31.7.06

BRINDANDO ÀS PALAVRAS REPETIDAS

- Você é repetitivo.
Ele olhou com uma surpresa muda, sabendo que, no fundo, ela estava certa - Como assim? - perguntou.
- Repetitivo. Repetitivo. Você usa as mesmas palavras para dizer as mesmas coisas. faz isso o tempo todo.
- Faço? - ele disfarçou.
Ela sorriu - Claro que faz. Mas o que me deixa ainda mais fascinada é esta sua cara de pau. Você sabe que é assim, desse modo.
Ele fingiu indignação, mas por puro orgulho. Ela estava absolutamente certa. Acendeu um cigarro e ficou quieto, esperando a próxima porrada.
- Não? Você não sabe disso? - ela insistiu.
- Claro que sei. Claro, porra.
- Então porque você não tenta mudar?
- Você quer que eu diga o quê? Quer que eu faça o quê? Quer que eu pegue um dicionário e use as mais estapafúrdias palavras? Quer que eu use os mais diversos adejtivos, substantivos, artigos, enfim, as mais mirabolantes saídas da língua portuguesa para dizer algo que pode ser dito de maneira simples, direta, objetiva.
- Mas você não é objetivo - ela disparou, como um direto em seu queixo.
Ele levantou-se do sofá e foi direto em direção ao aparelho de som.
Ela apenas observou, em silêncio.
- Lembra daquela nossa conversa sobre filmes?
Ela concordou com a cabeça, enquanto observava ele mexer nos seus discos.
- Então, acho que descobri qual o filme mais emotivo.
- Qual? - ela perguntou curiosa.
- Rumble Fish.
- O quê? - ela perguntou, surpresa.
- Rumble Fish. O Selvagem da Motocicleta, do Coppola.
- Ah, sei. Mas emotivo?
- É.
- Não tenho a menor idéia da razão.
- Assiste ao filme. É sobre tudo. Sobre tentar ser o que não se consegue. Em preto e branco. E a personagem principal não enxerga cores. E não sabe como são lindos "peixes de briga" com suas caudas coloridas e barbatanas imponentes.
- Hmmm, interessante. Não imaginava que você fosse assim.
- Assim como? - ele perguntou, segurando o vinil preto que havia acabado de escolher.
- Assim, deste jeito. Capaz de ver cores em ambientes "monocromáticos".
- "Monocromáticos"? Puta coisa "Bergman".
- Hahahahahahahaha - ela gargalhou.
- Sério, típico de quem é obcecada pelo sueco.
- Sou obcecada por coisas interessantes. Apenas isso meu querido. Apenas isso. O que escolheu?
- Um disco de rock triste, repleto de canções de amor.
- Canções tristes para uma sexta à noite?
- Não, canções amor para amigos queridos, juntos numa sexta à noite.
- Então brindemos.
- A quem? A Bergman?
- Hahaha. Não. Brindemos às palavras repetidas.
- Palavras repetidas? - ele perguntou, curioso.
- Exato. Brindemos às palavras repetidas.
- Motivo?
Ela sorriu com leveza, alegria e disse - Mesmo à exaustão, as palavras repetidas podem ser úteis. Mesmo repetidas à exaustão, elas podem nos levar aonde menos sonhamos. Depende apenas de quem as usa, de quem as lê, de quem as escuta. Depende apenas disso.

...


12.7.06

EM SANTA TEREZA, VOCALISTAS TRISTES CANTAM APENAS BALADAS AMARGAS OU TRIP-HOP

Ela ouvia, nítido, o barulho das pessoas ferozes à frente do palco. Uma pequena turba àvida por acordes e guitarras e espetáculo.

Você ainda tem medo? - a voz dele ecoou na sua lembrança.

O Clube era pequeno. Por mais que o seu primeiro show como cantora fosse uma lembrança adolescente, ela, definitivamente, nunca se acostumaria com o barulho das pessoas e com o cheiro de cerveja e fumaça e maconha que sempre impregnava a atmosfera dos pequenos clubes aonde tocava. Cheiro de pessoas reunidas e desejos.

Você é linda. Suavemente linda e apaixonante. Doce. Tão fodidamente doce.

Algum idiota anunciou e a banda subiu ao palco. Alguns aplausos, alguns gemidos, assobios, enfim, a reação de sempre. As usual.

Ela, mais uma vez, se viu diante de uma platéia. Mais uma vez, ela não estava feliz.

Você tem uma obssessão em ser triste. Uma espécie de fixação que eu não quero, e não pretendo, nunca entender.

