26.2.14


HEAVEN KNOWS I AM MISERABLE NOW

- O quê? – ele perguntou meio bobo, meio assustado.
- Vamos? – ela insistiu – Vamos? Você sabe fazer o quê. Sofá vermelho, lembra? – ela provocou.
- Lembrei daquela música dos Smiths – ele disse – Me deu medo - sorriu.
- Qual? – ela perguntou surpresa.
- What she asked me at the end of the day Caligula would have blushed.
- Canalha – ela disse – Você è mesmo um babaca. Um tremendo de um babaca.
- Sou nada. Sou romântico. Um dos últimos que existem. Um dos últimos espécimes de românticos que existem no mundo. Você não vai achar nada parecido no mercado. Por apostar. Pode apostar.
- Presunçoso – ela afirmou – Idiota presunçoso - ressaltou.
- Será? – ele provocou.
Ela agarrou o seu pescoço e lhe deu uma dos maiores beijos que podia. Um dos maiores e mais apaixonados beijos que podia lhe dar.
 
Sofá? Mais do que isso. O amor venceu mais uma vez e Calígula, coitado, ficou até encabulado...


MEDO


Ele tinha medo dela. Muito medo. Na verdade, ele tinha medo, porém não medo dela propriamente dita. Ele tinha medo dele mesmo. Medo de fazer as mesmas besteiras que fez no passado, medo de cometer os mesmos erros que cometeu no passado, medo de ela perceber o quão babaca ele era, medo de ela realmente perceber o que ele era. Um idiota. Um verdadeiro idiota e um estúpido sem autoestima. Um bobo inseguro. Ele tinha medo dela percebê-lo. Medo de falar com ela. Medo de ela perceber, no seu tom de voz, a sua insegurança. Medo de ela perceber, no seu tom de voz, sua falta de coragem. Ele tinha medo de falar com ela. Deus, ele era mais velho. Como uma menina, tâo mais jovem, tão menos vivida, porém não menos experiente, podia desorientá-lo assim? Ele não sabia. Apenas ficava ainda mais inseguro. Sentia apenas medo. Muito medo. E o suor frio, sempre, escorria da sua testa durante as madrugadas quentes de verão. Imbecil insone. Imbecil ínsone...  

24.2.14


TENHA UM BOM DIA

Ele mal dormiu. Mal dormiu. Quando acordou e olhou no espelho ficou assustado com as olheiras e o rosto inchado. Precisava trabalhar e se sentia um lixo. Caralho. Durante a madrugada, virou-se de um lado para o outro, de um lado para o outro, como um boneco, como se estivesse em um baile de caranaval. A noite toda. A noite toda. Suado, molhado, exausto, ele não conseguiu dormir. A sua testa (e o seu corpor) exalava calor. Não conseguiu focar no simples ato de dormir. Não. Nem fodendo. Pensamentos, pensamentos e pensamentos. Ah, malditos pensamentos, eles iam e vinham, infernizando e atormentando a sua noite. Pensamentos proibidos como se mãos invisíveis tocassem todo o seu corpo ao longo da madrugada. Ele delirou de prazer. Delirou. Sorria e esquecia, totalmente, de dormir. Queria um gole de vodka. “O esforço para lembrar é a vontade de esquecer”, lembrou da canção. Ela estava lá. Ele tinha certeza. Naquele quarto. Seja em qual matéria, seja em qual forma, seja em qual estado, seja em qual tipo de pensamento ou crença, ela ficou no seu quarto durante toda a noite. Ele tinha certeza disso. Pobre rapaz. Dormiu, não dormiu, suou, acordou, gozou, enfim, teve uma madrugada daquelas. Daquelas típicas de verão sem chuva... porém com MUITO, mas muito suor e prazer. Pobre e feliz rapaz...


SONHOS DE UMA MADRUGADA MOLHADA DE VERÃO


- Sonha comigo? – ele pediu quase tolo, quase infantil.

- O quê? – ela respondeu – Pirou? O calor derreteu o pouco que resta do seu cérebro pequeno? – disse irônica.

- Sonha comigo? Sonha? – ele pediu.

- Como assim “sonha comigo”? Você acha que eu escolho os devaneios que tenho durante a madrugada? Acha que consigo selecionar com o que vou sonhar? – ironizou.

- Talvez. Se você quiser muito, pode até conseguir. Quem sabe?

Ela sorriu e fez um carinho fofo em seus cabelos curtos. Admirou seus olhos verdes e apenas sorriu.

