10.5.06

RUIVA MILES DAVIS

Ele era apenas um tolo.

Um tolo apaixonado.

Um tolo atordoado.

Um imbecil.

Passava as noites na sacada apertada, encarando a noite e o neon sob o véu de Miles Davis e de conhaques baratos. Olhava para as estrelas como se elas pudessem ajudar, como se elas, estrelas, pudessem realmente salvar a sua vida.

Nem elas nem Miles Davis.

Um total idiota. Era isso, na verdade, o que ele realmente era.

Um total idiota.

E além das estrelas, ele sempre tinha outra companhia naquela sacada apertada.

Um maldito fantasma.

Ela.

A mais linda de todas as garotas ruivas.

A mais linda de todas as garotas.

Linda, sorrisos e licor.

Linda, sorrisos e desejos.

Mas agora era tarde. Tarde demais para qualquer tentativa, tarde demais para qualquer coisa além de cigarros, desejos, estrelas, conhaques, vontades e antigos discos de vinil.

Ele desperdiçou sua chance, sua vez de apostar e ganhar.

Fugiu.

Como TODAS as vezes em sua maldita vida.

Pobre imbecil.

As pessoas sempre fogem quando encontram alguém legal. Quando encontram um "amor".

Sempre.

A pergunta dele era simples e direta: "Como será a neve que ele jamais tocou"?

E as estrelas continuarão lá, junto com os seus "Miles Davis", os seus cigarros e os seus desejos perdidos...

pobre medroso idiota...

4.5.06

A LUA QUE TESTEMUNHA A NOITE

- Vai, me fode...

Palavras soltas dentro de um quarto de hotel, o Hotel Varsóvia, num ar repleto de veludo, fumaça, álcool e cores modernistas. Dois corpos. Mixados, misturados, molhados. Dois corpos como um. Dois corpos como um. Nada mais clichê, nada mais real, nada casual. Os corpos estavam tão unidos e as peles não relutavam em se encostar. Definitivamente não relutavam;. A saliva escorria e percorria cada centímetro de cada corpo, cada centímetro de cada desejo, cada centímetro de cada centímetro. E as línguas, vermelhas e inchadas, eram apenas um beijo. Um único beijo molhado, um beijo melado, um beijo memorável. Um único beijo sem fim. Singular Molhado de vontade. Repleto de vontade.

- Vai, assim...

E a lua, testemunha, apenas boiava no céu como quase imóvel. Como quase inerte. Silente testemunha. A lua, cheia e redonda, apenas assistia àquela cena. Apenas assistia a uma cena de cinema. Cinema antigo, noir, erótico, pornô. Deliciosa película pornográfica. Delicioso espelho de selvagens e deliciosos desejos sexuais.

- Vai, me fode atrás...

E além do odor, do gosto, do estímulo, dos toques e de tudo, ainda havia os ruídos. Os ruídos de um quarto de hotel antigo. O Hotel Varsóvia.

Molas de um colchão fofo, cheirando a mofo e sexo. E sobre este colchão, dois corpos nus eram pílulas "e". E as mãos deslizavam suaves através de cada extensão de cada corpo. Os toques, os cabelos, o suor, os beijos, as línguas, os desejos, as vontades, os líquidos, os lençóis, as perversões, as paixões, os ruídos, tudo era delírio e sexo e gozo.

- Vai, vai...

...

E a lua foi, finalmente, liberada. A fumaça de um cigarro aceso e dois corpos cansados e exaustos estirados pelo carpete bordô permitiram à lua, redonda e gorda e cheia, prosseguir com sua viagem, em busca de outros casais tão apaixonados quanto aquele.

...