31.1.14

PASSE-ME O SAL PARA EU BOTAR NA SOBREMESA?


- Não há nada a desculpar – ele disse pouco tranquilo, muito mentiroso, entre os copos de vodka, as mesas e o barulho do Clube Varsóvia, tentando desviar do olhar adorável, inesquecível e maravilhoso daquela garota à sua frente. Ele a amava.
Ela o olhou com ternura e amizade e fez um carinho breve e gentil no seu cabelo. Por instantes, breves instantes, ela lembrou de todo o afeto e paixão que sentiu por ele no passado. Todo o carinho, o afeto e o amor que sentiu por ele em um passado não tão distante. Como foram felizes.
- Fica tranquila – ele disse e continuou - Nada a desculpar mesmo. Tudo em ordem do meu lado – ele prosseguiu – Você gosta de MPB mesmo. Eu detesto – completou, com um sorriso.
- Você mente mal. Muito mal mesmo sabia? Quase um canastrão – ela brincou e continuou – Esqueceu que te conheço há um tempinho?
- Muito tempo? – ele perguntou, tentando disfarçar, enquanto acendia um Marlboro – Dentre as mentiras da vida, duas nos revelam mais – recitou, citando a antiga canção.
Ela sorriu e apenas respondeu afável e gentil – Não acredito nestas mentiras. Você sabe. E te conheço o tempo suficiente para gostar e conhecer você. Tempo suficiente para isso. E sempre vou gostar. Do meu jeito. Do meu novo jeito, mas sempre irei gostar.
Ele deu de ombros. Emendou – Você é sofisticada demais. Não consigo. Bem, mas ao menos você não vai me perguntar o que eu acho, certo? Poupe-me. Mesmo se eu achar algo, eu digo que não acho, ok? Pode ser?
Ela apenas sorriu. Nada disse.
- Puta que o pariu. O DJ foi genial agora. Vamos para a pista? Rápido.
- O quê? – ela perguntou, surpresa – deixe-me tomar a minha cerveja – pediu -- Vai esquentar e este clube está infernal hoje.
- Não. Nem fodendo.
- O quê? – ela perguntou.
- Não é todo dia que terminamos uma relação e o DJ, abençoado, coloca Sinatra na pista. Vem? Por favor. The way you look tonight.
Ela sorriu e foram riscar o chão do Clube Varsóvia.
Aquela noite foi, provavelmente, a última em que dançariam juntos e, certeza, uma das mais inesquecíveis delas.
Alguém tem um pouco de sal, por favor?
Amores lembrados, segredos abertos, canções confessionais e Frank Sinatra são das sobremesas mais perfeitas que existem...










Nada a Desculpar
Dentre as mentiras da vida
Duas nos revelam mais:
- É um prazer conhece-lo
- Era muito bom rapaz
Eu vou é sair de trás da mesa
Espiar que é que tem ali de baixo
Se eu for embora, vou deixar a luz acesa
E se voltar não limpo os pés no seu capacho
Dizem que é fogo atingir
Com o meu estilingue
As vidraças insensíveis
Do Shopping Center Building
Se você me perguntar
O que é que eu acho
Mesmo que eu ache
Eu já digo que não acho
Enquanto brincam no gramado as moças chiques
Eu quero chuvas pra estragar o piquenique
Eu não provei aquele tipo de xarope
Que está por cima nas pesquisas do IBOPE
Eu estou remando rio acima por prazer
Não há nada a desculpar, foi por querer
Me passe o sal pra botar na sobremesa
O Grande Público cansou minha beleza


 
SENHORITA ALICE

O telefone tocava insistente e repetidamente e ela, nua e molhada, recém saída do banho, apenas praguejou antes de atender – Porra. Que saco! Não se tem paz nem em um hotel, caralho – afirmou antes de atender – Que vida do inferno – completou.
- Alô? – disse, ao pegar o telefone, sem demonstrar a menor paciência com a pessoa do outro lado da linha.
- Senhorita Alice? – perguntou gentil e doce, a jovem recepcionista do hotel.
- Sim – respondeu – Sou eu. Algum problema? – perguntou, irritada.
- Senhorita Alice, temos aqui uma entrega para a senhorita. Posso mandar nosso mensageiro subir? – emendou a recepcionista, toda prestativa, toda solícita, porém toda receosa.
Ela se surpreendeu e perguntou rápida – Entrega? Como assim? Do que se trata?
- Senhorita Alice, eu vou mandar o mensageiro subir e ele entregará para a senhorita, ok? Acho mais adequado desta forma. Não é muito usual este tipo de situação no nosso hotel. Mas não é nada com o que se preocupar. Pode ser? – perguntou.
- Ok. Pode subir – ela disse – Vou atender sem problema.
Ela desligou e ficou surpresa. Não tinha a menor idéia do que se tratava. Ninguém sabia da viagem dela. Ninguém sabia onde ela estava. Tirou uns dias para ser feliz e viver com ela mesma. Não entendeu porra nenhuma.
Instantes depois a campainha tocou e ela atendeu ao mensageiro.
- Senhorita Alice? – perguntou o moço, todo medroso.
- Sim. Sou eu.
- Estas flores são para a senhorita – disse o mensageiro mostrando a ela um buquê gordo, lindo, gigante e maravilhoso de rosas vermelhas, lindas e frescas como tudo, e completou – Tem este envelope também – disse, entregando a ela um pequeno envelope amarelo – Boa noite Senhorita Alice – disse, com um aceno de cabeça.
- Obrigado – ela respondeu, bastante sem graça.
Admirou por alguns instantes aquele magnífico buquê de flores lindas. Aquele buquê maravilhoso de rosas vermelhas. Cheias de paixão.
Ficou muito feliz.
Após alguns instantes de torpor, percebeu o envelope amarelo em suas mãos. Abriu o mesmo cuidadosamente. Abriu o mesmo com muito carinho.
Reconheceu imediatamente a letra no mesmo. Começou a chorar. Copiosamente.
Leu palavra por palavra do que estava escrito por vezes e vezes e vezes.
Caiu no chão de tanta alegria e felicidade.
Não tinha idéia de como ele havia a descoberto. Não tinha idéia de como ele teve coragem de, finalmente, se declarar. Não tinha idéia de nada, de porra nenhuma, mas naquela noite, ao menos naquela noite, Alice seria a mulher mais feliz do mundo. A mulher mais feliz do mundo.
 