- Por favor? – ele insistiu – Você me disse que sonhou comigo outra noite. Porra, quem sabe consegue repetir a façanha. Vou ficar muito feliz. Muito mesmo.

- Você é um idiota de verdade – ela disse com carinho.

- Mas não basta sonhar. Tem que me contar os detalhes depois – ele afirmou como um babaca apaixonado.

- Vou tentar. Prometo que vou tentar. Antes de tomar o meu Lexotan e dormir como um anjo, vou mentalizar muito para ter um sonho contigo. Muito mesmo.

Ele sorriu e concordou com a cabeça.

- Deus, ela é linda – ele pensou sem nada dizer.

- Deus, ele é lindo – ela pensou sem nada dizer.

- Estou molhada – ela disse rápida.

- Porra, já começou o seu sonho? – ele brincou.

Ela olhou para ele com asco e disse – Escroto. Está vendo a porra do calor. Estou suada seu imbecil – disse fingindo indignação.

- Ah... – ele respondeu – Entendi.

- Babaca – ela disse.

- Linda – ele respondeu.

E o sonho? Bem, só a noite vai dizer o que virá pela frente. Só a noite, a lua, Mr. Sandman,  o Lexotan, o vinho, as canções e os desejos de amor... apenas isso...

 



17.2.14



JASMIM E UM SOFÁ VERMELHO

Ela era puro jasmim. Puro jasmim. Seu sexo exalava jasmim. Seu quadril tinha este aroma. Doce, lindo, delicado. Ele adorava. Adorava estar perto dos seus quadris e do seu cheiro de jasmim.
 
- Você faz o que da vida mesmo? – ele perguntou como se já não soubesse.
- Escrevo e faço outras coisas. Não te interessa, suponho – ela respondeu – Advogados escrotos não se preocupam com isto.
- Hmmm, escritora? Elitista, não? – ele zombou – Num país como o nosso você é “escritora”. Legal. O banco deve adorar seu lado social e seu limite de crédito.
Ela mostrou a ele o dedo médio enquanto tragava seu Marlboro e dava, depois, um gole da sua vodka.
Ele sorriu. Nada disse.
- Elitista o cacete – ela finalmente respondeu enquanto a vodka ainda descia ao estômago e aquecia o seu coração. Faço outras coisas. Sociais, inclusive. Nada que lhe diz respeito. Ajudar pessoas. Coisas que você desconhece.
Ele sorriu e continuou trolando – Ah, social. Sei. Escritora e gosta e ajuda pessoas. Ajuda o próximo. Você deve ser muito mala sabia? – brincou – Tipo de pessoa que não existe. Não existe mais.
- Quem sabe? Tem quem goste imbecil – respondeu – tem muita gente que gosta.
- Perdendo a linha senhorita? – ele zombou.
- Você me irrita. Provoca demais e faz de menos – ela disse – Você merece pastar.
- Você parece gostar de provocações. Parece sim – brincou.
- Vá se foder – ela disse.
- Vamos? – ele respondeu – Agora?
 
A noite? Bem, a noite como começou no Clube Varsóvia, cheia de provocações, vodkas, Marlboros e provocações, terminou em um sofá vermelho, na casa dela, com muito soul dos anos sessenta no aparelho de som e muito sexo, mas muito sexo e paixão e aroma de jasmim.
Tudo em cima de um sofá vermelho.

Jasmim? Bem, ele amava o perfume de jasmim que exalava dos quadris daquela pequena moça. Simplesmente amava...





FESTA


- Posso te dizer uma coisa? – ele perguntou, cheio de charme vagabundo, barato, meio bêbado, todo chato.

- Sim – ela respondeu meio seca, toda dura, sem querer aproximação com ele. Não era o tipo de homem que ela queria. Nem de longe. Nem de longe, mesmo.

- Seus brincos são verdes e combinam com os seus olhos castanhos. Adorei a mistura – ele disse.

- Sério? – ela respondeu sem saco, sem a menor paciência – Tem um motivo para isso – completou.

- Não acredito – ele disse – Não acredito mesmo. Eu sabia que isso ainda iria acontecer comigo. Coisa de destino.

- Como? – ela perguntou sem entender porra nenhuma.

- Destino, química, paixão, atração. Estas coisas. Adoro brincos verdes e olhos castanhos. Você se produziu, sem saber, para mim. A vida é assim. Inexplicável. Destino. Noites de sábado.

Ela olhou para ele com desdém e respondeu seca e direta – Olha, não quero ser grossa então é melhor deixar para lá. Me esquece.

- Como? Você é linda. Adorei a produção. Toda para mim.

