28.7.14


QUANDO O REFLEXO NA JANELA DE UM ÔNIBUS VELHO E SUJO REVELA A SUA VIDA SEM VOCÊ DESEJAR. SEM VOCÊ DESEJAR...

Manhã de segunda feira de julho em São Paulo.
Maldita manhã de segunda feira em São Paulo. Em qualquer lugar do mundo.
Maldita manhã de segunda feira em qualquer grande cidade de qualquer lugar do mundo.
Manhã de segunda feira cinza, chuvosa e fria. Muito fria. Fria demais.
Ninguém, mas ninguém no mundo merece uma segunda feira de manhã cinza, fria e chuvosa demais. De verdade. Do fundo do meu coração não desejo isso a ninguém.
E, de bobeira, em um ato de verdadeira idiotice, percebi o reflexo do meu próprio rosto na janela do ônibus em que eu estava e que rasgava insano, em alta velocidade, aos trancos e barrancos e sem medo, a Avenida Francisco Matarazzo, zona oeste de São Paulo.
E fiquei perplexo com a pequenez do que vi. Perplexo. Perplexo demais com tamanha pequenez.
O que vi não ajudou em nada a minha vida, a minha esperança, a minha perspectiva de um futuro melhor. Ah, futuro melhor... Só rindo mesmo.
Vi e percebi apenas um velho homem gordo com uma barba ridícula, com muito poucos trocados no bolso e muita decepção no coração.
Muita decepção.
Muita.
Mesmo.
Quando eu tinha vários cartões de crédito eu era notado por todos. Por todos. Sem exceção. Quando eu tinha um computador, meu Facebook era lotado. Cheio de inúteis que sequer sabem o número do meu telefone para me dar os parabéns no dia do meu aniversário. Sequer sabem que telefone é para FALAR com alguém e não ficar apenas em aplicativos imbecis e sem graça que levam o “nada” a “lugar nenhum”. Quando eu tinha um carro, ele ia e vinha por todos os cantos da cidade, sempre cheio de gente. Sempre cheio de gente. Sempre. Gente de todos os tipos, de todas as cores, com todas as flores. Sempre cheio. Até de desconhecidos. Mas isto quando havia um carro, vários cartões de crédito e um notebook. Hoje? Não. Hoje não há mais nada disso e quase nuinguém. Há apenas um reflexo na janela de um ônibus sujo e bem vazio que te leva para casa numa manhã de segunda feira fria, chuvosa e cinza. Mas casa? Casa? Porra, casa também não há mais. Claro que não. Há um lugar, ainda bem, aonde consigo me abrigar da chuva, do sol, da noite, do frio, enfim, um lugar qualquer. Mas não é o meu lar. Definitivamente não é o meu lar. Aliás, hoje em dia, lugar nenhum é o meu lar, mas Deus (se é que isto existe) ajudou-me e consigo ao menos abrigar-me da chuva, do sol da noite, do frio, enfim, de muitas coisas, inclusive da falta de perspectiva (só não da minha imbecilidade).
Quando eu era alguém, há muito tempo atrás, quando eu não era mentiroso e canalha, quando tinha um carro, cartões de crédito, uma porra de um notebook e podia decidir alguma coisa, sempre havia alguém me bajulando. Sempre. Claro que sim. Para o bem ou para o mal. Hoje? Nada disso. Restou apenas uma porra de um reflexo embaçado em um ônibus velho e sujo. Apenas isso.
O reflexo de um mentiroso e de um homem velho que errou muito. Errou mais dos que devia. Muito mais do que devia e podia.
E não fosse uma pequena pessoa que ainda acredita em mim (ingênuo ainda, claro, pois logo vai adquirir discernimento e perceber a verdade e entender o que todos entendem sobe a minha pessoa e, óbvio, me deixar de lado), talvez este texto estivesse onde merecia estar: no limbo, sem ter sequer sido escrito...
Manhã de segunda feira.
Manhã de segunda feira cinza, chuvosa e fria. Muito fria. Fria demais.
Ninguém, mas ninguém no mundo merece uma segunda feira de manhã cinza, fria e chuvosa demais. De verdade. Do fundo do meu coração.
E, de bobeira, em um ato de verdadeira idiotice, percebi o reflexo do meu próprio rosto na janela do ônibus em que eu estava e que rasgava insano, em alta velocidade, aos trancos e barrancos e sem medo, a Avenida Francisco Matarazzo, zona oeste de São Paulo.
O que vi?
A mim mesmo... Talvez o maior erro da minha vida, pois odiei o que vi e amei o que lembrei, porém, detestei o que pressenti que há por vir.
Simplesmente detestei o que há por vir...
Do fundo do meu coração eu simplesmente detestei o que vi, pois não há felicidade quando o reflexo na janela de um ônibus velho e sujo revela a sua vida. O inteiro desperdício da sua vida. O inteiro desperdício da sua própria vida, a não ser por um pequeno ser que ainda acredita ser possível ser feliz ao meu lado... Pobre tolo.
Manhã de segunda feira...
Insuportável presságio de um dia ruim...
E no meio do desabafo, lembrei de uma velha canção do Paulo Ricardo. Quem???? Que dizia de forma megalômana e apaixonada que “Eu andei / por onde o amor me levou / eu voltei / por onde o amor me chamou / eu amei / como homem nenhum nunca amou / o amor me escolheu / logo eu / que de amor nada sei...”.
Não mesmo. Nada sei sobre amor e sequer sobre amor próprio. Muito menos sobre amor próprio. Definitivamente.
Mas, o que eu quero? O que eu quero?
Um copo de vodka? Não, claro que não, pois esta escolha já me tomou muita coisa. Muita coisa mesmo. A minha própria vida.
Quero apenas um copo de água e um dia de sol e que aquela pequena pessoa que mencionei acima jamais perceba, tenha discernimento ou tenha consciência de quem eu realmente sou, fui ou sempre serei.

