22.10.08

PAPEL MOLHADO

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- Você vai? - ele perguntou.
- Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa.
- Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei.
- Vá! – ela pediu – Vou gostar disso.
- Devo? – ele perguntou.
- Claro. Acho que deve. Mas você decide.
- Bem, então ta. Nos falamos.
- Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone.

A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu.
Ela?
Ela aguardava ele.
Ele?
Não chegava.
Ela bebia vodka.
Ele ainda não chegava.
Ela fumava cigarros e maconha.
Ele?
Claro que não.
Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio.
E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia.
Lá fora, a chuva estava infernal.
Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pára-brisa. Ligou o limpador ficou ainda mais puta “Guarda imbecil. Só um filho da puta para multar com uma chuva destas”.

Foi embora.

Ao chegar em casa, trôpega, retirou com fúria os restos de papel colados ao pára-brisa. Jogo a massa fora e sequer viu do que se tratava.
Subiu direto e jogou-se na cama como se a mesma fosse um troféu. Uma medalha de honra ao mérito por erros de amor.
E apagou rapidamente, com sua saia rodada e suas meias arrastão, tendo a certeza de que jamais o veria de novo.
Não sonhou.

Lá fora, no lixo, a mensagem contida numa massa disforme enrugada era clara. Bastante clara: “Vim. Vim, porém decidi não entrar. Prefiro você sozinha a não perto da Lu. Quero você. Muito. Pensa no que quer. Me liga amanhã. Do contrário, volto em seis meses. Madri é logo ali. Beijos enormes”.

E no resto daquela madrugada, enquanto ela dormia e ele ouvia Bowie, a chuva caía sem parar. Não mais por capricho da natureza, mas apenas por lágrimas de anjos novos manhosos. Ainda desacostumados a desencontros de amor. Insensíveis e impotentes e, principalmente, desacostumados a desencontros de amor...

15.10.08

DESENHOS RASGADOS

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- Para mim? – ela perguntou, tímida.
- Sim – ele respondeu, sério.
- Abro agora? – ela perguntou novamente, segurando nervosamente o envelope em suas mãos.
- Não – ele respondeu, áspero.
- Não?
- Prefiro que não. Poupa constrangimentos, não?
- Ok. Faça-me um grande favor também. Abra o seu depois, tá? Em casa.
Ele concordou com a cabeça – Tá bem.
- Então ficamos assim? – ela perguntou.
- Sim. Ficamos assim – ele disse, evitando olhar para ela.
- Posso te dar um beijo?
- Claro – ele respondeu, abraçando e apertando os seus lábios contra os dela.
E o beijo acabou.
E ele virou e foi embora.
Sem olhar para trás.
Assim que ele saiu do apartamento, ela, trêmula, abriu o envelope.
O desenho era lindo.
Um coração partido sobre carvão e nanquim. Um coração devastado e partido. E uma frase curta: be happy | good luck.
Ela apertou o desenho contra o peito e chorou e chorou e chorou como se – definitivamente – não houvesse amanhã.
Assim que entrou no elevador, ele abriu o pequeno envelope carmim. Dentro, uma fita cassete daquelas que há tempos não se vê. Old fashion, démodé. Na capa um desenho lindo. Um coração escarlate, inteiro e pulsante, com uma frase curta: “te amo, imbecil”.
Ele socou a parede do elevador velho como uma criança mimada. Chorou e chorou e chorou como se – definitivamente – não houvesse amanhã.
E, na verdade, os sentimentos são tão intensos quando se desencontram. Tão intensos... e tristes. Extremamente tristes.

