29.3.14


CARNAVAL NO TÚMULO DO SAMBA

- Você gosta de confetes, não? – ele perguntou sacana.
Ela apenas respondeu com um sorriso e concordou com a cabeça. Tomou um gole da sua cerveja e nada disse. Ela era linda.
- Você é um enigma – ele disse – Me faz gostar de MPB, me faz querer entender MPB, ouvir coisas que eu nunca ouvi ou nunca quis ouvir antes, me faz TENTAR não ter medo de espíritos, orixás, entidades, ou whatever. Você me fode. Me fode demais, sabia? Não sei em qual cilada caí – brincou.
Ela respondeu com um sorriso ainda maior. Estava feliz demais.
E o Clube Varsóvia estava lotado.
Lotado demais.
Lotado de não amantes do carnaval. Lotado de corações solitários e também, como não, de corações apaixonados.
- Sabe de uma coisa? – ela perguntou séria, com um lindo sorriso no rosto. Ela brilhava demais.
- Diz – ele respondeu curioso – Pode dizer. De você espero apenas delícias, coisas boas e palavras de afeto. Do contraio não diz nada. Manda. Manda ver. Beijos e balas trocadas não doem – ele brincou.
- Você é um tremendo de um bobo que eu adoro, sabia? Um besta. Um “valentão” de idade avançada que se acha muito maduro, mas morre de medo de uma menininha com metade da sua idade que consegue quebrar as suas pernas e o seu coração. Morre de medo. Medroso.
Ele engoliu seco. Acendeu seu Marlboro e tomou um gole de cerveja. Sorriu sem graça.
- Acertei? – ela perguntou – Em cheio, né? Imbecil.
Ele sorriu e concordou com a cabeça. Amava demais aquela menina e se intimidava com ela.
- Pára de ter medo – ela pediu – Pára. Vamos ser felizes? Pode ser?
Ele concordou.
- Vou tentar – respondeu tímido.
E beijaram-se no meio do Clube Varsóvia. Carnaval melhor não houve. Longe do samba, suor e folia e perto demais de corações acesos e apaixonados. Perto demais de corações acesos e apaixonados. Totalmente apaixonados.




CARNAVAL, REVEILLON E MPB


Ela gostava de MPB.

Ele não.

Ela acreditava no além.

Ele não acreditava em nada além dele.

Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.

Ele gostava de tudo, mais de Ramones.

Ele a amava.

Ela também.

Ele não sabia nada.

Ela o ensinou.

Ele aprendeu.

Eram duas figuras totalmente diferentes uma da outra, porém muito iguais.

Esquisito não?

O destino existe? Será?

- Você me ama? – ele perguntou inseguro demais apesar da sua idade, segurando-a pelos seus ombros largos e deliciosos com paixão e muito tesão. Com muita paixão e muito tesão. Amava (ela e os seus ombros desnudos).

Ela sorriu. Muito mais nova que ele, muito mais nova que ele, porém muito mais madura, com certeza – Claro. Claro que amo, seu bobo.

Ele chorou.

Ela sorriu. Sorriu e secou as suas lágrimas.

- Não chora – ela pediu – Por favor.

- Não consigo – ele respondeu.

- Não? – ela insistiu dando-lhe um beijo carinhoso e delicado em seu rosto – O amor existe, seu bobo. Basta acreditar.

Ele secou as suas lágrimas e com a voz tonta e embargada apenas respondeu - Eu sei. Eu sei que existe. Demorei, para perceber isto não?

Ela sorriu seu sorriso mais lindo – Nunca é tarde. Bobo. Ao menos você percebeu. Antes tarde do que nunca. É bom aprender a ser feliz.

- Te amo – ele disse.

- Eu também – ela respondeu com um sorriso.

Ela gostava de MPB.

Ele não.

Ela acreditava no além.

Ele não acreditava em nada além dele.

Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.

Ele gostava de tudo, mais de Ramones.

Ele a amava.

Ela também.

Ele não sabia nada.

Ela o ensinou.

Ele aprendeu.

Esquisito não? Como destino pode ser tão brincalhão assim? Como?




