28.3.06

AONDE O MAR VIRA O CÉU...

- Então será mesmo dia 19? - ele perguntou, quase casual, quase indiferente.
Ela evitou olhar para ele. Disfarçou olhando o mar, longe longe, aonde o oceano vira o céu - Sim. Dia 19, ou seja, próximo sábado.
- Uma semana - ele lembrou, brincando com areia entre os dedos, desenhando nuvens e sonhos psicotrópicos.
- É - ela disse, lacônica e breve.
- Mas vai ser maravilhosos querida. Vai ser maravilhoso de verdade. Não acha? - ele perguntou, agora querendo apenas (auto)convencer de que ela estava certa, de que ela realmente estava fazendo o melhor, o correto.
Ela encarou os dedos finos dele deslizando na areia - Não sei. Não sei se vai ser maravilhoso. Mas sei que é o quero fazer. Quero mesmo dar um basta e sumir. Viver. Sei lá.
- Berlim. Berlim é longe não? - ele riu da própria besteira.
Ela sorriu, enquanto sentava na areia molhada ao lado dele - Longe pacas.
- E nós?
- Nós?
- É. Nós.
- Nós o quê? - ela respondeu querendo evitar aquela pergunta, querendo evitar dar qualquer tipo de resposta, querendo evitar qualquer coisa.
- Eu vou sentir sua falta - ele disparou, pouco se importando se ela queria evitar aquele assunto.
- Eu também, caralho. Você sabe, não sabe?
- Claro que sei. Claro que sei. Sei porque você está indo, sei o quanto batalhou por este ano que vai passar em Berlim, sei a grana que juntou, sei tudo. Mas isso, definitivamente, não impede que eu sinta muitas saudades.
- Podemos conversar pela internet. Passo em qualquer cybercafé e conversamos por mail, orkut, messenger, enfim, o que der e quando possível.
Ele sorriu, levantando-se e limpando a areia úmida - Já te falei que adoro praias em dias cinzas?
Ela sorriu como se fosse a primeira vez que estivessem juntos - Repetidas vezes - respondeu.
Enquanto ajudava ela a se levantar, ele comentou - Desde muito pequeno, quer dizer, adolescente, desde muito adolescente eu tinha um daqueles murais ridículos no quarto. Eu costumava colar fotos e letras de canções que eu escrevia, enfim, costuamava colocar toda espécie de bagulhos na porra do quadro, numa forma de memorabilia pessoal.
- E? - ela perguntou, curiosa.
- Vou "ressuscitar" este quadro para poder prender nele os seus e-mails - ele disse - Assim você fica lá, pregada na parede e na minha memória.
Ela sorriu um sorriso de despedida, um sorriso de amor, um sorriso de sábados cinzas em praias desertas - E eu vou no carro pegar um baseado para este nosso ritual de celebração e reencontros - Espera aí - ela pediu.

E enquanto ela caminhava em direção ao carro, ele apenas a observou, ali, parado com os pés afundados na areia molhada pela chuva da noite anterior. Seus olhos encheram de lágrimas e lembranças. Despedidas e partidas - E mais uma vez, tudo o que vai me restar são as memórias. As memórias e as lembranças do que jamais tive a porra da coragem para fazer. E mais uma vez, eu apenas vou dizer adeus e ouvir canções tristes. Tudo ainda mais uma maldita última vez.

E como foi o futuro?

E vocês ainda perguntam?

Basta imaginar uma canção antiga do Neil Young.

Aonde o céu o o mar se encontram...

... e também se separam... e também se separam...

