14.3.08

APAGUE A LUZ, POR FAVOR?

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Então é assim que termina? – ele pensou, enquanto a chuva desabava sobre o seu corpo inerte. Ele estava só, parado em frente ao velho apartamento deles, no Centro Velho, apenas olhando o passado.
Acaba assim? Desta forma idiota? Eu aqui, parado como um imbecil na frente da minha ex-casa, debaixo de chuva torrencial e com uma mochila cheia de livros e fotos rasgadas?

- Quer ajuda, doutor? – perguntou o porteiro, sempre gentil - Está chovendo demais e o Senhor aí, parado na “trovoada”.
- Não, obrigado Carlos. Já estou indo – ele respondeu, seco – Já estou indo.

Ficou em silêncio por alguns instantes, apenas sentindo o sabor das lágrimas e da chuva. Após tentar acender um cigarro molhado, virou e foi embora de vez daquele lugar.

E foi embora para sempre do único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente feliz. O único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente apaixonado.

...

Mas, e como começa?

Começa com um toque, com um gesto, com um olhar, com um suspiro. Começa com um cheiro, um odor, um aroma. Um perfume. Começa com um brilho, um lampejo, um desejo, uma vontade. Começa com um café, uma vodka, um cigarro. Começa com uma ânsia, uma necessidade, com um ardor, Começa com vigor e com uma querência. Querência? Querência é palavra que existe? Enfim, simplesmente começa. Começa como início. Começa como começo. Óbvio. Começa com um desespero. Começa com muita energia, sem nenhuma fobia, sem nenhum disfarce, sem nenhum fraquejo, sem nenhum mal estar. Começa como delírio. Começa como um acorde de rock, de folk, de blues, o acorde que for. Começa ao gosto do freguês, afinal, gosto não se discute. Começa como início, sem martírio, sem mentiras ou invenções. Começa como um rastilho. Começa e começa e começa. E, claro, se começa, termina. Inevitavelmente termina. E termina sempre mal. Termina com dor, termina com amargor, com revolta, com ciúme, com raiva, com angústia, medo e decepção. Termina como jamais se imaginou ao início. Termina com ofensas, com gritos, com palavrões. Sem sussurros, gemidos ou tesões. Termina sempre de forma deprimente, em aperto de mãos. Termina como não devia. Termina patético. Termina porque começou. Termina porque alguém errou. Termina debaixo da chuva em cenas patéticas testemunhadas por porteiros.

Mas... uma vez iniciado, sempre precisa terminar?

Não, claro que não.

Por diversas vezes, com diversas pessoas, em diversas ocasiões, o amor começa e nunca, mas nunca termina.

Mas isso depende de quem? Do quê? De quê?

Me diz...

10.3.08

CAMILA´s KISSES

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O Clube Varsóvia!

Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia.

Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo.

E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve.

Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida.

Mas não exatamente.

Óbvio.

Óbvio que não.

Sempre é assim. As coisas mudam.

Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda.

E muda mesmo. Para valer.

De modo implacável, cruel e até mesmo rude.

Carrinho por trás com o jogador fora de jogo.

Fratura exposta e corte na carne alheia.

No player, no game.

No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi.

Exatamente igual.

O que mudou, meus caros, o que realmente estava diferente, era ela.

Apenas ela.

Antes, uma garota doce e cheia de idéias, muito a fim de “mudar o mundo”, devastada pela falta de interesse alheia, pela falta de interesse dos outros, pela falta de paixão, de motivação, de tesão, enfim, pela falta de vida e toque e sentimento. Pela falta dos outros que refletia nela.

Agora, alguém ainda extremamente doce, porém não mais tão devastada, não mais tão aflita pela falta de interesse alheia, pela falta de paixão, pela falta de tudo dos outros.

A “falta” alheia não mais refletia nela. Não. Não mais, mesmo!

Afinal, o mundo não pode ser “mudado” assim, desta forma. Num passe de mágica. Num estalo de dedos.

Definitivamente, tudo leva mais tempo do que ela jamais sonhou.

E ela percebeu isso, com a ajuda daquele filme infantil tão repetido em sua mente.

Agora, ela quer retomar sua vida, mas de outra forma.

Agora, ela quer retomar sua vida, suas baladas, seus cigarros, suas vodkas, porém de outra forma.

Ela quer ser feliz sem pressa, pois, agora, alguém já é feliz com ela e azulejos de veludo não podem se quebrar.

- Perdida em pensamentos? – uma voz grossa, rouca, interrompeu todo aquele devaneio, trazendo-a, rápido, de volta ao mundo real.
Por Deus, ele é lindo – ela pensou antes de dizer – Não. Claro que não. Estou apenas distraída.
- Você fica linda distraída, sabia? – ele disse, sorrindo da inegável canastrice - Desculpe, já te vi no Varsóvia? – ele perguntou.
- Não. Nunca.
- Nunca?
- Não. É a minha primeira vez aqui, acredita? Adorei.
- Que sorte a minha. Posso ser um ótimo guia – ele sugeriu.
- Veremos – ela completou – Veremos.

E, no fundo, quem não quer recomeçar alguma coisa em anos bissextos?