30.6.09

CIRCO DE HORRORES



Boa noite, senhoras e senhores, boa noite.
Sejam bem vindos ao maior espetáculo da Terra.
O espetáculo mais aguardado de todos os tempos.
O espetáculo mais esperado e desejado por todos.
Um espetáculo de dor, suor e verdade.
Um espetáculo desastroso. Difícil de assistir.
Um espetáculo que causa asco a vencedores de toda sorte.
Boa noite senhoras e senhores, jovens e crianças.
Boa noite a todos os presentes.
Boa noite e agradeço, desde já, o estômago forte de vocês.
Estômago forte para fortes.
Sacos de avião para os fracos.
Fracos não têm vez na representação da patifaria e da idiotice, neste espetáculo de erros e erros e erros.
Poucos acertos.
Circo de horrores.
Peep show desastrado.
E digo isto uma vez que o astro principal de tal espetáculo ignóbil é um imbecil. Um tolo. Um desqualificado, sem coração, sem sangue nas veias, sem lágrimas nos olhos. Sem nada que possa ser aproveitado, sem nada que possa ser elogiado. Sem sexo, sem nexo, sem causa. Sem nada atraente. Absolutamente nada atraente.
E o circo esta noite não traz nenhum palhaço, nenhum domador, nenhum engolidor de espada ou mesmo equilibrista. Ninguém que possa causar risos e gargalhadas ou admiração e inspiração. Vamos rir da vida errada representada neste palco.
Vida repleta de desprezo a tudo.
Vida repleta de escolhas erradas.
Vida.
Boa noite senhoras e senhores.
E me desculpe, mais uma vez, por apresentar isto a vocês: ou seja, EU...


...

Ele acordou com a boca seca e uma dor de cabeça dilacerante.
Não podia acreditar que tinha bebido tanto na noite anterior. Seu pulmão parecia um trator velho. Repleto de fumaça de cigarros baratos.
Pôs-se em pé e caminhou com dificuldade até a cozinha. Bebeu dois copos americanos de água, como se fosse um beduíno.
Foi até a sala e viu o pequeno pedaço de papel.
Leu as palavras (mal) escritas durante seu porre solitário.
Colocou na vitrola um vinil dos anos oitenta, daqueles que causam enfado nos adolescentes de hoje.
Sentou perto da janela, esperando que o sol espancasse o seu rosto barbeado e sujo da manhã.
Chorou como uma criança boba.
Decidiu que não teria mais este sonho.
Decidiu mudar o espetáculo.
Fosse o que fosse necessário.
Fosse o que fosse necessário.

16.6.09

OS PEQUENOS MILAGRES DE SÃO JORGE. PEQUENOS?