É pedir demais, eu sei... É pedir demais aos quarenta e cinco do segundo tempo quando a goleada contra já está formada... Pedir demais...




22.7.14


O AMOR SÓ É BOM SE DOER?

- Como assim? – ele perguntou surpreso.
Ela o olhou com dó, com pena, com compaixão, com sinceridade. Sentimentos à parte. Não respondeu. Nada. Melhor assim.
- Como assim? – ele insistiu.
- Como assim o quê? – ela perguntou, tentando disfarçar o indisfarçável. Tentando evitar o inevitável.
- Como assim, porra? Como? – ele perguntou novamente, agora visivelmente bravo.
- Assim. Simples assim.
- Assim? – ele insistiu incrédulo – Assim? Você não me quer mais e diz isto desta forma. De cara seca e lavada. Simples assim?
Ela tomou um gole do seu copo de vodka e apenas o encarou. Preferiu o silêncio.
- Assim? – ele disse surpreso.
- Assim. Simples assim. Apenas isto. Agora vamos ter uma conversa normal ou você prefere ficar neste diálogo insano e infantil? – perguntou ela após “matar” o resto da vodka em seu copo americano.
Ele suspirou e disse com fina ironia – Você é engraçada. Engraçada demais eu diria. Engraçada demais.
Ela o olhou com um misto de curiosidade e pena e perguntou distante – Engraçada? Não entendi.
- Engraçada. Apenas engraçada. Não entendo você. Ontem, hoje mesmo, estava tudo bem. Agora você me vem com esta. Cansou de mim e blá blá blá. Você é louca? – perguntou ele, num tom desesperado.
Ela disfarçou um sorriso discreto e respondeu seca – Não. Nunca fui louca. Nunca. Você é que não entende e nem quer entender os sinais. O que sinto. O que desejo. Apenas isto. Simples assim – emendou.
- Idiota – ele disse em suspiro – Imbecil. Eu te amo.
Ela levantou-se e disse áspera – Agora não adianta as suas grosserias. Nem isto. Idiota e imbecil é você.
Ele começou a chorar como um bobo e suplicou como uma criança – Não vai. Fica. Por favor.
- Não dá. Você sabe. – ela respondeu não sem antes o olhar com a admiração distante gravada pelos anos juntos e foi embora. Nada disse e sequer bateu a porta.
Ele ficou lá. Sozinho e sem nada entender. Sozinho e sem nada entender, porém sabendo todos os erros que cometeu ao longo dos anos, Sabendo todos os erros que cometeu ao longo dos anos...

Simples assim...




14.7.14


SORTE OU AZAR?

Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre o bem e o mal. Entre a sorte e o azar. Entre erros e acertos. Entre o lado ruim e o lado bom. Dualidades. A vida dela. O resumo da vida dela. Um breve e apertado resumo.
Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre ela e ela mesmo. Apenas isto. Nada demais. Nada demais. Nada do que já não se viu por aí. Aos montes. Aos montes.

