17.11.14


DUBLÊ DE CORPO

“...
Foi tanta força que eu fiz por nada
Para tanta gente eu me dei de graça
Só prá vc eu me poupei
...”

- Credo, como você é mórbido – ela disse sincera e assustada. Irritada. Muito.
- É? – ele perguntou irônico e com a dose certa de sarcasmo – Tem razão. Toda a razão. Ninguém pode usar uma música dos Heróis da Resistência como referência de vida. Falta de pudor total. Total. Minha penitência. Falha minha. Absoluta. Total.
Ela discordou com a cabeça, fechando os olhos azuis e balançando os seus lindos cabelos vermelhos – Não. Não é isso. É outra coisa.
Ele tomou mais uma dose da sua vodka e a olhou curioso. Perguntou – Não entendi. Como assim?
Ela acendeu mais um cigarro e disse sincera – Não sei. Simplesmente não sei. Você gosta de errar? Você gosta? Você insiste em errar? – perguntou.
Ele balançou a cabeça e nada disse.
- Vai, seu merda. Responde – ela insistiu – Você faz de propósito? Erra sempre e erra tanto, mas tanto assim de propósito? Para chamar a atenção? Para ser o bebê da mamãe? – provocou.
Ele nada disse. Apenas tomou mais um gole e acendeu um cigarro.
- Cigarros não vão te ajudar, seu babaca. Não vão. Definitivamente. Nem esta porra de vodka. Seu imbecil de merda – gritou, chamando a atenção do garçom do Clube Varsóvia e das mesas ao lado. – Pára de se fazer de vítima. Otário. Imbecil – esbravejou.
Ele começou a chorar. Pobre idiota.
Ela perdeu a paciência. Totalmente. Totalmente mesmo. Recolheu o seu celular e o que mais era dela em cima da mesa. Pegou a sua bolsa e vociferou com raiva – Vai à puta que o pariu. Quem tem pena de si mesmo é o PIOR dos otários para mim. Some da minha vida seu inútil. Imbecil.
E ele ficou lá, otário que sempre foi e sempre, mas SEMPRE será apenas vendo aquela bela menina de olhos azuis e cabelos vermelhos desaparecendo completamente da sua vida para sempre, no meio da pequena multidão do Clube Varsóvia.
Ele nada fez. Nada. Como sempre.
Apenas acendeu mais um cigarro.
Como sempre na sua vida.
Como sempre na sua vida...
Pobre imbecil. Pobre e muito imbecil.

“...
Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo
Este estranho dublê de retratos...
...
Foi tanta força que eu fiz por nada
...”



15.11.14


PERVERSAMENTE LINDA

Linda. Absolutamente linda. Cabelos castanhos meio grandes, meio finos, muito bagunçados. Muito organizados. Dependendo do vento. E ele? Ele amava. Simplesmente amava. Muito. Um quadro único e sem igual. Único. A beleza é perversa e ele amava aquele quadro. Amava. Apenas isso. Com todas as suas forças. Com todas as suas forças.
Linda. Absolutamente linda. Cabelos castanhos meio grandes, meio finos, muito bagunçados, muito organizados. Vento. Este filho da puta. Este tremendo filho de uma puta.
- Você vai ficar comigo? – ele perguntou – Ainda dá? - insistiu.
Ela sorriu com desdém e troça. A troça de quem sabe que tem o poder. De quem pode. Tomou um gole da sua cerveja e não respondeu. Apenas acendeu um Marlboro.
- Vai? – ele insistiu em súplica, em desespero, em paixão e amor.
Ela se manteve e não respondeu. Apenas ajeitou os tais cabelos castanhos completamente desgrenhados pelo vento da mesa de bar ao ar livre. Tomou mais um gole da maldita cerveja. Nada disse. Ficou quieta.
- Sabe de uma coisa? – ele perguntou ingênuo e inocente. Um bobo, como sempre. Um velho adolescente de tantos muitos anos.
- Não – ela respondeu seca. Sem sentimento.
Ele respirou fundo e engoliu vários golpes de ar – Você me fode, sabia? Muito. Muito mesmo.
- Será? – ela retrucou – Não sei a razão.
Ela suspirou e respondeu – Não. Não faço nada do que você já me fez antes. Nada além disso.
Ele, puto, perguntou – Por que você está aqui? Qual a razão?
Ela respondeu serena – Você me convidou para tomar uma cerveja, não convidou? Então... não disse nada sobre discutir passado ou paixões mal resolvidas. Quem tem a reclamar aqui você bem sabe quem é. O mal não foi feito por mim. O erro não foi meu. Definitivamente.
Ele olhou para o céu em desespero e arrependuimento. Levantou, disse que ia ao banheiro, passou no caixa, deixou a conta paga e foi embora. Simples assim. Simples assim. Sem bilhetes, sem despedidas, sem arrependimentos, quer dizer, com MUITOS arrependimentos.
Ela não se importou.
Ele sim.
Beleza. Uma perversa beleza que ele JAMAIS esquecerá.
Apenas isso.
Simples assim.
O que importa nesta vida?
Cabelos castanhos meio grandes, meio finos, muito bagunçados. Muito organizados. Dependendo do vento. Um quadro inesquecível. Simples assim.
E assim foi.
E assim foi.
Mulher perversamente linda.
Perversamente.
Para todo o sempre...
Para todo o sempre...