21.3.14


AMORES E AEROPORTOS

- E você sabe me dizer como isso vai funcionar? – ela perguntou a ele, com um aperto no peito, com uma agonia imensa, logo após se abraçarem e se beijarem loucamente naquele frio e triste saguão de aeroporto.
Ele sorriu. Nada disse.
- Não sabe, né? Seu filho da puta – ela disse – Sabia que você não sabia – ela insistiu dando-lhe um leve soco no peito.
- Sei, claro que sei – ele respondeu seguro e prosseguiu – Vamos ser muito felizes. Muito felizes. Não importa se estamos neste exato momento em um saguão de aeroporto nos despedindo, insanos e loucos de amor esperando a próxima vez de nos encontrarmos. Não importa. Eu amo você e você me ama. Isto é suficiente para muita coisa, não acha? Para muita coisa.
Ela sorriu com os olhos cheios de lágrimas – Detesto despedidas. Detesto você – brincou.
Ele sorriu um sorriso ainda mais largo e feliz.
- Também estou triste para caralho – ele disse – Mas, pensa, foi bom este final de semana, não foi? – perguntou.
Ela o beijou de uma forma terna, apaixonada, deliciosa. Mordeu os seus lábios suavemente, com amor – Nos vemos em duas semanas? – perguntou.
- Claro – ele respondeu.
- Eu te amo – ela disse.
- Eu te amo – ele respondeu.

- Ainda bem que existe carta, correio, pombos correio, internet, celular, enfim, que existe o MUNDO de hoje para que eu não fique longe de você.
Ele a abraçou com muito carinho e sussurou suavemente em seu ouvido – Tenha calma. Paciência. O futuro está aí. O futuro está logo ali. E ele é nosso. Paciência. É tudo o que ele nos pede. Vamos ficar juntos.
E desabaram a chorar como dois adolescentes apaixonados naquele triste e frio saguão de aeroporto, sem se importar com nada ou ninguém ou coisa alguma.
- Sabe de uma coisa? – ela disse se recompondo, secando as lágrimas, logo após ouvir a última chamada para o seu vôo pelo alto falante.
- Diz – ele pediu.
- Quando estivermos juntos mesmo. Mas juntos de verdade. No mesmo espaço e tempo, de forma real, eu nunca, mas nunca mais mesmo vou querer pisar em um saguão de aeroporto – sorriu apaixonada.
Ele a abraçou com força e despediram-se com amor, ternura e paixão. Como apenas os amantes podem fazer e a geografia, coitada, não se atreve a deter.


SOME GIRLS ARE BIGGER THAN OTHERS


- Um brinde – disse repentinamente Leticia à Estela, levantando a sua taça repleta de vinho.

Estela a olhou de forma curiosa e divertida e levantou também a sua taça de vinho – Um brinde – repetiu.

- Um brinde às melhores amigas do mundo – disse Leticia – Que somos nós, afinal – completou.

Estela riu da besteira da amiga já visivelmente “alta” pelas doses de vinho e concordou com a cabeça – Sim. Um brinde às melhores amigas do mundo – concordou Estela – Que somos nós – emendou rindo.

- Ah, e um brinde ao Edu. O gênio que te tirou de mim – emendou irônica.

- Pára Leticia. Você sabe que não é verdade – disse Estela.

- Claro que sei, claro que sei. Estava apenas brincando. Brincadeirinha boba – sorriu.

- Boba – respondeu Estela, logo após um gole do vinho e um Marlboro aceso.

- Você vai sentir a minha falta? – perguntou Leticia, de forma abrupta, logo após tomar um longo gole do vinho em sua taça e, também, acender um cigarro.

Estela olhou-a curiosa, sem entender – Como assim? Sentir sua falta? – perguntou.

Leticia deu uma gargalhada e respondeu – Exato. Sentir minha falta. Isto não é uma despedida de solteira? – perguntou com certa malícia, com sacanagem.

- Não exatamente – respondeu Estela sem jeito – Não exatamente – continuou - Apenas é o jantar da minha despedida deste apê. Não é porque estou indo morar com o Edu e vou sair deste apartamento que dividimos há anos que vou deixar de estar presente na sua vida como sempre estive. Como sempre estive – frisou – Você vai continuar sempre aqui e aqui – disse apontando para seu coração e cabeça.

Leticia tomou outro gole largo do vinho em sua taça e disse, segurando o choro – Eu sei querida. Eu sei. Imagino.

- Espero – reiterou Estela – Jamais vamos deixar de ser amigas, irmãs, almas gêmeas, whatever. Vamos estar sempre juntas. Você sabe disso. Até o fim. Para o que tiver que ser.

- Desculpe. Eu estava brincando – disse Leticia.

Estela apenas sorriu.

Eu te amo Estela. Não vai, por favor – pensou Letícia, tentando, com todas as forças, segurar as lágrimas e não transparecer com o seu olhar verde o que sentia no fundo do peito.

- Quer mais vinho? – perguntou Leticia, com um sorriso pesado e triste, desviando o assunto.

- Claro – respondeu Estela – Sempre. Vinho e melhores amigas. A combinação perfeita para uma vida perfeita – respondeu entregando o seu copo à Leticia.
Eu te amo Leticia. Eu te amo mesmo. Mas não do seu jeito. Entenda. Eu preciso ir, por favor. Por favor – pensou Estela, enquanto Letícia deslizava com seu corpo delicioso e longilíneo até a cozinha, tentando Estela, com todas as suas forças, segurar as lágrimas e não transparecer com o seu olhar azul o que sentia no fundo do peito.

