14.8.06

Este blog acaba aqui.
Como começou.
De forma rápida, surpreendente, e sem nenhum alarde.
E vai embora da mesma forma.
O Clube Varsóvia não existe mais.
A partir de hoje ele vai, tenho certeza, existir apenas nas mentes deliciosas de vocês.
E no meu coração.
Por todo o sempre.
Eu?
Eu estarei onde sempre estive.
No e-mail e por aí, olhando as pessoas e tendo idéias...
Apenas isto...
Beijos, para quem é de beijos.
Abraços, para quem é de abraços...


O FIM

- Lágrimas? - ela perguntou a ele, percebendo os seus olhos verdes rasos, tão lotados de sentimentos e desespero.
Ele apenas concordou com a cabeça, em silêncio.
- Você não deve ficar assim - ela disse, sem nenhuma convicção - No fim, tudo acaba bem. Tudo sempre acaba bem.
- Na verdade, tudo sempre acaba, não? - ele perguntou, seco.
- Mas acaba bem. Isto é o importante.
- É? - ele perguntou meio com raiva, meio descrente, decepcionado - Você acredita mesmo nisso?
Ela desviou o olhar dos seus olhos verdes, inquisidores e firmes e encarou apenas o Clube Varsóvia. Agora fechado, agora vazio, agora desmontado. O "famoso" Clube Varsóvia, agora sem qualquer vestígio das pessoas que por lá um dia passaram.
- Você acredita mesmo nisso? - ele insistiu - As coisas SEMPRE acabam bem?
- Não - ela respondeu, agora caindo em um choro desesperado e intenso.
- É. Você é como eu. Sentimental demais - ele disse, passando as mãos em seus cabelos.
Ela sorriu e respondeu, afetuosa - Com certeza. Muito sentimental e idiota.
- Como eu - ele disse com um sorriso - E tanta gente viveu seus dramas e histórias aqui, não? - prosseguiu.
- Porra. Nem fale. Tanta, tanta gente. Tantos segredos, sonhos, delírios, viagens, lendas, enfim, tanta vida preencheu este Clube, tanta vida.
- Mas as coisas começam e acabam. A vida não é assim? A vida não é simples assim?
- Eu detesto isto. Detesto prazer e perda. Simplesmente detesto o fim das coisas.
- Meu avô era polonês, sabia?
- Não. Nunca soube.
- Este é um dos motivos de eu ter vindo aqui há tantos anos, mesmo sem saber se o Clube era legal. Clube Varsóvia. Adorava o nome. Tão polonês, tão poético, tão forte, tão gostoso.
- E os outros motivos?
- Ah, tudo o que aconteceu a partir do momento em que pisei aqui pela primeira vez. Foram muitas viagens. Muitas viagens. E, a partir de hoje, o Varsóvia não existe mais. A partir de hoje o Varsóvia está simplesmente fechado.
Ela fez um carinho no seu rosto, apenas para enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto dele - Uma vodka?
Ele sorriu e concordou com a cabeça - Só se for na sua casa. Não tenho mais idade para outros clubes, outras vidas, outras despedidas.
Ela sorriu e disse, rápida - Então vamos. Na minha casa.
E partiram de mãos dadas, sem olhar para trás, sem olhar para o clube agora fechado, o Clube Varsóvia.

E foram conversando...

- Minha mãe me disse certa vez que a vida é uma viagem. E devemos olhar repetidas vezes pela janela para jamais esquecermos o que vimos. Jamais...

E foram embora conversando e conversando e conversando sobre detalhes, passado, futuro, amizade, enfim, foram conversando sobre a VIDA e o que os espera, ou não, lá na esquina...

8.8.06

ASHES TO ASHES, DAVID BOWIE, ASHES TO ASHES...

- Você quer comer algo? - Letícia perguntou à Clara, assim que entrou no apartamento em que morava.
- Não - respondeu Clara, deixando evidente seu constrangimento.
O perfume no apartamento era quase igual ao perfume de seda verde descrito por Patricia Highsmith no livro Carol. Perfume de seda verde. Interessante definição para um cheiro inebriante, envolvente, devasso ou mesmo puro.
- Tem certeza? Devo ter alguma coisa na geladeira, além de vodka vagabunda.
- Não se preocupe Letícia. Por favor. Posso fumar?
- Claro - concordou Letícia, indicando com seus dedos longos, suaves, o cinzeiro colorido que estava largado no chão.
Os dedos de Letícia eram sensacionais. De uma plástica belíssima. Longos, uniformes, delicados. As unhas, médias, sempre aparadas e bem cortadas. Não importava a falta de grana ou a porra do stress ou mesmo a falta de tempo. Ela, vaidosa, sempre dava um jeito de manter as suas unhas e mãos lindas como um retrato de outono. Um jardim de outono.
- Você não limpa isto nunca? - perguntou Clara, assustada com as bitucas e as cinzas deixadas no cinzeiro.
- Ashes to Ashes / Funky to Funky / You Know Major Tom´s Junkie - cantarolou - David Bowie. Lembra?
- Detesto.
- Detesta?
- Sim. Detesto.
Letícia parou por um minuto e a lembrança veio nítida na sua cabeça. Aniversário de sei-lá-quantos anos de Clara e ela havia dado um vinil do Bowie. Young Americans. E as palavras foram claras "adoro Bowie". "Tudo o que ele fez ou faz ou fará. Incondicionalmente".
- Há quanto tempo estamos juntas? - perguntou Letícia, enquanto tirava a camisa bordô.
- Juntas como? De conhecer ou do primeiro beijo ou da primeira transa?
- Do primeiro beijo.
- Ah, muitos anos.
. Tanto assim? A ponto de perdermos até referências?
Clara apenas concordou com a cabeça, preferindo o silêncio por um instante. Sabia que nunca poderia deixar de fumar. Em determinados momentos, como aquele, manusear um cigarro era a salvação. Melhor do que conversar sobre o que não se quer com quem não se deseja.
- Melhor eu ir - disse Clara, após dar sua última e longa tragada.
- Nos vemos?
- Talvez - respondeu, sabendo que certamente aquela não era a noite da despedida, a noite do epílogo, a noite do grand finale. A noite em que ambas derramariam talvez um oceano de lágrimas, menos por pesar, mais por arrependimento em sepultar o que já estava irremediavelmente morto e fodido.
Ao perceber que Clara saiu do seu apartamento, sem nem ao menos um beijo, um olhar, um gesto de carinho, Letícia sentiu uma pontada. Uma pontada de dor e choro. Uma pontada de amor perfeito, perfeitamente estragado e destruído pela rotina e pela vaidade e pelo orgulho e pela maldade e pelo descuido. Olhou pela janela e viu que a chuva e as nuvens estragavam a vista para a lua.
- Logo hoje.
Decidiu, naquele momento, que ao menos por uma noite, David Bowie seria seu amante. O melhor e o maior de todos.

Apenas por aquela noite...