14.10.14


CANSAÇO

- Cansado? – ela perguntou com muito carinho, alisando com suave paixão os longos cabelos dele que encobriam boa parte do seu rosto. A boa parte do seu rosto.
Ele nada disse. Nada. Resignou-se e tomou um gole largo da sua cerveja. Um longo gole. Repleto de satisfação e frustração. Lágrimas gordas formaram-se em seus olhos azuis. Os seus lindos olhos azuis. Não pôde evitar. Preferiu o silêncio.
Ela não aceitou - Ah, querido. Pára. Não fique assim. As coisas mudam. Melhoram. Pode apostar – prosseguiu.
Ele a encarou com desespero e ira - Melhoram? – respondeu com certa raiva, muita indignação, toneladas de desprezo – Melhoram? Tem certeza?
O silêncio se fez. Ela abaixou a cabeça e desviou o olhar. Sabia que não sentia a verdade nas suas próprias palavras. Flagrada na mentira. Muito flagrada na mentira. Sabia que estava mentindo a pior das mentiras. A mentira para si própria.
Ficaram em silêncio.
Ele com sua cerveja.
Ela com seu cigarro.
Ao fundo? O Clube Varsóvia e seu caleidoscópio de situações inusitadas.
Vida. Simples assim.
E Bauhaus nunca foi uma trilha sonora tão perfeita.
Tão perfeita para uma noite tão quente de primavera...
Bem dito DJ...




14.8.14


PRETÉRITO

pretérito
pre.té.ri.to
adj (lat praeteritu) Que passou; passado. sm Gram Tempo verbal que exprime ação passada ou estado anterior; passado. P. imperfeito: tempo que indica uma ação passada, em relação ao presente, e que estava se exercendo quando outra se realizou: Estudava, quando ele entrou. P.-mais-que-perfeito: tempo que exprime ação anterior a outra, que já é passada no momento em que se fala: Ele partira, quando eu cheguei. P. perfeito: tempo que exprime ação passada e liquidada: Ele viajou. Futuro do p.: tempo que substituiu o antigo "condicional", e em que o processo indicado como posterior a um momento do passado é anterior ao momento em que se fala. Refere-se comumente a processos que não chegaram a realizar-se: Morreria se não viesses.
(MICHAELIS: Dicionário Língua Portuguesa)

Pretérito.
Em poucas e rasas linhas, o “pretérito” é apenas o “tempo do verbo que determina estado ou ação anterior”, conforme ela leu em algum lugar por aí. Sem se importar aonde foi ou sequer sem se importar em dar o devido crédito ao “ilustre” escritor da definição.
Tola como sempre.
Tola como ontem.
Tola como hoje.
Tola as usual.
Ação anterior.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
Dane-se.
Dane-se. Ao menos por hoje.
É o passado dela e que pertence a ela e somente a ela.
Apenas a ela.
Impossível reescrevê-lo.
Está feito.
Feito com todos os erros e todas as imperfeições praticadas. Com todos os erros e imperfeições perpetradas.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
O pretérito apenas dela. Apenas dela.
Impossível reescrevê-lo.
Definitivamente.
Pretérito.
Muitas vezes perfeito, outras muitas tantas muito mais do que perfeito, porém, na maioria das vezes, na maioria cruel e absoluta das vezes, um pretérito muito imperfeito. Muito mais do que imperfeito.
Por conta do quê?
Por conta dos erros, das mentiras, das bobagens, da falta de maturidade, da falta de coragem, da falta em excesso de tudo, do excesso de amor. Do excesso do medo. Apenas medo de não assumir a vida e as suas responsabilidades.
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
O pretérito apenas dela.
O passado e as ações não tomadas apenas por ela quando deveria assim ter feito.
O passado apenas dela.
E as lágrimas também.
E as lágrimas também.
Muitas, aliás.
E a dor vem como consequência.
Uma dura consequência.
Curvas mal viradas e rotas mal assumidas. Escolhas mal feitas.
Escolhas muito mal feitas.
Erros.
Muitos, aliás.
Muitos mesmo.
Simples assim.
Pobre moça.
Pobre moça.
Nem tão nova, porém nem tão velha assim para tanta dor e ressentimento pairando sobre os seus ombros já arqueados.
Nem tão nova, porém nem tão velha assim.
Média da expectativa de vida.
Apenas média.
Ainda há tempo.
Mas ainda há quem ache o tempo.
Será?
Pretérito.
Passado.
Perfeito?
Imperfeito?
Mais que perfeito?
Futuro do pretérito.
Futuro do pretérito.
Aí sim.
Fato por vir condicionado a algo no passado.
Quem sabe o futuro do pretérito não pode mudar o cenário da sua vida.
E ela sorriu.
Percebeu que depende apenas dela... Depende apenas dela e da sua própria força. Sua própria crença.
Há alguma?
Depende apenas dela...
Dela mesmo.
...
E ela sorriria se não tivesse errado tanto.
Ela sorriria se não tivesse errado tanto, seja em que tempo gramatical for.
...
Ela sorriria...
De verdade...
...
Chorava, quando ele partiu.
Ele partira, quando ela chorou.
Ele foi.
Choraria se não ligasse.
...