19.3.14


O MAIOR E ADORÁVEL MISTÉRIO DO DECOTE

Noite. Noite quente em terras distantes localizadas ao sul do país. Noite de verão. Quente. Muito calor. Muito suor. O toque suave das mãos quentes dele no seu corpo gelado típico do sul do país a derreteu. Completamente. Totalmente. De uma forma devastadora. De uma forma inexplicável. Inexplicável mesmo. Como uma paixão adolescente incontrolável e indefensável. Como uma paixão sem limites e sem consequências. Adoravelmente irresponsáveis. Ambos. Como uma canção de amor dos anos setenta. Cafona, forçada, porém bela e apaixonada para quem ama. Bela e muito, mas muito apaixonada para quem ama e entende. Como se Barry Manilow cantasse só para ela ao pé do seu ouvido e isso fosse realmente importante. Arrasador. Um knock out. O toque suave das mãos quentes dele no seu corpo gelado típico do sul do país a desmontou. Absolutamente. Totalmente. Ela derreteu como mel. Mel puro. Mel delicado de uma cor viva e saborosa. Brilhante. Aroma delicado. Ela derreteu e escorreu como mel. Lovely Bee Movie. Delícia melhor não há. Delícia melhor não existe. Mel que escorreu por entre suas coxas brancas, firmes e sedosas. Coxas firmes como as de uma nadadora campeã olímpica. Uma nadadora campeã olímpica. Coxas deliciosas e lindas. Firmes. O toque delicado dos seus dedos quentes no seu corpo gelado típico do sul do país a derreteu. Totalmente. Definitivamente. Os seus dedos grossos de pianista, hábeis e cruéis, invadiram sem pena, receio, pudor ou permissão o decote do vestido verde ou lilás que ela estava usando e alcançaram, sem medo, o bico dos seus seios rosados, grandes, saltados e lindos com os quais ele sonhava há tempos. Há tempos. Seios deliciosos, lindos, grandes e maravilhosos. O auge do prazer. Os bicos endureceram e ela tremeu e quis explodir. Ele? Apaixonado, louco por ela, insano e ensandecido, apenas quis explorar os seus seios e o seu corpo e lhe dar prazer. Obter prazer. O maior de todos. O toque suave das mãos dele no seu corpo gelado típico do sul do país e a sua língua cruel rodopiando e circulando em adorável acrobacia sobre os seus seios a devastou, deixando-a indefesa e entregue. Totalmente indefesa e entregue. Ela amou. Ele ainda mais. Seios. A mais pura perfeição do corpo feminino. A mais perfeita escultura do corpo feminino. Rosados, escuros, pequenos, grandes, suculentos ou não, não importa. Os seios são o maior mistério do decote. O maior mistério do decote. Adoráveis decotes em vestidos de cor verde, lilás, amarelos ou azuis. Decotes, seios e colos. Mulheres, homens, paixão e tesão. Muito tesão. Mel e gozo e sêmem. Existe combinação mais perfeita para uma noite quente de verão entre dois jovens apaixonados? Claro que não... Claro que não...
 



PELE


“pele

substantivo feminino ( 953)

1 camada externa que limita o corpo de um animal, esp. quando forma uma cobertura macia e flexível

1.1 anat órgão que envolve o corpo dos vertebrados (incluindo o homem), composto de três camadas (epiderme, derme e tela subcutânea ou hipoderme), com função esp. protetora, termorreguladora e captadora de estímulos dolorosos e táteis

...”

(DICIONÁRIO HOUAISS)

...

 