30.1.14


EM DOR FINA

- O que mais você quer de mim?  - ela perguntou, aflita, desesperada, irritada, inquieta.
- Nada – ele respondeu de forma seca, estéril, fria – Não quero nada de você. Não quero mais porra nenhuma de você. O que eu quis você não me deu. Há tempos.
- Então porque você, seu filho da puta, não me deixa em paz, agora? – ela perguntou, aos gritos - Some da minha vida seu imbecil – ela pediu, implorou, aos gritos – Some. Some daqui! – completou – Não quero mais você.
Ele apenas abaixou a cabeça e começou a chorar. Muito. Muitas lágrimas. Muito triste.
Ela também. Muitas lágrimas. Muita tristeza. Estava relaxada ao desabafar, porém triste. Muito triste. Como se o seu coração estivesse na ponta de uma faca. Bastante afiada, aliás...
Em dor fina.
Como se não houvesse amanhã.
Dor muito fina e muito gritante.

 INTERNET
“A endorfina é neurotransmissor, assim como a noradrenalina, a acetilcolina e a dopamina, e é uma substância química utilizada pelos neurônios na comunicação do sistema nervoso. É um hormônio, uma substância química que, transportada pelo sangue, faz comunicação com outras células, ela é o hormônio do prazer.
Sua denominação se origina das palavras "endo" (interno) e "morfina" (analgésico).
As endorfinas foram descobertas em 1975. Foram encontradas 20 tipos diferentes de endorfinas no sistema nervoso, sendo a beta-endorfina a mais eficiente pois é a qual dá o efeito mais eufórico ao cérebro. Ela é composta por 31 aminoácidos. A endorfina é produzida em resposta à atividade física e durante o orgasmo, visando relaxar e dar prazer, despertando uma sensação deeuforia e bem-estar.”

28.1.14


 
TANGERINA.

O Clube Varsóvia estava quase vazio, mas a música ainda rolava. Não alta, já baixa, já em fim de festa, mas ainda a música rolava.
Era domingo, seis e meia da manhã.
A noite já estava quase no fim, para alegria de quem lá trabalhava e tristeza de quem lá se escondia.
- O que vão querer para a saideira? – perguntou, de forma educada, o barman do Clube Varsóvia, visivelmente cansado e muito irritado.
- Suco de tangerina – disse Carol, breve e ligeira – Bem gelado, por favor.
- Tangerina? – perguntou o barman, surpreso.
- Tangerina? – repetiu Estela.
Carol olhou surpresa para Estela e, depois, para o barman e apenas concluiu – Sim. Tangerina. Suco de tangerina. Qual o problema? Não tem gelo? Ok. Sem problemas. Pode ser quente mesmo.
O barman e Estela se entreolharam com surpresa e admiração, porém nada disseram, apenas sorriram brevemente.
- Então, o que vai ser? – perguntou Carol – Vai rolar este suco ou não? – insistiu meio puta, muito zangada.
- Carol – disse Estela – Veja bem. Acho que nesta espelunca do Clube Varsóvia não deve existir no cardápio de bebidas algo tão saudável como um “suco de tangerina”, por exemplo. Perceba, neste exato momento estamos vivendo às seis e meia da manhã de um domingo de verão. Você bebeu, ao longo da madrugada toda, quase uma garrafa inteira de vodka. Sozinha. Vai tomar, na saideira, um suco de tangerina gelado? – perguntou surpresa.
Carol olhou para Estela com surpresa e desdém – Vou. Vou tomar o que eu quiser. Algum problema?
O barman assentiu com a cabeça e apenas falou, calmo demais para o fim do expediente – Pode deixar. Vou preparar a sua bebida, senhorita. E pode relaxar, tenho bastante gelo. Seu suco vai estar bem gelado.
Assim que o barman virou as costas, Estela olhou para Carol e emendou – Você pirou?
- Como assim? – ela respondeu – Não posso tomar uma porra de um suco de tangerina? Preciso tomar sempre vodka? Você precisa de mim sempre alterada? Sempre alcoolizada? Sempre bêbada? Nâo pode comigo sóbria? Não aguenta? Tem medo do quê?
Ela abaixou os olhos e disse, triste, acanhada – Esquece.
- Fale filha da puta. Qual o problema?  
- Esquece – Estela insistiu.
- Fale porra – gritou Carol.
- Eu te amo – emendou Estela - Só isso. Apenas te amo e tenho medo de você perceber, se estiver sóbria.
Carol abaixou os olhos, nada disse. Apenas acariciou os seus cabelos.
Estela abaixou os olhos e gritou pelo barman.
Assim que ele chegou, ela pediu mais um suco de tangerina. Com muito gelo e muita satisfação.
São em noites assim que os contos viram realidade e os sapos viram príncipes.
São em noites assim que os contos deixam o papel e viram estórias de amor, de verdade...