10.9.08

CARVÃO | CLEPSIDRA (O TEMPO NUNCA SE PERDE)

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- Desenha algo para mim? Ela pediu, doce e tranqüila.
Ele sorriu lindo e disse – Claro. Desenho. O que a Senhorita deseja que eu rabisque?
- O que você quiser. O que te inspirar em mim. Qualquer coisa.
Ele pegou o carvão e começou a rabiscar um pedaço de papel verde que estava “largado” sobre a mesa.
Ela ficou em silêncio e olhou para ele. Acendeu um cigarro.
Ele desenhou por breves instantes, concentrado, e terminou. Abriu um sorriso imenso após jogar o carvão sobre a mesa.
- Pronto – ele disse.
- Pronto? Rápido assim?
- Exato. Rápido assim.
- Posso ver? - ela pediu, curiosa.
- Claro que pode. Mas daqui a pouco, daqui a pouco – respondeu.
- Quero um conhaque – ela pediu.
- Ótima idéia. Cigarros e conhaques combinam demais.
- E na companhia de moços lindos, combinam mais ainda – ela emendou, esperta.
- Moços lindos? – ele perguntou. Surpreso por ouvir algo assim da parte dela. Sempre tão cool, sempre tão alternativa.
Ela, por sua vez, sorriu como boba. Não sabia ser tão sincera. Nunca. Não sabia ser tão segura. Não estava acostumada a estar tão a fim de alguém. Neste panorama, sempre que dizia algo, arrependia-se imediatamente depois. Exatamente este o caso.
- Nada demais – ela respondeu – Moços lindos combinam com cigarros e conhaques. Apenas isso.
Ele entregou a ela um copo americano com conhaque e falou, tranqüilo – Adorei.
- O quê? – ela perguntou, aceitando o copo repleto de bebida.
- Ser considerado um moço lindo. Poucas pessoas disseram isso. Adorei.
- Poucas? – ela perguntou, acesa.
Ele franziu o rosto charmoso, como se estivesse fazendo uma gigantesca força para lembrar de alguma situação e disse – Para não dizer nenhuma. Não gosto de admitir assim, de primeira, minha total inaptidão em romances e relacionamentos.
- Discordo – ela respondeu – Você não parece assim tão inábil nesta matéria. Várias pessoas em comum podem confirmar.
- Você é apenas gentil. Thanks.
- O que desenhou, afinal? – ela insistiu.
Ele ficou em silêncio alguns segundos e disparou – Desenhei sua doçura.
Ela virou o copo de conhaque antes de dizer – Doçura? Como assim?
- Desenhei algo que – para mim – retrata um bocadinho de você. Seu toque, seu perfume, sua gentileza, beleza, seu talento, todas as coisas boas que você me traz, enfim, desenhei mais ou menos isso.
Ele entregou o papel verde rabiscado a ela.
Ela ficou surpresa. O desenho era o desenho da sua pequena mão direita, com todos os anéis de dedos finos.
Ele não esperou por qualquer comentário – Hoje em dia, nestes tempos de ira e fúria, nada me parece tão suave quanto a sua mão. O seu toque no meu corpo, nos meus cabelos, no meu braço, rosto, nos meus lábios, no meu pau, enfim, tudo. Tudo em mim entorpece ao seu toque. Até o coração, que você não toca, mas alcança.
Os olhos azuis imensos dela encheram-se de lágrimas absolutamente gordas. Um dilúvio de lágrimas prestes a explodir.Começou a chorar. Cry Baby Cry.
Ele sorriu como apenas moços lindos costumam fazer. Abraçou a pequena menina tão cheia de tatuagens e medos e apertou com força, com muita força, como se pudesse torná-los um corpo só.
E neste instante, a lua cheia e amarela tinha certeza de estar testemunhando uma das cenas de amor mais intensa e linda desde sempre. Uma cena de amor repleta de beijos, carinhos, toques, desenhos, pinturas, conhaques e cigarros. Uma cena de amor entre duas pessoas tão sinceras.
E sobre o piso de tacos descascados, o desenho em carvão da pequena mão da garota tatuada repousava suave.
Sobre a cama, corpos cansados descansavam sob a luz do luar.
Corpos felizes e exaustos.
Corações simplesmente apaixonados.
Surpreendentemente apaixonados.
O mundo fazendo sentido de vez, uma única vez.



