18.10.07

DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS?

- Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha
Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não?
- Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não.
- Você enlouqueceu? - disse Nanda.
Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento.
- Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar.
- Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa.
- Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva.
- Que patético.
- Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores.
= Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia.
- Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra.
- Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia.
- Eu preciso te encher para você ver.
- Que tédio.
- Você precisa de um choque de paixão. Uma paixão repentina, uma paixão...
- Um choque de vodka e nicotina e entorpecentes - interrompeu Bia - Isso sim eu preciso.
- Você precisa amar - suspirou Nanda.
Bia olhou para ela furiosa e surpresa. Ferida, disparou sem dó - Amar? Amar? Amar? Que porra você sabe do amor? Que porra você sabe da vida? Que porra você sabe de tomar foras?
Nanda tentou "desdizer" o que havia dito. Tarde demais.
- Você pensa que é fácil amar o lado escuro da lua? O lado errado da vida? Vá se foder Nanda. Vá se foder.
Nanda tentou, desesperada, segurar as lágrimas.
- Você pensa que tudo é muito simples. Quebrar a cara e tomar uma porrada e ficar quieta. Aí vem você com um disco de vinil cafona de canções de amor e acha que vai ajudar? Puta que o pariu Nanda. Vai embora, por favor. E leva esta porra de disco daqui.
Nanda saiu rápido do pequeno apartamento, com o velho Marvin Gaye nas mãos. Não queria que Bia visse seu desespero. Cedo demais. Errado demais. Fez besteira.
- Eu te amo Bia - suspirou Nanda, quase inaudível, agarrada ao seu disco de vinil - Eu simplesmente te amo...
E no final das contas, quem vai dizer que os discos de vinil não salvam vidas?
Quem...?

20.7.07

BANG! YOU ARE NOT DEAD, HONEY.



- Quem disse? - ela perguntou a ele, com a voz seca e áspera ao telefone - Você pensa que me conhece, seu pretensioso do inferno? Pensa? - gritou, desesperada.

Ele nada respondeu.
E a linha ficou muda por breves e eternos instantes. Em total silêncio, mas não por ausência de sinal. A linha simplesmente ficou muda por ausência de verbos e palavras. Ausência de argumentos. Ausência de
malícia. Ausência de vontade.
Excesso?
Apenas de medo e de cansaço.

- Quem disse, porra? - ela insistiu - Quem disse? Da onde você tirou esta porra?
- Vá e viva e ame! - ele respondeu antes de desligar, em um tom baixo, quase inaudível, quase infantil, porém doce e generoso.
- Filho da puta - ela berrou, jogando o telefone na cama - Filho da puta. Babaca.

E, aflita, começou a andar de um lado para o outro do quarto, como se quisesse correr. Como se pudesse fugir.
Veloz e trôpega, porém descoordenada, sem saber o que fazer.
Sem saber para onde ir.
E suas mãos trêmulas acenderam mais um Marlboro.
E ela começou a chorar.
Again.

- Idiota. Não pode adivinhar quem eu sou. Não, não pode - ela pensou sem coerência, sem habilidade, ignorando há quanto tempo se conheciam. Há quanto tempo eram irmãos. Amigos.

Ela voltou à realidade com o telefone, que tocou novamente.
Histérico.
Ela decidiu não atender.
Um arrepio de desespero subiu pelo seu corpo, tão logo reconheceu a voz dele, linda e rouca, na secretária.

- Oi. Desculpa. Não queria ter dito aquelas coisas. Não suporto você assim. Tão sem vontade de ser quem você é. Tão sem vontade de ser quem você, maravilhosamente, é. Tão COM vontade de ser um fantasma. Uma merda de um fantasma. A porra do cd que eu gravei para você na sexta. Faixa 3. Suede. Ouça. Te adoro. Dorme bem. Nos falamos depois. You are not fucking dead.

Ela virou um bom gole do conhaque que estava tomando, enquanto a voz metálica da secretária eletrônica dizia adeus e agradecia a fodida ligação.
E ficou intrigada com a mensagem.

- Música 3? Cd? - pensou, enquanto procurava o cd.

Achou o disquinho jogado nas suas coisas, ao lado do potinho de baseado e dos incensos.
Não tinha nem lembrado dele. Definitivamente ela nem havia percebido ele.
Sentiu-se mal por ignorar seu melhor amigo.
Mais uma vez, muito mal.
Não havia qualquer indicação da música. Ela pôs o cd no aparelho e foi direto para a canção de número três.
E começou a chorar.
Percebeu que não podia ser um fantasma.
Não, ela não podia ser um fantasma ou fingir estar morta ou apagar os seus rastros.
Não mesmo.
Definitivamente, ela não podia fazer o que bem entendesse.
A vida era dela, certo, e a vontade de sumir também.
O medo de amar e a vontade de correr e correr e correr era bastante forte.
Mas havia um pequeno detalhe nisto tudo.
Um pequeno, porém significativo detalhe: havia, de verdade quem se importasse com ela. Quem, realmente, se importasse com ela e seus malditos defeitos.
E por mais que ela quisesse sumir, o rastro não era fraco o bastante para desaparecer.

you are not dead... you are not dead...

"she's Not Dead"
(suede)
"she'll come to her end locked in a car somewhere with exhaust in her hair
What's she called? I dunno, she's fucking with a slip of a man while the engine ran
And he said "She's not dead, she's gone away, gone away" he said
He said "She's not dead, just go away go away" he said
In the car he couldn't afford they found his made up name on her ankle chain
so don't call, don't call her at home
she's fucking with a slip of a man while the engine ran
and he said "she's not dead, she's gone away gone away" he said
he said "she's not dead, she's gone away gone away"
he said "just gone away, gone away" he said
she's gone away to someone else's bed
"

4.7.07

AS GAROTAS CANTANDO SKA E OS ÁCIDOS DE EMILY




Emily? Emily?
A voz é estridente e alta e cortante.
Afiada como os cacos de uma garrafa quebrada.
Afiada como uma faca voando em qualquer direção.
Voando em um bosque de neblina.
E ele está lá.
No bosque de neblina.
Um bosque psicodélico.
Um bosque de delírios.
Imagens derretidas e ácidos em alta dosagem.
Sentidos dispersos.
Perdidos.
Inversos.