6.3.06

BOBAGENS SOBRE CÚPIDOS SÁDICOS

Não há inspiração alguma. Não. Definitivamente não há qualquer inspiração. Nem uma foto, nem um desejo, nem um sorvete, uma dor, uma paixão, uma vida, uma morte. Não. Nada disso. Definitivamente, não há inspiração nesta manha tão cheia de chuva e nuvens chumbo. Pode ser o fim, o começo, o meio, qualquer coisa, mas o caminho parece liso, branco, único. Nada a dizer, nada a declamar, nada pelo que morrer, nada pelo que sonhar. O vazio entediante do espaço explode como uma tragada de nicotina no seu pulmão. E quando o tédio e o vazio são as coisas mais ressonantes em uma vida, ah, aí talvez seja melhor apenas chorar. beber umas tequilas, fumar algum cigarro. Entorpecentes. Escutar um disco de jazz antigo, mas jazz, porra, é das coisas mais chatas que existem na vida. Chato, chato, chato. Não que não seja maravilhoso ser Thelonious Monk ou John Coltrane. Neon e fumaça. Não, é chato apenas porque te faz sonhar e flutuar e lembrar do quão medíocre é e sempre será a sua vida. Melhor um punk rock. Nada como um punk rock para te cansar, distrair, pular, beber, fumar e perder ar. Nada como a vida. mas uma vida cheia, não uma vida rasa, uma vida intensa, não uma vida rala, sem sal, insípida. Não. Uma vida gorda, uma vida cheia, uma vida repleta de tudo o que se pode fazer debaixo do sol. Uma vida ilustre. Uma vida bacana. Uma vida que valha a pena contar aos netos, se é que eles existirão. E se não existirem, foda-se. Os enfermeiros estarão lá para isso mesmo. Para trocar o soro que vai te manter vivo e para ouvir toda a sorte de besteiras e mentiras e maldades e passagens e contos que você viveu ou não viveu. Até o último suspiro. Até o último olhar. Não há inspiração alguma. Nenhuma canção que possa invadir os ouvidos e ativar no cérebro cansado e derretido, alguma lembrança memorável. Não. Nenhuma foto e nenhuma visão. Nada. E tem o vídeo de uma canção antiga do REM. Uma canção do século passado, quando imaginávamos que este século sequer existiria. Uma canção antiga e devastadora, uma canção antiga e arrebatadora. It´s the end of the world as we know it (and I feel fine). É o fim do mundo como o conhecemos (e eu me sinto bem). É esta a maldita tradução. De qualquer forma, no vídeo, tem um garoto e uma casa abandonada e semi-destruída. Apenas isso. E o garoto está com seu skate e usa a casa de todas as formas possíveis. Ele dança, ele canta, ele pula, ele manobra, enfim, ele vive. Ele VIVE. Entendem? Conseguem entender? Como se não houvesse nada além do último luar. Como se não houvesse nada além de hoje. E o mundo não acaba no final. Pior para nós. Pior para quem espera e não vive. Não há inspiração alguma. Não. Não mesmo. E no final das contas, o mundo deveria ter mais cupidos. Cúpidos sádicos e cheios de raiva e vontade de usar suas flechas doces e encantadoras. Flechas em corações e cúpidos sádicos. Definitivamente, haveria mais com o que sonhar...

sem dúvida...

BOBAGENS SOBRE CÚPIDOS SÁDICOS

Não há inspiração alguma. Não. Definitivamente não há qualquer inspiração. Nem uma foto, nem um desejo, nem um sorvete, uma dor, uma paixão, uma vida, uma morte. Não. Nada disso. Definitivamente, não há inspiração nesta manha tão cheia de chuva e nuvens chumbo. Pode ser o fim, o começo, o meio, qualquer coisa, mas o caminho parece liso, branco, único. Nada a dizer, nada a declamar, nada pelo que morrer, nada pelo que sonhar. O vazio entediante do espaço explode como uma tragada de nicotina no seu pulmão. E quando o tédio e o vazio são as coisas mais ressonantes em uma vida, ah, aí talvez seja melhor apenas chorar. beber umas tequilas, fumar algum cigarro. Entorpecentes. Escutar um disco de jazz antigo, mas jazz, porra, é das coisas mais chatas que existem na vida. Chato, chato, chato. Não que não seja maravilhoso ser Thelonious Monk ou John Coltrane. Neon e fumaça. Não, é chato apenas porque te faz sonhar e flutuar e lembrar do quão medíocre é e sempre será a sua vida. Melhor um punk rock. Nada como um punk rock para te cansar, distrair, pular, beber, fumar e perder ar. Nada como a vida. mas uma vida cheia, não uma vida rasa, uma vida intensa, não uma vida rala, sem sal, insípida. Não. Uma vida gorda, uma vida cheia, uma vida repleta de tudo o que se pode fazer debaixo do sol. Uma vida ilustre. Uma vida bacana. Uma vida que valha a pena contar aos netos, se é que eles existirão. E se não existirem, foda-se. Os enfermeiros estarão lá para isso mesmo. Para trocar o soro que vai te manter vivo e para ouvir toda a sorte de besteiras e mentiras e maldades e passagens e contos que você viveu ou não viveu. Até o último suspiro. Até o último olhar. Não há inspiração alguma. Nenhuma canção que possa invadir os ouvidos e ativar no cérebro cansado e derretido, alguma lembrança memorável. Não. Nenhuma foto e nenhuma visão. Nada. E tem o vídeo de uma canção antiga do REM. Uma canção do século passado, quando imaginávamos que este século sequer existiria. Uma canção antiga e devastadora, uma canção antiga e arrebatadora. It´s the end of the world as we know it (and I feel fine). É o fim do mundo como o conhecemos (e eu me sinto bem). É esta a maldita tradução. De qualquer forma, no vídeo, tem um garoto e uma casa abandonada e semi-destruída. Apenas isso. E o garoto está com seu skate e usa a casa de todas as formas possíveis. Ele dança, ele canta, ele pula, ele manobra, enfim, ele vive. Ele VIVE. Entendem? Conseguem entender? Como se não houvesse nada além do último luar. Como se não houvesse nada além de hoje. E o mundo não acaba no final. Pior para nós. Pior para quem espera e não vive. Não há inspiração alguma. Não. Não mesmo. E no final das contas, o mundo deveria ter mais cupidos. Cúpidos sádicos e cheios de raiva e vontade de usar suas flechas doces e encantadoras. Flechas em corações e cúpidos sádicos. Definitivamente, haveria mais com o que sonhar...

sem dúvida...