27.1.14

TÃO SIMPLISTA FALAR EM “TODO MUNDO”. TÃO SIMPLISTA...


Todo mundo quer barulho, quando convém. Todo mundo quer silêncio, quando está cansado. Todo mundo quer balada, quando está feliz. Todo mundo quer amar, quando está carente. Todo mundo quer algo, alguma coisa, quando lhe falta outra. Todo mundo quer ser famoso. Será? Todo mundo quer pílulas cor de rosa, quando choram à toa. Todo mundo quer ir ao psicanalista mas não lhe fala a verdade. Todo mundo quer dormir quando não consegue de verdade dormir bem, nunca. Todo mundo quer Jesus quando não lhe restou mais nada. Todo mundo quer saúde quando está doente. Todo mundo nunca mais vai beber quando está de ressaca. Todo mundo lê, mas não entende. Todo mundo escuta, mas não ouve. Todo mundo pede ajuda, mas não ajuda quem precisa e quando este alguém realmente precisa. Todo mundo prefere Beatles porém este mesmo “todo mundo” elogia mais os Stones. Todo mundo elogia James Brown, mas nunca o ouviu ou nunca o colocou em definitivo, tatuado, na perna. Todo mundo adora camisetas dos Ramones, mas não suas canções. Todo mundo finge ser feliz. Todo mundo, todo mundo, todo mundo, mas na verdade não. Apenas os imbecis, os egoístas, os narcisistas, os prepotentes, os idiotas. E é realmente simplista falar em “todo mundo” e disparar contra tudo e contra todos. Acusar de fazer o que bem entenderem. Cada um tem seu jeito de viver. Sejam felizes. Eu pouco me importo com vocês...

25.1.14


ENCANTADORES OLHOS AZUIS SEMPRE SERÃO ENCANTADORES OLHOS AZUIS

- Sofia? – ele perguntou tímido, um tanto surpreso, um tanto assustado diante daquela mulher a sua frente na fila do Café no Aeroporto Internacional.
Ela virou a cabeça, balançando os seus lindos cabelos negros e o encarou com seus (sempre) encantadores olhos azuis – Beto? – disse, um tanto surpresa, um tanto constrangida.
Ele sorriu sem graça.
Ela retribuiu.
- O que faz por aqui? – ela perguntou, percebendo, imediatamente, a idiotice da pergunta.
- Bem Sofia – ele respondeu com um sorriso – Estamos nós dois em um aeroporto, certo? Então, ou eu estou indo viajar ou eu estou aqui para buscar alguém – emendou, com um sorriso.
Ela achou graça da resposta e sorriu, sem graça – Desculpe – disse – Foi uma pergunta idiota.
Ele sorriu e afirmou – Não, nada disso. Está tudo certo. Você está indo viajar? – perguntou.
- Sim. Estou. Cansei desta cidade, Beto. Cansei de uma série de coisas. Recebi uma proposta legal e vou mudar toda a minha vida. Toda. Vou me mudar e ver o que o futuro me diz.
Ele encarou aqueles encantadores olhos azuis e disse, sereno e simpático -  Você vai ser feliz. Tenho certeza disso.  
- Espero que você esteja certo Beto. Espero mesmo.
- Você vai deixar muita coisa por aqui? Desculpe perguntar – ele emendou.
Ela tentou esboçar um sorriso e não conseguiu. Apenas respondeu – Vou sim. Vou deixar um passado. Vou deixar um enorme e maravilhoso passado.
Ele concordou com a cabeça e perguntou, indiscreto e inoportuno, porém decidido – Passado? E eu? Faço parte dele?
Ela olhou para ele, com os seus gigantes e deliciosos olhos azuis e apenas suspirou. Nada disse.
- Faço? – ele insistiu – Eu poderia fazer mais do que isso. Você sabe. Poderia fazer parte do futuro.
- Claro que faz do passado – ela frisou - Claro que faz. Você sabe disso. Você sempre soube disso – ela completou.
- Não sei. Você sempre fugiu de mim. Sempre. Como Alice quando despenca no buraco do coelho, apenas para desabar no País das Maravilhas. E eu? Não passo apenas de um Chapeleiro Maluco. Um bobo. Fico conformado com meu passado sem saber ao certo do meu futuro.
Ela abaixou a cabeça e disse - Estou atrasada Beto. Preciso ir. Preciso ir mesmo. Quem sabe nos vemos por aí qualquer dia destes, não?
- Quem sabe – ele respondeu – Quem sabe. Apesar de eu não ter mais seu telefone, seu email, seu endereço ou mesmo o destino da sua nova vida.
- Bom, então é isto. A gente se vê – ela respondeu seca, desistindo, inclusive, do café.
- Sim. No vemos por aí.
Ela, então, foi segura e sem se despedir em direção ao balcão da companhia aérea. No entanto, segundos depois ela se virou bruscamente e o viu, ainda, olhando para ela de um modo terno e adorável. Apenas perguntou, quase gritando no saguão do aeroportp - Hey, você não me disse. Veio buscar alguém ou vai viajar?
Ele sorriu com a inveitável pergunta e apenas respondeu – Não importa. Dei sorte. Encontrei minhas memórias, meu passado e meu destino. O resto não importa. Boa viagem, querida.
Ela acenou com a mão em sua direção a lançou um beijo no ar antes de se virar rápida. Queria, imediatamente, esconder o que sentia e as lágrimas gordas e sinceras que começaram a escorrer daqueles adoráveis e gigantes olhos azuis.
Ele apenas permaneceu lá no balcão do Café, triste, observando ela partir.
Observando ela partir para todo o sempre...
Ele tinha certeza disso.







