7.2.06

TANGERINA? NÃO MAIS...

- Você é idiota? - ele perguntou, bravo. Realmente bravo.
Ela apenas o encarou, com os olhos vermelhos, tão cheios de lágrimas, tão cheios de dor, tão cheios de mágoas, tão cheios de adolescência.
- Porra, dá prá deixar o passado em paz? Dá prá deixar o passado não consumado em paz?
Ela novamente o encarou, agora com os olhos ainda mais vermelhos, ainda mais cheios de lágrimas, repletos de dor, de arrependimentos, de mágoas, tão cheios de tudo.
Ele acendeu mais um cigarro e disparou - E foda-se quem você não conseguiu e foda-se quem você não viveu e foda-se carinhas babacas com camisetas de artistas plásticos. Imbecis que não te perceberam. Será que você só quer ser infeliz nesta merda de vida?
Ela "roubou" o cigarro dos seus dedos e virou o copo dele, ainda cheio de vodka, garganta abaixo.
- Ei - ele reclamou - E desconta esta porra toda na minha vodka?
- Eu sou egoísta! - ela disse.
- É lógico que é. E prepotente e arrogante. Acha que o mundo vai parar por sua causa? Ah querida, mas nem fodendo. Dói perceber isso. Dói muito, mas é verdade.
Ela olhou para o DJ do Clube Varsóvia, apenas como fuga. Apenas prá não ter que olhar prá ele e concordar com as desgraçadas das suas palavras.
- Você não sabe como é minha vida. Não sabe nada. E insiste que não quer ser feliz. Que ninguém lhe deu este direito. Chega dessa merda toda.
- Você é um asshole. Imbecil.
- Eu? - ele ironizou, cruel.
Ela pôs as mãos na cabeça tão escassa de cabelos e juízo e começou a chorar e a chorar e a chorar como uma criança.
Ele percebeu que havia ido longe, longe demais. Mas respirou fundo sua nicotina e aliviou. Foi necessário. Colocou as mãos na cabeça dela e fez um carinho maravilhoso. Lindo. De irmão.
- Ei? - ele sussurrou.
Ela apenas o olhou, com os olhos vermelhos DEMAIS.
. Tá vendo aquela janelinha lá? Em cima da cabine do DJ?
- Que tem?
- Vê a noite?
- Que noite? Choveu prá caralho hoje - ela disse, irritada.
- Então, mas parou.
Ela olhou prá ele, entendendo absolutamente tudo.
- Parou de chover, porra - ele gritou, quase gargalhando.
Ela sorriu.
E entre gargalhadas e sorrisos e vodkas e cigarros roubados, dois amigos acabaram a noite consolando um ao outro. UM AO OUTRO. E perceberam, felizes, que nada podia ser melhor do que simplesmente estar com quem se importa...

E a chuva passou... e a tangerina não é mais a fruta da estação...

definitivamente...

3.2.06

INSÔNIA (SONHOS: CANÇÕES DE NINAR DO INFERNO)

- Anne? Anne...

A voz explodiu como uma bomba israelense.

A voz explodiu como uma bomba e invadiu o seu sonho.

Rasgante. Afiada como uma faca.

E ela nem percebeu da onde veio. Acordou assustada. Acordou perturbada. Desesperada.

Gotas gordas de suor escorriam pelo seu rosto. Tez linda. Pálida. Branca como a neve que ela jamais viu.

Olhou para o relógio e não acreditou. Duas e meia.

- Porra. Duas e meia - pensou, querendo morrer.

Havia acabado de deitar. Nem vinte malditos minutos. Nem meia maldita hora. Nada.

Apenas uma voz bastou. Uma maldita lembrança. Mais uma noite em branco. Em claro. Acordada.

Sono? Que sono?

- Anne? Anne...

Ela olhou ao redor, como querendo entender. Ela olhou ao redor como querendo esquecer.

Esgotada, foi até cozinha.

Copo de água gelada não mata a dor.

Decidiu ir para a sala e ligar o rádio. Péssima idéia. Lovesongs da madrugada são arsênico para corações fodidos. Lullabies malditas.

O silêncio da noite, sem dúvida, era melhor opção.

E enquanto buzinas e putas e carros e viciados e travestis e canalhas e pessoas legais vibravam madrugada além, ela tentava, jogada no sofá velho, apenas dormir.

Apenas dormir...

E conseguiu. Depois de quase uma hora.

Até a voz retornar.

A maldita voz que ela conhecia tão bem.

- Anne? Anne...

... desculpa. Não há amor nenhuma mais. Definitivamente.

Acordou como se estivesse sufocando.

e ela voltou a chorar pela milésima vez nos últimos dias...

...pela milésima vez na última vida...