- Qual o seu signo? – ela perguntou temendo ser tola ao cubo.
- Câncer – ele respondeu acreditando na sua tolice ao cubo – Isto faz alguma diferença? – provocou.
Ela sorriu e disse – Claro que não. Claro que não. Adoro homens de câncer – mentiu.
- É? – ele perguntou incrédulo – E quais as qualidades deles? Dos homens deste signo?
Ela sorriu sem graça e respondeu direta e reta – Nenhuma. Nenhuma. Precisa ter alguma? – perguntou – As qualidades aparecem – finalizou.
Ele apenas balançou a cabeça. Nada disse. Apenas sorriu.
Ela também.

Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre o bem e o mal. Entre signos dispersos e confusos. Entre a sorte e o azar. Entre erros e acertos. Entre o lado ruim e o lado bom. Dualidades. A vida dela. O resumo da vida dela. Um breve e apertado e feliz resumo.




12.7.14



CAFÉ RALO


Alta madrugada. Chovia demais. Muito mesmo e ele, bem, ele estava em um bar qualquer no centro velho da cidade. Sozinho para variar. Sozinho naquela alta madrugada. Sozinho, como sempre. Sozinho como nos últimos dias, nos últimos tempos, nas últimas noites. E chovia muito lá fora e ele apenas deixava o tempo passar observando a xícara lascada à sua frente com um café vagabundo, morno e rarefeito que ele conseguia engolir apenas pelo vício inexplicável em cafeína. Cafeína e cigarros. Sem mais álcool ou qualquer outra forma diferente de fugir. Apenas cafeína e cigarros. Foi o que restou. E ele estava em um bar qualquer no centro da cidade. Insônia pesada e ele, tolo, apenas AINDA insistia em pensar no que fazer, para onde ir, como conseguir consertar as coisas que quebrou ao longo do tempo. Bobagens cotidianas que não pagam as contas (muitas, aliás) e não resolvem porcaria nenhuma na vida de um sujeito normal. Sérias bobagens cotidianas. Falar em sair do buraco é fácil. Difícil é realmente conseguir. Muito difícil – ele costumava pensar. Otário. Fraco. Porém os seus devaneios “adolescentes” foram interrompidos ao perceber uma voz forte e grave emanada em alto tom ao lado direito do balcão do bar.

- Boa noite seu João querido. Tudo bem? Que noite dos infernos para trabalhar não? Ai que porre. Assim os clientes fogem. Quero morrer – disse um travesti alto, todo ensopado e todo montado em mínimos trajes de cor vermelha e longos cabelos descoloridos – Me dê um café seu João, por favor? Mas um café decente e não aquilo que o senhor serve todas as noites – continuou a alegre figura, íntima do ambiente e conhecedora do horroroso café daquele bar.

Ele desviou o olhar e finalizou o seu café. Acendeu um cigarro.

Ela virou-se para ele enquanto se secava com parcos guardanapos de papel e disse – Hey gatão, tomando o café do seu João? Corajosa a criança, hein? Gosto muito disso. Homens corajosos sem medo do perigo. Gosto muito. Prazer, meu nome é Sam.

Ele apenas assentiu com a cabeça, sorriu sem graça e nada disse.

- Um gato comeu a língua do gato? – perguntou irônica a inusitada Sam.

Ele a olhou com serenidade e respondeu – Não. É que não tenho nada a dizer agora Sam – completou.

Ela olhou para o alto e disse em um tom de voz meio masculino, meio feminino, meio nada a ver – Ai céus, que porre. Que ausência de vontade hein, meu gato? Que saco. Fica aí, como um bebê chorão, olhando para as xícaras sujas e tomando o café horrível do seu João.

- Ei - interrompeu o seu João – O meu café não é tão ruim assim. Que absurdo. Que esculhambação – reclamou.

Sam olhou para o alto, levantou as mãos bem cuidadas e repletas de anéis, deu uma leve bufada e respondeu – Ok, seu João, ok. O seu café é uma delícia. O melhor do centro velho da cidade. Um café gourmet. Não vivo sem ele. Se eu não trabalhasse aqui em frente, ainda assim iria vir todas as madrugadas só para degustá-lo – brincou.

Seu João grunhou qualquer palavrão e saiu de cena. Ele apenas riu da situação.

- Olha meu gato – retomou Sam, enquanto dava o primeiro gole em seu café – Nem vou te oferecer um programinha porque já vi qua a tua onda é outra e teu baixo astral está demais. Isto pega. Quero distância.

- Sei – ele respondeu – Agradeço.

- Então, mas um conselho eu posso te dar. E que se dane quem fala que conselho não se dá – Sam disse segura.

- Ok – ele respondeu – Pode aconselhar. Pior não fica. Pode apostar.