(onde tenho que ir | nação zumbi)

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Aprendendo com os erros
E às vezes acertando em cheio
Por uma vida menos ordinária pintamos o chão
Por isso você é o lugar pronde sempre vou e fico
Mesmo ligando a esperança de ver
O meu mundo fazendo sentido de vez, de vez

Incompletos desejos
Aos pedaços lhe faço existir
Um dia aqui e outro ali
E com fome de tudo
Esperando a hora que diz onde tenho q ir

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Planejava fazer o batente o dia inteiro
Pra lembrar que estica o caminho
Quem manda no chão
Não atrasava mais nada além do que o tempo lhe deu
Sempre ligando a esperança de ver
O seu mundo fazendo sentido de vez, de vez

5.6.08

POSTCARDS

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Querida Nina,
Espero que você esteja bem. De verdade eu espero.
Espero que todos os seus sonhos, desejos, vontades, tesões, delírios, viagens, enfim, toda a sua VIDA esteja – definitivamente – da forma como você sempre quis, sempre sonhou, sempre imaginou. Como está o curso de fotografia? Bom? Ainda está fazendo? Você tinha talento para isso,sabe? Sempre soube disso, porém nunca disse diretamente a você. Nunca te disse o quanto você era boa em tirar fotografias, retratos, enfim, tudo o que se refere a isso. Talvez tenha sido medo de te perder para a vida (o que acabou rolando), talvez tenha sido mero despeito pelo fato de eu não ser bom em absolutamente porra nenhuma. Absolutamente porra nenhuma. Péssimo escritor, péssimo ator, péssimo músico, péssimo homem, péssimo estudante, péssimo caráter, péssimo ouvinte, péssimo companheiro, péssimo amigo, pés... tá, tá bom, posso escutar sua voz aguda dizendo “Pára com esta auto-comiseração, caralho. Você não é tão importante assim. Entenda isso.”. Já parei Nina. Foi só um surto, as usual. E quer saber, querida, quer saber a mais cruel e dura realidade? Eu realmente entendi que não sou tão importante assim mesmo. O mundo não gira ao meu redor, por mais que eu queira desesperadamente isso. As pessoas não estão aqui nesta vida besta, apenas com o intuito de me conhecer. As pessoas não estão aqui para isso. As pessoas estão aqui porque estão e eu sou apenas eu, o que, convenhamos, não é necessariamente a melhor e nem tampouco a pior coisa do mundo. Tem lá suas vantagens, e também, como tudo, suas desvantagens. A verdade é que eu andei pensando muito em todas as coisas que você sempre me disse. Sim, todas aquelas verdades doloridas que você insistia em repetir ao longo dos anos em que nos conhecemos. Tudo aquilo que você insistia em me fazer acreditar. E quer saber? Eu resolvi parar de me sentir tão inútil e velho assim. Sim, sou velho e tals, mas não um inútil. Enfim, deixa isso para lá, que isto é assunto para algum dia, alguma outra carta, alguma outra conversa. Para quando nos vermos pessoalmente again. Hmmmm. Vai demorar? Você pretende ficar muito aí? Não acha que está na hora de voltar? Não, né? Bem, ao menos eu tentei...rsrsrs. Você está bem? Feliz? Contente? Satisfeita? Viva? Alegre? Como você está? Espero que esteja bem. Desejo isso a você todos os dias em minhas pequenas orações (sim, também não sou mais ateu, surpreenda-se). Espero, sempre, que minhas pequenas orações e desejos encontrem você bem e feliz. Aonde quer que seja. Gosto de pensar que você está sempre assim. Gosto mesmo. Aquele teu sorriso de girassol naquela tarde de primavera. Lembra? Ai ai...sinto sua falta querida, e por mais que você não esteja perto e não esteja em lugar nenhum aonde eu possa tocá-la ou sentir o cheiro de papaia verde dos seus cabelos, a verdade é que você bem que poderia estar por perto. De verdade. Bem, acho que deve estar cansada de ler estas palavras repetidas. Vou indo agora, lembrando que ainda não tenho notebook e nem computador e, muito menos, e-mail. Este cartão postal continua sendo meu canal de comunicação com você e o mundo exterior. Espero que receba e não se importe e que me escreva (se quiser e se tiver tempo).
Gosto de saber novidades.
Beijos.
Seu.
A.

ps: comprei um cd de um cara chamado Jens Lekman. Você que está nas redondezas européias devia tentar ouvir. Vai gostar. É tua cara. Well, ao menos é a tua cara que eu costumo lembrar.

