10.9.08

CARVÃO | CLEPSIDRA (O TEMPO NUNCA SE PERDE)

Boomp3.com

- Desenha algo para mim? Ela pediu, doce e tranqüila.
Ele sorriu lindo e disse – Claro. Desenho. O que a Senhorita deseja que eu rabisque?
- O que você quiser. O que te inspirar em mim. Qualquer coisa.
Ele pegou o carvão e começou a rabiscar um pedaço de papel verde que estava “largado” sobre a mesa.
Ela ficou em silêncio e olhou para ele. Acendeu um cigarro.
Ele desenhou por breves instantes, concentrado, e terminou. Abriu um sorriso imenso após jogar o carvão sobre a mesa.
- Pronto – ele disse.
- Pronto? Rápido assim?
- Exato. Rápido assim.
- Posso ver? - ela pediu, curiosa.
- Claro que pode. Mas daqui a pouco, daqui a pouco – respondeu.
- Quero um conhaque – ela pediu.
- Ótima idéia. Cigarros e conhaques combinam demais.
- E na companhia de moços lindos, combinam mais ainda – ela emendou, esperta.
- Moços lindos? – ele perguntou. Surpreso por ouvir algo assim da parte dela. Sempre tão cool, sempre tão alternativa.
Ela, por sua vez, sorriu como boba. Não sabia ser tão sincera. Nunca. Não sabia ser tão segura. Não estava acostumada a estar tão a fim de alguém. Neste panorama, sempre que dizia algo, arrependia-se imediatamente depois. Exatamente este o caso.
- Nada demais – ela respondeu – Moços lindos combinam com cigarros e conhaques. Apenas isso.
Ele entregou a ela um copo americano com conhaque e falou, tranqüilo – Adorei.
- O quê? – ela perguntou, aceitando o copo repleto de bebida.
- Ser considerado um moço lindo. Poucas pessoas disseram isso. Adorei.
- Poucas? – ela perguntou, acesa.
Ele franziu o rosto charmoso, como se estivesse fazendo uma gigantesca força para lembrar de alguma situação e disse – Para não dizer nenhuma. Não gosto de admitir assim, de primeira, minha total inaptidão em romances e relacionamentos.
- Discordo – ela respondeu – Você não parece assim tão inábil nesta matéria. Várias pessoas em comum podem confirmar.
- Você é apenas gentil. Thanks.
- O que desenhou, afinal? – ela insistiu.
Ele ficou em silêncio alguns segundos e disparou – Desenhei sua doçura.
Ela virou o copo de conhaque antes de dizer – Doçura? Como assim?
- Desenhei algo que – para mim – retrata um bocadinho de você. Seu toque, seu perfume, sua gentileza, beleza, seu talento, todas as coisas boas que você me traz, enfim, desenhei mais ou menos isso.
Ele entregou o papel verde rabiscado a ela.
Ela ficou surpresa. O desenho era o desenho da sua pequena mão direita, com todos os anéis de dedos finos.
Ele não esperou por qualquer comentário – Hoje em dia, nestes tempos de ira e fúria, nada me parece tão suave quanto a sua mão. O seu toque no meu corpo, nos meus cabelos, no meu braço, rosto, nos meus lábios, no meu pau, enfim, tudo. Tudo em mim entorpece ao seu toque. Até o coração, que você não toca, mas alcança.
Os olhos azuis imensos dela encheram-se de lágrimas absolutamente gordas. Um dilúvio de lágrimas prestes a explodir.Começou a chorar. Cry Baby Cry.
Ele sorriu como apenas moços lindos costumam fazer. Abraçou a pequena menina tão cheia de tatuagens e medos e apertou com força, com muita força, como se pudesse torná-los um corpo só.
E neste instante, a lua cheia e amarela tinha certeza de estar testemunhando uma das cenas de amor mais intensa e linda desde sempre. Uma cena de amor repleta de beijos, carinhos, toques, desenhos, pinturas, conhaques e cigarros. Uma cena de amor entre duas pessoas tão sinceras.
E sobre o piso de tacos descascados, o desenho em carvão da pequena mão da garota tatuada repousava suave.
Sobre a cama, corpos cansados descansavam sob a luz do luar.
Corpos felizes e exaustos.
Corações simplesmente apaixonados.
Surpreendentemente apaixonados.
O mundo fazendo sentido de vez, uma única vez.



(onde tenho que ir | nação zumbi)

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Aprendendo com os erros
E às vezes acertando em cheio
Por uma vida menos ordinária pintamos o chão
Por isso você é o lugar pronde sempre vou e fico
Mesmo ligando a esperança de ver
O meu mundo fazendo sentido de vez, de vez

Incompletos desejos
Aos pedaços lhe faço existir
Um dia aqui e outro ali
E com fome de tudo
Esperando a hora que diz onde tenho q ir

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Planejava fazer o batente o dia inteiro
Pra lembrar que estica o caminho
Quem manda no chão
Não atrasava mais nada além do que o tempo lhe deu
Sempre ligando a esperança de ver
O seu mundo fazendo sentido de vez, de vez