Sam o olhou de frente e apenas disse – Volta logo para ela gato. Resolve este nó que está por aí neste teu peito flácido e vai embora. Pára de ficar tomando café em botecos sujos apenas pensando nela e na sua vida. No que poderia ser que não foi. Pára de lamentação. Vai logo resolver a tua vida e mexe esta bundinha. Gostosa, aliás – emendou - Anda para frente porra – finalizou antes de “matar” em um gole a sua xícara de café.

Ele a olhou com surpresa e nada respondeu.

- Bem, meu amor, já tomei este café horrível e estou pronta para acabar este inferno de madrugada. Vamos à luta. Fica bem meu bombom. Pára com esta cara. Ninguém tem pena de ninguém. Seu João, eu deixei o dinheiro aqui em cima do balcão – completou aos gritos, saindo para a rua com o seu guarda chuva também vermelho.

Ele ficou ali, como um bobo, olhando Sam sair debaixo da chuva e sem saber como ele poderia ser tão transparente para um desconhecido e tão fechado para quem verdadeiramente amava.

Otário.

Acendeu mais um Marlboro e decidiu ir embora. Decidiu parar de tomar café naquela madrugada em um café no centro velho da cidade e decidiu uma coisa. Mexer a sua bunda. Mexer a sua bunda. Mesmo embaixo da tempestade e seja para que lado for...

 

 


 

 

7.7.14


SURPRESAS... SURPRESAS...

Ela estava triste. Muito triste. E cá para nós, ninguém pode se permitir ser triste no verão. Não no verão. Você pode ser triste em dias cor cinza, em dias chuvosos, em dias solitários, em dias cruéis, mas não no verão. Nunca. Nunca no verão. Mas ela, coitada, estava triste. Muito triste. Mesmo em pleno verão. Até o telefone tocar.
- Alô – atendeu sem a menor vontade, sem o menor saco, sem a menor amizade, achando ser, mais uma vez, algum representante do seu banco cobrando o cheque especial já estouradíssimo antes de o mês começar.
- Leca? – perguntou a suavemente rouca e doce voz feminina do outro lado da linha.
Leca suspirou sem paciência e respondeu rude – Você que me ligou. Com quem quer falar?
- Oi Leca, sempre a mesma, hein? A aspereza em forma de mulher. Sempre armada – brincou a voz doce do outro lado antes de dizer – Sou eu, a Bia. Esqueceu da minha voz?
Um arrepio atravessou as costelas de Leca. Um arrepio intenso e devastador. Como ela não havia reconhecido aquela voz? Como? Como não desligou imediatamente? Como? Permaneceu em silêncio.
- Então Leca, não vai dizer um “alô” sequer? – perguntou Bia, atrevida e provocante.
- Oi Bia – respondeu Leca após um breve suspiro e tentando disfarçar a voz trêmula e hesitante – Tudo bem com você? – perguntou sem vontade.
- Tudo excelente. Tudo excelente. Verão, não é? Dias de alegria, sorrisos e felicidades. Muitas felicidades e coisas boas.
Leca olhou para o teto quase em desespero e disse – Não sei. Não sei. Não acho tudo isso não. Acho um porre tais alegrias forçadas. Verão? Que se dane – prosseguiu.
Bia sorriu alto ao telefone e emendou com carinho – Eu sei querida, eu sei. Você sempre odiou o Reveillon. Lembra? Costumava odiar a obrigação de ser ou estar feliz na data. Lembra?
Os olhos de Leca ficaram repletos de lágrimas, porém ela segurou a onda no timbre de voz – Claro que lembro Bia. Claro que lembro. Você lembra que uma viagem de Reveillon foi a nossa última? A nossa última viagem. Não chegamos ao próximo Carnaval. Lembra? Você e aquela sua maldita banda animando bêbados imbecis na praia. Lembra?
Bia prendeu a respiração e nada disse. Tentou conter-se ao rever o filme em sua mente.
- Então? – prosseguiu Leca – Você é que não vai me dizer nem um “alô” agora? O que houve? – perguntou ácida – Não quer falar?
Bia suspirou e disse com calma – Escute Leca. Deixa isto para lá agora, por favor. Quero te fazer um convite. Apenas isto. E só podia ser assim, te ligando de surpresa mesmo, pois de outra forma você não iria nem me responder.
- Um convite? – perguntou Leca – Sobre?
- Amanhã, às onze da noite vai ter a festa da Eduarda no Clube Varsóvia...
- E? – interrompeu Leca
- Gostaria muito que você fosse. Muito mesmo.
- Eu? No Clube Varsóvia depois de todo este tempo? Ainda mais com você por lá? – perguntou com fina ironia Leca.
- Exato. Comigo lá.
Leca gargalhou ao telefone e respondeu – Nem sonhando. Esquece – respondeu.
- Por favor, Leca – insistiu Bia – Tem uma surpresa para você. Uma surpresa muito grande. Gostaria muito que fosse.
- Olha Bia, vou pensar ok? Não garanto absolutamente nada. Sequer se estarei viva amanhã. Sequer isto.
- Por favor. – insistiu Bia – Por favor. Pensa com carinho. É muito importante, mas muito importante mesmo. Para nós.
Leca respirou fundo, indecisa. Apenas respondeu – Ok Bia. Vou pensar. Vou pensar.
- Beijo meu amor – disse Bia antes de desligar.
Leca nada respondeu.