23.1.14



IDIOTA


- Difícil me amar, não? – ele perguntou, certo da resposta, certo da idiotice da pergunta – Difícil ficar comigo, não é?
Ela consentiu com a cabeça, balançando os seus cabelos loiros, e deu um sorriso lindo, brilhante. Nada disse.
- Besta – ele prosseguiu.
Ela deu uma gargalhada e emendou – Não é que é difícil te amar ou ficar com você. O fato é que você é um idiota presunçoso. Acha que o mundo gira ao seu redor. Devia pensar mais antes de agir. Devia pensar mais antes de falar estas bobagens que fala. Devia prestar atenção ao seu redor.
- Como assim? – ele perguntou.
- Já reparou na quantidade de besteiras que você faz? Já? E são sempre as mesmas. Repetidamente sempre as mesmas besteiras. Você, sem querer ou não, não sei, acaba sempre jogando tudo fora. Acaba sempre fodendo tudo. Você desperdiça sempre as melhores oportunidades em qualquer aspecto da sua vida, seja ele profissional, amoroso, whatever. E o pior, você sempre pede ajuda e é incapaz de perceber quem te ajudou ou olhar ao redor para entender o que está acontecendo.
Ele abaixou a cabeça e disse, sem graça – Sou tão imbecil assim?
Ela sorriu e deu um gole do seu conhaque. O Clube Varsóvia estava tão cheio e repleto de Estelas, Marias, Ricardos, enfim, repleto de gente interessante e feliz. Ela não estava com saco para piedade e comiseração.
- Veja – ela respondeu – Não é exatamente isto. Não é que você seja desinteressante ou imbecil ou idiota. Você, na minha opinião, modesta opinião, aliás, apenas não deixa a gente gostar de você. Você, com este seu jeito “foda-se”, apenas faz com que as pessoas se afastem de você. Você, me parece de forma deliberada, apenas não quer que alguém goste de você. Não quer que ninguém se aproxime. Isto é foda.
Ele olhou atentamente para ela – E, vamos supor, que eu realmente não queira que as pessoas se aproximem de mim. Há algo de errado nisto?
Ela tomou mais um gole do seu conhaque, acendeu um cigarro e olhou diretamente para ele. De forma direta, disparou – Você não percebe, não é mesmo? – perguntou.
- Olha Letícia, eu estou um pouco cansado deste papo. Já volto. Quem sabe encontro alguém que me queira – disse, levantando-se da cadeira e indo em direção ao banheiro do Clube Varsóvia.
- Imbecil – ela disse, em voz alta - Preciso desenhar que te amo, seu babaca.
E a noite prosseguiu da forma como começou. Com Marcelo e Letícia apenas como bons amigos.
Apenas como bons amigos.