- Lembra? - ela perguntou, com um sorriso feliz.
- Do que, exatamente? Ando bebendo tanto que minha memória dissolveu de vez - ele retrucou, divertido.
- De quando nos conhecemos? Lembra?
Ele sorriu por um tempão e ficou olhando para aquela garota linda, ao seu lado. Simplesmente a sua melhor amiga.A pessoa com quem ele mais se importava.
- Lembra ou não, porra? - ela perguntou ríspida, exibindo a total falta de paciência. Típica.
- Claro que lembro - ele respondeu - Claro que lembro. Clube Varsóvia e o Edu nos apresentou.
- Sei.
- Claro que sabe, você queria dar para ele.
- Tonto.
- Queria sim.
- Imbecil.
- Deixa isso para lá. O que você quer saber exatamente, tirando o porra do Edu? - ele perguntou, curioso com a pergunta.
- Estávamos no Varsóvia e você me disse algo que achei tão curioso para o lugar, para o momento, para tudo o que acontecia naquela hora.
- O quê? - ele perguntou - O que eu disse de tão formidável e extraordinário assim?
- Falávamos sobre alguma coisa do meu "trampo", alguma reclamação minha usual e você, lívido e cara de pau com uma desconhecida, simplesmente disse que a culpa era toda minha. Exclusivamente minha. Isso sem nem me conhecer.
- Sempre é - ele sorriu contente, lembrando exatamente de cada momento e de cada detalhe daquela cena. Podia jurar ainda sentir, mesmo depois de tanto tempo, o perfume doce dela lutando contra a fumaça ostensiva e predominante do Varsóvia.
- Você disse - ela prosseguiu - "Culpa sua. Devia fazer como eu e acender uma vela para São Jorge todas as manhãs. Uma pequena vela azul. Aroma de alcaçuz. Eu faço isso todos os dias, de verdade, e me sinto aliviado e protegido. Pequeno ritual particular. Pequeno e sagrado ritual particular. Veneno anti-reclamações".
- Lembro que fiquei espantada e perguntei a razão de São Jorge. Você foi simples e direto, cantarolando uma canção - "Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem, para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam, para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem..." Ela prosseguiu - Eu confesso que achei você meio estranho e acreditei que todo este papo era apenas o resultado das cavalares doses de Jack Daniels e Coca que você ingeriu aquela noite. Não dei muita atenção, na verdade.
- E...? - ele perguntou, achando estranho o rumo que a conversa havia tomado e aquela lembrança tão antiga sobre santos e rituais e proteção em pleno Clube Varsóvia.
- Então. Não dei atenção, mas fiquei encanada. Nunca te disse nada, mas resolvi experimentar e faço o mesmo desde aquele dia.
- Faz o quê? Bebe Jack Daniels com Coca? - ele perguntou, brincando.
- Não, otário. Eu acendo uma velinha no altar ao lado da minha geladeira, saca?
- Sei - ele respondeu.
- Acendo uma velinha azul ou rosa, de aroma gostoso, e peço proteção e benção e que chegue bem ao final do dia. O meu ritual particular. Ritual de lo habitual.
- Por que nunca me disse, isso? - ele perguntou, surpreso e feliz.
- Porque guardo estas coisas comigo. Bons exemplos eu os guardo, os maus, exteriorizo - sorriu.
- Bem, mas está funcionando? - ele perguntou.
- Chegamos ao ponto que eu queria comentar - ela disse e continuou - Há alguns dias, eu fui tomar uma das famosas pílulas de sorriso que você tanto odeia.
- Ah não - ele retrucou bravo. Odiava aqueles anti-depressivos que ela insistia em tomar.
- Não, espera, espera - ela disse - Fui tomar uma das famosas cápsulas de risadas e sabe o que aconteceu?
- O quê? Que porra aconteceu que te fez lembrar tudo isso.
- Assim que coloquei o remédio na boca, olhei para o meu santo guerreiro no altarzinho. Lembrei de você naquela exata noite, me dizendo que tudo era sempre e simplesmente culpa minha. Sempre.
- E...? - ele perguntou, ansioso pela resposta.
- Ao mesmo tempo que eu pensava tudo isso, começou a tocar no mp3 a nossa canção, como mágica.
- A nossa canção?
- Isso. Aquela.
- Caralho.
- Também fiquei impressionada.
- É, eu também ficaria. Todos os pensamentos ao mesmo tempo. Tudo ao mesmo tempo. Canções surgindo do nada. Pô.
- Então joguei fora a porra das cápsulas. Tudo. Absolutamente tudo.
Ele abriu um sorriso lindo. Delicioso e lindo.
Ela continuou - Joguei tudo fora. E não tomo mais as porras das pílulas desde aquele dia. Mais de mês, já. Graças a você.
- Graças a São Jorge - ele corrigiu.
- Graças a amizade.

E eles se abraçaram como somente duas crianças felizes podem abraçar. Um dando conforto ao outro. Um confiando no outro.

E, diante de tal cena, quem será capaz de dizer que milagres não existem? Quem?

17.2.09

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS

Hoje em dia, todos os meus amigos me detestam.

Todos.

Simplesmente todos.

Hoje em dia eu tenho certeza disso. E, na verdade, são amigos porque eu ainda assim os considero. Unilateral e solitariamente, ainda assim eu os considero. Mas, triste, eu sei que apenas eu ainda os considero. No meu pequeno e inchado coração, eles ainda são meus amigos. Recuso a aceitar o oposto. Recuso a reconhecer o contrário.

Simplesmente recuso.

E o que eu fiz de tão grave?

Tudo. Simplesmente tudo.

Cometi os piores erros que se pode cometer.

Menti, fraudei, trapaceei, não fui sincero, errei, não acertei, quis, não quis, fugi, corri, zombei, deixei na mão, enfim, fiz tudo aquilo que não se deve fazer com amigos. Nunca. Nunca, nunca e nunca. E, desta forma, por óbvio que todos, mas todos os meus amigos hoje me detestam.

