20.7.07

BANG! YOU ARE NOT DEAD, HONEY.



- Quem disse? - ela perguntou a ele, com a voz seca e áspera ao telefone - Você pensa que me conhece, seu pretensioso do inferno? Pensa? - gritou, desesperada.

Ele nada respondeu.
E a linha ficou muda por breves e eternos instantes. Em total silêncio, mas não por ausência de sinal. A linha simplesmente ficou muda por ausência de verbos e palavras. Ausência de argumentos. Ausência de
malícia. Ausência de vontade.
Excesso?
Apenas de medo e de cansaço.

- Quem disse, porra? - ela insistiu - Quem disse? Da onde você tirou esta porra?
- Vá e viva e ame! - ele respondeu antes de desligar, em um tom baixo, quase inaudível, quase infantil, porém doce e generoso.
- Filho da puta - ela berrou, jogando o telefone na cama - Filho da puta. Babaca.

E, aflita, começou a andar de um lado para o outro do quarto, como se quisesse correr. Como se pudesse fugir.
Veloz e trôpega, porém descoordenada, sem saber o que fazer.
Sem saber para onde ir.
E suas mãos trêmulas acenderam mais um Marlboro.
E ela começou a chorar.
Again.

- Idiota. Não pode adivinhar quem eu sou. Não, não pode - ela pensou sem coerência, sem habilidade, ignorando há quanto tempo se conheciam. Há quanto tempo eram irmãos. Amigos.

Ela voltou à realidade com o telefone, que tocou novamente.
Histérico.
Ela decidiu não atender.
Um arrepio de desespero subiu pelo seu corpo, tão logo reconheceu a voz dele, linda e rouca, na secretária.

- Oi. Desculpa. Não queria ter dito aquelas coisas. Não suporto você assim. Tão sem vontade de ser quem você é. Tão sem vontade de ser quem você, maravilhosamente, é. Tão COM vontade de ser um fantasma. Uma merda de um fantasma. A porra do cd que eu gravei para você na sexta. Faixa 3. Suede. Ouça. Te adoro. Dorme bem. Nos falamos depois. You are not fucking dead.

Ela virou um bom gole do conhaque que estava tomando, enquanto a voz metálica da secretária eletrônica dizia adeus e agradecia a fodida ligação.
E ficou intrigada com a mensagem.

- Música 3? Cd? - pensou, enquanto procurava o cd.

Achou o disquinho jogado nas suas coisas, ao lado do potinho de baseado e dos incensos.
Não tinha nem lembrado dele. Definitivamente ela nem havia percebido ele.
Sentiu-se mal por ignorar seu melhor amigo.
Mais uma vez, muito mal.
Não havia qualquer indicação da música. Ela pôs o cd no aparelho e foi direto para a canção de número três.
E começou a chorar.
Percebeu que não podia ser um fantasma.
Não, ela não podia ser um fantasma ou fingir estar morta ou apagar os seus rastros.
Não mesmo.
Definitivamente, ela não podia fazer o que bem entendesse.
A vida era dela, certo, e a vontade de sumir também.
O medo de amar e a vontade de correr e correr e correr era bastante forte.
Mas havia um pequeno detalhe nisto tudo.
Um pequeno, porém significativo detalhe: havia, de verdade quem se importasse com ela. Quem, realmente, se importasse com ela e seus malditos defeitos.
E por mais que ela quisesse sumir, o rastro não era fraco o bastante para desaparecer.

you are not dead... you are not dead...

"she's Not Dead"
(suede)
"she'll come to her end locked in a car somewhere with exhaust in her hair
What's she called? I dunno, she's fucking with a slip of a man while the engine ran
And he said "She's not dead, she's gone away, gone away" he said
He said "She's not dead, just go away go away" he said
In the car he couldn't afford they found his made up name on her ankle chain
so don't call, don't call her at home
she's fucking with a slip of a man while the engine ran
and he said "she's not dead, she's gone away gone away" he said
he said "she's not dead, she's gone away gone away"
he said "just gone away, gone away" he said
she's gone away to someone else's bed
"

4.7.07

AS GAROTAS CANTANDO SKA E OS ÁCIDOS DE EMILY




Emily? Emily?
A voz é estridente e alta e cortante.
Afiada como os cacos de uma garrafa quebrada.
Afiada como uma faca voando em qualquer direção.
Voando em um bosque de neblina.
E ele está lá.
No bosque de neblina.
Um bosque psicodélico.
Um bosque de delírios.
Imagens derretidas e ácidos em alta dosagem.
Sentidos dispersos.
Perdidos.
Inversos.

Emily? Emily?
A voz é desesperada e drogada.
Machuca e faz sangrar.
Machuca como os cacos daquela garrafa quebrada lá em cima.
Uma bêbada garrafa quebrada.
E uma adaga louca voando em sua direção.
E ele está lá.
Bêbado num labirinto de desejos.
Num labirinto de neblina.
Num carrossel de delírios.
Imagens distorcidas.
Ácidos em alta.

Emily? Emily?

...

Ele acordou suando frio.
Perdido. Assustado. Exausto.
Emily?
Quem era Emily?
Ele não a conheceu.
Perdeu-se dela no meio da neblina.
Não viu o rosto.
Não viu os olhos.
Não viu o sonho.
Ficou parado esperando a adaga, a faca, a garrafa.
O suor molhava o lençol.
Puro sangue imaginário.

E ao fundo, de trilha sonora, o que ele ouvia era a sua vizinha gostosa escutando uma banda alternativa qualquer de garotas cantando ska.

Ska. Vejam só... ska!