Pobre moça triste...




5.8.14


PERDENDO O PENÂLTI... CHUTANDO NA PUTA QUE O PARIU...

- O que você me disse? – ela perguntou incrédula, mal acreditando no que havia acabado de ouvir, porém desejando ardentemente que fosse verdade. A mais pura verdade.
Ele a olhou com surpresa e com os olhos vermelhos e bêbados. Nada disse. Preferiu o silêncio. O cruel e malvado silêncio.
- Vai, diz. Repete – ela insisitiu querendo muito ouvir novamente o que ele havia acabado de dizer, confessa porra – insistiu.
Ele disfarçou apenas e disse com a voz trôpega e confusa – Não estou entendendo nada querida. Nada. Absolutamente nada. O excesso de vodka, além do barulho infernal deste Clube Varsóvia não deixa meu cérebro funcionar em paz. Não estou entendendo mais nada. O que você quer? Um cigarro? Tenho aqui, mas apenas aqueles mentolados que você odeia – disfarçou – Caso queira eu te arrumo “cigarros” mais fortes – emendou de forma imbecil, infantil, idiota. Um verdadeiro imbecil.
Ela o encarou sem paciência. Sem a menor paciência e apenas disparou – Você sabe muito bem trouxa. Imbecil. Não se trata de cigarros nem de qualquer outra coisa. O que você acabou de me dizer? Repete – ela insistiu – Isto muda tudo. Repete... – Implorou.
Ele deu de ombros e respondeu – Não sei. Não lembro. Agora não me lembro.
- Não? – ela perguntou.
- Não mesmo – ele respondeu mentindo, mais uma vez, ainda mais uma vez.
- Tem certeza? – ela perguntou novamente, em excesso de paciência.
Ele sorriu o seu sorriso mais falso e mais bêbado falseado. Apenas disse – Tenho. Não sei exatamente o que eu disse ok? Podemos ficar assim?
Ela fechou a cara desgostosa e não respondeu.
- Podemos? Por favor. – ele insistiu.
- Não está mais bêbado? – ela perguntou em tom de provocação – Passou rápido esta porra de porre não acha? – Provocou – Seu imbecil – completou.
- Olha minha querida... – ele tentou argumentar.
- ... “Minha querida” é o caralho... – ela interrompeu - Vai se foder. Idiota – completou cruel e rápida.
- Ainda bem que você não gosta de palavrões – ele provocou – Ainda bem. E você os detesta nos meus textos.
Ela arremessou no rosto dele o pouco de vinho tinto chileno que restava em seu copo. Furiosa. Absolutamente furiosa.
- Porra. Isto mancha – ele respondeu cínico e irado. Verdeiramente irado.
- Vá se foder – ela respondeu enquanto se levantava – Vou embora.
- Depois nos vemos? – ele perguntou ingênuo.
Ela fez o gesto do dedo do meio e o mandou para o lugar do qual ele nunca deveria ter saído. Nunca deveria ter saído. Com certeza...
- Por favor... – ele insistiu.
- Tchau. Paga a porra da conta – ela disse antes de virar as costas e ir embora.
Ele?
Ele permaneceu no Clube Varsóvia bebendo mais uma dose da sua vodka barata e vagabunda e achando que a vida é muito mais dos que palavras mal faladas em noites mal desenhadas...
...
Pobre idiota...
...
Pobre idiota que não disse o que pensava... Simplesmente não disse efetivamente o que realmente pensava...
...




4.8.14


LUZ, CÂMERA E...