Os acordes começaram a rolar e ela, de olhos fechados, começou a despir seu vestido d´alma. Começou a murmurar as palavras cantadas, numa espécie de ritual. Numa espécie de expiação de dor e sacrifício. Como era fodido e dolorido ficar nua na frente de um público que, talvez, nem percebesse isso.

Você mora no Rio. Você canta numa banda. Você não pode ser feliz? É difícil ser feliz? É tão difícil assim?

As canções corriam e ela, suave e triste, continuava a cantar em seu sacrifício particular.

Em Santa Tereza, vocalistas tristes cantam apenas baladas amargas ou trip-hop. Cante um rock alegre. Uma canção de amor feliz. Uma única vez. Por mim, por favor...

E sob a lembrança doce do seu sorriso, ela encarou a banda antes do último número e decidiu, apenas por um momento, ser uma pessoa feliz. Mesmo sem ele por perto, mudou a última da noite e mandou uma adorável canção de amor, alegria, sorrisos, enfim, uma adorável canção de amor feliz.

Enlouquecida, a platéia olhava hipnotizada para aquela garota em cima do palco, conduzindo a noite como queria.

Ela não era mais uma vocalista triste. Ela agora uma mulher apaixonada.

Em Santa Tereza, vocalistas tristes também decidem mudar de idéia...

...

como se tivessem um pote de geléia de morango nas mãos...

11.7.06

ODEIE-ME DOMINATRIX

Alguém já viu olhos verdes tão gordos e lindos?

Ela era fatal.

Uma inebriante Femme Fatale como a canção de Lou Reed e seu underground de veludo. Absolutamente fatal.

Fatal e forte e firme e segura e decidida e atrevida e ousada e centrada e todos os demais adjetivos utilizados sem vírgula entre eles. Adjetivos verdeiramente adjetivos. E exatos.

Ela era fatal e simplesmente o ignorava.

Culpa dele?

Claro que sim.

Idiota ao extremo, não percebeu que, na verdade, além dos saltos agulha e do corselet preto e do chicote prateado, havia uma garota de olhos gordos e verdes com medo. Insegura e menina demais.

Insegura e menina demais para ser deixada de lado.

Ele não percebeu.

Só isso.

Pobre idiota, covarde e medroso.

Azar o dele.

Agora é tarde para arrependimentos e desculpas. Agora é tarde demais.

E nos guardanapos de papel escritos à mão por ele em madrugadas frias e úmidas e bêbadas, repousava a sua culpa e o seu desejo.

Não me ignore. Odeie-me dominatrix.

E apenas os travestis e os mendigos e as putas e os covardes do centro da cidade tinham acesso aos bilhetes rasgados e jogados no chão nos botecos imundos por onde ele passava.

Odeie-me dominatrix.

Simplesmente odeie-me.

E, voltando, alguém já viu olhos verdes tão gordos e tão lindos e indecifráveis?

10.7.06

CINEMA MUDO

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão.

- Você precisa dizer as coisas sem pensar. Precisa fazer mais vezes isto - ela pediu, impaciente - Precisa ser mais seguro. precisa ser mais você.
- Preciso? - ele respondeu, pensando muitas vezes antes de responder - É que eu nunca sei quando você fala sério.
Ela encarou o teto, irritadíssima e disparou - Faça como quiser, seu porra pretensioso. Quem disse que é para você saber o que penso - Quem disse?
Ele nada disse. Pensou em dizer diversas coisas, óbvio, mas ficou em silêncio. Ficou em silêncio tentando achar a palavra perfeita, a frase certa, a entonação adequada, mas, ainda mais uma vez, ficou apenas em silêncio.
- Vou indo, então - ela falou - Estou com fome, preciso comer alguma coisa.
- Agora?
- É, agora, qual o problema?
- Nada, mas já são duas da manhã.
- E, por acaso, ninguém pode ter fome às duas da manhã?
- Não precisa ficar puta - ele pediu, sabendo que havia feito merda a noite toda.
Ela olhou novamente para o teto, talvez agora explodindo de raiva, talvez pedindo ajuda aos céus, talvez apenas com sono e tédio por aquele pateta diante dele - Eu não ESTOU puta. Estou apenas com fome e cansada.
Ele ficou em silêncio, enquanto sua cabeça paranóica pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Mil coisas, porém nada que valhesse a pena ser dito. Não naquele momento.
- Tá bom, então?
- Bem, está. Tudo em ordem.
- Se eu ficar você vai dizer algo? - ela arriscou. Uma última tentativa. Vã.
Ele tentou ser rápido, mas o tempo voou. Os segundos foram muito mais velozes do que sua audácia, quer dizer, a sua "vontade" de ter audácia.
- Amanhã eu te vejo? - ele disse.
Ela bufou algum som incompreensível e respondeu, tentando manter a calma - Talvez.
- Talvez é melhor do que um não direto, não é mesmo?
Ela soltou um suspiro - Você é um idiota mesmo, mas creio que eu já te disse isso, não? - ela relaxou.
Ele sorriu, tímido, e esboçou um sorriso.
- Você é um tremendo idiota. Ah, como é - ela repetiu.
- Desculpa.
- PÁRA de pedir desculpa, caralho. Que chato.
- Descul... tá, ok - ele emendou.
- Vou indo, então. Estou morrendo de fome.
- Tá, nos vemos amanhã. Quero dizer. Talvez.
- E espero que arrependido pelo que NÃO fez - ela disse, cruel e ligeira.
Ele tentou evitar não transparecer que concordava. Em vão. Seu olhar o traiu, mas ela fingiu não perceber.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Fica bem.
- Você também.

