22.1.14

MALA DESFEITA.



 - Então é isto. Decidido – ela disse, segurando com toda a força do mundo o vacilo e o embargo do choro na voz. Ele não poderia ter este prazer. Definitivamente, ele não poderia ter este prazer.
- Vou pegar as minhas coisas – ela emendou, triste, ao sair da sala em direção ao quarto.
Ele nada falou. Nada. Permaneceu sentado no sofá, quieto, fumando o resto do seu cigarro.
A ausência de qualquer expressão dele foi o que a deixou mais triste. A mortificou.
Sequer uma palavra para ela ficar ele disse. Sequer uma palavra ele esboçou.
O silêncio, nestes momentos, é o que há de mais devastador.
Enquanto pegava a mala e as suas roupas, ela não se conteve. Ajoelhou no chão do quarto e desabou em lágrimas. Desabou em choro e dor, como se não houvesse amanhã.
Era a terceira vez que ela fazia as suas malas naquele maldito quarto.
A terceira e a última, prometeu em silêncio. - Desta vez em definitivo – ela pensou - Não vou, nunca mais, passar por esta merda – prosseguiu.
Ela se ergueu e observou o ambiente. Pensou em tudo o que passou naqueles últimos anos. O amor desenfreado, a paixão, o casamento, a quase gravidez, as drogas, os vômitos, o ciúme, o desejo, os dreadlocks, os incensos, os filmes não vistos, os livros não lidos e os CDs não ouvidos.
Tentou, e conseguiu, segurar ainda mais uma vez o seu choro.
Enquanto iniciava o seu ritual particular de libertação e dor, arrumando a mala com sua parcas roupas, ouviu a voz dele, grossa e rouca, na entrada do quarto
- Fica – ele disse, sério, parado em frente à porta do quarto.
– Fica, por favor –continuou.
Ela olhou para ele com desespero e dor, já pouco se fodendo em tentar esconder as lágrimas.
O amava desesperadamente, claro. Ele era bonitão, novo e mega cavalheiro. Mas ela sofria demais. Sofria muito. Queria deixá-lo seguir sua vida e ser feliz do jeito que quisesse, caso a sua felicidade não estivesse ao lado dela.
- Fica? Não vou mais vê-la.
Ela o olhou com espanto
- Não? – perguntou, incrédula.
Ele abaixou a cabeça e nada disse.
- Seu imbecil de merda. Me responde. Não vai mais vê-la? – ela insistiu, rude – Não vai mais ver aquela idiota?
- Não posso te prometer isto.
- Não? – ela perguntou, desesperada.
- Não. Não posso. Posso te prometer não te fazer infeliz. Serve? – ele perguntou com o seu jeito suave, doce, irresistível.
Ela largou as roupas no chão e caiu no choro ainda mais compulsivo. Ele correu junto a ela e a abraçou, forte.
- Fica, por favor.
Ela o abraçou muito forte e decidiu dar uma chance ao destino.
Ao menos ele não a enganou.
Quem sabe do que o amor é capaz?
Só quem ama.
Apenas quem ama e quer ser feliz.

BAD GIRL 

BAD GIRL
Devendra Banhart

I've been a bad girl
I ain't playin' fair
I want you to be free
But I don't wanna share
No I don't wanna let you go
But it's about time I do
I can't blame you anymore
And I still love you
Wah, wah, wah, wah, wah, wah, wah...
...

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