8.5.08

MILAGRES E NOITES DE VERÃO

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- Lá vai – ela gritou enquanto arremessava a garrafa na parede, meio “bebinha”, meio “zonza”, toda alegre. Higher than the Sun. Breakfast Club.
Ele apenas sorriu.
- Mais uma, yeaaaahhh – ela gritou de novo, antes de arremessar a segunda garrafa long neck de cerveja na mesma parede.
- Deste jeito os vizinhos vão reclamar, chamar a polícia, nos bater, sei lá – ele disse. Disse só para registrar, pois, na verdade, ele pouco se importava com as conseqüências daquilo tudo.
Ela olhou para ele de uma forma divertida e adoravelmente negligente. A mesma forma divertida e negligente que ele estava tão acostumado a curtir ao longo daqueles mais de cinco anos de amizade e delírio.
– Quer saber? Quero que os vizinhos se fodam – gritou e caiu na gargalhada – Olhe para nós. Olhe. Bêbados como qualquer coisa, hein? Bêbados e sentados numa quebradinha de uma vila escura, enquanto todos estão lá dentro bebendo, dançando, fumando, amando. Enquanto a festa come solta na casinha de número sete.
- Seis – ele corrigiu – A casa do Cadu é a número seis.
Ela gargalhou e disse, rápida – Melhor parar de jogar garrafas na parede. Os cacos podem nos machucar ou foder alguém.
Ele concordou com a cabeça, certo de que podia dar confusão todas aquelas long necks despedaçadas.
- A noite está tão bonita hoje – ela disse, sentando mais perto dele.
- Tem razão.
- Podia ser sempre assim.
- Como é possível ter tantas estrelas acima de nós, mesmo numa cidade tão desesperadamente poluída como esta?
Ela suspirou e emendou devagar, quase em sussurro, quase em oração – Milagres de uma noite de verão. Apenas isso. Milagres de uma noite de verão.
Ele aproveitou e ajeitou o seu ombro junto aos cabelos longos e lindos dela. Sentiu, feliz, o perfume deles invadir o seu nariz.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. O tempo suficiente para sentir o céu se mover. Liquid Sky ou Rumble Fish? Como escolher? Ficaram em silêncio, tendo por testemunha apenas a viela escura da vila e os cacos de garrafas. Ao fundo, a soundtrack da festa do Cadu.
De repente, ele quebrou o silêncio, de forma doce e suave - Você acredita mesmo em milagres de noites de verão?
Ela demorou para responder, como se não quisesse sair de uma espécie de transe.
- Acredita? – ele insistiu?
- Talvez. Talvez sim, talvez não. Depende.
- Do quê? – ele perguntou, curioso.
Ela levantou a cabeça e olhou para ele fixamente, sem nada dizer.
Ele tentou desviar o olhar, à sua maneira, porém não conseguiu. Ele nunca conseguia quando se tratava dela.
- O que foi? – ele perguntou, aflito com a forma do olhar dela.
- Milagres de noites de verão – ela disse, aproximando seus lábios doces dos dele, para um beijo de cinema, um beijo de desejo, um beijo há tanto contido. Um beijo simplesmente maravilhoso.
O mundo parou naquele instante.
Ao deitar, já alta madrugada, ele apenas fez uma prece silenciosa – Deus, faça com que nada mude – suspirou e desabou.

...

DEZESSEIS anos passados.

...

Na fila do caixa do Café da Esquina, ele sentiu uma mão pequena tocar o seu ombro. Um toque respeitoso, um toque suave, um toque breve.
Ao virar, mal acreditou.
Ela.
- Bete? Não creio – ele disse. Surpreso e tocado.
Ela sorriu e respondeu – Olá, querido. Que coisa boa te ver – disse, abraçando-o de um jeito incrivelmente adolescente, incrivelmente familiar. Mais do mesmo de sempre.
- Como você está? – ele perguntou.
- Bem. Estou bem. Você também, não? Bonitão - as usual - mesmo ainda fumando os seus Marlboros de menta – sorriu.
Ele deu risada antes de responder – Velhos hábitos. Velhos hábitos.
- Que ótimo te ver.
- Eu também acho.
- Tanta coisa não, depois daquela noite na casa do Cadu, e tantas outras coisas? – ele disse - Tem um tempinho?
Ela olhou ao relógio – Sim. Cinco minutos, na verdade. Tenho uma reunião daqui a pouco e você sabe como o trânsito desta cidade é caótico, não?
Ele concordou com a cabeça, oferecendo uma cadeira para ela, ao lado da janela. Pediu dois capuccinos e começaram a falar e falar e falar.