22.1.14



GIRLS DON´T CRY


Letícia entrou na casa, excitada e feliz. Estava com saudades do seu passado, com medo do seu futuro, com saudades daquela casa, de tudo aquilo que viveu por anos e anos.
- Quer um café? – Mônica perguntou.
Letícia apenas balançou a cabeça negativamente. Nada disse.
- Um destilado, uma cerveja, um refrigerante, uma água com gás. Quer alguma coisa? Qualquer coisa? – Mônica insistiu – Não é por você ser apenas você que vou negar uma bebida ou qualquer coisa que o valha – completou, irônica.
- Não, obrigado Mônica. Estou bem. Estou muito bem.
Mônica ficou em silêncio, apenas observando os passos de Letícia ao longo da sala. Ficou a admirando como se ela ainda fosse uma criança enternecida diante de um brinquedo novo.
- Fomos felizes aqui, não? – Letícia disse.
Mônica concordou, de leve, com a cabeça e respondeu – É. Fomos. Fomos bastante felizes. O tempo que tivemos para ser. O tempo que tivemos para ser. Pena que a felicidade não dura para sempre, né?
- É. A felicidade não dura para sempre e o tempo não volta jamais, não? – Letícia afirmou, ciente da babaquice plena do que estava dizendo.
Mônica riu da idiotice da antiga companheira e completou – É Letícia. De fato, o tempo não volta. Infelizmente, nenhum gênio da NASA inventou uma máquina desta natureza. Somos obrigados a viver com as escolhas que fizemos, com as opções que tomamos. Apenas isso. A vida é assim. Infelizmente.
Letícia a olhou com ternura e carinho e deu um breve e lindo sorriso. Daqueles que apenas ela era capaz de dar.
- Me fala – Mônica disse, inquieta – O que você quer? O que veio fazer aqui? Confesso que fiquei surpresa com o seu telefonema. Não achava que tínhamos mais nada a dizer uma para a outra, depois de tudo o que houve. Depois de tudo o que passou. O que você quer? – perguntou – Já não tivemos brigas suficientes?
Letícia a olhou com ainda mais carinho e com um sorriso ainda mais brilhante e disse – Não quero nada em especial. Nada. Não quero destilados, cervejas, refrigerantes ou água com gás e muito menos brigar. Vim apenas para me despedir. Só isso.
Mônica a olhou com espanto e perguntou – Vai viajar? Não sabia disso.
Letícia encarou Mônica com seus lindos olhos verdes e tentou conter o choro. Emendou – Vou. Vou viajar e não devo voltar logo. Vou demorar. Achei que pudesse me despedir de você. Na verdade, achei que devia me despedir de você.
Mônica quebrou a guarda e ficou em silêncio, contendo a angústia. Percebeu, só naquele momento, os rasos, os fios finos e as imensas falhas nos cabelos de Letícia. Nada disse.
- Apenas achei que seria bom dizer adeus antes de viajar – Letícia completou.
- Claro, claro – Mônica respondeu, dizendo em seguida – Sente-se. Você sabe. A casa é sua.
- Obrigado.
- Você continua linda – disse Mônica, rindo.
Letícia sorriu e respondeu – É, se eu não tivesse experimentado antes e você fosse meu tipo, te pediria em namoro de novo.
Caíram na gargalhada como crianças.
O que houve depois?
Horas e horas de conversas, confissões e revelações.
Como se o tempo não existisse.
Como apenas duas pessoas que se amaram muito podem saber.
Como se os homens da NASA tivessem descoberto alguma máquina feliz.
Apenas isso.



MALA DESFEITA.



 - Então é isto. Decidido – ela disse, segurando com toda a força do mundo o vacilo e o embargo do choro na voz. Ele não poderia ter este prazer. Definitivamente, ele não poderia ter este prazer.
- Vou pegar as minhas coisas – ela emendou, triste, ao sair da sala em direção ao quarto.
Ele nada falou. Nada. Permaneceu sentado no sofá, quieto, fumando o resto do seu cigarro.
A ausência de qualquer expressão dele foi o que a deixou mais triste. A mortificou.
Sequer uma palavra para ela ficar ele disse. Sequer uma palavra ele esboçou.
O silêncio, nestes momentos, é o que há de mais devastador.
Enquanto pegava a mala e as suas roupas, ela não se conteve. Ajoelhou no chão do quarto e desabou em lágrimas. Desabou em choro e dor, como se não houvesse amanhã.
Era a terceira vez que ela fazia as suas malas naquele maldito quarto.
A terceira e a última, prometeu em silêncio. - Desta vez em definitivo – ela pensou - Não vou, nunca mais, passar por esta merda – prosseguiu.
Ela se ergueu e observou o ambiente. Pensou em tudo o que passou naqueles últimos anos. O amor desenfreado, a paixão, o casamento, a quase gravidez, as drogas, os vômitos, o ciúme, o desejo, os dreadlocks, os incensos, os filmes não vistos, os livros não lidos e os CDs não ouvidos.
Tentou, e conseguiu, segurar ainda mais uma vez o seu choro.
Enquanto iniciava o seu ritual particular de libertação e dor, arrumando a mala com sua parcas roupas, ouviu a voz dele, grossa e rouca, na entrada do quarto
- Fica – ele disse, sério, parado em frente à porta do quarto.
– Fica, por favor –continuou.
Ela olhou para ele com desespero e dor, já pouco se fodendo em tentar esconder as lágrimas.
O amava desesperadamente, claro. Ele era bonitão, novo e mega cavalheiro. Mas ela sofria demais. Sofria muito. Queria deixá-lo seguir sua vida e ser feliz do jeito que quisesse, caso a sua felicidade não estivesse ao lado dela.
- Fica? Não vou mais vê-la.
Ela o olhou com espanto
- Não? – perguntou, incrédula.
Ele abaixou a cabeça e nada disse.
- Seu imbecil de merda. Me responde. Não vai mais vê-la? – ela insistiu, rude – Não vai mais ver aquela idiota?
- Não posso te prometer isto.
- Não? – ela perguntou, desesperada.
- Não. Não posso. Posso te prometer não te fazer infeliz. Serve? – ele perguntou com o seu jeito suave, doce, irresistível.
Ela largou as roupas no chão e caiu no choro ainda mais compulsivo. Ele correu junto a ela e a abraçou, forte.
- Fica, por favor.
Ela o abraçou muito forte e decidiu dar uma chance ao destino.
Ao menos ele não a enganou.
Quem sabe do que o amor é capaz?
Só quem ama.
Apenas quem ama e quer ser feliz.

