14.6.06

A CHAIN OF... FLOWERS

Ele estava só na sala.

Completamente só.

Noite alta. Madrugada fria de inverno. Ele estava sozinho.

Não havia nada naquela maldita e pequena sala, além dele e de seus álbuns antigos de vinil espalhados numa caixa velha. Discos de rock. Rock dos oitenta, discos que ninguém ouve mais. Ninguém mais quer ouvir.

Exceto ele.

E ele estava só na sala.

Nas estantes, fotografias gastas com imagens de pessoas que não existem mais na sua vida. Imagens de um passado tão distante quanto um módulo lunar. Passado. Passado. Passado.

Ele olhava as estrelas e percebia que a vida estava mais curta.

No aparelho, Sugarcubes e a voz deliciosa da Björk preenchendo a madrugada. Nas mãos, um cigarro mentolado. Na cabeça, lembranças antigas. No telefone, ninguém. Na sala, apenas ele.

Mais um aniversário como tantos outros.

Mais um aniversário como tantos outros.

E ela não ligou pare ele.

Mais uma vez...


BIRTHDAY
(SUGARCUBES)

She lives in this house over there
Has her world outside it
Scrapples in the earth with her fingers and her mouth
She's five years old

Thread worms on a string
Keeps spiders in her pocket
Collects fly wings in a jar
Scrubs horse flies
And pinches them on a line
Ohhh...

She has one friend, he lives next door
They're listenening to the weather
He knows how many freckles she's got
She scratches his beard

She's painting huge books
And glues them together
They saw a big raven
It glided down the sky
She touched it
Ohh...

Today is a birthday
They're smoking cigars
He's got a chain of flowers
And sows a bird in her knickers
Ohhh...

They're smoking cigars
They lie in the bathtub
A chain of ... flowers


6.6.06

FÁBULA DO IMPROVISO

- Você merece mais que isso.
- Mereço?
- Merece. Claro.
- Não sei da onde você tira essas idéias, essas demências.
- Do fundo da minha loucura?
- É.
- Deixa de ser boba.
- Não. Não deixo.
- Por que?
- Porquê o quê?
- Pára.
- Não.
- Pára, por favor.
- Com o quê?
- Com estas idéias idiotas de que você não é maravilhosa.
- Ah, tá. Só porque você pediu.
- Não tem espelho em casa?
- Não. Você tem?
- Tenho.
- No teto?
- Haha, não. Não no teto, mas tenho no quarto.
- Então me leva para lá e me mostra.
- O quê?
- Como sou bonita, toda nua na cama ao seu lado.
- Agora?
- É. E eu sou mulher de brincadeiras?
- Não. Definitivamente não.
- Então vamos.
- E depois, posso dormir?
- Claro.
- E fumar?
- Lógico.
- E beber?
- Também.
- E você cozinha para mim depois de me comer?
- Te adoro, sabe?
- Cozinha?
- Claro.
- Então vamos, mas cooking wine...
- Ei, isto é uma música.
- Alkaline Trio.
- Ah...
- E eu sou uma idiota falastrona.
- Vamos?
- Vamos. Imediatamente...

e partiram, deixando para trás um boteco retrô no centro da cidade, repleto de garrafas vazias e pessoas tristes...

...

5.6.06

QUANDO A DANÇA FURIOSA NÃO SUFOCA A DOR

Ela entrou no quarto chorando.

Os olhos estavam inchados. Inchados de tanto chorar. Inchados de tantas lágrimas e lágrimas e lágrimas. Muitas lágrimas. Lágrimas doloridas, lágrimas de paixão, lágrimas de porradas.

E, coitada, ela não se importava em tentar acertar. Não, definitivamente ela não se importava.

Ela se importava e ficava cansada de SEMPRE, mas SEMPRE mesmo, ficar tão machucada.

Este era o maior problema. Ficar sempre tão machucada, mesmo por alguém que não valia sequer um cobre, por alguém que não valia sequer um "e".

Mas ela sempre se machucava e ficava sozinha na noite, sofrendo em silêncio.

E o quarto, naquela madrugada, era o seu ambiente. Depois dos bares, dos clubes, dos amigos, da noite, do fim, havia apenas ela e o seu pequeno quarto.

E dentro dele, segura e assim que chegou, ela despejou o mundo no carpete vermelho puído. Despejou o mundo sobre o carpete. Despejou o melhor do seu mais recente fracasso.

As lágrimas se confundiam com a saliva e, puta, ela gritou como há tempos não gritava antes de dar uns dois ou três socos furiosos no armário de cds.

A dor apenas aumentou.

Ficou triste ao ver o seu cd do Joy Division no chão, parcialmente fodido, quase destruído.

E ele era tão especial.

O cd, que fique bem claro. Não aquele idiota por quem ela estava chorando.