O que aconteceu depois?

Conversaram por mais que cinco minutos. Óbvio.
Ela atrasou para a reunião.
Ele atrasou para a volta ao trabalho.
Ela morava em Berlim.
Ele morava em São Paulo.
Ela, divorciada.
Ele, casado.
Ela, sem filhos.
Ele, também.
Ela, feliz.
Ele, talvez.
Ela, com sonhos e delírios e vontades.
Ele, também.
Ela, adorável.
Ele, mal humorado.
Ela, mudada.
Ele, também.
Trocaram e-mails.
Trocaram celulares.
E foram embora,, cada um cada um...

Se encontrarão novamente?

Muito provavelmente não.

Entretanto, quem sabe quando acontecem os milagres em noites de verão?

Quem?

14.3.08

APAGUE A LUZ, POR FAVOR?

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Então é assim que termina? – ele pensou, enquanto a chuva desabava sobre o seu corpo inerte. Ele estava só, parado em frente ao velho apartamento deles, no Centro Velho, apenas olhando o passado.
Acaba assim? Desta forma idiota? Eu aqui, parado como um imbecil na frente da minha ex-casa, debaixo de chuva torrencial e com uma mochila cheia de livros e fotos rasgadas?

- Quer ajuda, doutor? – perguntou o porteiro, sempre gentil - Está chovendo demais e o Senhor aí, parado na “trovoada”.
- Não, obrigado Carlos. Já estou indo – ele respondeu, seco – Já estou indo.

Ficou em silêncio por alguns instantes, apenas sentindo o sabor das lágrimas e da chuva. Após tentar acender um cigarro molhado, virou e foi embora de vez daquele lugar.

E foi embora para sempre do único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente feliz. O único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente apaixonado.

...

Mas, e como começa?

Começa com um toque, com um gesto, com um olhar, com um suspiro. Começa com um cheiro, um odor, um aroma. Um perfume. Começa com um brilho, um lampejo, um desejo, uma vontade. Começa com um café, uma vodka, um cigarro. Começa com uma ânsia, uma necessidade, com um ardor, Começa com vigor e com uma querência. Querência? Querência é palavra que existe? Enfim, simplesmente começa. Começa como início. Começa como começo. Óbvio. Começa com um desespero. Começa com muita energia, sem nenhuma fobia, sem nenhum disfarce, sem nenhum fraquejo, sem nenhum mal estar. Começa como delírio. Começa como um acorde de rock, de folk, de blues, o acorde que for. Começa ao gosto do freguês, afinal, gosto não se discute. Começa como início, sem martírio, sem mentiras ou invenções. Começa como um rastilho. Começa e começa e começa. E, claro, se começa, termina. Inevitavelmente termina. E termina sempre mal. Termina com dor, termina com amargor, com revolta, com ciúme, com raiva, com angústia, medo e decepção. Termina como jamais se imaginou ao início. Termina com ofensas, com gritos, com palavrões. Sem sussurros, gemidos ou tesões. Termina sempre de forma deprimente, em aperto de mãos. Termina como não devia. Termina patético. Termina porque começou. Termina porque alguém errou. Termina debaixo da chuva em cenas patéticas testemunhadas por porteiros.

Mas... uma vez iniciado, sempre precisa terminar?

Não, claro que não.

Por diversas vezes, com diversas pessoas, em diversas ocasiões, o amor começa e nunca, mas nunca termina.

Mas isso depende de quem? Do quê? De quê?

Me diz...

10.3.08

CAMILA´s KISSES

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O Clube Varsóvia!

Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia.

Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo.

E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve.

Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida.

Mas não exatamente.

Óbvio.

Óbvio que não.

Sempre é assim. As coisas mudam.

Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda.

E muda mesmo. Para valer.

De modo implacável, cruel e até mesmo rude.