BAD GIRL 

BAD GIRL
Devendra Banhart

I've been a bad girl
I ain't playin' fair
I want you to be free
But I don't wanna share
No I don't wanna let you go
But it's about time I do
I can't blame you anymore
And I still love you
Wah, wah, wah, wah, wah, wah, wah...
...

21.1.14

QUANDO BILHETES MAL ESCRITOS DIZEM MAIS DO QUE VOCÊ QUER DIZER


- Não estou entendendo porra nenhuma – ele disse, sério, tentando disfarçar o nervosismo, transformando a suposta raiva em defesa. Uma conveniente e comovente defesa prévia.
- Como não? Você é idiota ou imbecil? Escolhe, seu porra. Idiota ou imbecil? – ela respondeu, ríspida.
- Você é uma babaca –ele disse, bravo - Pára de querer ser sarcástica. Pára de querer ser a dona da verdade.
Ela riu e emendou, cruel – Sarcástica? Sarcástica? Dona da verdade? Vá à puta que o pariu. Você é um tremendo de um filho da puta, sabia? – gritou, arremessando, logo em seguida, o copo americano de conhaque em sua direção, o qual arrebentou e se estilhaçou na parede da cozinha.
- Pára de gritar e de ser louca – ele respondeu, nervoso, ignorando os cacos de vidro recém quebrados no chão da cozinha. Tentou acender o seu Marlboro. Não conseguiu. Tremia demais.
- Você é um escroto. Um tremendo de um idiota – ela completou, completamente transtornada – Não sei aonde eu estava com a porra da cabeça quando me apaixonei por você.
- Apaixonou? – ele disse, com ironia fina, agora sim conseguindo acender o seu cigarro – Uau, como você conseguiu? Vai ver eu tenho os meus méritos. Ou tive, sei lá – finalizou - Tanto faz. Você não me importa – completou.
- Imbecil. Imbecil de merda – ela respondeu, tentando acertar, sem sucesso, um tapa na cara dele.
- Você pode me dizer o que eu fiz? Caralho. Você só vem com acusações, com acusações e com acusações. Fala porra. O que eu fiz de errado? O que eu fiz de tão errado assim?
- É brincadeira? – ela perguntou, olhando para ele com um olhar incomum e insano. Um olhar transtornado e infeliz.
- Claro que não. Brincadeira é o caralho. Sei lá o que você está dizendo. Sei lá do que você está me acusando. Você, desde que chegou, apenas parou aí na porta da cozinha e começou a gritar e a esbravejar e me acusar de todas as coisas e todos os crimes possíveis existentes no mundo. E eu nem sei do que se trata – ele emendou, tentando parecer uma vítima. A vítima perfeita.
Ela começou a chorar como uma desesperada e tirou um pedaço de papel amassado do bolso. Um pedaço de papel bem amassado
– Lê isso, seu babaca – ela mandou, com uma fúria poucas vezes antes vista naquele quarto e sala no centro da cidade.
Ele reconheceu o papel e engoliu seco e meneou a cabeça. Sabia do que se tratava e se arrependeu na hora. Tentou disfarçar. Ficou imóvel. Preferia estar morto.
- Leia, seu cretino. Leia, seu imbecil, filho de uma puta. Leia esta merda que você mesmo escreveu. Em voz alta, filho da puta.
- Como você achou este bilhete? – ele perguntou, incrédulo.
- Te interessa? – ela respondeu, puta.
Ele abaixou a cabeça e ficou em silêncio.
Ela começou e chorar ainda mais forte e mais forte.
- Desculpa – ele pediu, trêmulo.
  Ela sorriu e balançou a cabeça negativamente.
- Às vezes, nós erramos – ele disse, triste.
- Filho da puta – ela gritou, tentando acertá-lo com socos confusos e mal dados.
- Às vezes, nós erramos. Todos nós – ele completou, com uma lágrima no olhar.
- Idiota. Eu te amei tanto. Eu te amei tanto – ela disparou, virando as costas e disfarçando o choro.
Saiu do apartamento com a cabeça baixa, os olhos molhados e o coração partido enquanto ele, pobre diabo e imbecil, não conseguiu mais segurar o choro e o arrependimento de todas as bobagens que fez.
Todas as bobagens que fez.


POR FAVOR, RETORNE A LIGAÇÃO.