- Querido – ela respondeu, com um tom severo – Não é para você.

- Como? – ele insistiu.

- Esta “produção”, como você diz, é para outro alguém. Para outro alguém. Não para babacas otários e bêbados. Quer que eu desenhe ou você entendeu?

Ele a olhou com um misto de raiva e indignação – Sério? Então cadê ele? Se fosse tão importante estaria aqui. Você não estaria sozinha.

Ela riu e deu uma bela tragada no seu Marlboro. Depois, de forma direta disse – Ele está aqui seu imbecil. Dentro do meu coração. Apenas dentro do meu coração. Preciso desenhar ou apenas te dar um murro?
E a noite de sábado continuou. Feliz para uns. Triste para outros. Coisas de sábados á noite. Sorte de quem está longe. Sorte de quem está longe e confia...

15.2.14



BIA E LECA


- Não acredito. Você está apaixonada, cacete? – Leca perguntou, percebendo o brilho lindo no olhar de Bia.

Ela disfarçou e apenas respondeu, lacônica - Deixa de ser boba – Bia disse, tentando disfarçar o indisfarçável – Apaixonada o caralho – emendou – Sou lá mulher de ficar apaixonadinha por alguém?

- Pára – dsse Leca, irritada – Te conheço desde os seis anos. Desde os seis anos. Conheço cada detalhe, cada sorriso seu. Vocè está apaixonada mesmo. Caramba! Vai me fazer o grande favor de dizer por quem? – perguntou.

- Deixa de ser trouxa Leca, por favor. Não sei da onde você tira estas bobagens, estas besteiras. Parece que não cresceu.

Leca a olhou com indignação e raiva – Porra. Estas bobagens e estas besteiras eu tiro de você mesmo. Tiro de você mesmo. Estamos aqui no Clube Varsóvia, que está bombando de gente chata, gente mala, idiota, presunçosa, aliás, uma porrada de pessoas dançando e você aí, distraída demais, com o olhar vago e brilhante, fumando os seus malditos cigarros e pensando em alguém, que não sei quem é,  com um sorriso no canto dos lábios, sem nem se importar com o que acontece ao seu redor. Não tem outra, você está apaixonadíssima. E nem me fala. Que saco.

- Besta – disse Bia, infantil e adorável.

- Fala Bia. Fala. Quem é o sortudo? Não vai dizer que é aquele otário do Edu? Aquilo é um traste. Não vale nada. Um imbecil. Esquece o cara. É o Cadu? Pedro? Tom? Quem é o imbecil? – perguntou, com sarcasmo.

- Você faz perguntas demais Leca. Perguntas demais – disse Bia – Podemos falar sobre qualquer outra coisa, por favor? – pediu, sem saco.

- Tá bem Bia. Tá certo. Vou te deixar em paz por poucos instantes. Conheço você como a porra da palma da minha mão e sei que você está mentindo. Enganando a mim, mais uma maldita vez. Ok. Sei que está de olho em alguém, apaixonadérrima. Vou pegar uma porra de uma bebida e já volto. Quer algo? Posso trazer – disse, gentil.

- Paz. Eles servem isto por aqui – respondeu Bia, com ironia.

- Vaca do inferno – brincou Leca e emendou – Te trago uma vodka. O mais perto da paz que você vai chegar hoje. Pode apostar.

E enquanto Leca se dirigia ao bar, Bia ficou olhando os deliciosos movimentos do seus quadris, os deliciosos movimentos daquela garota tão linda que ela conhecia desde os seus seis anos de idade. Sua melhor amiga. Sua maior paixão. Sua melhor tudo. Se me conhecesse tão bem, sua estúpida, você saberia quem é meu verdadeiro amor – pensou, triste e um pouco feliz, sem saber por onde andar e apenas aguardando a vodka e o retorno daqueles deliciosos movimentos de quadris.

 
Sem saber por onde começar...





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VINIL


- O que é isso? – ela perguntou, enquanto desembrulhava o presente que ele havia lhe dado.

- Nunca viu? – ele perguntou incrédulo diante daquela garota linda – Você é o quê? Uma extraterrestre? Parece que mora em cidade pequena – sorriu – Uma ribeirinha – brincou.

Ela gargalhou ao perceber do que se tratava.

- Então? - ele disse – Gostou?

Ela abriu seus lábios vermelhos e deu um sorriso delicioso. Um sorriso lindo. De jasmim. Adorou. Adorou o presente. Típico dele - pensou.

- Então...? – ele insistiu.