Carrinho por trás com o jogador fora de jogo.

Fratura exposta e corte na carne alheia.

No player, no game.

No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi.

Exatamente igual.

O que mudou, meus caros, o que realmente estava diferente, era ela.

Apenas ela.

Antes, uma garota doce e cheia de idéias, muito a fim de “mudar o mundo”, devastada pela falta de interesse alheia, pela falta de interesse dos outros, pela falta de paixão, de motivação, de tesão, enfim, pela falta de vida e toque e sentimento. Pela falta dos outros que refletia nela.

Agora, alguém ainda extremamente doce, porém não mais tão devastada, não mais tão aflita pela falta de interesse alheia, pela falta de paixão, pela falta de tudo dos outros.

A “falta” alheia não mais refletia nela. Não. Não mais, mesmo!

Afinal, o mundo não pode ser “mudado” assim, desta forma. Num passe de mágica. Num estalo de dedos.

Definitivamente, tudo leva mais tempo do que ela jamais sonhou.

E ela percebeu isso, com a ajuda daquele filme infantil tão repetido em sua mente.

Agora, ela quer retomar sua vida, mas de outra forma.

Agora, ela quer retomar sua vida, suas baladas, seus cigarros, suas vodkas, porém de outra forma.

Ela quer ser feliz sem pressa, pois, agora, alguém já é feliz com ela e azulejos de veludo não podem se quebrar.

- Perdida em pensamentos? – uma voz grossa, rouca, interrompeu todo aquele devaneio, trazendo-a, rápido, de volta ao mundo real.
Por Deus, ele é lindo – ela pensou antes de dizer – Não. Claro que não. Estou apenas distraída.
- Você fica linda distraída, sabia? – ele disse, sorrindo da inegável canastrice - Desculpe, já te vi no Varsóvia? – ele perguntou.
- Não. Nunca.
- Nunca?
- Não. É a minha primeira vez aqui, acredita? Adorei.
- Que sorte a minha. Posso ser um ótimo guia – ele sugeriu.
- Veremos – ela completou – Veremos.

E, no fundo, quem não quer recomeçar alguma coisa em anos bissextos?

22.2.08

O SAGUÃO DE PISO XADREZ

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- Tenso? - ela perguntou, divertida.
Ele sorriu, nervoso, mas permaneceu em silêncio.
- Tenso? - ela insistiu, com seu delicioso sotaque carioca, querendo “ouvir” dele, alguma reação.
- Claro que não - ele mentiu.
Ela deu uma risada alta, solta e deliciosa - Você mente mal, garoto, muito mal.
Ele olhou para o alto, como a buscar um auxílio divino de coragem que, definitivamente, não viria naquele momento.
- E você? - ele disse – Aonde está?
- Perto, muito perto - ela respondeu.
- Será? Será que não desistiu? Será que não decidiu nada diferente? – ele contra-atacou, querendo se sentir seguro.
- Você é tão tolo. Adoravelmente tolo e infantil.
- Infantil? Achei que não. Achei que fosse qualquer coisa, menos infantil.
- Pois é, as pessoas tem a mania de se enganar tão facilmente a seu próprio respeito
- Então, é isso? – ela perguntou – Você?
- Aonde?
- Atrás de você, rapaz.
Ela esqueceu o celular e pôde, finalmente, sentir a voz tão conhecida invadir de verdade o seu ouvido.
Virou e olhou para ela, não acreditando que estavam lá. Frente a frente, naquele saguão de aeroporto cheio de pessoas, de vidas e histórias bem e mal contadas. Com e sem final feliz.
- Então você veio? – ela perguntou, sem saber muito bem o que dizer.
Ele sorriu e ficou em silêncio, enquanto guardava o celular no bolso da calça.
Os olhos se encontraram e nada mais foi dito naqueles exaustivos segundos iniciais.
O que aconteceu depois?
Bem, opções e gomas de mascar são apenas frutos de escolhas.

