14.8.14


PRETÉRITO

pretérito
pre.té.ri.to
adj (lat praeteritu) Que passou; passado. sm Gram Tempo verbal que exprime ação passada ou estado anterior; passado. P. imperfeito: tempo que indica uma ação passada, em relação ao presente, e que estava se exercendo quando outra se realizou: Estudava, quando ele entrou. P.-mais-que-perfeito: tempo que exprime ação anterior a outra, que já é passada no momento em que se fala: Ele partira, quando eu cheguei. P. perfeito: tempo que exprime ação passada e liquidada: Ele viajou. Futuro do p.: tempo que substituiu o antigo "condicional", e em que o processo indicado como posterior a um momento do passado é anterior ao momento em que se fala. Refere-se comumente a processos que não chegaram a realizar-se: Morreria se não viesses.
(MICHAELIS: Dicionário Língua Portuguesa)

Pretérito.
Em poucas e rasas linhas, o “pretérito” é apenas o “tempo do verbo que determina estado ou ação anterior”, conforme ela leu em algum lugar por aí. Sem se importar aonde foi ou sequer sem se importar em dar o devido crédito ao “ilustre” escritor da definição.
Tola como sempre.
Tola como ontem.
Tola como hoje.
Tola as usual.
Ação anterior.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
Dane-se.
Dane-se. Ao menos por hoje.
É o passado dela e que pertence a ela e somente a ela.
Apenas a ela.
Impossível reescrevê-lo.
Está feito.
Feito com todos os erros e todas as imperfeições praticadas. Com todos os erros e imperfeições perpetradas.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
O pretérito apenas dela. Apenas dela.
Impossível reescrevê-lo.
Definitivamente.
Pretérito.
Muitas vezes perfeito, outras muitas tantas muito mais do que perfeito, porém, na maioria das vezes, na maioria cruel e absoluta das vezes, um pretérito muito imperfeito. Muito mais do que imperfeito.
Por conta do quê?
Por conta dos erros, das mentiras, das bobagens, da falta de maturidade, da falta de coragem, da falta em excesso de tudo, do excesso de amor. Do excesso do medo. Apenas medo de não assumir a vida e as suas responsabilidades.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
O pretérito apenas dela.
O passado e as ações não tomadas apenas por ela quando deveria assim ter feito.
O passado apenas dela.
E as lágrimas também.
E as lágrimas também.
Muitas, aliás.
E a dor vem como consequência.
Uma dura consequência.
Curvas mal viradas e rotas mal assumidas. Escolhas mal feitas.
Escolhas muito mal feitas.
Erros.
Muitos, aliás.
Muitos mesmo.
Simples assim.
Pobre moça.
Pobre moça.
Nem tão nova, porém nem tão velha assim para tanta dor e ressentimento pairando sobre os seus ombros já arqueados.
Nem tão nova, porém nem tão velha assim.
Média da expectativa de vida.
Apenas média.
Ainda há tempo.
Mas ainda há quem ache o tempo.
Será?
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
Futuro do pretérito.
Futuro do pretérito.
Aí sim.
Fato por vir condicionado a algo no passado.
Quem sabe o futuro do pretérito não pode mudar o cenário da sua vida.
E ela sorriu.
Percebeu que depende apenas dela... Depende apenas dela e da sua própria força. Sua própria crença.
Há alguma?
Depende apenas dela...
Dela mesmo.
...
E ela sorriria se não tivesse errado tanto.
Ela sorriria se não tivesse errado tanto, seja em que tempo gramatical for.
...
Ela sorriria...
De verdade...
...
Chorava, quando ele partiu.
Ele partira, quando ela chorou.
Ele foi.
Choraria se não ligasse.
...

Pobre moça triste...




5.8.14


PERDENDO O PENÂLTI... CHUTANDO NA PUTA QUE O PARIU...

- O que você me disse? – ela perguntou incrédula, mal acreditando no que havia acabado de ouvir, porém desejando ardentemente que fosse verdade. A mais pura verdade.
Ele a olhou com surpresa e com os olhos vermelhos e bêbados. Nada disse. Preferiu o silêncio. O cruel e malvado silêncio.
- Vai, diz. Repete – ela insisitiu querendo muito ouvir novamente o que ele havia acabado de dizer, confessa porra – insistiu.
Ele disfarçou apenas e disse com a voz trôpega e confusa – Não estou entendendo nada querida. Nada. Absolutamente nada. O excesso de vodka, além do barulho infernal deste Clube Varsóvia não deixa meu cérebro funcionar em paz. Não estou entendendo mais nada. O que você quer? Um cigarro? Tenho aqui, mas apenas aqueles mentolados que você odeia – disfarçou – Caso queira eu te arrumo “cigarros” mais fortes – emendou de forma imbecil, infantil, idiota. Um verdadeiro imbecil.
Ela o encarou sem paciência. Sem a menor paciência e apenas disparou – Você sabe muito bem trouxa. Imbecil. Não se trata de cigarros nem de qualquer outra coisa. O que você acabou de me dizer? Repete – ela insistiu – Isto muda tudo. Repete... – Implorou.
Ele deu de ombros e respondeu – Não sei. Não lembro. Agora não me lembro.
- Não? – ela perguntou.
- Não mesmo – ele respondeu mentindo, mais uma vez, ainda mais uma vez.
- Tem certeza? – ela perguntou novamente, em excesso de paciência.
Ele sorriu o seu sorriso mais falso e mais bêbado falseado. Apenas disse – Tenho. Não sei exatamente o que eu disse ok? Podemos ficar assim?
Ela fechou a cara desgostosa e não respondeu.
- Podemos? Por favor. – ele insistiu.
- Não está mais bêbado? – ela perguntou em tom de provocação – Passou rápido esta porra de porre não acha? – Provocou – Seu imbecil – completou.
- Olha minha querida... – ele tentou argumentar.
- ... “Minha querida” é o caralho... – ela interrompeu - Vai se foder. Idiota – completou cruel e rápida.
- Ainda bem que você não gosta de palavrões – ele provocou – Ainda bem. E você os detesta nos meus textos.
Ela arremessou no rosto dele o pouco de vinho tinto chileno que restava em seu copo. Furiosa. Absolutamente furiosa.
- Porra. Isto mancha – ele respondeu cínico e irado. Verdeiramente irado.
- Vá se foder – ela respondeu enquanto se levantava – Vou embora.
- Depois nos vemos? – ele perguntou ingênuo.
Ela fez o gesto do dedo do meio e o mandou para o lugar do qual ele nunca deveria ter saído. Nunca deveria ter saído. Com certeza...
- Por favor... – ele insistiu.
- Tchau. Paga a porra da conta – ela disse antes de virar as costas e ir embora.
Ele?
Ele permaneceu no Clube Varsóvia bebendo mais uma dose da sua vodka barata e vagabunda e achando que a vida é muito mais dos que palavras mal faladas em noites mal desenhadas...
...
Pobre idiota...
...
Pobre idiota que não disse o que pensava... Simplesmente não disse efetivamente o que realmente pensava...
...




