28.1.14


 
TANGERINA.

O Clube Varsóvia estava quase vazio, mas a música ainda rolava. Não alta, já baixa, já em fim de festa, mas ainda a música rolava.
Era domingo, seis e meia da manhã.
A noite já estava quase no fim, para alegria de quem lá trabalhava e tristeza de quem lá se escondia.
- O que vão querer para a saideira? – perguntou, de forma educada, o barman do Clube Varsóvia, visivelmente cansado e muito irritado.
- Suco de tangerina – disse Carol, breve e ligeira – Bem gelado, por favor.
- Tangerina? – perguntou o barman, surpreso.
- Tangerina? – repetiu Estela.
Carol olhou surpresa para Estela e, depois, para o barman e apenas concluiu – Sim. Tangerina. Suco de tangerina. Qual o problema? Não tem gelo? Ok. Sem problemas. Pode ser quente mesmo.
O barman e Estela se entreolharam com surpresa e admiração, porém nada disseram, apenas sorriram brevemente.
- Então, o que vai ser? – perguntou Carol – Vai rolar este suco ou não? – insistiu meio puta, muito zangada.
- Carol – disse Estela – Veja bem. Acho que nesta espelunca do Clube Varsóvia não deve existir no cardápio de bebidas algo tão saudável como um “suco de tangerina”, por exemplo. Perceba, neste exato momento estamos vivendo às seis e meia da manhã de um domingo de verão. Você bebeu, ao longo da madrugada toda, quase uma garrafa inteira de vodka. Sozinha. Vai tomar, na saideira, um suco de tangerina gelado? – perguntou surpresa.
Carol olhou para Estela com surpresa e desdém – Vou. Vou tomar o que eu quiser. Algum problema?
O barman assentiu com a cabeça e apenas falou, calmo demais para o fim do expediente – Pode deixar. Vou preparar a sua bebida, senhorita. E pode relaxar, tenho bastante gelo. Seu suco vai estar bem gelado.
Assim que o barman virou as costas, Estela olhou para Carol e emendou – Você pirou?
- Como assim? – ela respondeu – Não posso tomar uma porra de um suco de tangerina? Preciso tomar sempre vodka? Você precisa de mim sempre alterada? Sempre alcoolizada? Sempre bêbada? Nâo pode comigo sóbria? Não aguenta? Tem medo do quê?
Ela abaixou os olhos e disse, triste, acanhada – Esquece.
- Fale filha da puta. Qual o problema?  
- Esquece – Estela insistiu.
- Fale porra – gritou Carol.
- Eu te amo – emendou Estela - Só isso. Apenas te amo e tenho medo de você perceber, se estiver sóbria.
Carol abaixou os olhos, nada disse. Apenas acariciou os seus cabelos.
Estela abaixou os olhos e gritou pelo barman.
Assim que ele chegou, ela pediu mais um suco de tangerina. Com muito gelo e muita satisfação.
São em noites assim que os contos viram realidade e os sapos viram príncipes.
São em noites assim que os contos deixam o papel e viram estórias de amor, de verdade...


Um comentário:

loreneca disse...

Guziej!!! Obrigada pela visita ao meu "Emdorfina"!!!! =D
Sou fã do seu blog, intenso que é...destes seus escritos que deixam o coração na ponta de uma faca.!
Valeu mesmo, que bom que gostastes de lá, assim como eu gosto de cá. Abraços e beijos!