Emily? Emily?
A voz é desesperada e drogada.
Machuca e faz sangrar.
Machuca como os cacos daquela garrafa quebrada lá em cima.
Uma bêbada garrafa quebrada.
E uma adaga louca voando em sua direção.
E ele está lá.
Bêbado num labirinto de desejos.
Num labirinto de neblina.
Num carrossel de delírios.
Imagens distorcidas.
Ácidos em alta.

Emily? Emily?

...

Ele acordou suando frio.
Perdido. Assustado. Exausto.
Emily?
Quem era Emily?
Ele não a conheceu.
Perdeu-se dela no meio da neblina.
Não viu o rosto.
Não viu os olhos.
Não viu o sonho.
Ficou parado esperando a adaga, a faca, a garrafa.
O suor molhava o lençol.
Puro sangue imaginário.

E ao fundo, de trilha sonora, o que ele ouvia era a sua vizinha gostosa escutando uma banda alternativa qualquer de garotas cantando ska.

Ska. Vejam só... ska!

15.5.07

E POR FAVOR, leiam os contos (a partir de hoje), ao som da canção. Vale a pena... podem apostar (basta apertar o play e se divertir).
O SECAR DAS LÁGRIMAS (É TÃO DOCE)


"...it´s getting better all the time..." - Puca cantarolou do nada, para espanto de Lee.
- Está? - Lee perguntou, completando na seqüência - E meu Deus, você vai sussurrar esta canção a tarde toda?
- Claro que sim - Puca respondeu - Estou feliz, pô. Não vejo o menor problema em expressar isto.
- Você é um saco. ...it´s getting better prá lá, it´s getting better prá lá. E peraí porra, isto é Beatles? Certo? - Lee perguntou fast and furious, após cair a ficha.
Puca olhou com um ar fake de superioridade para a amiga e com um sorriso quase revelador, apenas assentiu com a cabeça.
- Jesus, como você está ficando cafona, Puca - Lee reclamou - O que pode estar ficando melhor nesta porra de dia cinza? Ainda mais ao som de uma banda dos meus pais?
- Como você é pesssimista Lee. Caráleo. Como você é pessimista. Você é uma garota tipicamente "quarta feira de cinzas". Um porre não, uma ressaca completa. Você sucks demais.
Lee sorriu com a brincadeira e acendeu um Marlboro, um pouco mais feliz com a piada e com o brilho no olhar da amiga.
- Quer vinho? - Puca perguntou.
- Tem vodka? - Lee respondeu.
- Tem. Vou pegar. E enquanto pegava um copo americano qualquer, Puca continuou - Você anda estressada demais, Lee. Esta dor de coração, de paixão, de perda, de tudo, ainda vai te matar. Você devia relaxar um pouco e aprender que a vida pode ser contemplativa. Totalmente contemplativa. O amor está aí. Basta ver.
- Contemplativa? O que eu tenho para contemplar? - Lee disse - O espelho para ver como eu sou troux...
- EU - interrompeu Puca, com um sorriso disfarçado, lindo, delicado, completamente APAIXONADO - Você pode me contemplar. Sempre. Entende a porra do que digo?
Lee ficou em silêncio, surpresa (e com coração aos pulos).
- Então você não entende nada de amor e de assuntos de menininhas como este, por exemplo - disse Puca, aproximando-se de Lee e dando-lhe um dos beijos mais apaixonados e molhados que aquela sala já havia visto.
"... It´s getting better all the time..." - pensou Puca, feliz.
"...And in your way / In this blue shade / My tears dry on their own..." - pensou Lee, feliz.
O inevitável aconteceu. E elas sabiam disso...
E entre beijos lânguidos, molhados e apaixonados, apenas duas garotas, um sofá, vários toques, alguns perfumes e uma certeza: o amor está aonde menos se espera, mas ele está. Podem apostar.

27.4.07

KNOCK DOWN

Eu estava lá.

De joelhos.

E eu sentia o sangue escorrer pela garganta e descer rumo ao estômago. Direto. Sem volta. Sem pudor.

Eu estava lá.

De joelhos no ringue imaginário.

Eu estava lá porque, convenhamos, eu merecia estar.

Porrada direta, certeira no queixo.

Porrada direta, certeira aonde quer que fosse.

E tudo por causa de palavras mal faladas, palavras imbecis que me fizeram perceber como sou velho, idiota, desinteressante e sem assunto.

Apenas um ultrapassado. Adolescente tardio e ridículo. Infame. Otário.

Por conta disso, eu estava lá, prostrado no ringue, à beira do inevitável nocaute.

E não havia ninguém, definitivamente, que pudesse me ajudar.

Não aquela hora de um sábado á noite.

Não mesmo.

Continuei inerte e de joelhos, sabendo-me culpado por falar demais. Culpado por errar demais. Culpado por ter medo. Culpado por ser tolo. Culpado por sentir culpa.

Apenas um velho e idiota culpado.

E, com certeza, eu sabia naquela noite, que o que ela menos queria era um pedido de desculpas.

E este pedido seria o knock out total.

Por isso fiquei em silêncio, apenas lamentando o gosto amargo de sangue invadindo meu estômago.

Imbecil...
voltei

o que é ÓTIMO!