28.1.10

QUANDO OS RETRATOS CAUSAM DOR


- Moça, moça? – perguntou o taxista enquanto Lia descia do seu carro.
- Sim – ela respondeu, desinteressada.
- Isto é seu? Acho que você deixou aqui no banco de trás – o taxista, gentil, perguntou, segurando um pequeno retrato em preto e branco, todo amssado, de um carinha todo metido a bonito.
Ela olhou para o taxista com constrangimento. Não pôde evitar as lágrimas surgirem em seus olhos. Não pôde evitar a consternação e a raiva. Simplesmente não pôde.
- É da senhora? – o taxista perguntou novamente.
- Não – ela respondeu seca e rude – Não é não.
- Estranho. Achei que fosse. Costumo sempre dar uma olhadinha no banco de trás quando um passageiro sai do meu taxi, para evitar que eles percam as coisas. Esta foto não estava aqui, não. Mas tudo bem. Obrigado moça – concluiu, fechando a porta e acelerando em direção a novos caminhos.
Lia ficou estática enquanto o táxi partia. Viu o veículo branco desaparecer entre os outros carros da avenida e não se moveu.
Pensou em como era idiota. Como era babaca em achar que ele – o carinha do retrato – pudesse durar para sempre na sua vida. Pensou em como era imbecil e lembrou da cena patética dele comendo aquela garota no estúdio, bem ao lado da sua guitarra. A guitarra que ELA, Lia, havia dado a ele.
Começou a chorar discretamente enquanto caminhava. Queria apenas que estivesse chovendo. Assim, ficava mais fácil esquecer que estava chorando. Muito mais fácil.

22.1.10

IMPROVÁVEL CENA

- Você é um tremendo babaca, sabia? – Aline disse, com uma raiva enorme contida na entonação de cada sílaba.
Ele ficou em silêncio. Um derrotado em um cenário absolutamente inacreditável. Uma praia em um dia de verão.
- Um tremendo idiota. Eu devia desistir de tudo e mandar você para o inferno. Não sei a razão de eu insistir tanto.
- Desculpa, Aline – Pedro disse, em um tom baixo e arrependido.
- Desculpa? Desculpa? Desculpa a puta que o pariu. Você sempre fode com tudo, com estas besteiras que vive dizendo. Pára de pensar que o mundo gira ao seu redor. Pára, por favor. Eu estou de saco cheio disso. De saco cheio, entendeu?
- Entendi. Quer um sorvete? – perguntou Pedro, de forma quase infantil.
Aline pôs as mãos na cabeça e achou que estava vivendo uma viagem lisérgica, repleta de coelhos, Alices, chapeleiros malucos, elefantes coloridos, e Pedros tresloucados.
- Quer? – ele insistiu.
- Quero, vai. Você vai querer de qual sabor? – Aline perguntou.
- Baunilha e você?
- Pega um de morango para mim, vai – ela pediu, fazendo um carinho nos seus cabelos quase raspados.
E, olhando para aquele adulto que mais parecia um garoto medroso, Aline percebeu que, na verdade, o medo dele era apenas uma desculpa. Uma desculpa de mau gosto para alguém que estava com problemas para viver a vida. Problemas para viver a vida. E decidiu, de forma certa, que ele era, mesmo, o grande amor da sua vida...
A VOLTA

É difícil voltar. Difícil mesmo.
É difícil voltar a escrever como antes. Muito difícil.
Eu costumava escrever demais. Escrevia muito, muito, muito. Cheguei a postar contos quase diariamente durante algum período. Sim, durante algum período consegui esta façanha. E adorava fazer isto. Talvez a coisa mais importante da minha vida. A coisa mais realizadora. O ato mais feroz e feliz. Acontece que as coisas mudam, nós envelhecemos, e a vida passa a ser cada dia mais selvagem e cruel, absolutamente cruel. Pensei e pensei e pensei e cheguei a conclusão de que devia me afastar de tudo. Me afastar dos meus escritos, dos meus contos, do Clube Varsóvia, enfim. Nunca consegui deletar todo este blog, embora tenha tido vontade inúmeras vezes, desde que parei de escrever. Pensei, pensei e pensei muito de novo e cheguei a conclusão de que sou forte. Desatei alguns nós importantes e difíceis e voltei a ser leve e solto. Voltei a ser feliz com pequenos prazeres. Decidi voltar. E mais forte e melhor. E embora meus contos sejam risíveis, espero que me aceitem de volta. Vai ser um prazer imensurável voltar a este universo. Conto comigo mesmo e com vocês. Welcome 2010.