Pele? Sim, a pele. Objeto de desejo. Desejo do toque. Doce desejo. Doce prazer. Toque com desejo. Toque com prazer. Com muito prazer. Muito mais do que descreve e ensina o dicionário, muito mais do que descreve e ensina a letra fria impressa no dicionário, pele é cheiro, pele é perfume, pele é suave, pele é lisa, pele é doce, pele é a antena do coração para o prazer ou a dor. Para o prazer ou a dor, mais prazer, de preferência. Muito prazer. O coração agradece e bate feliz. A pele, como ensinou Houaiss, é o órgão captador de estímulos dolorosos e táteis. E o início tátil de uma tempestade é o primeiro toque na pele, em uma noite de verão e amor, entre um casal apaixonado. Estímulo aos sentidos de forma avassaladora. Avassaladora. Então, inevitável, após tal toque, a avalanche devastadora começa e ninguém imagina como acabará. Os corpos fervem em febre, os corações batem velozes, as pernas bambeiam, os joelhos dobram, os sexos umedecem, os sexos endurecem, os lábios tremem, as mãos balançam, os olhos brilham, as lágrimas aparecem, o suor surge, o amor se materializa, o sangue pulsa. Pulsa intesamente. Erupção pura. Delírio. O amor se transforma em um soneto de suor, gozo, viagem e transe. Puro transe. Chill out. Pele. Uma aquarela de tons e desenhos, um caleidoscópio extremanente colorido. A pele pode ser clara, pode ser escura, pode ser amarela, pode ser vermelha, pode ser albina, como Hermeto, pode ser tatuada, pode ter pêlos, fios finos, pode não ter nenhum dos dois, pode ser de todas as cores e todas as texturas, com todos os desenhos ou não, porém sempre, mas sempre, sensível ao toque mais leve do amor sincero. Sempre. Sensível ao toque mais leve e sincero de amor. Pele. Vibrante como as cordas de um piano ao serem provocadas, por finos dedos pianistas, a tocar modinhas românticas e apaixonadas, ou, da mesma forma, excitante como as cordas de uma guitarra desgastada ao serem estimuladas, por dedos grossos guitarristas, a tocar o som e a fúria adorável e deliciosa de The Clash. Pele. Aroma de jasmim, aroma de hortelã, aroma de cetim, aroma de seda, aroma de renda, aroma impregnado do gozo pelo toque suave no clitóris, aroma ensandecido do gozo pelo toque suave na cabeça do pau, aroma de paixão, tesão, respeito e amor. Pele. Arrepia ao som de canções, esfria sob a chuva, estremece ao toque, vibra com o olhar e molha. Molha no quarto, molha na cama e molha debaixo da água. O coração bate mais forte a partir da pele. Pele. Mais que uma capa protetora, uma manta acolhedora, o recanto mais sagrado que temos e que apenas os escolhidos pelo nosso coração podem e devem explorar na sua totalidade, até ela derreter. Até ela apaixonadamente derreter. Apenas os benditos sortudos escolhidos podem fazê-lo. Apenas eles...

 

“show me show me show me, how you do that trick...”.

 




17.3.14


LÍNGUAS

“língua
substantivo feminino ( 1152)
 
1 anat órgão muscular recoberto de mucosa, situado na boca e na faringe, responsável pelo paladar e auxiliar na mastigação e na deglutição, e tb. na produção de sons
...
Etimologia

lat. lingŭa,ae 'língua como membro ou órgão animal, língua como órgão ou faculdade da palavra e da fala, linguagem, idioma de um povo', p.ana., 'nome de plantas, instrumentos etc., comparáveis visualmente'; voc. de fonetismo semiculto, o port. língua conviveu com as var. ant. lengua e lenga, nos sXIII e XIV; ver lingu(o)-; f.hist. 1152 lingua, sXIII lingua, sXIII lengua, sXIV lenga, sXV lingoa
(DICIONÁRIO HOUAISS)
...
 
Língua? Sim, língua. Objeto de desejo, objeto de paixão e objeto de vontades. Muito mais do que descreve e ensina o dicionário. Muito mais do que descreve e ensina a letra fria impressa no dicionário. A língua é vermelha, cor viva, cor de sofás, cortinas, vestidos, bochechas envergonhadas, velas aromáticas, lábios molhados e clitóris intumescidos, entre outras figuras poéticas. A língua é bela. A língua é úmida. A língua é sagrada como o som de Tom Jobim, como Matita Perê, como notas de piano voando soltas no ar para o prazer de nossos ouvidos e corações. Língua? Delicioso objeto de desejo. Delicioso objeto de prazer. No lugar certo, na hora certa, no movimento certo. Órgão muscular, como disse Houaiss, que, forte, não se cansa e excita os demais músculos dos corpos dos amantes. Basta exercitá-lo com vontade e paixão. Basta querer e gostar de exercitá-lo. Basta querer. Sorte do homem que a sabe usar em uma mulher. Sorte da mulher que a sabe usar em um homem. Sorte de qualquer ser humano que a saiba usar em qualquer outro ser humano, de qualquer credo, cor ou religião. Seja católico, judeu, espírita, umbandista, ateu, crente ou descrente. Basta estar apaixonado e amando. A língua entrelaçada em outra em um divino beijo, a língua invadindo uma mulher e a língua descontruindo um homem, simplesmente estimula aromas, estimula sentidos, estimula sons, estimula movimentos e o melhor, estimula o amor. O coração bate mais forte a partir da língua. Língua. Apenas uma língua. Se o azul, como sugere o filme, é a cor mais quente, a língua, fato, é a arma mais letal de todas. Devastadoramente. 
 
“show me show me show me, how you do that trick...”


