5.6.06

QUANDO A DANÇA FURIOSA NÃO SUFOCA A DOR

Ela entrou no quarto chorando.

Os olhos estavam inchados. Inchados de tanto chorar. Inchados de tantas lágrimas e lágrimas e lágrimas. Muitas lágrimas. Lágrimas doloridas, lágrimas de paixão, lágrimas de porradas.

E, coitada, ela não se importava em tentar acertar. Não, definitivamente ela não se importava.

Ela se importava e ficava cansada de SEMPRE, mas SEMPRE mesmo, ficar tão machucada.

Este era o maior problema. Ficar sempre tão machucada, mesmo por alguém que não valia sequer um cobre, por alguém que não valia sequer um "e".

Mas ela sempre se machucava e ficava sozinha na noite, sofrendo em silêncio.

E o quarto, naquela madrugada, era o seu ambiente. Depois dos bares, dos clubes, dos amigos, da noite, do fim, havia apenas ela e o seu pequeno quarto.

E dentro dele, segura e assim que chegou, ela despejou o mundo no carpete vermelho puído. Despejou o mundo sobre o carpete. Despejou o melhor do seu mais recente fracasso.

As lágrimas se confundiam com a saliva e, puta, ela gritou como há tempos não gritava antes de dar uns dois ou três socos furiosos no armário de cds.

A dor apenas aumentou.

Ficou triste ao ver o seu cd do Joy Division no chão, parcialmente fodido, quase destruído.

E ele era tão especial.

O cd, que fique bem claro. Não aquele idiota por quem ela estava chorando.

Colocou o cd no player naquele momento.

Aos primeiros acordes, resolveu dançar.

Dançar para não dançar.

Dançar para ser feliz.

Dançar para exorcizar.

Dançar para poder acalmar a vida.

Dançar para poder acalmar o espírito.

Dançar furiosamente por um único motivo: não ter mais fôlego para poder chorar.

E enquanto o modo repeat do cd player repetia exaustivamente Love Will Tear Us Apart, ela percebeu que estava cansada de se foder.

Cansada de tanta falta de auto estima.

Cansada.

Muito cansada.

E no começo da manhã, quando o sol, cruel apareceu, não havia mais fôlego para a dança.

Para as lágrimas e a dor, no entanto, o fôlego estava lá.

Como sempre.

Como sempre na vida daquela menina linda.

Como sempre e sempre e sempre, para todo o sempre...

até ela decidir que não...

até ela decidir...

sozinha

...

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