- Adorei seu otário. Claro que adorei. E, ainda por cima, você acertou em cheio a banda. Amo Miles Davis e NÃO tinha este álbum em vinil. Só em um cd velho e pirata.

Ele sorriu pretensioso e disse – Claro que acertei. Conheço tudo sobre você. Não percebeu ainda? – provocou de uma forma sacana – tenho uns contatos íntimos com as entidades do além e elas me ajudam a te decifrar. Coisas de zodíaco, carmas, estas coisas. Coisas que você não entende – trolou.

- Imbecil – ela disse, antes de dar um beijo cinematográfico nos lábios dele. Dois apaixonados.

Dois apaixonados.

- Acho que você vai ter que dormir aqui comigo – ela disse com provocação.

- Posso saber a razão? – ele perguntou – Não quero te incomodar. Reservei um hotel barato aqui no Centro para te deixar mais á vontade. Para não te encher.

- Hotel? – ela perguntou.

Ele olhou com surpresa e timidez – É. Um hotel. Não sabia se me queria aqui. Simplesmente não sabia.

- Você está vendo a tempestade que está caindo lá fora? – ela perguntou brava, fingida, sedutora.

Ele deu de ombros e disse terno e suave – É. Está chovendo mesmo. E muito. Acho que o céu vai desabar. Mas não sabia se deveria dormir aqui. Não sabia se você queria. Por isto o hotel.

- Seu burro – ela disparou, abraçando seu pescoço e beijando os seus lábios gordos – Precisamos ouvir este álbum – ela disse com um sorriso e completou - Juntos. Bem juntos mesmo.

Ele sorriu como uma criança tímida. 

Ela sorriu como uma garota esperta.

A noite? Bem, a noite não terminou em hotel qualquer do Centro da cidade. A noite terminou ao som de Miles Davis, gemidos, sussurros, beijos, trovões e muita, mas muita coisa em comum... 

 






14.2.14



ZODIAC


O calor estava inacreditável naquela pequena cama de solteiro naquele pequeno apartamento no centro da cidade. Inacreditável calor. Inacreditável química. Um casal apenas. Duas pessoas. Mais do que o suficiente para uma viagem ao paraíso. Duas pessoas, porém múltiplas línguas, beijos, toques, saliva, afeto, tesão, desejo, calor, e, claro, gozo. Muito gozo e calor. Calor demais embalado por toques suaves e precisos. Ela tinha uma pele de seda e um adorável cheiro de jasmim. Isso o enlouquecia. Ele? Uma pele brusca e um perceptível e definido cheiro de hortelã. Isso a enlouquecia. Tremia de prazer com a língua dele nos pontos certos. Ele tremia de prazer com os lábios dela nos pontos certos. E o calor? Continuava inacreditável. Dois corpos nus, suados, em transe, apaixonados. Dois em um. Únicos. Insanos. Apaixonados. Enlouquecidos.     

...

- Você não me disse uma coisa – ele perguntou com parte do corpo dela completamente nu e extenuado estirado sobre o seu peito.

Ela sorriu e disse sincera – Preciso dizer algo? Preciso mesmo? Não foram suficientes os gritos?

Ele sorriu de volta e insistiu – Não. É sério. Esqueci de perguntar algo muito importante.

- Mais importante do que tudo o que rolou? – ela perguntou.

- Não, mas importante anyway. Ao menos para mim. É bobagem, mas gosto.

- Diz – ela falou curiosa – Pode perguntar. Quer saber se eu gozei? Não deu para perceber? – disse com um sorriso sacana.

- Deixa de ser besta – ele disse e emendou - Qual o seu signo?

Ela levantou bruscamente o seu delicioso corpo nu e encarou aquele carinha à sua frente, quase sem acreditar na pergunta feita. Respondeu com desdém – Não vai me dizer que acredita nesta porra de signos e zodíaco, vai? – trolou.

Ele sorriu e disse – Sim. Acredito. 

- Não creio.

- Oras, eu acredito sim. Qual o seu signo?

- “Chuta” – ela desafiou.

- Não. Prefiro não “chutar”.

- “Chuta” – ela insistiu.

Ele olhou bem para ela e após momentos de silêncio disparou – Câncer?

Ela ficou arrepiada e sorriu um dos seus sorrisos mais lindos.

- Câncer? – ele insistiu.

- Como sabe seu filho da puta? – ela perguntou, dando um soco leve no seu peito nu.

Ele apenas sorriu. Nada disse.

- Como? Como sabe? Você já sabia? – ela perguntou.

- Claro que não. É apenas química senhorita protetora, carinhosa, simpática e emotiva. Amei ter acertado.