- Clarice? Clarice? – ele perguntou, em um baixo tom de voz. Ela não abriu os olhos. Parecia dormir um sono profundo. Sequer se moveu.
- Clá? Clarice. Pode falar? – ele insistiu em um tom baixo, após desistir na sequência. Ela continuou dormindo. Como se não houvesse amanhã. Como se não houvesse nada além do sono e de um sonho bom. Ele pegou o telefone e respondeu
– Oi, Bruno? É Bruno, né? – ele perguntou ao telefone. Com a resposta positiva do outro lado da linha, ele prosseguiu – A Clarice não pode atender agora. Pode ligar mais tarde?
A voz irritada do outro lado da linha o deixou puto. Extremamente puto.
- Olha meu caro, ela não pode falar agora. Impossível. Se quiser, ligue mais tarde. Se não quiser, problema não é meu, ok? Foda-se – completou, batendo o telefone na cara do otário do outro lado da linha.
Voltou para a sala e ficou observando aquela garota linda deitada no seu sofá. Não acreditou. Caso não gostasse de garotos, certeza que a amaria eternamente. Cabelos da cor de um girassol. Lindos. Amarelos como o sol. Ela era linda. Traços maravilhosos de beleza em um rosto tão sofrido de fúria e desencontros. Ele fez um carinho no seu rosto. De leve. Com cuidado. Não queria a acordar. Ele a adorava. Pena que ela exagerava na bebida e nos aditivos. O telefone tocou novamente.
- Alô – ele disse, sem paciência.
- Alô. Bom dia, por favor a Clarice? – a voz do outro lado da linha emendou direto.
Ele suspirou, com o saco cheio, e respondeu – Ela não pode falar nesta exato momento. Quem deseja?
- Márcio. Aqui é o Márcio. Posso deixar um recado?
Ele olhou para o alto e respondeu, sem nenhuma paciência – Claro. Pode falar.
- Peça para a Clarice, por favor, que assim que ela puder, que ela ligue para mim. É urgente, muito urgente – ele pediu, meio humilde e muito sem jeito – Meu nome é Márcio.
- Ok. Eu dou o recado Márcio, mas posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Qual a razão da urgência? Posso ajudar?
Após alguns instantes de silêncio, ele disse, tranquilo – Desculpa, eu não te conheço, mas você já amou alguém?
- Como?
- Isto mesmo. Você já amou alguém? - Márcio perguntou, simples, simplório, simplista.
- Já. Claro que já amei alguém.
- Então você vai entender. Eu fiz algo muito errado ontem. Muito errado mesmo.
- Com a Clarice? – perguntou.
- Claro. Com a Clarice. E eu preciso muito falar com ela.
- Ok. Pode deixar que eu dou o recado.
- Valeu – e desligou o telefone.
Ele desligou o telefone, se virou e encarou, mais uma vez, o rosto angelical e lindo de Clarice. Deu um breve sorriso e acendeu um cigarro. No final das contas, entre desculpas e mentiras e erros, quem diria, o amor ainda iria prevalecer.
O amor ainda iria prevalecer.
Mais uma vez...

20.1.14

VIOLETA DE OUTONO (A GAROTA DO MÊS DE ABRIL)


Ela era toda outono. Toda outono. Sempre...


- Odeio o verão – ela disse, irritada, suando como louca naquela tarde insana e quente da estação mais quente do ano.
- Como? – ele perguntou, descrente – Você odeia o verão?
- Odeio. Odeio o verão. O sol me mata. Fode os meus olhos, fode a minha pele. Fode tudo. Detesto esta época do ano.
Ele a olhou com surpresa e carinho - Gente, como você é ranzinza – ele disse - Conheço pouca gente que não gosta de verão. Tá, beleza que sua pele parece nórdica, uma deusa sueca, mas daí a não curtir o verão existe um universo de distância. Você nasceu no Brasil, esqueceu ou quer que eu desenhe? -
Pois é, mas você me conhece e eu odeio esta porra de verão. De verdade.
- Você já teve um amor de verão? – ele perguntou, sério.
- O quê? Amor de verão? Você pirou? Coisa mais babaca. Coisa de otário – ela respondeu, fingindo indignação.
- Um amor de verão. Um amor de praia, areia. Estas coisas. Você nunca teve?
- Eu não. Prefiro o outono – ela respondeu – Já tive um amor em abril.
Ele sorriu.
Ela continuou - Não precisa debochar. Já tive um amor em abril. Um grande amor. Mas acho que ele se foi com o inverno.
- Sei – ele respondeu, descrente.
- Qual o problema? – ela perguntou – Não se pode ser feliz em dias cinzas? Não se pode ser feliz em dias cinzas e frios? Precisa sempre existir o sol?
- Claro que se pode ser feliz – ele respondeu – Claro que sim. Mas você não me parece feliz nunca. Nunca. Nem em dias de sol, nem em dias de chuva, nem em dias cinzas, dias de outono, dias de inverno, dias de chuva.
 - O que você quer dizer? – ela perguntou.
- Deixa de ser amarga – ele pediu – Deixa de ser assim. Você sempre reclama de tudo.
- Não é verdade – ela tentou se defender.
- Não?
- O sol me faz mal. Apenas isso.
- O amor te faz mal – ele disse, triste – O amor te faz mal.
- Como? – ela perguntou.
- Nada, esquece. Deixa para lá. Daqui a pouco começa o frio – ele respondeu, triste, lembrando que a conheceu em um dia longo e cinza de outono.
Idiota, eu te amo – pensou, triste...
E ela? Nem se lembrava deste pequeno detalhe.


