22.10.08

PAPEL MOLHADO

Boomp3.com

- Você vai? - ele perguntou.
- Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa.
- Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei.
- Vá! – ela pediu – Vou gostar disso.
- Devo? – ele perguntou.
- Claro. Acho que deve. Mas você decide.
- Bem, então ta. Nos falamos.
- Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone.

A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu.
Ela?
Ela aguardava ele.
Ele?
Não chegava.
Ela bebia vodka.
Ele ainda não chegava.
Ela fumava cigarros e maconha.
Ele?
Claro que não.
Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio.
E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia.
Lá fora, a chuva estava infernal.
Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pára-brisa. Ligou o limpador ficou ainda mais puta “Guarda imbecil. Só um filho da puta para multar com uma chuva destas”.

Foi embora.

Ao chegar em casa, trôpega, retirou com fúria os restos de papel colados ao pára-brisa. Jogo a massa fora e sequer viu do que se tratava.
Subiu direto e jogou-se na cama como se a mesma fosse um troféu. Uma medalha de honra ao mérito por erros de amor.
E apagou rapidamente, com sua saia rodada e suas meias arrastão, tendo a certeza de que jamais o veria de novo.
Não sonhou.

Lá fora, no lixo, a mensagem contida numa massa disforme enrugada era clara. Bastante clara: “Vim. Vim, porém decidi não entrar. Prefiro você sozinha a não perto da Lu. Quero você. Muito. Pensa no que quer. Me liga amanhã. Do contrário, volto em seis meses. Madri é logo ali. Beijos enormes”.

E no resto daquela madrugada, enquanto ela dormia e ele ouvia Bowie, a chuva caía sem parar. Não mais por capricho da natureza, mas apenas por lágrimas de anjos novos manhosos. Ainda desacostumados a desencontros de amor. Insensíveis e impotentes e, principalmente, desacostumados a desencontros de amor...

15.10.08

DESENHOS RASGADOS

Boomp3.com

- Para mim? – ela perguntou, tímida.
- Sim – ele respondeu, sério.
- Abro agora? – ela perguntou novamente, segurando nervosamente o envelope em suas mãos.
- Não – ele respondeu, áspero.
- Não?
- Prefiro que não. Poupa constrangimentos, não?
- Ok. Faça-me um grande favor também. Abra o seu depois, tá? Em casa.
Ele concordou com a cabeça – Tá bem.
- Então ficamos assim? – ela perguntou.
- Sim. Ficamos assim – ele disse, evitando olhar para ela.
- Posso te dar um beijo?
- Claro – ele respondeu, abraçando e apertando os seus lábios contra os dela.
E o beijo acabou.
E ele virou e foi embora.
Sem olhar para trás.
Assim que ele saiu do apartamento, ela, trêmula, abriu o envelope.
O desenho era lindo.
Um coração partido sobre carvão e nanquim. Um coração devastado e partido. E uma frase curta: be happy | good luck.
Ela apertou o desenho contra o peito e chorou e chorou e chorou como se – definitivamente – não houvesse amanhã.
Assim que entrou no elevador, ele abriu o pequeno envelope carmim. Dentro, uma fita cassete daquelas que há tempos não se vê. Old fashion, démodé. Na capa um desenho lindo. Um coração escarlate, inteiro e pulsante, com uma frase curta: “te amo, imbecil”.
Ele socou a parede do elevador velho como uma criança mimada. Chorou e chorou e chorou como se – definitivamente – não houvesse amanhã.
E, na verdade, os sentimentos são tão intensos quando se desencontram. Tão intensos... e tristes. Extremamente tristes.