12.7.14



CAFÉ RALO


Alta madrugada. Chovia demais. Muito mesmo e ele, bem, ele estava em um bar qualquer no centro velho da cidade. Sozinho para variar. Sozinho naquela alta madrugada. Sozinho, como sempre. Sozinho como nos últimos dias, nos últimos tempos, nas últimas noites. E chovia muito lá fora e ele apenas deixava o tempo passar observando a xícara lascada à sua frente com um café vagabundo, morno e rarefeito que ele conseguia engolir apenas pelo vício inexplicável em cafeína. Cafeína e cigarros. Sem mais álcool ou qualquer outra forma diferente de fugir. Apenas cafeína e cigarros. Foi o que restou. E ele estava em um bar qualquer no centro da cidade. Insônia pesada e ele, tolo, apenas AINDA insistia em pensar no que fazer, para onde ir, como conseguir consertar as coisas que quebrou ao longo do tempo. Bobagens cotidianas que não pagam as contas (muitas, aliás) e não resolvem porcaria nenhuma na vida de um sujeito normal. Sérias bobagens cotidianas. Falar em sair do buraco é fácil. Difícil é realmente conseguir. Muito difícil – ele costumava pensar. Otário. Fraco. Porém os seus devaneios “adolescentes” foram interrompidos ao perceber uma voz forte e grave emanada em alto tom ao lado direito do balcão do bar.

- Boa noite seu João querido. Tudo bem? Que noite dos infernos para trabalhar não? Ai que porre. Assim os clientes fogem. Quero morrer – disse um travesti alto, todo ensopado e todo montado em mínimos trajes de cor vermelha e longos cabelos descoloridos – Me dê um café seu João, por favor? Mas um café decente e não aquilo que o senhor serve todas as noites – continuou a alegre figura, íntima do ambiente e conhecedora do horroroso café daquele bar.

Ele desviou o olhar e finalizou o seu café. Acendeu um cigarro.

Ela virou-se para ele enquanto se secava com parcos guardanapos de papel e disse – Hey gatão, tomando o café do seu João? Corajosa a criança, hein? Gosto muito disso. Homens corajosos sem medo do perigo. Gosto muito. Prazer, meu nome é Sam.

Ele apenas assentiu com a cabeça, sorriu sem graça e nada disse.

- Um gato comeu a língua do gato? – perguntou irônica a inusitada Sam.

Ele a olhou com serenidade e respondeu – Não. É que não tenho nada a dizer agora Sam – completou.

Ela olhou para o alto e disse em um tom de voz meio masculino, meio feminino, meio nada a ver – Ai céus, que porre. Que ausência de vontade hein, meu gato? Que saco. Fica aí, como um bebê chorão, olhando para as xícaras sujas e tomando o café horrível do seu João.

- Ei - interrompeu o seu João – O meu café não é tão ruim assim. Que absurdo. Que esculhambação – reclamou.

Sam olhou para o alto, levantou as mãos bem cuidadas e repletas de anéis, deu uma leve bufada e respondeu – Ok, seu João, ok. O seu café é uma delícia. O melhor do centro velho da cidade. Um café gourmet. Não vivo sem ele. Se eu não trabalhasse aqui em frente, ainda assim iria vir todas as madrugadas só para degustá-lo – brincou.

Seu João grunhou qualquer palavrão e saiu de cena. Ele apenas riu da situação.

- Olha meu gato – retomou Sam, enquanto dava o primeiro gole em seu café – Nem vou te oferecer um programinha porque já vi qua a tua onda é outra e teu baixo astral está demais. Isto pega. Quero distância.

- Sei – ele respondeu – Agradeço.

- Então, mas um conselho eu posso te dar. E que se dane quem fala que conselho não se dá – Sam disse segura.

- Ok – ele respondeu – Pode aconselhar. Pior não fica. Pode apostar.

Sam o olhou de frente e apenas disse – Volta logo para ela gato. Resolve este nó que está por aí neste teu peito flácido e vai embora. Pára de ficar tomando café em botecos sujos apenas pensando nela e na sua vida. No que poderia ser que não foi. Pára de lamentação. Vai logo resolver a tua vida e mexe esta bundinha. Gostosa, aliás – emendou - Anda para frente porra – finalizou antes de “matar” em um gole a sua xícara de café.

Ele a olhou com surpresa e nada respondeu.

- Bem, meu amor, já tomei este café horrível e estou pronta para acabar este inferno de madrugada. Vamos à luta. Fica bem meu bombom. Pára com esta cara. Ninguém tem pena de ninguém. Seu João, eu deixei o dinheiro aqui em cima do balcão – completou aos gritos, saindo para a rua com o seu guarda chuva também vermelho.

Ele ficou ali, como um bobo, olhando Sam sair debaixo da chuva e sem saber como ele poderia ser tão transparente para um desconhecido e tão fechado para quem verdadeiramente amava.

Otário.

Acendeu mais um Marlboro e decidiu ir embora. Decidiu parar de tomar café naquela madrugada em um café no centro velho da cidade e decidiu uma coisa. Mexer a sua bunda. Mexer a sua bunda. Mesmo embaixo da tempestade e seja para que lado for...

 

 


 

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei de você ter voltado a escrever. Mexe a bunda hein!!! Bebel