31.1.08

DEDILHADO EM NOITE MOLHADA E FRIA
(não tão molhada e, também, não tão fria)


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A noite estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão molhada.
A impressão de umidade e gelo era menos real e mais fantástica.
Era conseqüência da chuva fina, porém intensa, que havia parado de desabar há pouco na cidade cinza.
O asfalto, palco, tornou-se brilhante, vivo e aceso. Um mosaico de cores e texturas. Um carrossel de delírios e reflexos.
Palco perfeito para putas, drug dealers, travestis, ingênuos, vividos, enfim, toda sorte de pessoas. Normais ou não.
O asfalto, ainda úmido, tornou-se espelho. Espelho de rostos desconhecidos, de desejos lascivos e impertinentes. Desejos típicos e comuns. Desejos devassos e sinceros.
Solidão e medo.
Medo da luz e do que se pode ver com ela.
Medo e desejo.
Enfim, a noite no centro velho da cidade cinza estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão mais molhada.
E ele, sozinho, da sacada pequena do seu apartamento observava a noite na metrópole. A noite como só percebida em filmes noir, filmes B, filmes antigos, filmes bobos, filmes p&b, filmes sobre amores desfeitos.
Ele, sozinho.
Sozinho à própria sorte. Sozinho ao próprio azar.
Na companhia dos sonhos e do medo.
Na companhia do violão clássico que rasgava o alto falante da jukebox semi-quebrada que “enfeitava” a sala única do apartamento.
E o vinil velho rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos (Deus, ainda se usa toca-discos?). Um álbum qualquer de um violonista qualquer dos anos setenta. Anos em que ele foi garoto. Anos em que ele foi feliz (talvez).
E enquanto o vinil rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos e o dedilhado do violão era implacavelmente delicioso, o pensamento dele era apenas descompassado.
Pensamentos vagabundos e desimportantes.
Pensamentos idiotas.
O cigarro, acabando.
A bebida? Não.
"Prefiro morrer de vodka do que de tédio".
Alguém disse isso, mas provavelmente morreu de vodka e de tédio.
E no meio da ciranda imbecil de pensamentos escrotos, ele percebeu a garota loira emoldurada na janela do prédio em frente ao seu.
Grata surpresa.
Delicioso presente em uma noite fria e molhada.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nada mais molhada.
Uma garota loira.
Linda.
Cabelos compridos e soltos, com o olhar perdido na cidade.
Exatamente como ele.
Viva.
Não exatamente como ele.
E ele olhou fixamente, apenas para tentar adivinhar o que ela vestia embaixo da regata. Uma calça? Calcinha? De que cor? Pijama? Nada? Que bom.
E prosseguiu na sua veloz loucura, tentando imaginar o ambiente daquela garota. Como era o seu habitat. Como era o apartamento, se ela estava sozinha, o que gostava de fazer quando estava em casa, o que gostava de ouvir, beber, fumar, etc etc etc etc etc, enfim o que ERA aquela garota.
Do nada, tudo mudou.
Ela o percebeu.
Óbvio.
Ela o percebeu ali.
Um estorvo.
Quieto. Sentado e fumando e olhando com fome em sua direção.
Ela simplesmente virou o olhar para a cidade, sem se importar com a presença dele.
Ele sorriu, idiota.
Ela o ignorou, soberba.
Ele concluiu que ela realmente devia ser linda.
Ela nem se deu ao trabalho.
E por instantes, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O violão rasgando seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e ele, queimando seus desejos.
Brusca, ela virou.
Olhou em sua direção e deu adeus com um sorriso lindo, suave e doce.
Um sorriso tenro, porém cruel.
Tortura.
Ele quis dizer qualquer coisa e ficou mudo.
Ela? Apenas se virou e entrou no seu apartamento.
Estava cansada da noite.
Ele quis gritar para ela ficar apenas ali. Parada e observando. Imóvel retrato.
Porém, ele nada disse, como sempre em sua vida.
Como em todos os momentos.
Nada de viver e tentar.
Nada.
Mais uma vez a personagem foi a noite.
Uma noite fria e molhada.
Não tão fria, repito, e também nada molhada
E novamente, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O delicioso violão clássico rasgando os seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e a cabeça queimando de desejos.
...
Ela nunca mais apareceu na porra da janela.
Ele também nunca quis se arriscar a olhar.
No final das contas, sabia que podia contar com os adoráveis sons de violão.
Adoráveis sons de violão...