ASTRONAUTAS

Eles flutuavam no espaço, sorrindo. Eles flutuavam no espaço, sorrindo como dois bobos sem motivo aparente. Descobriam os sentidos e impressionavam-se. Dançarinos com movimentos leves, bailarinos com movimentos suaves. Movimentos lindos. Movimentos nada tímidos. Movimentos nada tímidos, definitivamente, praticados com afeto e ternura na ausência da gravidade. Gravidade zero. Eles flutuavam no espaço como dois adolescentes inquietos. Dois adolescentes felizes, alegres, irresponsáveis, adoráveis e apaixonados. Beijavam de forma aleatória e seus corpos, leves, faziam acrobacias de amor. As mais belas e perfeitas acrobacias. A sincronia dos corpos e do amor. Não havia nada além da falta de gravidade, dos corpos flutuando no espaço, do excesso de amor, da intensa paixão, do delirante tesão e da Lua, linda, bela, amarela e indiscreta a os observar. As estrelas brilhantes, coitadas, invejavam o que presenciavam. Eles dançavam a mais bela das danças: a dança da cumplicidade. Seus corpos suados e molhados flutuavam no espaço, exaustos e extasiados. Dois jovens apaixonados. Dois jovens astronautas. Dois jovens dançando de forma sensível a representação do devastador amor. Do inesperado amor. Dois jovens apenas se amando, sem pensar no amanhã, naquela madrugada quente e úmida no quarto dela. A Lua não era grande o bastante para o amor e o tesão flutuando naquela cama...definitivamente não era.

15.3.14


O VESTIDO LILÁS

Eles moravam em lugares distantes um do outro. Muito. Muito distantes. Cidades diversas e longínquas. Dois Estados. Conheceram-se graças ao destino. A melhor forma de se conhecer, afinal. No entanto, a distância não era um problema para os dois. Definitivamente não era um problema algum. Eles se gostavam como raros meninos e meninas se gostam. Coisa pouco usual de se ver. Coisa pouco usual de se vivenciar de sentir. Certo dia, ele recebeu uma foto dela pelo correio. Ficou surpreso com a beleza do que viu. Ele já a tinha visto, claro, mas ela estava linda, linda demais, casual e vestida com um vestido de verão lilás com pequenos detalhes em verde. Um vestido para provocar. Um vestido de verão para colos lindos como o dela. Para poucos decotes privilegiados e poucos seios deliciosos. Como os seios dela. Vestido lindo. Lindo vestido lilás. E ele enlouqueceu. Não acreditou na perfeição da foto e nos detalhes incertos do que ele NÃO via além do vestido. O desenho que alguém fez dela. Como pode? Amou o que viu. É preciso estar sempre por um triz. É preciso sempre estar por um triz. Ligou para ela imediatamente. Ela atendeu. Ele agradeceu. Ela sorriu. Ele tremeu. Ela também. Falaram durante horas sobre o que devia e o que não deveria ser dito. Ótimo. Um calor insano tomou conta do corpo dos dois. Insano. Ele não parava de elogiar o seu belo (decote) vestido lilás. Tentou ser gentil e, durante toda a conversa, não perdeu a linha (ao menos no seu conceito). Trocaram juras de amor e promessas de novas conversas. Novas e deliciosas conversas. Desligaram. Ela? Acendeu duas velas coloridas, baixou a luz do quarto e ligou o seu Ipod. Caiu na cama, insana e doida, e tirou com força o vestido lilás com cheiro de jasmim e a lingerie preta de renda fina para os dias especiais (como aquele) que estava usando. Muito calor naquela cidade fria. Muito calor naquela noite. Ela mal aguentava e sequer conseguia ouvir as canções ao fundo. Um toque, dois toques, três dedos no lugar certo com as suas unhas lindas vermelhas e pronto, sentiu a distância sumir e sentiu o beijo dele nos seus seios lindamente enfatizados por aquele decote. Podia jurar que ele estava lá com seu cheiro de hortelã, beijando o seu corpo, a sua virilha, as suas coxas e os seus joelhos. Ele? Fez algo muito parecido a ela, com exceção das velas. Repleto de calor, transpiração, gozo e suor, ele foi feliz, apenas imaginando o que havia além daquele decote lilás. Apenas imaginando o que havia além daquele decote lilás.
 



CORTINAS VERDES


Ela o puxou pelo braço com um sorriso meio malvado e muito apaixonado e abriu a última porta do apartamento.

- Pronto. Este era o cômodo que faltava você conhecer. Gostou do apartamento? É pequeno, porém eu gosto – perguntou ansiosa.

Ele abriu um enorme sorriso e disse – Ah, é o seu quarto? Adorei. Adorei muito o seu apartamento, principalmente o sofá vermelho da sala e estas cortinas verdes aqui no quarto. Lindas. Ah, e também amei aquele pequeno móvel antigo ali ao lado da cama, perto do armário branco – disse apontanto para um móvel bastante colorido, cheio de pinturas simbólicas e rústicas em azul e verde - Onde, suponho... – ele prosseguiu – Você deve acender as suas velas aromáticas, - que, por sinal, já estão acesas - os seus incensos, fazer seus pequenos rituais de paz e, enfim, colocar o seu Ipod para ouvir determinadas canções românticas enquanto sonha na cama. Sorriu. 