E enquanto ela sumia dos seus olhos, ele viajou longe em pensamentos. Ele foi longe, tentanto entender o que havia feito de errado. Tentanto entender o que NÃO havia feito.

E se antes ele não havia dito nada. Agora, com a boca seca, sua vontade era a de gritar.

Apenas gritar para o apartamento vazio.

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão e silêncio naquele sábado á noite.

5.7.06

Estava receosa... Señor Varsóvia nunca dera as chaves nas mãos de ninguém antes.
O clube estava vazio. A porta fez eco quando ela a abriu.





Foi até o bar, pegou uma garrafa de vodca de um jeito meio "foda-se. já que eu to aqui..."
Ligou o som... dançou rindo, ao lembrar de tantas bobagens que ele falava quando lhe entregou a chave...

"Ok" pensou, "não vou abusar muito disso aqui... não vou mudar nada... gosto das paredes, gosto desse teto imundo..."

Mas acima de tudo, gostava dele... Señor Varsóvia...


Sentiu-se despreparada para a missão, mas foi em frente.













Abriu o cofre, pegou toda a grana, cartas e outras porcarias de lá de dentro, enfiou na mochila velha e saiu com a garrafa de vodca na mão.
Trancou a porta, mas deixou uma fresta da janela aberta... se ela quisesse voltar, pularia. Sem a permissão dele.

Sabia que eles se encontrariam em algum lugar...
Ele não deixaria as chaves com aquela garota que também falava apenas bobagens.. NUNCA MAIS... ele não era assim, tão louco.

4.7.06

E ELA AINDA MORAVA EM NITERÓI

- Você nunca fala sério? - ele perguntou.
Ela sorriu, tímida, e ficou em silêncio.
- Nunca? - ele insistiu.
- Talvez. Deveria? - ela arriscou, sem saber até que ponto podia chegar.
Ele olhou para o céu, meio irritado e disse, em um tom de voz mais alto - Claro que sim. Claro que sim. Você tem que aprender a falar sério - insistiu - Ao menos uma vez na vida.
Ela sorriu - Não sei. Definitivamente não sei o momento. Não sei o exato momento em que um olhar deve ser substituído por uma palavra.
- Não? - ele perguntou.
- Não - ela respondeu.
- Então deixa eu te dizer uma coisa, minha querida. Algo simples, porém inédito nas nossas conversas.
- Você está bravo? - ela perguntou.
Ele sorriu, doce - Não, claro que não.
Ela retribuiu o sorriso, curvando suavemente os lábios vermelhos, num esboço de simpatia.
- Na verdade - ele prosseguiu - Você parece que foge. A todo momento parece fugir.
- De quem? - ela perguntou, mordendo os lábios, esperando que ele errasse a resposta.
- De você?
Ela corou. Ficou totalmente vermelha. Nada disse.
- Não? - ele insistiu.
- Não. De forma alguma. Não fujo de ninguém. Sou segura do que quero.
Ele sorriu, debochado - Tem certeza?
- Tenho, claro que tenho.
- Há quanto tempo eu te conheço?
Ela respondeu, entre os dentes - Há mais tempo do que eu gostaria.
- Hahahaha. Você NUNCA vai mudar.Vai?
- E por acaso, eu preciso mudar?
- Brinda comigo - ele pediu.
- Brindar o quê?
- A nossa amizade e o meu primeiro conto.
- O beijo não dado?
- E você ainda morava em Niterói.
- Ei, otário, eu AINDA moro lá.

E sorriram como crianças naquele Clube Varsóvia tão repleto de pessoas e sentimento, felizes por terem cruzado um na vida do outro.

...

Felizes. Muito felizes.