7.4.14


BEING BORING

- Você me ama MESMO? Ama de verdade? – ela perguntou, com ênfase.
Ele sorriu, abriu seu melhor sorriso, ajeitou sua barba rala e vagabunda e respondeu – Claro que sim. Claro que te amo.
Ela sorriu em resposta. Nada mais.
- Qual a razão da pergunta? – ele disse – Você me acha velho demais? – perguntou – Me acha mentiroso? – insistiu.
Ela apenas sorriu. Nada respondeu.
- Diz – ele insistiu – Você me acha velho ou gordo ou falso demais?
Ela abriu o seu mais delicioso sorriso. Nada disse mais uma vez.
Ele ficou irritado – Não vai dizer nada, porra? – berrou – Não percebe a minha barba de velho? Minhas manchas vermelhas no rosto? Você é cega ou o quê?
Ela apenas consentiu com sua cabeça recheada de cabelos negros soltos e disse tranquila – Não vou dizer porra nenhuma. Preciso? Você não percebe no meu olhar os meus sentimentos? Coitado - Te amo, porra. Apenas isto – disse, com afeto, açúcar e amor. Muito amor.
Ele sorriu constrangido.
Ela disse – Trouxa.
Ele concordou.
E foram muito felizes... por muitos e muitos anos, por muito tempo. O tempo suficiente para ser feliz. O trouxa ansioso e a sincera grosseira e verdadeira. Necessariamente verdadeira. Coisas que só a porra do amor pode reunir. Só a porra do amor pode reunir...




TOQUE

 
Ela sonhava acordada e deitada em sua cama. Sozinha e trancada em seus pensamentos, ela desejava apenas nele. Apenas ele e as bobagens deliciosas que trocavam por email e telefone. Molhada, úmida e em transe. Transe lúdico e delicioso. Delicioso. Ela delirava e amava o toque dos seus próprios dedos longos em seu corpo. A sua autoinvasão deliciosa. O seu próprio toque. Amava cada momento. Cada instante. Sabia que, mesmo longe, ele, na sua cidade a quilômetros dali, também pensava incessantemente nela. Muito. E ela continuava sonhando acordada e deitada em sua cama. Sozinha. No seu quarto, apenas à luz de velas aromáticas com cheiro de jasmim, ela estava só, porém junto dele. Muito junto. Unidos demais por pensamentos bons e apaixonados. Pensamentos molhados e belos. Coisa de casal apaixonado. Ela podia jurar sentir o seu cheiro de hortelã. Pós-barba. Podia jurar que ekle estava naquele quarto. Molhada e úmida. Muito molhada e muito úmida. Com muito tesão. Muito tesão e desejo. Ela sonhava acordada deitada em sua cama. Imaginava as mãos dele, finas e de pianista, sobre a sua pele branca e deliciosa. Suave. Explorando cada detalhe dela. Cada detalhe. Toques suaves como uma pequena obra de Jobim. Imaginava ele descobrindo cada segredo do seu corpo, cada dobra da sua geografia. Cada dobra dela. Em braile. Como um amante totalmente apaixonado. Como um amante total e enlouquecidamente apaixonado. E ela sorria, sorria e sorria cada vez mais. E sonhava acordada. Demais. Toques. Toques mil. E não precisam ser reais, não precisam ser demais. Basta ter amor neles. Aí? Aí é o suficiente para dois jovens apaixonados manterem a chama das velas acesas. Muito acesas. Apenas isso.