente não sei o que fazer.

- Sobre...? – ela perguntou sonsa.

Ele sorriu e respondeu rápido e irônico e muito, mas muito, idiota – Sobre como tirar a tinta do jornal dos meus dedos – disse, sorrindo seu sorriso mais cínico.

- Você me ama? – ela perguntou.

Ele abaixou a cabeça.

- Não? – ela repetiu, já sabendo a resposta.

Ele levantou-se da sua confortável cadeira de veludo azul, toda antiga e toda rasgada e toda pobre e foi à cozinha. Cozinha pequena, barata, vagabunda, assim como todo o seu apartamento no centro daquela maldita cidade. Encheu o seu copo americano (copo de requeijão, né?) de vodka barata e esperança e coragem. Voltou à sala.

Acendeu um cigarro mentolado meio sem jeito - Bem. O que você cantava? – ele insistiu e perguntou de forma besta e desmiolada.

Ela o encarou como se ele fosse um idiota. E, de fato, ele o era. Um verdadeiro e infantil e grande e gordo idiota. E ela sabia. Ela sabia disso desde o primeiro dia em que o viu no Clube Varsóvia. Um tolo. Pobre tolo.

- Você acha que eu sou uma imbecil? – ela perguntou de forma afiada.

Ele tomou um gole gordo de sua vodka e nada disse.

- Acha? – ela insistiu.

Ele a encarou e respondeu direto – Claro que não. Nunca.

Ela sorriu tímida e pegou o copo dele das suas mãos longas e finas. Tomou um gole rápido da sua vodka vagabunda.

- Sabe o que eu acho? – ele perguntou.

Ela balançou a cabeça e ficou em silêncio.

- Que é excelente a mistura de nosso suor. De verdade. Do fundo do coração.

Ela sorriu, acendeu um Marlboro e começou a chorar. Muito. Culpada, nervosa, triste e confusa.



... simplesmente não sabia como dizer a ele que o suor não era necessariamente dele...



Definitivamente não sabia o que dizer.



...definitivamente...