Ela o olhou com intensidade.

Ele tremeu de nervoso e disse – Tem cheiro de jasmim este quarto. São teus vestidos ou as velas aromáticas? – perguntou.

- Amei que tenha vindo de tão longe, mas de tão longe mesmo, para apenas conhecer um pequeno apartamento – ela disse, com a voz trêmula – Não precisava. Fiquei feliz.

Ele abriu de leve os lábios e a encarou como poucos – Não vim para conhecer apartamento nenhum, você sabe – afirmou para depois retirar suavemente os seus óculos de aro escuro e os colocar numa prateleira próxima; soltar os seus cabelos negros; e, segurar com firmeza os seus ombros desnudos e mal cobertos pelo vestido de verão lilás que ela estava usando.

Ela mordiscou os lábios de leve, com um breve tremor.

Ele repetiu o gesto, tremendo um nada leve tremor.

Ele a trouxe forte para perto do seu rosto com cheiro de pós-barba de hortelã, segurando ainda firme em seus ombros e a beijou com paixão. Muita paixão.

Beijaram-se e abraçaram-se como jamais imaginassem realmente estar vivendo aquele momento tão perfeito, tão intenso, naquele cenário de cortinas verdes. Finalmente.

As mãos dele deixaram os ombros dela e, lentos, suaves e atrevidos, sem permissão, invadiram o tão sonhado decote daquele vestido lilás que ele tanto adorava. Queria saber a leveza e a suavidade do que este decote mágico escondia. Adoravelmente escondia. Queria saber imensamente a textura de tê-los nas mãos. Ela se entregou. Ele ainda mais. Abaixou o seu vestido e foi se ajoelhando, enquanto ela lhe acariciava os seus cabelos curtos. Ele desceu lento, nada veloz, apenas beijando carinhosamente todo o corpo dela, ignorando, porém, a lingerie de cor preta de renda fina que ela estava usando para ir direto às suas coxas e joelhos perfeitos. Coxas e joelhos perfeitos. Macios. Ela não resistiu, resolveu contra atacar. Ele deixou.

...

O que aconteceu depois?

O que aconteceu depois?

...

Apenas as lindas cortinas verdes do quarto e o sofá vermelho disposto na sala daquele apartamento testemunharam o que aconteceu ao longo da madrugada e, com certeza, vão guardar segredo eterno. E, óbvio, as outras testemunhas também, como o vestido lilás atirado no chão, as retinas de ambos, o olfato e os corações daqueles dois apaixonados derretidos.


14.3.14


TAXIS, FLORES VERMELHAS E SORRISOS
O taxista resolveu, meio que do nada, parar no boteco sujo no centro da cidade para tomar um café preto quente e animador. Queria acordar, pois a noite estava foda e ele estava exausto para caralho e ainda precisava ganhar uma grana. Precisava pagar a diária e a gasolina e a noite daquele sábado precisava inteirar o seu domingo. Noite de sábado sempre foi para faturar e a madrugada ainda era alta. Bastante alta. Hora de a molecada sair das baladas com muito álcool e aditivos na cabeça, sem condições de dirigir. Táxis fundamentais nesta hora. Fundamentais mesmo. Sentou junto ao balcão, e, cansado percebeu pelo espelho à sua frente uma garota linda, ruiva, sentada ao seu lado. Ela chamou a atenção, pois não tinha absolutamente nada a ver com aquele boteco sujo do centro da cidade. Nada. Ele ficou quieto e nada falou. Pediu o seu café ao balconista sem NENHUM açúcar para continuar acordado até o amanhecer. Ficou calado e percebeu simples, e após alguns instantes, que a moça ruiva próxima a ele estava chorando. Chorando muito. Quase alto e muito triste. Nada discreta. Nada discreta, mas foda-se, não havia ninguém no boteco além de uns bêbados que sequer sabiam o seu próprio nome.  Ela mexia no seu celular de forma incessante e parecia uma louca mandando mensagens, uma atrás da outra. Chorava copiosamente. Muito triste e muito linda. Triste cena para noites de sábado. O taxista tomou o seu café, amargo como a noite solitária. Pagou a conta e se levantou do balcão. Ao ir embora, deu uma última olhada em direção à moça ruiva e percebeu que ela continuava chorando. Muito. Muito mesmo. Ao deixar o boteco viu um garoto novo, adolescente, vendendo rosas baratas e de pouca categoria. Ele comprou algumas. Escreveu um bilhete rápido com seu português raso e pediu gentil e mediante uma graninha, para que o menino as entregasse para a moça ruiva no balcão só depois que ele entrasse no táxi e estivesse indo embora. Não queria se identificar. E assim o garoto o fez. Quando a garota recebeu as rosas vermelhas ficou surpresa e tentou descobrir o que estava acontecendo. O menino nada falou. Apenas disse – Um admirador. Para você ficar mais feliz. Ela sorriu e conteve o choro. O bilhete? Simples, apenas dizia para ela ser feliz. Noites de sábado não precisam de moças lindas chorando. Definitivamente não precisam de moças lindas chorando. Ela sorriu MUITO feliz. Muito feliz mesmo. Ele deu a partida em seu táxi branco e partiu. Ganhou a diária e muito mais naquela noite de sábado. Definitivamente. Definitivamente.