4.8.14


LUZ, CÂMERA E...

Você é linda. Linda demais – Bia pensou ainda mais uma vez enquanto ouvia o interminável monólogo de culpas e desculpas discorrido por Estela.
Linda demais para ser tão cega – completou.
- Então... – prosseguiu Estela – ... Ele veio e disse que queria muito ficar comigo. Vibrei Bia. Vibrei muito. Mal acredito que aquele “lerdo” tomou ou demonstrou alguma iniciativa. Porra, depois de todo este tempo.
- Eu também não – respondeu Bia, tentando disfarçar o desânimo. Apenas tentando disfarçar o seu desânimo. Apesar de não...
- Não é maravilhoso? – perguntou Estela, quase feito uma adolescente. Uma adorável e apaixonada adolescente apesar dos seus trinta e poucos anos.
- Sem dúvida. Sem dúvida alguma. Uma maravilha – murmurou sem força - É uma maravilha que ele deixou a “lerdeza” de lado e demonstrou interesse por você. Finalmente. Finalmente demonstrou interesse além do seu próprio pau. Espero por isso há anos – respondeu Bia, quase sem disfarçar o seu constrangimento.
- Ele é absolutamente sensacional. Adoro – disse Estela.
- Sei. É mesmo. De uma rapidez impressionante. De uma ausência de arrogância notável – respondeu Bia, sem graça, sem apetite, sem vontade, sem o menor saco.
Estela, enfim percebeu o tom das palavras ditas por Bia e a encarou com um misto de surpresa e reprovação. Não entendeu de imediato o que estava acontecendo. Ficou confusa – O que é que há Bia? O que é que há? Qual o problema? – perguntou ríspida.
Bia respondeu com um olhar constrangido. Surpreso pela perspicácia de Estela. Apenas respondeu seca – O quê? Não entendi Estela. O que disse? – retrucou.
- Porra, o que é que há? O seu tom de voz, o seu desdém, a sua má vontade. Este tom de ironia. Qual o problema? Estou te contando algo muito importante que estou sentindo e você parece que está pouco se lixando. Não estou entendendo. De verdade não estou entendendo nada. Não parece você. Mesmo – afirmou.
Sou eu mesmo. Sou exatamente assim. Dissimulada – pensou Bia antes de responder mentindo – Nada. Nada fiz Estela. Pára de paranóia. Por favor. Está ficando louca. Completamente.
- Tem certeza? – Estela perguntou novamente com o ceticismo pulando à sua voz e com ainda mais raiva.
- Tá tudo bem – respondeu Bia, sem firmeza alguma – Tudo bem. Estou cansada apenas. Apenas cansada.
- Ok – respondeu Estela – Vai sair hoje? – prosseguiu.
Bia balançou a cabeça e respondeu – Não. Vou ficar em casa e arrumar umas coisas. Uns discos velhos, uns HDs antigos, umas drogas antigas, enfim, limpar a bagunça. Está tudo muito desorganizado – inclusive os pensamentos – pensou em silêncio.
Estela assentiu com a cabeça e disse – Ok. Bem, eu vou sair com ele. Espero que seja legal. Fique bem tá? Acho que está na hora de você ir. Preciso me arrumar e tals – afirmou.
- Com certeza. Preciso ir mesmo – Bia disse.
- Bem, nos falamos depois né? – perguntou Estela.
- Claro, com certeza.
E despediram-se...
Definitivamente.
Ao deixar o prédio debaixo da garoa fria da grande cidade naquele Sábado á noite, Bia acendeu o seu Marlboro Light e pensou como a vida muda rápido demais e todos mudam rápido demais e como o silêncio lento demais sobre os sentimentos conseguem mudar uma vida. Simplesmente mudar completamente uma vida. A sua própria vida.
E depois, alguém vai falar que é destino...
Claro que não.
Claro que não.
É apenas medo. Apenas medo...