Você é linda. Linda demais – Bia pensou ainda mais uma vez enquanto ouvia o interminável monólogo de culpas e desculpas discorrido por Estela.
Linda demais para ser tão cega – completou.
- Então... – prosseguiu Estela – ... Ele veio e disse que queria muito ficar comigo. Vibrei Bia. Vibrei muito. Mal acredito que aquele “lerdo” tomou ou demonstrou alguma iniciativa. Porra, depois de todo este tempo.
- Eu também não – respondeu Bia, tentando disfarçar o desânimo. Apenas tentando disfarçar o seu desânimo. Apesar de não...
- Não é maravilhoso? – perguntou Estela, quase feito uma adolescente. Uma adorável e apaixonada adolescente apesar dos seus trinta e poucos anos.
- Sem dúvida. Sem dúvida alguma. Uma maravilha – murmurou sem força - É uma maravilha que ele deixou a “lerdeza” de lado e demonstrou interesse por você. Finalmente. Finalmente demonstrou interesse além do seu próprio pau. Espero por isso há anos – respondeu Bia, quase sem disfarçar o seu constrangimento.
- Ele é absolutamente sensacional. Adoro – disse Estela.
- Sei. É mesmo. De uma rapidez impressionante. De uma ausência de arrogância notável – respondeu Bia, sem graça, sem apetite, sem vontade, sem o menor saco.
Estela, enfim percebeu o tom das palavras ditas por Bia e a encarou com um misto de surpresa e reprovação. Não entendeu de imediato o que estava acontecendo. Ficou confusa – O que é que há Bia? O que é que há? Qual o problema? – perguntou ríspida.
Bia respondeu com um olhar constrangido. Surpreso pela perspicácia de Estela. Apenas respondeu seca – O quê? Não entendi Estela. O que disse? – retrucou.
- Porra, o que é que há? O seu tom de voz, o seu desdém, a sua má vontade. Este tom de ironia. Qual o problema? Estou te contando algo muito importante que estou sentindo e você parece que está pouco se lixando. Não estou entendendo. De verdade não estou entendendo nada. Não parece você. Mesmo – afirmou.
Sou eu mesmo. Sou exatamente assim. Dissimulada – pensou Bia antes de responder mentindo – Nada. Nada fiz Estela. Pára de paranóia. Por favor. Está ficando louca. Completamente.
- Tem certeza? – Estela perguntou novamente com o ceticismo pulando à sua voz e com ainda mais raiva.
- Tá tudo bem – respondeu Bia, sem firmeza alguma – Tudo bem. Estou cansada apenas. Apenas cansada.
- Ok – respondeu Estela – Vai sair hoje? – prosseguiu.
Bia balançou a cabeça e respondeu – Não. Vou ficar em casa e arrumar umas coisas. Uns discos velhos, uns HDs antigos, umas drogas antigas, enfim, limpar a bagunça. Está tudo muito desorganizado – inclusive os pensamentos – pensou em silêncio.
Estela assentiu com a cabeça e disse – Ok. Bem, eu vou sair com ele. Espero que seja legal. Fique bem tá? Acho que está na hora de você ir. Preciso me arrumar e tals – afirmou.
- Com certeza. Preciso ir mesmo – Bia disse.
- Bem, nos falamos depois né? – perguntou Estela.
- Claro, com certeza.
E despediram-se...
Definitivamente.
Ao deixar o prédio debaixo da garoa fria da grande cidade naquele Sábado á noite, Bia acendeu o seu Marlboro Light e pensou como a vida muda rápido demais e todos mudam rápido demais e como o silêncio lento demais sobre os sentimentos conseguem mudar uma vida. Simplesmente mudar completamente uma vida. A sua própria vida.
E depois, alguém vai falar que é destino...
Claro que não.
Claro que não.
É apenas medo. Apenas medo...




28.7.14


QUANDO O REFLEXO NA JANELA DE UM ÔNIBUS VELHO E SUJO REVELA A SUA VIDA SEM VOCÊ DESEJAR. SEM VOCÊ DESEJAR...