DESENHO


- E se você desenhasse? Apenas desenhasse com carvão ou giz de cera ou lápis de cor em um papel vagabundo qualquer? Pode ser papel de pão – ela perguntou com um brilho maligno e sacana estampado no seu adorável olhar castanho. Adorável olhar castanho.

Ele engoliu em seco e nada disse. Ficou tímido.

- Ficou mudo? – ela insistiu - Desenhar? Sabe o que quer dizer? Se não consegue falar, escrever, tocar qualquer instrumento, talvez você possa desenhar. Nunca vi uma porra de um escritor não saber escrever. Foda não? Limitações são realmente frustrantes – ela provocou – Precisa desenhar então que desenhe. Apenas desenhe. Não resta qualquer outra possibilidade ou alternativa ao senhor. Não disse que não entendo nada? Porra nenhuma? Que você precisa “desenhar”? Vai lá – provocou.

- Você é uma tremenda filha da puta – ele esbravejou - Vai provocando, vai - ameaçou sem a menor ameaça. Um bobo. Um tolo. Ameaça de um menino bobo e velho.

Ela sorriu.

Ele tremeu.

- Vamos lá. Então escreve. Faça o que você sabe fazer de melhor. Quer dizer, não é lá estas coisas a sua escrita, as coisas que você escreve, mas é muito, mas muito melhor do que as outras coisas que você faz. Tenha certeza disto – ela zombou perversa e adorando o controle da situação, adorando o controle da situação através daqueles malignos e magníficos olhos castanhos.

Ele ia tomar um gole de vodka, cheio até o talo, porém foi brusca e violentamente interrompido por ela.

- Nem fodendo meu caro. Nem fodendo otário. Hoje não. Já não escolheu tomar os seus remedinhos rosa hoje? Então, perdeu trouxa. Vodka já era. Babaca. A vodka vai para o fundo do ralo da pia. Esta noite não.

Ele ficou ainda mais nervoso. Acendeu um Marlboro e olhou através da janela da sala o céu cinza e lindo que estava se formando naquela metrópole insana em que ele vivia. A tempestade estava prestes a desabar. Prestes a desabar. Ele estava com medo. Muito medo.

- Vai desenhar? – ela insistiu – Ou prefere escrever?

- Vá se foder – ele respondeu.

Rápido, sentou na velha e maldita cadeira de madeira da sala e pegou a porra do seu caderno e sua caneta preta velha. Sim, velhos ainda usam cadernos e canetas velhas. Ficou lá, sentado com seus Marlboros acessos intermináveis escrevendo e escrevendo e escrevendo. Horas escrevendo enquanto a tempestade desabava lá fora na metrópole repleta de raios e trovões. Ela, agora intimidada, apenas observava sentada no puído sofá vermelho da sala. O puído e velho sofá vermelho da pequena sala daquele minúsculo apartamento. Ele escrevou por horas. Horas e horas. Ao terminar, ele simplesmente arrancou as páginas escritas e as entregou a ela de joelhos. Como um cavalheiro. Como um cavalheiro. Entregou com a sensação do dever cumprido. Como David Bowie em Heroes. Jamais havia escrito algo tão doce, tão honesto, tão sincero e tão apaixonado. Jamais. Ela chorou. Ele também. Abraçaram-se, beijaram-se, foderam ao longo da noite como insanos por muito tempo naquele puído sofá vermelho.

Depois, com os relâmpagos já baixos ao fundo daquela madrugada e a manhã nascendo ele apenas disse - Posso tomar minha vodka agora? – perguntou, menino, menino, menino... Um tolo.

Ela apenas sorriu e lhe deu um beijo.
Apaixonados...