- Química? – ela perguntou.

- Química. Apenas química e cheiro de jasmim. Vem cá. Me dê um beijo agora. Por favor...por favor

E o calor? Continuou insuportável, porém ainda mais divertido...

 

CÂNCER

Dia perfeito para se recolher, contar histórias, relembrar o passado, cuidar da casa e dos afazeres domésticos. A Lua segue fora de curso em seu signo. Prefira a simplicidade e cuide dos assuntos que já conhece bem. Não é um bom período para tarefas complicadas, importantes ou que exijam concentração. Já no fim da tarde, a Lua ingressa em Leão: diversão e alegria ganham destaque”.




13.2.14


QUANDO OS SONHOS PODERIAM SER REAIS

Ela acordou sozinha e de repente, com um grito. Seu próprio grito. Era madrugada e ela acordou absolutamente assustada. Estava suada e sua cama estava completamente encharcada. Molhada de suor frio. O pesadelo havia sido insano. Insano e assustador. Era preciso ter nervos de aço para dormir naquelas noites. Nervos de aço. Ela levantou da cama tremendo e assustada. Foi direto para a cozinha, se é que havia alguma diferença entre o quarto em que ela dormia e a cozinha daquela porra de apartamento em que ela morava, ou melhor, se escondia. Ao lado do filtro de barro, de água, daqueles antigos, ela pegou um copo baixo americano. Não o encheu de água. Abriu o armário e encheu o copo de conhaque. Não conhaque dos bons, claro. Ela não tinha grana para este tipo de luxo. O máximo que ela conseguia comprar era algum destilado vagabundo, sempre dos mais baratos. Um conhaque escroto. Seu fígado já nem se importava mais. Ele estava pouco se fodendo com o líquido em si, o cérebro é que se importava e queria apenas o efeito. O torpor para o bem e para o mal. Sentou sozinha à mesa e pegou seu maço de cigarros mentolados. Os cigarros sim, mais caros do que o usual, mais caros do que ela podia efetivamente pagar. Morrer de tédio ou morrer de vodka barata ok, mas se é para morrer de câncer causado pelo tabagismo, que seja causado por cigarro do bom – pensou, idiota, sem o menor sentido ou lógica. Totalmente idiota. Totalmente imbecil. Acendeu o seu cigarro e percebeu que desabava uma tempestade monstruosa lá fora na cidade. Uma tempestade de verão daquelas que sempre afundam São Paulo. Por sorte é de madrugada – pensou, egoísta – Se fosse durante o dia foderia mais ainda a minha vida – pensou, lembrando do seu trabalho vagabundo, do seu salário ridículo, do metrô, do calor, do saco cheio, da sua rasa e infeliz rotina. Enquanto tragava o cigarro e “degustava” os seus esparsos goles de destilado vagabundo lembrou, com um arrepio, do pesadelo que a havia acordado. Tremeu mais uma vez. Sentiu medo e desespero e pânico por estar na situação em que estava. Sem perspectiva alguma, sem noção de para onde poder ir. Decidiu usar o único bem precioso e de algum valor que ainda lhe restava: o seu Ipod. Um antigo, claro. Primeira geração. Presente da sua mãe em algum lugar do passado. The Clash era o que lhe restava para aquela madrugada tempestuosa. Nada de músicas tristes ou melancólicas, pois morava no décimo sexto andar e não estava com a menor vontade de a vizinhança e o seu Genésio, o imbecil do síndico, tivessem a chance de ver como eram os seus miolos e seu corpo espatifado por dentro. Não queria ser notícia em vagabundos programas policiais sensacionalistas. Tomou o conhaque barato, fumou o seu cigarro, ouviu sua canção até o fim, apenas tamborilando os dedos e balançando a cabeça, quase feliz, quase feliz. Levantou em silêncio da cadeira da cozinha determinada a dormir. Já era muito, mas muito tarde. Lembrou, porém, que o Natal seria na semana que vem e que, a não ser por um milagre, a sua única companhia seria a de Papai Noel e, talvez, Rodolfo, a rena do nariz vermelho, pois o seu amor já não a amava mais, sua família morava em outro Estado e a desprezava e o Papa, coitado, fazia a missa do Galo em Latim em outro continente. Amigos? Não lembrava mais quais existiam. Mudou de idéia rapidamente e pegou mais um bocado do conhaque barato que estava tomando. Sentou novamente na velha cadeira da cozinha, acendeu outro cigarro mentolado e ligou, novamente, seu velho Ipod. Começou, como uma menina desesperada, a chorar compulsivamente, quase gritando. Desejou ardentemente, naquele momento, mais do que quando era aquela criança rosada e feliz, como seria bom ter por perto Papai Noel e Rodolfo, a pequena rena do nariz vermelho.
 