Manhã de segunda feira de julho em São Paulo.
Maldita manhã de segunda feira em São Paulo. Em qualquer lugar do mundo.
Maldita manhã de segunda feira em qualquer grande cidade de qualquer lugar do mundo.
Manhã de segunda feira cinza, chuvosa e fria. Muito fria. Fria demais.
Ninguém, mas ninguém no mundo merece uma segunda feira de manhã cinza, fria e chuvosa demais. De verdade. Do fundo do meu coração não desejo isso a ninguém.
E, de bobeira, em um ato de verdadeira idiotice, percebi o reflexo do meu próprio rosto na janela do ônibus em que eu estava e que rasgava insano, em alta velocidade, aos trancos e barrancos e sem medo, a Avenida Francisco Matarazzo, zona oeste de São Paulo.
E fiquei perplexo com a pequenez do que vi. Perplexo. Perplexo demais com tamanha pequenez.
O que vi não ajudou em nada a minha vida, a minha esperança, a minha perspectiva de um futuro melhor. Ah, futuro melhor... Só rindo mesmo.
Vi e percebi apenas um velho homem gordo com uma barba ridícula, com muito poucos trocados no bolso e muita decepção no coração.
Muita decepção.
Muita.
Mesmo.
Quando eu tinha vários cartões de crédito eu era notado por todos. Por todos. Sem exceção. Quando eu tinha um computador, meu Facebook era lotado. Cheio de inúteis que sequer sabem o número do meu telefone para me dar os parabéns no dia do meu aniversário. Sequer sabem que telefone é para FALAR com alguém e não ficar apenas em aplicativos imbecis e sem graça que levam o “nada” a “lugar nenhum”. Quando eu tinha um carro, ele ia e vinha por todos os cantos da cidade, sempre cheio de gente. Sempre cheio de gente. Sempre. Gente de todos os tipos, de todas as cores, com todas as flores. Sempre cheio. Até de desconhecidos. Mas isto quando havia um carro, vários cartões de crédito e um notebook. Hoje? Não. Hoje não há mais nada disso e quase nuinguém. Há apenas um reflexo na janela de um ônibus sujo e bem vazio que te leva para casa numa manhã de segunda feira fria, chuvosa e cinza. Mas casa? Casa? Porra, casa também não há mais. Claro que não. Há um lugar, ainda bem, aonde consigo me abrigar da chuva, do sol, da noite, do frio, enfim, um lugar qualquer. Mas não é o meu lar. Definitivamente não é o meu lar. Aliás, hoje em dia, lugar nenhum é o meu lar, mas Deus (se é que isto existe) ajudou-me e consigo ao menos abrigar-me da chuva, do sol da noite, do frio, enfim, de muitas coisas, inclusive da falta de perspectiva (só não da minha imbecilidade).
Quando eu era alguém, há muito tempo atrás, quando eu não era mentiroso e canalha, quando tinha um carro, cartões de crédito, uma porra de um notebook e podia decidir alguma coisa, sempre havia alguém me bajulando. Sempre. Claro que sim. Para o bem ou para o mal. Hoje? Nada disso. Restou apenas uma porra de um reflexo embaçado em um ônibus velho e sujo. Apenas isso.
O reflexo de um mentiroso e de um homem velho que errou muito. Errou mais dos que devia. Muito mais do que devia e podia.
E não fosse uma pequena pessoa que ainda acredita em mim (ingênuo ainda, claro, pois logo vai adquirir discernimento e perceber a verdade e entender o que todos entendem sobe a minha pessoa e, óbvio, me deixar de lado), talvez este texto estivesse onde merecia estar: no limbo, sem ter sequer sido escrito...
Manhã de segunda feira.
Manhã de segunda feira cinza, chuvosa e fria. Muito fria. Fria demais.
Ninguém, mas ninguém no mundo merece uma segunda feira de manhã cinza, fria e chuvosa demais. De verdade. Do fundo do meu coração.
E, de bobeira, em um ato de verdadeira idiotice, percebi o reflexo do meu próprio rosto na janela do ônibus em que eu estava e que rasgava insano, em alta velocidade, aos trancos e barrancos e sem medo, a Avenida Francisco Matarazzo, zona oeste de São Paulo.
O que vi?
A mim mesmo... Talvez o maior erro da minha vida, pois odiei o que vi e amei o que lembrei, porém, detestei o que pressenti que há por vir.
Simplesmente detestei o que há por vir...
Do fundo do meu coração eu simplesmente detestei o que vi, pois não há felicidade quando o reflexo na janela de um ônibus velho e sujo revela a sua vida. O inteiro desperdício da sua vida. O inteiro desperdício da sua própria vida, a não ser por um pequeno ser que ainda acredita ser possível ser feliz ao meu lado... Pobre tolo.
Manhã de segunda feira...
Insuportável presságio de um dia ruim...
E no meio do desabafo, lembrei de uma velha canção do Paulo Ricardo. Quem???? Que dizia de forma megalômana e apaixonada que “Eu andei / por onde o amor me levou / eu voltei / por onde o amor me chamou / eu amei / como homem nenhum nunca amou / o amor me escolheu / logo eu / que de amor nada sei...”.
Não mesmo. Nada sei sobre amor e sequer sobre amor próprio. Muito menos sobre amor próprio. Definitivamente.
Mas, o que eu quero? O que eu quero?
Um copo de vodka? Não, claro que não, pois esta escolha já me tomou muita coisa. Muita coisa mesmo. A minha própria vida.
Quero apenas um copo de água e um dia de sol e que aquela pequena pessoa que mencionei acima jamais perceba, tenha discernimento ou tenha consciência de quem eu realmente sou, fui ou sempre serei.