7.3.14


BOM ESCONDER O CHORO DEBAIXO DA CHUVA

Tempos difíceis. Tempos difíceis para caralho. Nada dava certo. Absolutamente nada dava certo para ele. Porra nenhuma. Por todos os caminhos e direções que ele tentou seguir as coisas iam mal e ele quebrou a cara. Tudo muito mal. Muito mal. Tudo errado como se fosse a porra de uma praga, como se ele, ateu, acreditasse nisso. Praga de alguma ex-namorada a quem ele fez muito mal e partiu o coração ou, simplesmente, azar puro mesmo. Puro azar. Contas, contas e mais contas. Brigas, pentelhações, idade, bebibda, vícios, chatice, enfim, tudo na direção contrária. Curioso, não? E ele, ainda assim, tentava acertar. Com uma mira de bêbado, com uma mira de um velho bêbado. Mas, pobre diabo, ele ainda tentava acertar. Sem grana para o aluguel, sem grana para a bebiba, para os cigarros, para a garota do outro Estado que ele curtia, para nada. Mas, imbecil, ele ainda assim tentava acertar. Inútil. Nada dava certo. Nada mesmo. Por todos os caminhos e direções que tentava seguir as coisas iam mal. Muito mal. Como um disco do Led Zeppelin tocado ao contrário em quarenta e cinco rotações, se é que alguém com menos de quarenta anos saiba o que é isso. Batman Cavaleiro das Trevas aos cinquenta anos. Uma praga maldita. Hahahahaha. Uma maldição ao contrário. Mas o que ele mais amava quando estava REALMENTE desesperado como no dia de hoje era andar sob a chuva insana de verão em São Paulo. Amava. Simplesmente amava. É bom esconder o choro desesperado debaixo da chuva. É muito bom esconder o choro desesperado debaixo da chuva. Segunda feira... bah!



AZULEJOS DE VELUDO


- Você gosta de umas músicas estranhas – ela disse, sem crítica, sem censura, mais em um tom de constatação. Um tom de realmente entender quem estava ao seu lado - Não é possível não estar amando o que o DJ está tocando esta noite. Ele está perfeito como a lua cheia. Romántico, divertido, sarcástico, funny, alegre. Se, por acaso, fossem aquelas porras de bandas “chuvosas” da Nova Zelândia, você estaria vibrando. Mas como eu gosto né? Você fica aí bufando como um velho.

- Ele apenas sorriu e concordou com a cabeça, impressionado em como ela a conhecia.

- Você é bem estranho – ela brincou – Tenho medo de você. Não uma coisa “Jason Voorhes”, Sexta Feira Treze, mas tenho medo de você. Definitivamente.

Ele deu uma gargalhada sonora com a brincadeira e disse – Medo? Medo de mim? Sou tão pura e sinceramente inofensivo – ironizou – Ninguém consegue ter medo de mim. Ninguém pode ter medo de mim.

- Por isso mesmo o medo. Pessoas assim assustam. Freak boy. Medo de gostar mais de você do que já gosto – disse.

Ficaram em silêncio se observando por alguns instantes. Mãos trêmulas, tequila e vontade de fumar e beijar.

- Tá cheio demais o Clube Varsóvia hoje, não? – ela mudou de assunto, esperta, enquanto acendia um cigarro.

Ele tomou um gole grande de tequila antes de emendar - Muito. Gente demais neste Clube hoje. E gente demais me dá preguiça, você sabe. Prefiro muito menos seres humanos ao meu redor. Muita gente cansa e atrapalha.

Ela sorriu do jeito ranzinza dele. Já acostumada e adorando. Romántico com a lua em Libra estampada no seu mapa astral e atraente com o ascendente em Leão. Eterno geminiano.

- Trouxa – ela respondeu.

- Ué? Não entendi. Preciso gostar de pessoas agora?

- Porra, de vez em quando é bom né? Pode ser bom gostar de pessoas. Você será menos amargo.

- Gosto de algumas pessoas. Já não basta? – ele provocou.

- Não entendi – ela respondeu.

- Sonsa. Detesto quando finge não perceber as coisas.

Ela sorriu linda demais.

- Azulejos de veludo – ele disse enigmático.

- Como? – ela perguntou sem entender.

- Eu queria não estar aqui agora com você– ele falou.

- Não? – ela respondeu.

- Eu queria estar era em uma sala com azulejos de veludo coloridos, só nós dois, totalmente nus e fazendo amor como se não houvesse amanhã. Não haveria mais ninguém e o som dos nossos gritos ficariam eternizados nas entranhas dos azulejos. Apenas para nós dois. Apenas para nós dois.

Ela engoliu em seco diante da declaração apaixonada daquele filho da puta e, corada como uma cereja virou um copo cheio de tequila e matou o resto do seu Marlboro – Vamos pedir a conta? – pediu, com um sorriso no rosto.

- Com toda a certeza – ele respondeu – Gente demais me dá preguiça. Prefiro poucas e boas pessoas ao meu lado. Prefiro poucas e boas, como as bandas nebulosas da Nova Zelândia, como as bandas nebulosas da Nova Zelãndia...