3.7.14





CHUVA ÁCIDA.



Quatro e meia da manhã.


Quatro e meia da manhã de mais uma quinta feira.


Quatro e meia da manhã. Madrugada quase no fim. E chovia demais naquela madrugada. Chovia demais. Muito. Muito mesmo.


E ele, pobre tolo, imbecil sem rumo, apenas restava parado em pé na esquina daquela rua de bairro, rua tão deserta àquela hora da madrugada.


Estava completamente ensopado, totalmente molhado. Completamente ensopado dentro do seu casaco sujo cor cru.


Um totem de estupidez.


Ele parecia um totem de estupidez, erguido por algum ser insano em homenagem aos otários e imbecis da madrugada. Um totem fixado bem embaixo daquela marquise decadente em neon anos oitenta daquela padaria tão estúpida. Tão estúpida e ridícula. Completamente molhado em seu casaco sujo cor cru.


Os seus dedos úmidos tentavam com dificuldade acender mais um cigarro. Apenas mais um cigarro. O décimo quinto daquela madrugada.


A marquise protegia um pouco da água espirrada pela chuva, mas o vento não. Definitivamente não. O vento era cruel e frio. Poucas coisas estavam ao seu favor naquela madrugada. Muito poucas coisas.


Mas quem insiste consegue e ele, portanto, conseguiu. Acendeu a porcaria do seu cigarro. Acendeu o seu décimo quinto Marlboro e ficou como um imbecil, tragada em tragada, apenas olhando sem parar para a janela do sexto andar do prédio antigo erguido em frente àquela maldita padaria.


Quatro e quarenta e cinco da manhã. Madrugada já no fim. E chovia demais naquele início de manhã. Chovia demais. Muito. Muito mesmo.


Viu, sem jeito, o funcionário abrir a padaria e lhe desejar um “bom dia” tímido e constrangedor.


Ele apenas sorriu de volta. Nada disse.


A chuva começou a cair ainda mais forte.


Maldito fim de madrugada. Maldito início da manhã. Maldita vida.


Ele, fraco forte, ficou por mais alguns minutos olhando incessantemente para a janela do sexto andar do prédio em frente àquela velha padaria que lhe servia de abrigo.


Imaginou em vão e como um imbecil, que as luzes se acenderiam naquele distante sexto andar e algo anormal aconteceria.


Ela poderia lhe acenar.


Ela poderia lhe convidar a subir.


Ela poderia lhe jogar uma rosa.


Ela poderia lhe mandar um beijo.


Nada.


Nada aconteceu.


Nada.


Apenas nada.


Somente restou a escuridão quebrada por um relâmpago desesperador e pelo neon vagabundo daquela padaria. Nada mais.


Ele apenas imaginou. Imaginou em vão.


Cretino do inferno.


Cinco da manhã.


Jogou a bituca do seu cigarro no meio fio e entrou na padaria já aberta pelo funcionário trabalhador.


Foi brecado por um cartaz ao lado do caixa que o “matou”: “Não servimos bebidas alcoólicas das cinco às dez da manhã. Normas da casa. Favor não insistir”.


Ele nada disse ao funcionário e começou a chorar como uma criança ao partir da padaria.


Não olhou para os lados e nem para o apartamento deixado ao fundo. Nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas. Nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas...



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