É pedir demais, eu sei... É pedir demais aos quarenta e cinco do segundo tempo quando a goleada contra já está formada... Pedir demais...




22.7.14


O AMOR SÓ É BOM SE DOER?

- Como assim? – ele perguntou surpreso.
Ela o olhou com dó, com pena, com compaixão, com sinceridade. Sentimentos à parte. Não respondeu. Nada. Melhor assim.
- Como assim? – ele insistiu.
- Como assim o quê? – ela perguntou, tentando disfarçar o indisfarçável. Tentando evitar o inevitável.
- Como assim, porra? Como? – ele perguntou novamente, agora visivelmente bravo.
- Assim. Simples assim.
- Assim? – ele insistiu incrédulo – Assim? Você não me quer mais e diz isto desta forma. De cara seca e lavada. Simples assim?
Ela tomou um gole do seu copo de vodka e apenas o encarou. Preferiu o silêncio.
- Assim? – ele disse surpreso.
- Assim. Simples assim. Apenas isto. Agora vamos ter uma conversa normal ou você prefere ficar neste diálogo insano e infantil? – perguntou ela após “matar” o resto da vodka em seu copo americano.
Ele suspirou e disse com fina ironia – Você é engraçada. Engraçada demais eu diria. Engraçada demais.
Ela o olhou com um misto de curiosidade e pena e perguntou distante – Engraçada? Não entendi.
- Engraçada. Apenas engraçada. Não entendo você. Ontem, hoje mesmo, estava tudo bem. Agora você me vem com esta. Cansou de mim e blá blá blá. Você é louca? – perguntou ele, num tom desesperado.
Ela disfarçou um sorriso discreto e respondeu seca – Não. Nunca fui louca. Nunca. Você é que não entende e nem quer entender os sinais. O que sinto. O que desejo. Apenas isto. Simples assim – emendou.
- Idiota – ele disse em suspiro – Imbecil. Eu te amo.
Ela levantou-se e disse áspera – Agora não adianta as suas grosserias. Nem isto. Idiota e imbecil é você.
Ele começou a chorar como um bobo e suplicou como uma criança – Não vai. Fica. Por favor.
- Não dá. Você sabe. – ela respondeu não sem antes o olhar com a admiração distante gravada pelos anos juntos e foi embora. Nada disse e sequer bateu a porta.
Ele ficou lá. Sozinho e sem nada entender. Sozinho e sem nada entender, porém sabendo todos os erros que cometeu ao longo dos anos, Sabendo todos os erros que cometeu ao longo dos anos...

Simples assim...




14.7.14


SORTE OU AZAR?

Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre o bem e o mal. Entre a sorte e o azar. Entre erros e acertos. Entre o lado ruim e o lado bom. Dualidades. A vida dela. O resumo da vida dela. Um breve e apertado resumo.
Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre ela e ela mesmo. Apenas isto. Nada demais. Nada demais. Nada do que já não se viu por aí. Aos montes. Aos montes.

- Qual o seu signo? – ela perguntou temendo ser tola ao cubo.
- Câncer – ele respondeu acreditando na sua tolice ao cubo – Isto faz alguma diferença? – provocou.
Ela sorriu e disse – Claro que não. Claro que não. Adoro homens de câncer – mentiu.
- É? – ele perguntou incrédulo – E quais as qualidades deles? Dos homens deste signo?
Ela sorriu sem graça e respondeu direta e reta – Nenhuma. Nenhuma. Precisa ter alguma? – perguntou – As qualidades aparecem – finalizou.
Ele apenas balançou a cabeça. Nada disse. Apenas sorriu.
Ela também.

Sorte? Azar?
Erros? Acertos?
Signos? Crenças?
Nada disso.
A vida dela era um eterno confronto entre o bem e o mal. Entre signos dispersos e confusos. Entre a sorte e o azar. Entre erros e acertos. Entre o lado ruim e o lado bom. Dualidades. A vida dela. O resumo da vida dela. Um breve e apertado e feliz resumo.




