22.12.11

TEMPESTADES DE NATAL

Ela acordou de repente, com um grito. Era madrugada e ela acordou absolutamente assustada. Estava suada e sua cama completamente encharcada. Suor frio. O pesadelo havia sido insano. Era preciso ter nervos de aço para dormir naqueles dias. Nervos de aço. E ela levantou da cama tremendo. Foi direto para a cozinha, se é que há diferença entre o quarto e a cozinha naquela porra de apartamento em que ela morava. Ou se escondia? Ao lado do filtro de água pegou um copo americano. Abriu o armário e encheu de conhaque. Não conhaque dos bons, claro. Ela não tinha grana para este tipo de luxo. O máximo que ela conseguia comprar era algum destilado vagabundo, sempre dos mais baratos. Sempre dos mais escrotos. Seu fígado já nem se importava. Ele estava pouco se fodendo com o líquido, o cérebro queria o efeito. Sentou à mesa e pegou seu maço de cigarros. Os cigarros sim, mais caros do que o usual. Morrer de tédio ou morrer de vodka barata ok, mas se é para morrer de câncer causado por cigarro, que seja causado por cigarro bom – ela costumava pensar, sem o menor sentido ou lógica. Totalmente idiota. Acendeu o seu Marlboro e percebeu que estava uma tempestade lá fora. Uma tempestade de verão daquelas que sempre afundam São Paulo. Por sorte é de madrugada – ela pensou – Se fosse durante o dia foderia ainda mais a minha vida – ela pensou, lembrando do trabalho com salário vagabundo, do metrô, da sua rasa rotina. Enquanto tragava o cigarro e tomava o conhaque lembrou do pesadelo que a havia acordado. Tremeu novamente. Sentiu medo por estar naquela situação, sem perspectiva alguma, sem noção de para onde ir. Decidiu usar o único bem precioso e de algum valor que possuía: o seu Ipod. Um antigo, claro, presente da sua mãe em algum lugar do passado. The Clash era o que restava aquela noite. Nada de músicas tristes ou melancólicas, pois morava no décimo sexto andar e não estava com a menor vontade de a vizinhança e seu Genésio, o porteiro, verem como eram os seus miolos e seu corpo espatifado por dentro. Não queria ser notícia em vagabundos programas policialescos. Tomou o conhaque, fumou seu cigarro, ouviu sua canção até o fim. Levantou em silêncio da cadeira da cozinha pronta para tentar voltar a dormir. Lembrou, porém, que o Natal era na semana que vem e que a única companhia que teria seria a de Papai Noel e, talvez Rodolfo, a rena do nariz vermelho, pois o seu amor já não a amava mais e sua família morava em outro Estado. Amigos? Não lembrava quais. Pegou mais um bocado de conhaque barato, sentou novamente na cadeira velha, acendeu um cigarro e ligou o seu Ipod. Começou a chorar compulsivamente, quase gritando. Desejou ardentemente aquela noite, mais do que quando era aquela criança com sonhos que havia deixado de existir, como seria bom ter por perto Papai Noel e Rodolfo, a rena do nariz vermelho.

E a tempestade não passou...

20.4.11

MEDO? MUITO!

Sinto um breve sopro de medo e desespero a me corroer o peito. Um breve, porém profundo, sopro de medo e desespero. Medo. Medo de encarar a minha própria vida e todas as bobagens que dela fiz. Medo de encarar o espelho, de frente, e perceber que do alto de todos os meus anos vividos, não fui capaz de manter a verdade como a linha mestra dela. Como a guia. Como o farol a iluminar cada passo dado no escuro. Sinto um breve sopro de desespero a me corroer o peito. Aquele desespero que muito embora desperta uma vontade absurda de correr sem parar para qualquer lado, mas que, na verdade, te deixa apenas imobilizado, estático, congelado, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Sinto medo e desespero com a mesma frequência com que respiro. Uso e abuso do álcool das drogas, do cigarro, da mentira. Subterfúgios e desculpas. Não consigo encarar os que amo. Sinto como se minha vida fosse uma fraude bem arquitetada pelo destino. Uma fraude bem arquitetada pelo tamanho, porém uma fraude grosseira e equivocada, pelo objetivo. Penso que deveria me arrepender e começar tudo de novo. Penso e, sinceramente, acho isso mesmo. Se fosse possível um botão de recomeçar, certamente, ele seria bastante amado neste exato momento. Bastante querido. Objeto de desejo dos fracassados, dos derrotados, dos mentirosos, dos ladrões, dos sujos, dos feios, dos malvados. Penso que eu deveria tentar recomeçar. Recomeçar. Recomeçar? Errar de novo ou realçar os acertos, porque sim, também, nem tudo foi escuridão e desastre. Nem tudo. Poucos e esparsos acontecimentos que me ocorrem agora são dignos de nota e orgulho. Poucos. Poucos e esparsos. Marcantes momentos. Engraçado isso, aliás. Como é possível sua vida ser um desastre no cômputo geral, porém ter momentos de brilho e delícia bastante pontuais, inimagináveis na vida de qualquer outra pessoa? Como? Seria uma armadilha do destino, apenas com o intuito de nos deixar confusos e atarantados, para nos deixar com medo de atitudes temerárias e atrapalhadas? Penso que não sumo daqui, numa viagem sem fim ao deserto de Mojave, porque sei que talvez existam duas ou três pessoas nesta terra que, de verdade, sentirão minha falta, minha ausência. Gosto de pensar que minha voz, em algum momento, cria uma fagulha de alegria em alguém perdido por aí. Creio, ou quero crer, que minha presença alegra os olhos de alguém, por alguns instantes, por alguns segundos. Aquele breve momento de alegria que você demonstra, ao ver um rosto conhecido. Penso que, no final das contas, os erros são grandes e severos, porém menores do que os acertos. Do que os momentos mágicos que eu mencionei há pouco. Será que alguém pode ser tão geminiano a este ponto? Rejeitar seus erros de forma tão virulenta, porém desejar ardentemente repetir sua vida para gozar os acertos. Na verdade, todos são assim. Acredito que todo ser humano desejar refazer sua vida. Refazer sua vida e apagar os erros grosseiros, as mágoas que provocou, as mentiras que contou, os amigos que abandonou, os beijos que não deu, as pessoas que enganou, enfim, apagar o que deu errado. No fim, a madrugada é a melhor amiga. Quieta e serena, não julga. Quieta e serena, não julga. Apenas observa e sussurra entre o vento que sopra pelas frestas das janelas do apartamento vazio, qual o melhor caminho a tomar. Qual o melhor caminho a tomar. O resto? Bem, o resto é por nossa conta. Apenas por nossa conta.