O AMOR E O BALCÃO DO BAR


- Eu gosto de pessoas que escrevem – ela disse, depois de acender um cigarro.

- Eu prefiro as pessoas que lêem – ele respondeu, tentando parecer charmoso, pobre babaca – Simples assim – completou, idiota.

- Aqui, no Clube Varsóvia, é bem mais fácil encontrar pessoas que fumam e bebem e se picam do que pessoas que gostam de uma boa leitura – ela emendou.

- Ah, isto não é exatamente uma verdade – ele tentou argumentar - Não mesmo, O pessoal que vem aqui gosta de tudo. Todas as coisas, todos os estilos, todas as escolhas, por mais insanas e bizarras que possam ser. Até livros.

- Eu prefiro os escritores – ela continuou, com um sorriso sacana no rosto.

- Eu gosto mais ainda das leitoras – ele retrucou, no mesmo tom.

- Quer dançar? – ela perguntou direta.

Ele engasgou e saiu pela tangente – Não. Na verdade prefiro escrever sobre danças e dançarinas. Só isso.

- Medroso – ela provocou - Bem, não sabe o que está perdendo. Eu adoro dançar. Então, sorry, lá vou – finalizou e disparou rápida em direção á pista, como se fosse uma adolescente repleta da mais pura energia.

Ele pegou seu copo de vodka sobre o balcão e enquanto bebericava alguns goles ficou observando-a enquanto ela começava a sua dança louca, pogo definitivo, punk made seventies, repleta de trejeitos, poses, posições, caras e bocas. Ele a observava e pensava sincero, como seria possível o relacionamento deles dar certo. Como um otário e bobo como ele, ainda impregnado com seus devaneios juvenis, como se adolescente ainda fora, pudesse se interessar por uma garota tão mais nova, tão mais madura, tão mais esperta, tão cheia de vida como ela. Ela dançava e dançava e dançava. Não havia amanhã. E, cruel, ela jamais olhava para ele. Intencional. Ela sabia estar sendo observada e, ainda assim, amava ser a caçadora e não a caça. Ela ria e ele, tolo, acreditava que o sorriso era apenas em razão da música adoravelmente insana explodindo nas caixas de som do Clube Varsóvia. Não. Não era. Ela sorria sabendo que ele a queria, a desejava, a admirava, e muito. Muito mesmo. Eles ficariam juntos? Destino? Acaso? Promessas? Bem, ao menos nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias talvez algo rolasse. Nada eterno. Nada eterno. Tão duradouro como o que tivesse que ser. Tão duradouro como o gelo despejado num copo de vodka no calor do Clube Varsóvia.

Assim é o amor em tempos de nada. Assim é o amor. Duradouro como gelo num copo quente de bebida barata destilada.

 

...

12.2.14



POR TUTATIS. O CÉU, COM CERTEZA, UM DIA VAI DESABAR SOBRE NOSSAS CABEÇAS


O cenário naquela praia quase deserta era tal qual o de um filme antigo e bem elaborado. Lindo. Lindo demais. Um filme de arte. Um filme de arte em preto e branco. Visconti? Quem sabe. Fellini? Talvez. Qualquer diretor? Muito provável. Arte e paixão. E, no meio de tal cenário apaixonadamente devastador e cinematográfico lá estavam elas, Marcela e Fernanda, totalmente alheias a arte, totalmente alheias as cenas de cinema e filmes antigos. Lá estavam ela apenas deitadas na areia fofa da praia, observando o céu e a aproximação certeira das nuvens cinza, o típico sinal de mais uma impiedosa e demolidora tempestade de verão batendo à nossa porta.

- Você devia parar de fumar maconha – sugeriu Marcela, cínica, logo após dar o último trago no baseado em sua mão, sem oferecer á sua amiga um último tapa.

- Claro, Marcela, apenas para você fumar todo o resto da erva existente no mundo por mim, certo? – perguntou, com fina ironia, Fernanda.

Marcela riu e nada disse.

- Não estou certa, puta? – disse brincando Fernanda.

- Não. Não está certa não. Preocupo-me com você para caralho, você sabe disso – disse Marcela, levantando os seus óculos escuros para encarar Fernanda, óculos, aliás, absolutamente desnecessários, considerando o tom cinza escuro que começava a predominar sobre as suas cabeças naquela tarde na praia, com as nuvens cinza dando um chega para lá fabuloso no velho e cansado amigo sol de verão.