12.7.14



CAFÉ RALO


Alta madrugada. Chovia demais. Muito mesmo e ele, bem, ele estava em um bar qualquer no centro velho da cidade. Sozinho para variar. Sozinho naquela alta madrugada. Sozinho, como sempre. Sozinho como nos últimos dias, nos últimos tempos, nas últimas noites. E chovia muito lá fora e ele apenas deixava o tempo passar observando a xícara lascada à sua frente com um café vagabundo, morno e rarefeito que ele conseguia engolir apenas pelo vício inexplicável em cafeína. Cafeína e cigarros. Sem mais álcool ou qualquer outra forma diferente de fugir. Apenas cafeína e cigarros. Foi o que restou. E ele estava em um bar qualquer no centro da cidade. Insônia pesada e ele, tolo, apenas AINDA insistia em pensar no que fazer, para onde ir, como conseguir consertar as coisas que quebrou ao longo do tempo. Bobagens cotidianas que não pagam as contas (muitas, aliás) e não resolvem porcaria nenhuma na vida de um sujeito normal. Sérias bobagens cotidianas. Falar em sair do buraco é fácil. Difícil é realmente conseguir. Muito difícil – ele costumava pensar. Otário. Fraco. Porém os seus devaneios “adolescentes” foram interrompidos ao perceber uma voz forte e grave emanada em alto tom ao lado direito do balcão do bar.

- Boa noite seu João querido. Tudo bem? Que noite dos infernos para trabalhar não? Ai que porre. Assim os clientes fogem. Quero morrer – disse um travesti alto, todo ensopado e todo montado em mínimos trajes de cor vermelha e longos cabelos descoloridos – Me dê um café seu João, por favor? Mas um café decente e não aquilo que o senhor serve todas as noites – continuou a alegre figura, íntima do ambiente e conhecedora do horroroso café daquele bar.

Ele desviou o olhar e finalizou o seu café. Acendeu um cigarro.

Ela virou-se para ele enquanto se secava com parcos guardanapos de papel e disse – Hey gatão, tomando o café do seu João? Corajosa a criança, hein? Gosto muito disso. Homens corajosos sem medo do perigo. Gosto muito. Prazer, meu nome é Sam.

Ele apenas assentiu com a cabeça, sorriu sem graça e nada disse.

- Um gato comeu a língua do gato? – perguntou irônica a inusitada Sam.

Ele a olhou com serenidade e respondeu – Não. É que não tenho nada a dizer agora Sam – completou.

Ela olhou para o alto e disse em um tom de voz meio masculino, meio feminino, meio nada a ver – Ai céus, que porre. Que ausência de vontade hein, meu gato? Que saco. Fica aí, como um bebê chorão, olhando para as xícaras sujas e tomando o café horrível do seu João.

- Ei - interrompeu o seu João – O meu café não é tão ruim assim. Que absurdo. Que esculhambação – reclamou.

Sam olhou para o alto, levantou as mãos bem cuidadas e repletas de anéis, deu uma leve bufada e respondeu – Ok, seu João, ok. O seu café é uma delícia. O melhor do centro velho da cidade. Um café gourmet. Não vivo sem ele. Se eu não trabalhasse aqui em frente, ainda assim iria vir todas as madrugadas só para degustá-lo – brincou.

Seu João grunhou qualquer palavrão e saiu de cena. Ele apenas riu da situação.

- Olha meu gato – retomou Sam, enquanto dava o primeiro gole em seu café – Nem vou te oferecer um programinha porque já vi qua a tua onda é outra e teu baixo astral está demais. Isto pega. Quero distância.

- Sei – ele respondeu – Agradeço.

- Então, mas um conselho eu posso te dar. E que se dane quem fala que conselho não se dá – Sam disse segura.

- Ok – ele respondeu – Pode aconselhar. Pior não fica. Pode apostar.

Sam o olhou de frente e apenas disse – Volta logo para ela gato. Resolve este nó que está por aí neste teu peito flácido e vai embora. Pára de ficar tomando café em botecos sujos apenas pensando nela e na sua vida. No que poderia ser que não foi. Pára de lamentação. Vai logo resolver a tua vida e mexe esta bundinha. Gostosa, aliás – emendou - Anda para frente porra – finalizou antes de “matar” em um gole a sua xícara de café.

Ele a olhou com surpresa e nada respondeu.

- Bem, meu amor, já tomei este café horrível e estou pronta para acabar este inferno de madrugada. Vamos à luta. Fica bem meu bombom. Pára com esta cara. Ninguém tem pena de ninguém. Seu João, eu deixei o dinheiro aqui em cima do balcão – completou aos gritos, saindo para a rua com o seu guarda chuva também vermelho.

Ele ficou ali, como um bobo, olhando Sam sair debaixo da chuva e sem saber como ele poderia ser tão transparente para um desconhecido e tão fechado para quem verdadeiramente amava.

Otário.

Acendeu mais um Marlboro e decidiu ir embora. Decidiu parar de tomar café naquela madrugada em um café no centro velho da cidade e decidiu uma coisa. Mexer a sua bunda. Mexer a sua bunda. Mesmo embaixo da tempestade e seja para que lado for...