Colocou o cd no player naquele momento.

Aos primeiros acordes, resolveu dançar.

Dançar para não dançar.

Dançar para ser feliz.

Dançar para exorcizar.

Dançar para poder acalmar a vida.

Dançar para poder acalmar o espírito.

Dançar furiosamente por um único motivo: não ter mais fôlego para poder chorar.

E enquanto o modo repeat do cd player repetia exaustivamente Love Will Tear Us Apart, ela percebeu que estava cansada de se foder.

Cansada de tanta falta de auto estima.

Cansada.

Muito cansada.

E no começo da manhã, quando o sol, cruel apareceu, não havia mais fôlego para a dança.

Para as lágrimas e a dor, no entanto, o fôlego estava lá.

Como sempre.

Como sempre na vida daquela menina linda.

Como sempre e sempre e sempre, para todo o sempre...

até ela decidir que não...

até ela decidir...

sozinha

...

2.6.06

... eu avisei...
UM por dia...
MALDITO... APENAS MALDITO

- Você é obcecado por canções tristes!

Ele estava quieto, em total silêncio, apenas relembrando a voz doce e suave e cortante e desesperada e cruel daquela garota.

- Você obcecado por pessoas más!

Ele sabia que ela estava certa. Totalmente certa.

Como sempre.

E no meio da sala suja, repleta de roupas jogadas, tênis encardidos, espelhos de coca, garrafas vazias, cinzeiros cheios, cds mal gravados, revistas antigas, jornais amarelos, recordações doloridas, fotos em pb, guardanapos amassados, ele fixava os seus olhos verdes e grandes e tristes em dois pequenos e amassados pedaços de papel.

O primeiro, que dizia:

Você é obcecado por canções tristes!
Você é obcecado por pessoas más!
Você é obcecado por quem te deixa doente!
Você espera que eu concorde com isso? Você espera que eu aceite isso? Você espera que goste disso?
O que você espera de mim?
O que, seu filho da puta?
Te odeio, como jamais achei que pudesse odiar alguém.
...
Alguém que eu amei muito mais do que a mim mesmo...


O segundo, apenas uma nota:

Jamais achei que pudesse amar tanto. Jamais achei ou imaginei que pudesse amar desta forma. Você é lindo. Você é breve. Você é urgente. Você é o cara que eu jamais achei que pudesse existir. Mal te conheço. Muito te amo. Always... Te amo...

E os seus olhos verdes e grandes e tristes perderam o poder de visão por poucos e breves segundos.

Tomado por dor, ele apenas desistiu de entender porque SEMPRE fazia tudo da maneira mais errada possível.

Maldito...

Maldito...

1.6.06

um conto por dia...
a partir de hoje
exceto sábados e domingos
até onde isso der...
O MEDO TRISTE EM UMA SALA COLORIDA

- Você está com medo de mim? - ela perguntou, meio divertida, meio provocante.

Ele olhou para o teto e ficou em silêncio, tentando enxergar alguma resposta na atmosfera neon daquela sala.

- Está? - ela insistiu, lust for life, lust for love.
- Talvez.
- Talvez?
- É. Talvez.
- Nem você sabe o que você sente? - ela arriscou.
- Não. Definitivamente eu sei porra nenhuma sobre nada. Esta é a maldita verdade.
Ela sorriu e apenas concordou com a cabeça.
- Tudo é muito foda, sabe?
- Você é um tremendo babaca - ela disparou, sem piedade.

Ele olhou novamente para o teto e não disse uma palavra.

- Nossa, você é muito babaca. Você sequer quer experimentar, tentar, enfim, sequer quer provar.
- Provar o quê? Experimentar o quê. Que tortura - ele disse, sem paciência.
Ela o encarou com fúria. Muita fúria - O meu beijo, seu imbecil. O meu corpo. Tudo - ela disparou, olhando direto para ele, olhando bem no fundo daqueles olhos azuis tão cheios de angústias e de vontades e de desejos.

Ele suspirou. Junkie. Deixou o teto para lá e encarou aquela menina sentada à sua frente, toda linda e cruel, no carpete colorido da sala - Acho melhor eu ir embora.

Ela ficou sentada no chão e apenas indicou a porta com o baseado.

- Nos vemos amanhã? - ele perguntou, enquanto levantava.
- As usual - ela disse, num lamento, enquanto era encoberta pela fumaça do cigarro.
- Então tá.

Antes de sair, ele virou-se e olhou para ela sentada no carpete colorido da sala, fumando a sua viagem e olhando através da janela. Não disse nada. Apenas abriu a porta e foi embora.

E do lado de fora, havia apenas um babaca.

Eu tenho medo. Eu tenho muito medo. Medo de mim - pensou, triste, enquanto o elevador não chegava.