Amigos reais, virtuais, imaginários, inimigos, enfim, todos e todos e todos. De todos os tipos, cores, formatos, sexos e maneiras. Cometi toda sorte de crime que se possa imaginar. Cometi todo tipo de erro que se pode imaginar. Fiz tantas besteiras que não existem estrelas capazes de representar.

Exagero? De certa forma.

Realidade? Com toda a certeza.

E, na verdade, errei aqui e acolá porque quis demais e fiz de menos. A noite nunca ajudou. A minha vida nunca ajudou. Porque confusão e erros se misturam. E a noite, ah, a noite é implacável com quem erra. Implacável. A noite não perdoa vagabundos que excedem os limites, canalhas que extrapolam, idiotas que fogem, covardes que se escondem, imbecis que erram.

Alines, Alices, Gláucias, Elisas, Marias, Gustavos, Pedros, enfim, todos os meus amigos sabem disso. Todos eles sabem disso. E, portanto, não é de se admirar que todos me detestem. Hoje e por muito tempo a contar de hoje.

- Amigos? – ele perguntou, ansioso.
- Não – ela respondeu, direta.

O silêncio invadiu todos os espaços da sala. Todos os espaços.

Ele virou e saiu. E não disse nada até sair, com as lágrimas escondidas.

A palavra mais cruel e sincera desde sempre: Não.

Apenas isso: NÃO.

- Medo? – ela perguntou.
- Sim. Medo. Muito medo – ele respondeu.
- Mas, medo do quê, exatamente? – ela insistiu.

Ele ficou em silêncio e nada respondeu. Nada respondeu.

Como uma criança psicodélica, achou engraçado por alguns instantes ter o poder de voltar no tempo.

O doce e dolorido poder de voltar no tempo.

E aprender a não errar...

Aprender a não errar...

29.1.09

CORREDOR POLONÊS

O gosto do arrependimento na boca não é bom. Definitivamente não é bom. É como o gosto de sangue. É gosto amargo, um gosto azedo, um gosto forte, um gosto bobo, um gosto ruim. O gosto do arrependimento na boca não é bom. Nada bom. É o gosto do desgosto, é o gosto que não quero sentir, nem reviver. É o gosto da derrota. É o gosto da perda. É como ficar sem o grande amor, ser esquecido, ficar doente, como consultar o saldo bancário vermelho, perder tempo, como se iludir, como se perder, como ficar à margem da vida. Como ficar à margem de tudo e de todos que realmente importam. É como estar quieto, solitário e triste. O gosto do arrependimento não é nada bom. Mesmo. Talvez você ainda não o tenha sentido. Talvez. Poucos podem se atribuir esta façanha. Poucos. Mas, na verdade, talvez você ainda não tenha se dado conta de que já o sentiu, sim. Talvez você ainda não tenha percebido que todas as noites, enquanto você tenta dormir, é este gosto incômodo que o faz rolar e rolar e rolar pela cama. Insone como eclipse. Insone e desconfortável, personagem principal de um baile. O baile de carnaval dos derrotados. O baile de carnaval dos afogados. Um baile de carnaval sem pierrot, serpentina e lança-perfume. Um baile de carnaval numa quarta feira de cinzas. Inapropriado. Deslocado. Sem graça. Assim como eu. Assim como você. E, por fim, para completar, além do gosto amargo do arrependimento, a porrada se faz ainda mais louca e insana e brusca depois de toda a crueldade da palavras disparadas. Palavras disparadas sem cuidado, sem zelo, sem proteção, sem carinho, sem mentiras, sem nada que amorteça o seu impacto. Verborragia cruel e perigosa. Que machuca demais. Palavras ditas como soco inglês. Palavras ditas como se fossem um corredor polonês. Socos, chutes, pontapés e porradas. Um corredor polonês de vogais e consoantes. Corrente bomba atômica servem para a mesma coisa? Palavras também. Palavras também, meu chapa. E mesmo sendo velho demais para tudo isso que me cerca, mesmo sendo velho demais para a minha vida, o fato é que é a ela que estarei ligado até o fim de tudo. O fim do meu tudo. O meu fim. E se há drama, há verdade. Se há luz, há fumaça. Se há ilusões, há Varsóvia. Nado em águas rasas porque não sei nadar. Gostaria de poder aprender. O oceano é muito fundo para quem tem canelas longas. Fundo demais. Fundo demais...