 

 


 

 

7.7.14


SURPRESAS... SURPRESAS...

Ela estava triste. Muito triste. E cá para nós, ninguém pode se permitir ser triste no verão. Não no verão. Você pode ser triste em dias cor cinza, em dias chuvosos, em dias solitários, em dias cruéis, mas não no verão. Nunca. Nunca no verão. Mas ela, coitada, estava triste. Muito triste. Mesmo em pleno verão. Até o telefone tocar.
- Alô – atendeu sem a menor vontade, sem o menor saco, sem a menor amizade, achando ser, mais uma vez, algum representante do seu banco cobrando o cheque especial já estouradíssimo antes de o mês começar.
- Leca? – perguntou a suavemente rouca e doce voz feminina do outro lado da linha.
Leca suspirou sem paciência e respondeu rude – Você que me ligou. Com quem quer falar?
- Oi Leca, sempre a mesma, hein? A aspereza em forma de mulher. Sempre armada – brincou a voz doce do outro lado antes de dizer – Sou eu, a Bia. Esqueceu da minha voz?
Um arrepio atravessou as costelas de Leca. Um arrepio intenso e devastador. Como ela não havia reconhecido aquela voz? Como? Como não desligou imediatamente? Como? Permaneceu em silêncio.
- Então Leca, não vai dizer um “alô” sequer? – perguntou Bia, atrevida e provocante.
- Oi Bia – respondeu Leca após um breve suspiro e tentando disfarçar a voz trêmula e hesitante – Tudo bem com você? – perguntou sem vontade.
- Tudo excelente. Tudo excelente. Verão, não é? Dias de alegria, sorrisos e felicidades. Muitas felicidades e coisas boas.
Leca olhou para o teto quase em desespero e disse – Não sei. Não sei. Não acho tudo isso não. Acho um porre tais alegrias forçadas. Verão? Que se dane – prosseguiu.
Bia sorriu alto ao telefone e emendou com carinho – Eu sei querida, eu sei. Você sempre odiou o Reveillon. Lembra? Costumava odiar a obrigação de ser ou estar feliz na data. Lembra?
Os olhos de Leca ficaram repletos de lágrimas, porém ela segurou a onda no timbre de voz – Claro que lembro Bia. Claro que lembro. Você lembra que uma viagem de Reveillon foi a nossa última? A nossa última viagem. Não chegamos ao próximo Carnaval. Lembra? Você e aquela sua maldita banda animando bêbados imbecis na praia. Lembra?
Bia prendeu a respiração e nada disse. Tentou conter-se ao rever o filme em sua mente.
- Então? – prosseguiu Leca – Você é que não vai me dizer nem um “alô” agora? O que houve? – perguntou ácida – Não quer falar?
Bia suspirou e disse com calma – Escute Leca. Deixa isto para lá agora, por favor. Quero te fazer um convite. Apenas isto. E só podia ser assim, te ligando de surpresa mesmo, pois de outra forma você não iria nem me responder.
- Um convite? – perguntou Leca – Sobre?
- Amanhã, às onze da noite vai ter a festa da Eduarda no Clube Varsóvia...
- E? – interrompeu Leca
- Gostaria muito que você fosse. Muito mesmo.
- Eu? No Clube Varsóvia depois de todo este tempo? Ainda mais com você por lá? – perguntou com fina ironia Leca.
- Exato. Comigo lá.
Leca gargalhou ao telefone e respondeu – Nem sonhando. Esquece – respondeu.
- Por favor, Leca – insistiu Bia – Tem uma surpresa para você. Uma surpresa muito grande. Gostaria muito que fosse.
- Olha Bia, vou pensar ok? Não garanto absolutamente nada. Sequer se estarei viva amanhã. Sequer isto.
- Por favor. – insistiu Bia – Por favor. Pensa com carinho. É muito importante, mas muito importante mesmo. Para nós.
Leca respirou fundo, indecisa. Apenas respondeu – Ok Bia. Vou pensar. Vou pensar.
- Beijo meu amor – disse Bia antes de desligar.
Leca nada respondeu.

Leca pensou?
Muito e muito e muito. Insana, sozinha e em claro.
Bia acreditou?
Bastante. Com muita esperança. Insana, sozinha e em claro.
Leca foi?
Não. Claro que não.
Bia chorou?
Horrores. Claro que sim.
A surpresa?
Leca jamais soube. Leca jamais soube e até o fim corroeu-se por isso. Maldito orgulho.
A supresa?
Bia jamais contou. Maldito orgulho.
E elas?
Bem, elas jamais se falaram novamente. Jamais se falaram novamente...