Fernanda a ignorou, completamente.

- Não acredita? – insisitiu Marcela.

- Acreditar em quê? No fato de você se preocupar comigo ou de querer fumar sozinha toda a erva existente no hemisfério sul?

- Claro que é sobre eu me preocupar com você, porra. Estamos falando do quê? Da seleção brasileira? – emendou Marcela, irritada.

- Porra Marcela, você me irrita sabia? – respondeu Fernanda séria – Você me trata como criança. Você me trata como se eu fosse uma porra de uma criança perdida. “You´re Lost Little Girl”. Sempre orientando, sempre dizendo para não beber demais, para não fumar demais, para não beijar vagabundos demais, para não sofrer demais, para não picar demais será que não vê que isso cansa? – explodiu.

Marcela a olhou com surpresa. Nada disse.

- Você me controla o tempo todo. Não parece minha amiga de infância, uma irmã, que amo há tanto tempo. Parece minha mãe. Pára de me controlar um pouco. Deixe-me viver um pouquinho. Acompanhe-me nesta viagem e fim de conversa. Pode ser? Pode ser? – insistiu.

Após um breve silêncio, Marcela apenas disse, em tom baixo e sério - Você precisa parar com aquelas malditas pílulas cor de rosa, sabia? Você precisa parar de usar aquela merda de estilete e de vomitar o tempo inteiro por culpa, por bebedeira, por nervoso ou whatever. Você precisa parar de ir longe demais. De experimentar demais. É difícil entender? Você precisa apenas tentar ser feliz por você mesma. Só isso. Apenas isso. Dá para entender antes que seja tarde demais? – perguntou, aflita e segurando as lágrimas.

Fernanda olhou para o céu e se levantou. Chacoalhou a areia das suas lindas pernas e disse séria – Vai chover o mundo. Talvez o céu desabe sobre nossas cabeças hoje. Vou para o chalé. Encontro você por lá quando você quiser.

- Fernanda... – disse Marcela – Tem uma canção antiga que diz que certas dores te cortam como uma faca e por mais que você durma, a dor te espera a noite inteira e ela, com certeza e no dia dela, vai pegar você. Entende o que quero dizer? – perguntou.

Fernanda assentiu com a cabeça, escondeu o rosto e disse com a voz disfarçada – Vou indo. Vá logo também. Não quero que a merda de um raio te toste da forma como você torra o meu saco e da forma como você, realmente, merece.

- Você entendeu? – insisitiu Marcela – Só quero saber isso.

Fernanda apenas concordou com a cabeça, mais uma vez e completou – Vou indo.

- Também já vou indo – disse Marcela – Mas antes quero apreciar um pouco o céu cinza antes que ele caia sobre nossas cabeças e, por favor, deixa na minha bolsa o espelho e, você sabe mais o quê...

Fernanda fez o que Marcela pediu e, engolindo o choro foi embora, em direção ao chalé.

Enquanto partia, Marcela a observava e pensava de forma terna, carinhosa, amorosa – Te amo sua filha da puta. Apenas te amo e da forma como você sequer imagina. Perceba isto imbecil antes que o céu caia sobre nossas cabeças. Antes que o céu caia sobre nossas cabeças como Asterix tanto temia...  


 


 

11.2.14



JURASSIC PARK


- Mas você é mais nova, né? Mais de dez anos a menos do que eu – ele disse, todo receoso, todo “cheio de dedos” e evitando fitar de forma direta os seus lindos olhos verdes.

Medroso do caralho.

Ela suspirou e deu uma tragada forte no seu Marlboro (hábito de velho – ele pensou). Ela tomou um gole do seu Jack Daniels (bebida de velho – ele pensou) e apenas olhou para cima, como se pedisse força e paciência aos céus.

- Não que eu seja babaca ou preconceituoso ou não acredite no amor ou coisa parecida – ele disse desculpando-se – Até já gostei muito de mulheres mais novas – completou.

- Não? Não é babaca? – ela perguntou, sem o menor saco.

Ele o encarou com muito carinho e respondeu certo e seguro – Não. Não sou. Apenas talvez eu não seja a pessoa certa para você. Ao menos creio eu. Não quero te deixar triste.

- Você é meio idiota para sua idade, sabia? – ela disse – Honre a porra destes fios brancos na sua barba. Assuma o que quer.

Ele ficou inseguro.

Ela ficou puta.

