31.1.08

DEDILHADO EM NOITE MOLHADA E FRIA
(não tão molhada e, também, não tão fria)


boomp3.com

A noite estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão molhada.
A impressão de umidade e gelo era menos real e mais fantástica.
Era conseqüência da chuva fina, porém intensa, que havia parado de desabar há pouco na cidade cinza.
O asfalto, palco, tornou-se brilhante, vivo e aceso. Um mosaico de cores e texturas. Um carrossel de delírios e reflexos.
Palco perfeito para putas, drug dealers, travestis, ingênuos, vividos, enfim, toda sorte de pessoas. Normais ou não.
O asfalto, ainda úmido, tornou-se espelho. Espelho de rostos desconhecidos, de desejos lascivos e impertinentes. Desejos típicos e comuns. Desejos devassos e sinceros.
Solidão e medo.
Medo da luz e do que se pode ver com ela.
Medo e desejo.
Enfim, a noite no centro velho da cidade cinza estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão mais molhada.
E ele, sozinho, da sacada pequena do seu apartamento observava a noite na metrópole. A noite como só percebida em filmes noir, filmes B, filmes antigos, filmes bobos, filmes p&b, filmes sobre amores desfeitos.
Ele, sozinho.
Sozinho à própria sorte. Sozinho ao próprio azar.
Na companhia dos sonhos e do medo.
Na companhia do violão clássico que rasgava o alto falante da jukebox semi-quebrada que “enfeitava” a sala única do apartamento.
E o vinil velho rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos (Deus, ainda se usa toca-discos?). Um álbum qualquer de um violonista qualquer dos anos setenta. Anos em que ele foi garoto. Anos em que ele foi feliz (talvez).
E enquanto o vinil rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos e o dedilhado do violão era implacavelmente delicioso, o pensamento dele era apenas descompassado.
Pensamentos vagabundos e desimportantes.
Pensamentos idiotas.
O cigarro, acabando.
A bebida? Não.
"Prefiro morrer de vodka do que de tédio".
Alguém disse isso, mas provavelmente morreu de vodka e de tédio.
E no meio da ciranda imbecil de pensamentos escrotos, ele percebeu a garota loira emoldurada na janela do prédio em frente ao seu.
Grata surpresa.
Delicioso presente em uma noite fria e molhada.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nada mais molhada.
Uma garota loira.
Linda.
Cabelos compridos e soltos, com o olhar perdido na cidade.
Exatamente como ele.
Viva.
Não exatamente como ele.
E ele olhou fixamente, apenas para tentar adivinhar o que ela vestia embaixo da regata. Uma calça? Calcinha? De que cor? Pijama? Nada? Que bom.
E prosseguiu na sua veloz loucura, tentando imaginar o ambiente daquela garota. Como era o seu habitat. Como era o apartamento, se ela estava sozinha, o que gostava de fazer quando estava em casa, o que gostava de ouvir, beber, fumar, etc etc etc etc etc, enfim o que ERA aquela garota.
Do nada, tudo mudou.
Ela o percebeu.
Óbvio.
Ela o percebeu ali.
Um estorvo.
Quieto. Sentado e fumando e olhando com fome em sua direção.
Ela simplesmente virou o olhar para a cidade, sem se importar com a presença dele.
Ele sorriu, idiota.
Ela o ignorou, soberba.
Ele concluiu que ela realmente devia ser linda.
Ela nem se deu ao trabalho.
E por instantes, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O violão rasgando seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e ele, queimando seus desejos.
Brusca, ela virou.
Olhou em sua direção e deu adeus com um sorriso lindo, suave e doce.
Um sorriso tenro, porém cruel.
Tortura.
Ele quis dizer qualquer coisa e ficou mudo.
Ela? Apenas se virou e entrou no seu apartamento.
Estava cansada da noite.
Ele quis gritar para ela ficar apenas ali. Parada e observando. Imóvel retrato.
Porém, ele nada disse, como sempre em sua vida.
Como em todos os momentos.
Nada de viver e tentar.
Nada.
Mais uma vez a personagem foi a noite.
Uma noite fria e molhada.
Não tão fria, repito, e também nada molhada
E novamente, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O delicioso violão clássico rasgando os seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e a cabeça queimando de desejos.
...
Ela nunca mais apareceu na porra da janela.
Ele também nunca quis se arriscar a olhar.
No final das contas, sabia que podia contar com os adoráveis sons de violão.
Adoráveis sons de violão...