Ela era toda outono. Toda outono. Sempre...

8.1.14

FIREWORKS


- Ai, que merda! - ela gritou, visivelmente irritada.
- Tá louca? - ele respondeu, surpreso com o tom de voz dela.
- Odeio esta música. DJ idiota - ela emendou - O Clube Varsóvia já foi melhor. Imbecil de escolher isto para o ano novo.
- Você é louca? - ele perguntou, sério.
- Não, porra, sou louca não.
- Mas parece. Caralho. Há quanto tempo você vem no Varsóvia e NUNCA disse isso. O que há? Algum problema? - ele perguntou.
Ela balançou a cabeça e seus olhos ficaram cheios de água
- Nada - ela disse e confirmou - Nada. Não aconteceu porra nenhuma.
- Como assim, nada? - ele questionou - Desde quando você fica transtornada assim? Por tão pouca coisa? Desde quando uma canção escolhida por um DJ idiota te tira do sério?
- Nada, puta que o pariu. Nada. Pode ser? - ela disse, bastante brava.
- Qual seu problema Lisa? Posso saber?
Ela apenas abaixou a cabeça.
- Me diz - ele insistiu.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes e emendou
- Hoje é primeiro de Janeiro.
Ele a olhou com surpresa e afeto e disse - Claro que é. Primeiro de Janeiro. Caralho, por isso te chamei para vir comigo e beber e fumar e conversar no Varsóvia. Começo de um novo ano. Como sempre tivemos.
- A sacred night, where we'll watch the fireworks - ela disse, sensivel.
Ele pegou sua mão, suave, e a beijou delicadamente.
Ela soube, naquele instante, que o teria por todo o ano, da forma mais amorosa que poderia ser. Como somente os amigos podem ser.... Como somente os amigos podem ser...

6.1.14



QUATRO MESES PARA OS TRINTA ANOS




Quase 30 anos? – ele perguntou, querendo parecer surpreso.
- Sim, porra, você é surdo? Esta será a minha idade, caralho. Em quatro meses – ela respondeu, irritada.
- Calma, não precisa ficar nervosa. Não é uma crítica. É apenas uma constatação. Eu, realmente, não fazia idéia.
- Vá se foder – ela retrucou, mal humorada.
- Porra Lisa, não estou te sacaneando. Juro. A vida é boa. Você não me ensinou que é uma Good Fight?
Ela respirou fundo e disse, serena - Ok. Sem problemas – ela perdoou, um pouco mais suave.
- Eu apenas demonstrei minha surpresa. Não tinha idéia de que você está quase com trinta. Uma adulta. Já pode entrar em motel. Pode meter como uma louca, desenfreada – disse, sorrindo.
- Você é um babaca nojento – ela afirmou, com um sorriso nos lábios.
Ele adorou. O (quase) sorriso dela era lindo, único, adorável. Ele amava.
- Você me adora, confessa – ele pediu, cínico.
- Canalha escroto – ela disse, curta e grossa e sincera.
- Confessa, vai – ele insistiu.
- Você é um grosso – ela emendou.
- Olha, apesar de quase trinta anos, posso garantir que seu corpinho é muito mais próximo dos vinte, sabia? – disse, gargalhando.
- Se eu não tivesse feito tanta bobagem, quem sabe? A intoxicação etílica e tóxica mata um organismo e olha, ao longo destes trinta anos eu bebi e me intoxiquei, viu? Caralho, bebi muito, muito mesmo – afirmou, sorrindo.
Ele devolveu o sorriso e disse, sereno – Nem tanto assim. Nem tanto. Você está bem. Saudável e otimista. E o mais importante: casada e feliz. Muito bem casada e muito feliz.
Ela desviou o olhar e respondeu, baixo – Será?
Ele a encarou com surpresa e perguntou – O que disse?
- Nada – ela respondeu – Nada. Não disse nada.
- Sabe de uma coisa? – ele prosseguiu.
- Fala.
- Quando eu era mais novo, eu achava que as coisas mais importantes do mundo naquela época jamais deixariam de ser as “coisas mais importantes do mundo” para mim, ao longo de toda a minha vida. E não é que fiquei velho e muita coisa mudou? Muita coisa. Caralho, hoje eu me importo muito menos com minha coleção do Asterix do que com abraços de amigos queridos que não vejo há anos. Não receber um telefonema de alguém que você realmente acha importante não faz tanta falta aos vinte ou aos trinta anos. Mas, caralho, Lisa, quando você tem quarenta, pequenos detalhes te fodem o dia a dia e te deixam mal, muito mal. Hoje sou menos feliz do que aos trinta. E não sei exatamente aonde errei. Quer dizer, sei exatamente aonde errei, mas não me perdôo sobre isso. Errei demais.
Ela sorriu com as palavras dele e lhe deu um abraço carinhoso e feliz. Depois, enquanto acendia seu Marlboro apenas sorriu e disse, franca – Olha, seu otário. Pode contar comigo. Ainda que eu seja esta eterna velha de trinta anos, pode contar comigo. Sempre!