- Mas... – ele tentou dizer, porém foi bruscamente interrompido por ela - Mas o quê? Mas o quê? Deixa de ser otário. Não estou dizendo para ficarmos juntos? Preciso falar mais?

Ele abaixou a cabeça e disse impreciso – Sabe. Nunca gostei de bandas velhas, de canções antigas. Sempre achei que no máximo três ou quatro anos e uns dois álbuns fossem suficientes. Jamais achei que poderia sofrer na prática e na minha vida com esta teoria absurda de descarte. Nunca.

Ela sorrriu e disse feliz e simpática – Bem, eu prefiro as bandas mais experientes. Os acordes soam melhores. A emoção é maior. Você não é descartável. Longe disso. É um imbecil, mas jamais descartável.

- Te amo – ele disse.

- Também. Babaca! – ela respondeu.

E todos nós ficamos velhos, nâo?

O amor que faça o mesmo, mas conserve seu frescor e delícia. Sempre.

 



 

7.2.14



UM BRINDE. FAZER O QUÊ?


- Será? – perguntou Artur, tentando entender exatamente o que estava escutando da sua amiga – Será que você tem razão? – perguntou inseguro.

- Claro – respondeu Ana – Claro que sim. Pode confiar no meu taco.

- Mas e se não for realmente assim? – ele perguntou novamente, enquanto matava seu último gole de vinho na taça – E se for apenas algo da sua cabeça. Um delírio – riu nervoso - Algo que você realmente deseja e que você realmente torça e quer que seja verdadeiro, mas que no final do dia, não é real. Ilusão apenas.

Ana balançou a cabeça negativa e disse – Pode apostar. Falei com a Clara sobre. Não diretamente, claro, mas entendi exatamente o que ela quer. Confia em mim. Ela não quer mais o Paulo. Não ficarão mais juntos. Tenho quase certeza disto.

Neste instante Clara entrou na sala com Paulo que carregava mais uma garrafa de bom vinho tinto e uma excelente sobremesa repleta de Nutella, morangos e sorvete.

- Então – disse Ana – Sei que adoravelmente bebemos demais hoje, mas esta última garrafa será para brindar o quê? – perguntou, divertida, com um sorriso rosa no rosto, tentando descontrair.

Artur a encarou com amizade e afeto, entendendo aonde ela queria chegar e apenas respondeu, complementando a amiga – Coisas simples, porém valiosas. Nossa amizade? Que tal? É uma boa idéia? – sorriu.

Paulo concordou com a cabeça e encaixou o sacarrolha para abrir a garrafa de vinho.

- Podemos brindar a este novo ano, que tal? – sugeriu Clara – Velhos amigos, novos momentos. Nova vida. Novos planos. A etiqueta ainda permite celebrarmos um ano novo em fevereiro.

- Gostei Clarinha – disse Ana – Você sempre acerta em cheio.

- Bem, eu tenho uma idéia em complemento ao que a Clara disse e acho que vocês vão adorar.

- O quê? – perguntou Ana.

Paulo abriu a garrafa e sorriu um dos seus sorrisos mais lindos. Deus, ele era realmente lindo – Vamos brindar a uma novidade.

- Qual? – perguntou Artur, sem disfarçar a ansiedade e enquanto recebia a taça repleta de vinho das mãos de Paulo.

- À nossa viagem – disse Clara – A minha viagem e a do Paulo. Comunico, com muita felicidade – disse solene – que vamos passar os seis meses do meu curso em Paris juntos. Nós nos acertamos, finalmente – sorriu.

- Como? – perguntou Ana com surpresa – Vocês vão embora juntos? – perguntou.

- Sim – disse Paulo – Mas relaxa. Nossa amizade vai continuar a mesma. Quem sabe vocês não conseguem nos visitar naquelas bandas? – finalizou – vamos adorar, completou, não sem antes disparar um beijo delicioso em Clara.

Após alguns segundos de silêncio e goles de vinho tinto Ana disse - Parabéns –completamente sem graça, completamente entristecida.

Artur apenas levantou a taça de vinho tinto. Fez tanta força para segurar as lágrimas que seus olhos pareciam querer explodir.

- Acho melhor parar de beber Artur – disse Clara, brincando – Você está mais vermelho que o vinho.
- Não. Tudo bem. Vamos brindar. Vamos brindar ao nosso futuro.
E celebraram dentro da angústia, da mentira, do amor, da verdade, dos sentimentos. Cada um do seu jeito. Cada um da sua forma. A noite e a celebração/derrota de cada um estava apenas começando.

by eReSaW