22.1.10

IMPROVÁVEL CENA

- Você é um tremendo babaca, sabia? – Aline disse, com uma raiva enorme contida na entonação de cada sílaba.
Ele ficou em silêncio. Um derrotado em um cenário absolutamente inacreditável. Uma praia em um dia de verão.
- Um tremendo idiota. Eu devia desistir de tudo e mandar você para o inferno. Não sei a razão de eu insistir tanto.
- Desculpa, Aline – Pedro disse, em um tom baixo e arrependido.
- Desculpa? Desculpa? Desculpa a puta que o pariu. Você sempre fode com tudo, com estas besteiras que vive dizendo. Pára de pensar que o mundo gira ao seu redor. Pára, por favor. Eu estou de saco cheio disso. De saco cheio, entendeu?
- Entendi. Quer um sorvete? – perguntou Pedro, de forma quase infantil.
Aline pôs as mãos na cabeça e achou que estava vivendo uma viagem lisérgica, repleta de coelhos, Alices, chapeleiros malucos, elefantes coloridos, e Pedros tresloucados.
- Quer? – ele insistiu.
- Quero, vai. Você vai querer de qual sabor? – Aline perguntou.
- Baunilha e você?
- Pega um de morango para mim, vai – ela pediu, fazendo um carinho nos seus cabelos quase raspados.
E, olhando para aquele adulto que mais parecia um garoto medroso, Aline percebeu que, na verdade, o medo dele era apenas uma desculpa. Uma desculpa de mau gosto para alguém que estava com problemas para viver a vida. Problemas para viver a vida. E decidiu, de forma certa, que ele era, mesmo, o grande amor da sua vida...

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