Leca pensou?
Muito e muito e muito. Insana, sozinha e em claro.
Bia acreditou?
Bastante. Com muita esperança. Insana, sozinha e em claro.
Leca foi?
Não. Claro que não.
Bia chorou?
Horrores. Claro que sim.
A surpresa?
Leca jamais soube. Leca jamais soube e até o fim corroeu-se por isso. Maldito orgulho.
A supresa?
Bia jamais contou. Maldito orgulho.
E elas?
Bem, elas jamais se falaram novamente. Jamais se falaram novamente...





3.7.14





CHUVA ÁCIDA.



Quatro e meia da manhã.


Quatro e meia da manhã de mais uma quinta feira.


Quatro e meia da manhã. Madrugada quase no fim. E chovia demais naquela madrugada. Chovia demais. Muito. Muito mesmo.


E ele, pobre tolo, imbecil sem rumo, apenas restava parado em pé na esquina daquela rua de bairro, rua tão deserta àquela hora da madrugada.


Estava completamente ensopado, totalmente molhado. Completamente ensopado dentro do seu casaco sujo cor cru.


Um totem de estupidez.


Ele parecia um totem de estupidez, erguido por algum ser insano em homenagem aos otários e imbecis da madrugada. Um totem fixado bem embaixo daquela marquise decadente em neon anos oitenta daquela padaria tão estúpida. Tão estúpida e ridícula. Completamente molhado em seu casaco sujo cor cru.


Os seus dedos úmidos tentavam com dificuldade acender mais um cigarro. Apenas mais um cigarro. O décimo quinto daquela madrugada.


A marquise protegia um pouco da água espirrada pela chuva, mas o vento não. Definitivamente não. O vento era cruel e frio. Poucas coisas estavam ao seu favor naquela madrugada. Muito poucas coisas.


Mas quem insiste consegue e ele, portanto, conseguiu. Acendeu a porcaria do seu cigarro. Acendeu o seu décimo quinto Marlboro e ficou como um imbecil, tragada em tragada, apenas olhando sem parar para a janela do sexto andar do prédio antigo erguido em frente àquela maldita padaria.


Quatro e quarenta e cinco da manhã. Madrugada já no fim. E chovia demais naquele início de manhã. Chovia demais. Muito. Muito mesmo.


Viu, sem jeito, o funcionário abrir a padaria e lhe desejar um “bom dia” tímido e constrangedor.


Ele apenas sorriu de volta. Nada disse.


A chuva começou a cair ainda mais forte.


Maldito fim de madrugada. Maldito início da manhã. Maldita vida.


Ele, fraco forte, ficou por mais alguns minutos olhando incessantemente para a janela do sexto andar do prédio em frente àquela velha padaria que lhe servia de abrigo.


Imaginou em vão e como um imbecil, que as luzes se acenderiam naquele distante sexto andar e algo anormal aconteceria.


Ela poderia lhe acenar.


Ela poderia lhe convidar a subir.


Ela poderia lhe jogar uma rosa.


Ela poderia lhe mandar um beijo.


Nada.


Nada aconteceu.


Nada.


Apenas nada.


Somente restou a escuridão quebrada por um relâmpago desesperador e pelo neon vagabundo daquela padaria. Nada mais.


Ele apenas imaginou. Imaginou em vão.


Cretino do inferno.


Cinco da manhã.


Jogou a bituca do seu cigarro no meio fio e entrou na padaria já aberta pelo funcionário trabalhador.


Foi brecado por um cartaz ao lado do caixa que o “matou”: “Não servimos bebidas alcoólicas das cinco às dez da manhã. Normas da casa. Favor não insistir”.


Ele nada disse ao funcionário e começou a chorar como uma criança ao partir da padaria.


Não olhou para os lados e nem para o apartamento deixado ao fundo. Nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas. Nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas...