14.8.06

Este blog acaba aqui.
Como começou.
De forma rápida, surpreendente, e sem nenhum alarde.
E vai embora da mesma forma.
O Clube Varsóvia não existe mais.
A partir de hoje ele vai, tenho certeza, existir apenas nas mentes deliciosas de vocês.
E no meu coração.
Por todo o sempre.
Eu?
Eu estarei onde sempre estive.
No e-mail e por aí, olhando as pessoas e tendo idéias...
Apenas isto...
Beijos, para quem é de beijos.
Abraços, para quem é de abraços...


O FIM

- Lágrimas? - ela perguntou a ele, percebendo os seus olhos verdes rasos, tão lotados de sentimentos e desespero.
Ele apenas concordou com a cabeça, em silêncio.
- Você não deve ficar assim - ela disse, sem nenhuma convicção - No fim, tudo acaba bem. Tudo sempre acaba bem.
- Na verdade, tudo sempre acaba, não? - ele perguntou, seco.
- Mas acaba bem. Isto é o importante.
- É? - ele perguntou meio com raiva, meio descrente, decepcionado - Você acredita mesmo nisso?
Ela desviou o olhar dos seus olhos verdes, inquisidores e firmes e encarou apenas o Clube Varsóvia. Agora fechado, agora vazio, agora desmontado. O "famoso" Clube Varsóvia, agora sem qualquer vestígio das pessoas que por lá um dia passaram.
- Você acredita mesmo nisso? - ele insistiu - As coisas SEMPRE acabam bem?
- Não - ela respondeu, agora caindo em um choro desesperado e intenso.
- É. Você é como eu. Sentimental demais - ele disse, passando as mãos em seus cabelos.
Ela sorriu e respondeu, afetuosa - Com certeza. Muito sentimental e idiota.
- Como eu - ele disse com um sorriso - E tanta gente viveu seus dramas e histórias aqui, não? - prosseguiu.
- Porra. Nem fale. Tanta, tanta gente. Tantos segredos, sonhos, delírios, viagens, lendas, enfim, tanta vida preencheu este Clube, tanta vida.
- Mas as coisas começam e acabam. A vida não é assim? A vida não é simples assim?
- Eu detesto isto. Detesto prazer e perda. Simplesmente detesto o fim das coisas.
- Meu avô era polonês, sabia?
- Não. Nunca soube.
- Este é um dos motivos de eu ter vindo aqui há tantos anos, mesmo sem saber se o Clube era legal. Clube Varsóvia. Adorava o nome. Tão polonês, tão poético, tão forte, tão gostoso.
- E os outros motivos?
- Ah, tudo o que aconteceu a partir do momento em que pisei aqui pela primeira vez. Foram muitas viagens. Muitas viagens. E, a partir de hoje, o Varsóvia não existe mais. A partir de hoje o Varsóvia está simplesmente fechado.
Ela fez um carinho no seu rosto, apenas para enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto dele - Uma vodka?
Ele sorriu e concordou com a cabeça - Só se for na sua casa. Não tenho mais idade para outros clubes, outras vidas, outras despedidas.
Ela sorriu e disse, rápida - Então vamos. Na minha casa.
E partiram de mãos dadas, sem olhar para trás, sem olhar para o clube agora fechado, o Clube Varsóvia.

E foram conversando...

- Minha mãe me disse certa vez que a vida é uma viagem. E devemos olhar repetidas vezes pela janela para jamais esquecermos o que vimos. Jamais...

E foram embora conversando e conversando e conversando sobre detalhes, passado, futuro, amizade, enfim, foram conversando sobre a VIDA e o que os espera, ou não, lá na esquina...

8.8.06

ASHES TO ASHES, DAVID BOWIE, ASHES TO ASHES...

- Você quer comer algo? - Letícia perguntou à Clara, assim que entrou no apartamento em que morava.
- Não - respondeu Clara, deixando evidente seu constrangimento.
O perfume no apartamento era quase igual ao perfume de seda verde descrito por Patricia Highsmith no livro Carol. Perfume de seda verde. Interessante definição para um cheiro inebriante, envolvente, devasso ou mesmo puro.
- Tem certeza? Devo ter alguma coisa na geladeira, além de vodka vagabunda.
- Não se preocupe Letícia. Por favor. Posso fumar?
- Claro - concordou Letícia, indicando com seus dedos longos, suaves, o cinzeiro colorido que estava largado no chão.
Os dedos de Letícia eram sensacionais. De uma plástica belíssima. Longos, uniformes, delicados. As unhas, médias, sempre aparadas e bem cortadas. Não importava a falta de grana ou a porra do stress ou mesmo a falta de tempo. Ela, vaidosa, sempre dava um jeito de manter as suas unhas e mãos lindas como um retrato de outono. Um jardim de outono.
- Você não limpa isto nunca? - perguntou Clara, assustada com as bitucas e as cinzas deixadas no cinzeiro.
- Ashes to Ashes / Funky to Funky / You Know Major Tom´s Junkie - cantarolou - David Bowie. Lembra?
- Detesto.
- Detesta?
- Sim. Detesto.
Letícia parou por um minuto e a lembrança veio nítida na sua cabeça. Aniversário de sei-lá-quantos anos de Clara e ela havia dado um vinil do Bowie. Young Americans. E as palavras foram claras "adoro Bowie". "Tudo o que ele fez ou faz ou fará. Incondicionalmente".
- Há quanto tempo estamos juntas? - perguntou Letícia, enquanto tirava a camisa bordô.
- Juntas como? De conhecer ou do primeiro beijo ou da primeira transa?
- Do primeiro beijo.
- Ah, muitos anos.
. Tanto assim? A ponto de perdermos até referências?
Clara apenas concordou com a cabeça, preferindo o silêncio por um instante. Sabia que nunca poderia deixar de fumar. Em determinados momentos, como aquele, manusear um cigarro era a salvação. Melhor do que conversar sobre o que não se quer com quem não se deseja.
- Melhor eu ir - disse Clara, após dar sua última e longa tragada.
- Nos vemos?
- Talvez - respondeu, sabendo que certamente aquela não era a noite da despedida, a noite do epílogo, a noite do grand finale. A noite em que ambas derramariam talvez um oceano de lágrimas, menos por pesar, mais por arrependimento em sepultar o que já estava irremediavelmente morto e fodido.
Ao perceber que Clara saiu do seu apartamento, sem nem ao menos um beijo, um olhar, um gesto de carinho, Letícia sentiu uma pontada. Uma pontada de dor e choro. Uma pontada de amor perfeito, perfeitamente estragado e destruído pela rotina e pela vaidade e pelo orgulho e pela maldade e pelo descuido. Olhou pela janela e viu que a chuva e as nuvens estragavam a vista para a lua.
- Logo hoje.
Decidiu, naquele momento, que ao menos por uma noite, David Bowie seria seu amante. O melhor e o maior de todos.

Apenas por aquela noite...

31.7.06

BRINDANDO ÀS PALAVRAS REPETIDAS

- Você é repetitivo.
Ele olhou com uma surpresa muda, sabendo que, no fundo, ela estava certa - Como assim? - perguntou.
- Repetitivo. Repetitivo. Você usa as mesmas palavras para dizer as mesmas coisas. faz isso o tempo todo.
- Faço? - ele disfarçou.
Ela sorriu - Claro que faz. Mas o que me deixa ainda mais fascinada é esta sua cara de pau. Você sabe que é assim, desse modo.
Ele fingiu indignação, mas por puro orgulho. Ela estava absolutamente certa. Acendeu um cigarro e ficou quieto, esperando a próxima porrada.
- Não? Você não sabe disso? - ela insistiu.
- Claro que sei. Claro, porra.
- Então porque você não tenta mudar?
- Você quer que eu diga o quê? Quer que eu faça o quê? Quer que eu pegue um dicionário e use as mais estapafúrdias palavras? Quer que eu use os mais diversos adejtivos, substantivos, artigos, enfim, as mais mirabolantes saídas da língua portuguesa para dizer algo que pode ser dito de maneira simples, direta, objetiva.
- Mas você não é objetivo - ela disparou, como um direto em seu queixo.
Ele levantou-se do sofá e foi direto em direção ao aparelho de som.
Ela apenas observou, em silêncio.
- Lembra daquela nossa conversa sobre filmes?
Ela concordou com a cabeça, enquanto observava ele mexer nos seus discos.
- Então, acho que descobri qual o filme mais emotivo.
- Qual? - ela perguntou curiosa.
- Rumble Fish.
- O quê? - ela perguntou, surpresa.
- Rumble Fish. O Selvagem da Motocicleta, do Coppola.
- Ah, sei. Mas emotivo?
- É.
- Não tenho a menor idéia da razão.
- Assiste ao filme. É sobre tudo. Sobre tentar ser o que não se consegue. Em preto e branco. E a personagem principal não enxerga cores. E não sabe como são lindos "peixes de briga" com suas caudas coloridas e barbatanas imponentes.
- Hmmm, interessante. Não imaginava que você fosse assim.
- Assim como? - ele perguntou, segurando o vinil preto que havia acabado de escolher.
- Assim, deste jeito. Capaz de ver cores em ambientes "monocromáticos".
- "Monocromáticos"? Puta coisa "Bergman".
- Hahahahahahahaha - ela gargalhou.
- Sério, típico de quem é obcecada pelo sueco.
- Sou obcecada por coisas interessantes. Apenas isso meu querido. Apenas isso. O que escolheu?
- Um disco de rock triste, repleto de canções de amor.
- Canções tristes para uma sexta à noite?
- Não, canções amor para amigos queridos, juntos numa sexta à noite.
- Então brindemos.
- A quem? A Bergman?
- Hahaha. Não. Brindemos às palavras repetidas.
- Palavras repetidas? - ele perguntou, curioso.
- Exato. Brindemos às palavras repetidas.
- Motivo?
Ela sorriu com leveza, alegria e disse - Mesmo à exaustão, as palavras repetidas podem ser úteis. Mesmo repetidas à exaustão, elas podem nos levar aonde menos sonhamos. Depende apenas de quem as usa, de quem as lê, de quem as escuta. Depende apenas disso.

...


12.7.06

EM SANTA TEREZA, VOCALISTAS TRISTES CANTAM APENAS BALADAS AMARGAS OU TRIP-HOP

Ela ouvia, nítido, o barulho das pessoas ferozes à frente do palco. Uma pequena turba àvida por acordes e guitarras e espetáculo.

Você ainda tem medo? - a voz dele ecoou na sua lembrança.

O Clube era pequeno. Por mais que o seu primeiro show como cantora fosse uma lembrança adolescente, ela, definitivamente, nunca se acostumaria com o barulho das pessoas e com o cheiro de cerveja e fumaça e maconha que sempre impregnava a atmosfera dos pequenos clubes aonde tocava. Cheiro de pessoas reunidas e desejos.

Você é linda. Suavemente linda e apaixonante. Doce. Tão fodidamente doce.

Algum idiota anunciou e a banda subiu ao palco. Alguns aplausos, alguns gemidos, assobios, enfim, a reação de sempre. As usual.

Ela, mais uma vez, se viu diante de uma platéia. Mais uma vez, ela não estava feliz.

Você tem uma obssessão em ser triste. Uma espécie de fixação que eu não quero, e não pretendo, nunca entender.

Os acordes começaram a rolar e ela, de olhos fechados, começou a despir seu vestido d´alma. Começou a murmurar as palavras cantadas, numa espécie de ritual. Numa espécie de expiação de dor e sacrifício. Como era fodido e dolorido ficar nua na frente de um público que, talvez, nem percebesse isso.

Você mora no Rio. Você canta numa banda. Você não pode ser feliz? É difícil ser feliz? É tão difícil assim?

As canções corriam e ela, suave e triste, continuava a cantar em seu sacrifício particular.

Em Santa Tereza, vocalistas tristes cantam apenas baladas amargas ou trip-hop. Cante um rock alegre. Uma canção de amor feliz. Uma única vez. Por mim, por favor...

E sob a lembrança doce do seu sorriso, ela encarou a banda antes do último número e decidiu, apenas por um momento, ser uma pessoa feliz. Mesmo sem ele por perto, mudou a última da noite e mandou uma adorável canção de amor, alegria, sorrisos, enfim, uma adorável canção de amor feliz.

Enlouquecida, a platéia olhava hipnotizada para aquela garota em cima do palco, conduzindo a noite como queria.

Ela não era mais uma vocalista triste. Ela agora uma mulher apaixonada.

Em Santa Tereza, vocalistas tristes também decidem mudar de idéia...

...

como se tivessem um pote de geléia de morango nas mãos...

11.7.06

ODEIE-ME DOMINATRIX

Alguém já viu olhos verdes tão gordos e lindos?

Ela era fatal.

Uma inebriante Femme Fatale como a canção de Lou Reed e seu underground de veludo. Absolutamente fatal.

Fatal e forte e firme e segura e decidida e atrevida e ousada e centrada e todos os demais adjetivos utilizados sem vírgula entre eles. Adjetivos verdeiramente adjetivos. E exatos.

Ela era fatal e simplesmente o ignorava.

Culpa dele?

Claro que sim.

Idiota ao extremo, não percebeu que, na verdade, além dos saltos agulha e do corselet preto e do chicote prateado, havia uma garota de olhos gordos e verdes com medo. Insegura e menina demais.

Insegura e menina demais para ser deixada de lado.

Ele não percebeu.

Só isso.

Pobre idiota, covarde e medroso.

Azar o dele.

Agora é tarde para arrependimentos e desculpas. Agora é tarde demais.

E nos guardanapos de papel escritos à mão por ele em madrugadas frias e úmidas e bêbadas, repousava a sua culpa e o seu desejo.

Não me ignore. Odeie-me dominatrix.

E apenas os travestis e os mendigos e as putas e os covardes do centro da cidade tinham acesso aos bilhetes rasgados e jogados no chão nos botecos imundos por onde ele passava.

Odeie-me dominatrix.

Simplesmente odeie-me.

E, voltando, alguém já viu olhos verdes tão gordos e tão lindos e indecifráveis?

10.7.06

CINEMA MUDO

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão.

- Você precisa dizer as coisas sem pensar. Precisa fazer mais vezes isto - ela pediu, impaciente - Precisa ser mais seguro. precisa ser mais você.
- Preciso? - ele respondeu, pensando muitas vezes antes de responder - É que eu nunca sei quando você fala sério.
Ela encarou o teto, irritadíssima e disparou - Faça como quiser, seu porra pretensioso. Quem disse que é para você saber o que penso - Quem disse?
Ele nada disse. Pensou em dizer diversas coisas, óbvio, mas ficou em silêncio. Ficou em silêncio tentando achar a palavra perfeita, a frase certa, a entonação adequada, mas, ainda mais uma vez, ficou apenas em silêncio.
- Vou indo, então - ela falou - Estou com fome, preciso comer alguma coisa.
- Agora?
- É, agora, qual o problema?
- Nada, mas já são duas da manhã.
- E, por acaso, ninguém pode ter fome às duas da manhã?
- Não precisa ficar puta - ele pediu, sabendo que havia feito merda a noite toda.
Ela olhou novamente para o teto, talvez agora explodindo de raiva, talvez pedindo ajuda aos céus, talvez apenas com sono e tédio por aquele pateta diante dele - Eu não ESTOU puta. Estou apenas com fome e cansada.
Ele ficou em silêncio, enquanto sua cabeça paranóica pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Mil coisas, porém nada que valhesse a pena ser dito. Não naquele momento.
- Tá bom, então?
- Bem, está. Tudo em ordem.
- Se eu ficar você vai dizer algo? - ela arriscou. Uma última tentativa. Vã.
Ele tentou ser rápido, mas o tempo voou. Os segundos foram muito mais velozes do que sua audácia, quer dizer, a sua "vontade" de ter audácia.
- Amanhã eu te vejo? - ele disse.
Ela bufou algum som incompreensível e respondeu, tentando manter a calma - Talvez.
- Talvez é melhor do que um não direto, não é mesmo?
Ela soltou um suspiro - Você é um idiota mesmo, mas creio que eu já te disse isso, não? - ela relaxou.
Ele sorriu, tímido, e esboçou um sorriso.
- Você é um tremendo idiota. Ah, como é - ela repetiu.
- Desculpa.
- PÁRA de pedir desculpa, caralho. Que chato.
- Descul... tá, ok - ele emendou.
- Vou indo, então. Estou morrendo de fome.
- Tá, nos vemos amanhã. Quero dizer. Talvez.
- E espero que arrependido pelo que NÃO fez - ela disse, cruel e ligeira.
Ele tentou evitar não transparecer que concordava. Em vão. Seu olhar o traiu, mas ela fingiu não perceber.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Fica bem.
- Você também.

E enquanto ela sumia dos seus olhos, ele viajou longe em pensamentos. Ele foi longe, tentanto entender o que havia feito de errado. Tentanto entender o que NÃO havia feito.

E se antes ele não havia dito nada. Agora, com a boca seca, sua vontade era a de gritar.

Apenas gritar para o apartamento vazio.

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão e silêncio naquele sábado á noite.

5.7.06

Estava receosa... Señor Varsóvia nunca dera as chaves nas mãos de ninguém antes.
O clube estava vazio. A porta fez eco quando ela a abriu.





Foi até o bar, pegou uma garrafa de vodca de um jeito meio "foda-se. já que eu to aqui..."
Ligou o som... dançou rindo, ao lembrar de tantas bobagens que ele falava quando lhe entregou a chave...

"Ok" pensou, "não vou abusar muito disso aqui... não vou mudar nada... gosto das paredes, gosto desse teto imundo..."

Mas acima de tudo, gostava dele... Señor Varsóvia...


Sentiu-se despreparada para a missão, mas foi em frente.













Abriu o cofre, pegou toda a grana, cartas e outras porcarias de lá de dentro, enfiou na mochila velha e saiu com a garrafa de vodca na mão.
Trancou a porta, mas deixou uma fresta da janela aberta... se ela quisesse voltar, pularia. Sem a permissão dele.

Sabia que eles se encontrariam em algum lugar...
Ele não deixaria as chaves com aquela garota que também falava apenas bobagens.. NUNCA MAIS... ele não era assim, tão louco.

4.7.06

E ELA AINDA MORAVA EM NITERÓI

- Você nunca fala sério? - ele perguntou.
Ela sorriu, tímida, e ficou em silêncio.
- Nunca? - ele insistiu.
- Talvez. Deveria? - ela arriscou, sem saber até que ponto podia chegar.
Ele olhou para o céu, meio irritado e disse, em um tom de voz mais alto - Claro que sim. Claro que sim. Você tem que aprender a falar sério - insistiu - Ao menos uma vez na vida.
Ela sorriu - Não sei. Definitivamente não sei o momento. Não sei o exato momento em que um olhar deve ser substituído por uma palavra.
- Não? - ele perguntou.
- Não - ela respondeu.
- Então deixa eu te dizer uma coisa, minha querida. Algo simples, porém inédito nas nossas conversas.
- Você está bravo? - ela perguntou.
Ele sorriu, doce - Não, claro que não.
Ela retribuiu o sorriso, curvando suavemente os lábios vermelhos, num esboço de simpatia.
- Na verdade - ele prosseguiu - Você parece que foge. A todo momento parece fugir.
- De quem? - ela perguntou, mordendo os lábios, esperando que ele errasse a resposta.
- De você?
Ela corou. Ficou totalmente vermelha. Nada disse.
- Não? - ele insistiu.
- Não. De forma alguma. Não fujo de ninguém. Sou segura do que quero.
Ele sorriu, debochado - Tem certeza?
- Tenho, claro que tenho.
- Há quanto tempo eu te conheço?
Ela respondeu, entre os dentes - Há mais tempo do que eu gostaria.
- Hahahaha. Você NUNCA vai mudar.Vai?
- E por acaso, eu preciso mudar?
- Brinda comigo - ele pediu.
- Brindar o quê?
- A nossa amizade e o meu primeiro conto.
- O beijo não dado?
- E você ainda morava em Niterói.
- Ei, otário, eu AINDA moro lá.

E sorriram como crianças naquele Clube Varsóvia tão repleto de pessoas e sentimento, felizes por terem cruzado um na vida do outro.

...

Felizes. Muito felizes.

14.6.06

A CHAIN OF... FLOWERS

Ele estava só na sala.

Completamente só.

Noite alta. Madrugada fria de inverno. Ele estava sozinho.

Não havia nada naquela maldita e pequena sala, além dele e de seus álbuns antigos de vinil espalhados numa caixa velha. Discos de rock. Rock dos oitenta, discos que ninguém ouve mais. Ninguém mais quer ouvir.

Exceto ele.

E ele estava só na sala.

Nas estantes, fotografias gastas com imagens de pessoas que não existem mais na sua vida. Imagens de um passado tão distante quanto um módulo lunar. Passado. Passado. Passado.

Ele olhava as estrelas e percebia que a vida estava mais curta.

No aparelho, Sugarcubes e a voz deliciosa da Björk preenchendo a madrugada. Nas mãos, um cigarro mentolado. Na cabeça, lembranças antigas. No telefone, ninguém. Na sala, apenas ele.

Mais um aniversário como tantos outros.

Mais um aniversário como tantos outros.

E ela não ligou pare ele.

Mais uma vez...


BIRTHDAY
(SUGARCUBES)

She lives in this house over there
Has her world outside it
Scrapples in the earth with her fingers and her mouth
She's five years old

Thread worms on a string
Keeps spiders in her pocket
Collects fly wings in a jar
Scrubs horse flies
And pinches them on a line
Ohhh...

She has one friend, he lives next door
They're listenening to the weather
He knows how many freckles she's got
She scratches his beard

She's painting huge books
And glues them together
They saw a big raven
It glided down the sky
She touched it
Ohh...

Today is a birthday
They're smoking cigars
He's got a chain of flowers
And sows a bird in her knickers
Ohhh...

They're smoking cigars
They lie in the bathtub
A chain of ... flowers


6.6.06

FÁBULA DO IMPROVISO

- Você merece mais que isso.
- Mereço?
- Merece. Claro.
- Não sei da onde você tira essas idéias, essas demências.
- Do fundo da minha loucura?
- É.
- Deixa de ser boba.
- Não. Não deixo.
- Por que?
- Porquê o quê?
- Pára.
- Não.
- Pára, por favor.
- Com o quê?
- Com estas idéias idiotas de que você não é maravilhosa.
- Ah, tá. Só porque você pediu.
- Não tem espelho em casa?
- Não. Você tem?
- Tenho.
- No teto?
- Haha, não. Não no teto, mas tenho no quarto.
- Então me leva para lá e me mostra.
- O quê?
- Como sou bonita, toda nua na cama ao seu lado.
- Agora?
- É. E eu sou mulher de brincadeiras?
- Não. Definitivamente não.
- Então vamos.
- E depois, posso dormir?
- Claro.
- E fumar?
- Lógico.
- E beber?
- Também.
- E você cozinha para mim depois de me comer?
- Te adoro, sabe?
- Cozinha?
- Claro.
- Então vamos, mas cooking wine...
- Ei, isto é uma música.
- Alkaline Trio.
- Ah...
- E eu sou uma idiota falastrona.
- Vamos?
- Vamos. Imediatamente...

e partiram, deixando para trás um boteco retrô no centro da cidade, repleto de garrafas vazias e pessoas tristes...

...

5.6.06

QUANDO A DANÇA FURIOSA NÃO SUFOCA A DOR

Ela entrou no quarto chorando.

Os olhos estavam inchados. Inchados de tanto chorar. Inchados de tantas lágrimas e lágrimas e lágrimas. Muitas lágrimas. Lágrimas doloridas, lágrimas de paixão, lágrimas de porradas.

E, coitada, ela não se importava em tentar acertar. Não, definitivamente ela não se importava.

Ela se importava e ficava cansada de SEMPRE, mas SEMPRE mesmo, ficar tão machucada.

Este era o maior problema. Ficar sempre tão machucada, mesmo por alguém que não valia sequer um cobre, por alguém que não valia sequer um "e".

Mas ela sempre se machucava e ficava sozinha na noite, sofrendo em silêncio.

E o quarto, naquela madrugada, era o seu ambiente. Depois dos bares, dos clubes, dos amigos, da noite, do fim, havia apenas ela e o seu pequeno quarto.

E dentro dele, segura e assim que chegou, ela despejou o mundo no carpete vermelho puído. Despejou o mundo sobre o carpete. Despejou o melhor do seu mais recente fracasso.

As lágrimas se confundiam com a saliva e, puta, ela gritou como há tempos não gritava antes de dar uns dois ou três socos furiosos no armário de cds.

A dor apenas aumentou.

Ficou triste ao ver o seu cd do Joy Division no chão, parcialmente fodido, quase destruído.

E ele era tão especial.

O cd, que fique bem claro. Não aquele idiota por quem ela estava chorando.

Colocou o cd no player naquele momento.

Aos primeiros acordes, resolveu dançar.

Dançar para não dançar.

Dançar para ser feliz.

Dançar para exorcizar.

Dançar para poder acalmar a vida.

Dançar para poder acalmar o espírito.

Dançar furiosamente por um único motivo: não ter mais fôlego para poder chorar.

E enquanto o modo repeat do cd player repetia exaustivamente Love Will Tear Us Apart, ela percebeu que estava cansada de se foder.

Cansada de tanta falta de auto estima.

Cansada.

Muito cansada.

E no começo da manhã, quando o sol, cruel apareceu, não havia mais fôlego para a dança.

Para as lágrimas e a dor, no entanto, o fôlego estava lá.

Como sempre.

Como sempre na vida daquela menina linda.

Como sempre e sempre e sempre, para todo o sempre...

até ela decidir que não...

até ela decidir...

sozinha

...

2.6.06

... eu avisei...
UM por dia...
MALDITO... APENAS MALDITO

- Você é obcecado por canções tristes!

Ele estava quieto, em total silêncio, apenas relembrando a voz doce e suave e cortante e desesperada e cruel daquela garota.

- Você obcecado por pessoas más!

Ele sabia que ela estava certa. Totalmente certa.

Como sempre.

E no meio da sala suja, repleta de roupas jogadas, tênis encardidos, espelhos de coca, garrafas vazias, cinzeiros cheios, cds mal gravados, revistas antigas, jornais amarelos, recordações doloridas, fotos em pb, guardanapos amassados, ele fixava os seus olhos verdes e grandes e tristes em dois pequenos e amassados pedaços de papel.

O primeiro, que dizia:

Você é obcecado por canções tristes!
Você é obcecado por pessoas más!
Você é obcecado por quem te deixa doente!
Você espera que eu concorde com isso? Você espera que eu aceite isso? Você espera que goste disso?
O que você espera de mim?
O que, seu filho da puta?
Te odeio, como jamais achei que pudesse odiar alguém.
...
Alguém que eu amei muito mais do que a mim mesmo...


O segundo, apenas uma nota:

Jamais achei que pudesse amar tanto. Jamais achei ou imaginei que pudesse amar desta forma. Você é lindo. Você é breve. Você é urgente. Você é o cara que eu jamais achei que pudesse existir. Mal te conheço. Muito te amo. Always... Te amo...

E os seus olhos verdes e grandes e tristes perderam o poder de visão por poucos e breves segundos.

Tomado por dor, ele apenas desistiu de entender porque SEMPRE fazia tudo da maneira mais errada possível.

Maldito...

Maldito...

1.6.06

um conto por dia...
a partir de hoje
exceto sábados e domingos
até onde isso der...
O MEDO TRISTE EM UMA SALA COLORIDA

- Você está com medo de mim? - ela perguntou, meio divertida, meio provocante.

Ele olhou para o teto e ficou em silêncio, tentando enxergar alguma resposta na atmosfera neon daquela sala.

- Está? - ela insistiu, lust for life, lust for love.
- Talvez.
- Talvez?
- É. Talvez.
- Nem você sabe o que você sente? - ela arriscou.
- Não. Definitivamente eu sei porra nenhuma sobre nada. Esta é a maldita verdade.
Ela sorriu e apenas concordou com a cabeça.
- Tudo é muito foda, sabe?
- Você é um tremendo babaca - ela disparou, sem piedade.

Ele olhou novamente para o teto e não disse uma palavra.

- Nossa, você é muito babaca. Você sequer quer experimentar, tentar, enfim, sequer quer provar.
- Provar o quê? Experimentar o quê. Que tortura - ele disse, sem paciência.
Ela o encarou com fúria. Muita fúria - O meu beijo, seu imbecil. O meu corpo. Tudo - ela disparou, olhando direto para ele, olhando bem no fundo daqueles olhos azuis tão cheios de angústias e de vontades e de desejos.

Ele suspirou. Junkie. Deixou o teto para lá e encarou aquela menina sentada à sua frente, toda linda e cruel, no carpete colorido da sala - Acho melhor eu ir embora.

Ela ficou sentada no chão e apenas indicou a porta com o baseado.

- Nos vemos amanhã? - ele perguntou, enquanto levantava.
- As usual - ela disse, num lamento, enquanto era encoberta pela fumaça do cigarro.
- Então tá.

Antes de sair, ele virou-se e olhou para ela sentada no carpete colorido da sala, fumando a sua viagem e olhando através da janela. Não disse nada. Apenas abriu a porta e foi embora.

E do lado de fora, havia apenas um babaca.

Eu tenho medo. Eu tenho muito medo. Medo de mim - pensou, triste, enquanto o elevador não chegava.

10.5.06

RUIVA MILES DAVIS

Ele era apenas um tolo.

Um tolo apaixonado.

Um tolo atordoado.

Um imbecil.

Passava as noites na sacada apertada, encarando a noite e o neon sob o véu de Miles Davis e de conhaques baratos. Olhava para as estrelas como se elas pudessem ajudar, como se elas, estrelas, pudessem realmente salvar a sua vida.

Nem elas nem Miles Davis.

Um total idiota. Era isso, na verdade, o que ele realmente era.

Um total idiota.

E além das estrelas, ele sempre tinha outra companhia naquela sacada apertada.

Um maldito fantasma.

Ela.

A mais linda de todas as garotas ruivas.

A mais linda de todas as garotas.

Linda, sorrisos e licor.

Linda, sorrisos e desejos.

Mas agora era tarde. Tarde demais para qualquer tentativa, tarde demais para qualquer coisa além de cigarros, desejos, estrelas, conhaques, vontades e antigos discos de vinil.

Ele desperdiçou sua chance, sua vez de apostar e ganhar.

Fugiu.

Como TODAS as vezes em sua maldita vida.

Pobre imbecil.

As pessoas sempre fogem quando encontram alguém legal. Quando encontram um "amor".

Sempre.

A pergunta dele era simples e direta: "Como será a neve que ele jamais tocou"?

E as estrelas continuarão lá, junto com os seus "Miles Davis", os seus cigarros e os seus desejos perdidos...

pobre medroso idiota...

4.5.06

A LUA QUE TESTEMUNHA A NOITE

- Vai, me fode...

Palavras soltas dentro de um quarto de hotel, o Hotel Varsóvia, num ar repleto de veludo, fumaça, álcool e cores modernistas. Dois corpos. Mixados, misturados, molhados. Dois corpos como um. Dois corpos como um. Nada mais clichê, nada mais real, nada casual. Os corpos estavam tão unidos e as peles não relutavam em se encostar. Definitivamente não relutavam;. A saliva escorria e percorria cada centímetro de cada corpo, cada centímetro de cada desejo, cada centímetro de cada centímetro. E as línguas, vermelhas e inchadas, eram apenas um beijo. Um único beijo molhado, um beijo melado, um beijo memorável. Um único beijo sem fim. Singular Molhado de vontade. Repleto de vontade.

- Vai, assim...

E a lua, testemunha, apenas boiava no céu como quase imóvel. Como quase inerte. Silente testemunha. A lua, cheia e redonda, apenas assistia àquela cena. Apenas assistia a uma cena de cinema. Cinema antigo, noir, erótico, pornô. Deliciosa película pornográfica. Delicioso espelho de selvagens e deliciosos desejos sexuais.

- Vai, me fode atrás...

E além do odor, do gosto, do estímulo, dos toques e de tudo, ainda havia os ruídos. Os ruídos de um quarto de hotel antigo. O Hotel Varsóvia.

Molas de um colchão fofo, cheirando a mofo e sexo. E sobre este colchão, dois corpos nus eram pílulas "e". E as mãos deslizavam suaves através de cada extensão de cada corpo. Os toques, os cabelos, o suor, os beijos, as línguas, os desejos, as vontades, os líquidos, os lençóis, as perversões, as paixões, os ruídos, tudo era delírio e sexo e gozo.

- Vai, vai...

...

E a lua foi, finalmente, liberada. A fumaça de um cigarro aceso e dois corpos cansados e exaustos estirados pelo carpete bordô permitiram à lua, redonda e gorda e cheia, prosseguir com sua viagem, em busca de outros casais tão apaixonados quanto aquele.

...

6.4.06

o post abaixo é apenas a continuação da estória anterior...

nunca continuei um posto no outro

quem sabe costurando todos, não sai uma grande estória, com começo, meio e fim...

beijos...
BABE, WE WERE BORN TO RUN...

...

E ela ficou ali, apenas vendo o seu amigo desaparecer entre o agito do Varsóvia.

Ao olhar o seu copo quase vazio de Mojito, percebeu um guardanapo amassado, com um número de telefone e uma frase: "Liga prá ele. Seja feliz. Uma única vez em toda a sua vida. Te amo.".

Ela sorriu e chorou ao mesmo tempo, enquanto pedia ao garçom mais uma bebida.

Pegou seu celular, trêmula e discou os números anotados no guardanapo.

Toques... Uma voz.

- Alô?
Ela mal conseguia respirar de medo e desejo - Alô.
Um breve silêncio e uma voz suave, doce, feliz - Ei, não acredito. É você! Que bom. Que bom.
Ela apenas sorriu e murmurou um sim tímido.
- Não acredito que ele te convenceu. Não acredito.
- É. Pode apostar que ele tem argumentos fortes para convencer os outros.
- Ah, não duvido. Não duvido mesmo. Que barulho é este? - ele perguntou.
- Ah, é o Varsóvia. Estou aqui esta noite.
- Sozinha? - ele pergunotu.
- Sim. As usual - ela brincou.
- Humpf. A vida gosta de mudanças. Mas você está certa de estar aí, curtindo. E resolveu ligar? - ele perguntou.
- Sim. Tomei decisões. Saca? Vontades.
- Que bom. E fico feliz pacas de saber que estou entre elas - ele arriscou.
- É. Está. De certa forma - ela respondeu.
- Escuta - ele disse - Você vai querer ficar por aí, ainda?
- Não sei - ela respondeu, nada convincente, louca por um convite, louca por descobertas.
- Tenho uma idéia boa. Muitas coisas para conversar.
- Que idéia? - ela perguntou, ansiosa, estranhamente feliz.
- Quer ver o mar? - ele disparou.
Ela sorriu da brincadeira - O mar? O mar? Agora?
- É.
- Mas estamos a quase uma hora da praia mais próxima e já são quase duas da manhã - ela disse.
- E daí? Você se importa? Tem compromisso?
- Bem, amanhã é sexta. Trabalho.
- Permita-me dar um foda-se por você? - ele brincou.
Ela sorriu, adorando a idéia.
- Vamos lá. Vai ser divertido. Unico, ao menos - ele insistiu.
Ela olhou para as pessoas ao redor e disse, insana - Vamos. Vamos sim..
- Genial. Te pego aí no Varsóvia em 20 minutos.
- Simples assim? - ela pergunotu.
- Simples assim - ele respondeu.
- Então tá.
- Beijos.
- Beijos.
- Vai ser maravilhoso - ele finalizou.
- Tenho certeza disso - ela respondeu.

E enquanto desligava o telefone e tomava mais um gole do seu Mojito, ela mal podia acreditar em tudo o que havia dito. Em tudo o que havia ouvido.

Pela primeira vez em toda a sua vida ela iria fazer algo realmente importante. Algo realmente divertido.

Pela primeira vez ela iria simplesmente ter uma noite sem roteiro, sem começo, meio ou fim. Ter uma noite. Apenas ter uma noite dedicada a tudo o que ela mais desejava sentir.

Honey, cause Tramps like us were born to run....

4.4.06

QUANTAS PORRADAS ATÉ VOCÊ ENTENDER?

- Você espera isso mesmo? - ela perguntou, toda sorrisos.
Ele a olhou de uma forma engraçada, quase humorística, apaixonada - Claro. Você não?
Ela acendeu mais um cigarro e pediu ao garçom do Clube Varsóvia que servisse outro Mojito - Adoro esta canção - respondeu, apontando para o DJ do Varsóvia, solitário e em transe na sua cabine.
Ele riu alto, pouco surpreso com a resposta.
- Rindo? Pareço ser engraçada? - ela emendou.
- Parece não, querida, você É engraçada - ele disparou - Engraçada prá caralho.
- Não sei porquê.
- Porque sim. É hilário ver como você foge e como você dribla e como você evita uma das coisas mais inevitáveis da vida.
- Pff... lá vem. Nem precisa me dizer o que é esta "coisa" tão inevitável. Poupe fôlego.
- Não? - ele perguntou, atiçando.
- Não - ela concluiu, enquanto o garçom servia o seu terceiro Mojito naquela noite.
- Tem certeza que sabe tanto assim?
- Querido, eu tenho certeza do que você vai dizer. Vai dizer aquelas besteiras e mentiras que o amor é lindo, o amor é belo, o amor é vida, o amor constrói, o amor o cacete. Nem vem. O que é inevitável mesmo é a frustração, o desespero, o medo, o fracasso, enfim, tudo o que se refere a fracassos amorosos. Não espere nada diferente de pessoas como eu. Especialistas em desilusão e afins.
- Mas eu não espero nada diferente de você.
- Não? - ela perguntou, surpresa.
- Não - ele disse, tranquilo.
- Então, que porra você está dizendo?
- Estou dizendo que você vai se comportar como todas as vezes. Como todas as malditas outras vezes que deu sorte de encontrar alguém. Vai ser tola, infantil, boba, otária, dramática, desesperada, neurótica, medrosa, enfim, vai ser apenas você mesmo.
Ela olhou furiosa para ele, como querendo esmurrá-lo por dizer tantas verdades em uma única maldita frase - A vida é minha. Por que você não vai se foder? - disparou.
Ele a ignorou e prosseguiu, insolente - O que eu espero é dele. Apenas dele. Tudo o que eu espero é que ele consiga te fazer enxergar. Que ele consiga que você seja, uma única vez, capaz de dar alguma chance para alguém que parece realmente gostar de você. Uma única maldita chance para uma única maldita pessoa. Uma única maldita vez.
Ela apenas escutava.
- Você parece sempre querer sofrer. Sempre querer estar no spot do drama. Uma patética estrela do drama. E o que eu espero é que ele consiga fazer você mudar este foco. Quer ser dramática? Louca? Insana? Então seja. Mas, por uma única vez, seja dramática por algo que valha a pena. Seja dramática por amor, por paixão, por tesão, por emoção, por vida.
Ela apenas escutava, brincando com seu celular.
- É óbvio que isto tudo é conversa de botequim. Conversa lugar-comum, conversa clichê. Mas, querida, amar é clichê. E, cá para nós, um clichê muito mais bonito do que o batidíssimo clichê das "mal-amadas". Por que caralhos você não pode ser feliz uma única vez?
Ela acendeu outro Marlboro.
- É apenas isso o que eu espero. Que ELE consiga ser feliz e, quem sabe, leve você junto com ele neste mundo tão desconhecido.
Ela olhou para ele com os olhos borrados, cheios de lágrimas e apertou suas mãos com força.
- Vou indo - ele disse, dando um abraço e um beijo forte nela.

Ela ficou ali, apenas vendo seu amigo desaparecer entre o agito do Varsóvia.

Ao olhar o seu copo quase vazio de Mojito, percebeu um guardanapo amassado, com um número de telefone e uma frase: "Liga prá ele. Seja feliz. Uma única vez em toda a sua vida. Te amo.".

Ela sorriu e chorou ao mesmo tempo, enquanto pedia ao garçom mais uma bebida.

E dali até o final da noite, ninguém mais entendeu o que uma garota tão bonita fazia, ao celular, enquanto todos se divertiam no meio de um clube noturno...

28.3.06

AONDE O MAR VIRA O CÉU...

- Então será mesmo dia 19? - ele perguntou, quase casual, quase indiferente.
Ela evitou olhar para ele. Disfarçou olhando o mar, longe longe, aonde o oceano vira o céu - Sim. Dia 19, ou seja, próximo sábado.
- Uma semana - ele lembrou, brincando com areia entre os dedos, desenhando nuvens e sonhos psicotrópicos.
- É - ela disse, lacônica e breve.
- Mas vai ser maravilhosos querida. Vai ser maravilhoso de verdade. Não acha? - ele perguntou, agora querendo apenas (auto)convencer de que ela estava certa, de que ela realmente estava fazendo o melhor, o correto.
Ela encarou os dedos finos dele deslizando na areia - Não sei. Não sei se vai ser maravilhoso. Mas sei que é o quero fazer. Quero mesmo dar um basta e sumir. Viver. Sei lá.
- Berlim. Berlim é longe não? - ele riu da própria besteira.
Ela sorriu, enquanto sentava na areia molhada ao lado dele - Longe pacas.
- E nós?
- Nós?
- É. Nós.
- Nós o quê? - ela respondeu querendo evitar aquela pergunta, querendo evitar dar qualquer tipo de resposta, querendo evitar qualquer coisa.
- Eu vou sentir sua falta - ele disparou, pouco se importando se ela queria evitar aquele assunto.
- Eu também, caralho. Você sabe, não sabe?
- Claro que sei. Claro que sei. Sei porque você está indo, sei o quanto batalhou por este ano que vai passar em Berlim, sei a grana que juntou, sei tudo. Mas isso, definitivamente, não impede que eu sinta muitas saudades.
- Podemos conversar pela internet. Passo em qualquer cybercafé e conversamos por mail, orkut, messenger, enfim, o que der e quando possível.
Ele sorriu, levantando-se e limpando a areia úmida - Já te falei que adoro praias em dias cinzas?
Ela sorriu como se fosse a primeira vez que estivessem juntos - Repetidas vezes - respondeu.
Enquanto ajudava ela a se levantar, ele comentou - Desde muito pequeno, quer dizer, adolescente, desde muito adolescente eu tinha um daqueles murais ridículos no quarto. Eu costumava colar fotos e letras de canções que eu escrevia, enfim, costuamava colocar toda espécie de bagulhos na porra do quadro, numa forma de memorabilia pessoal.
- E? - ela perguntou, curiosa.
- Vou "ressuscitar" este quadro para poder prender nele os seus e-mails - ele disse - Assim você fica lá, pregada na parede e na minha memória.
Ela sorriu um sorriso de despedida, um sorriso de amor, um sorriso de sábados cinzas em praias desertas - E eu vou no carro pegar um baseado para este nosso ritual de celebração e reencontros - Espera aí - ela pediu.

E enquanto ela caminhava em direção ao carro, ele apenas a observou, ali, parado com os pés afundados na areia molhada pela chuva da noite anterior. Seus olhos encheram de lágrimas e lembranças. Despedidas e partidas - E mais uma vez, tudo o que vai me restar são as memórias. As memórias e as lembranças do que jamais tive a porra da coragem para fazer. E mais uma vez, eu apenas vou dizer adeus e ouvir canções tristes. Tudo ainda mais uma maldita última vez.

E como foi o futuro?

E vocês ainda perguntam?

Basta imaginar uma canção antiga do Neil Young.

Aonde o céu o o mar se encontram...

... e também se separam... e também se separam...

6.3.06

BOBAGENS SOBRE CÚPIDOS SÁDICOS

Não há inspiração alguma. Não. Definitivamente não há qualquer inspiração. Nem uma foto, nem um desejo, nem um sorvete, uma dor, uma paixão, uma vida, uma morte. Não. Nada disso. Definitivamente, não há inspiração nesta manha tão cheia de chuva e nuvens chumbo. Pode ser o fim, o começo, o meio, qualquer coisa, mas o caminho parece liso, branco, único. Nada a dizer, nada a declamar, nada pelo que morrer, nada pelo que sonhar. O vazio entediante do espaço explode como uma tragada de nicotina no seu pulmão. E quando o tédio e o vazio são as coisas mais ressonantes em uma vida, ah, aí talvez seja melhor apenas chorar. beber umas tequilas, fumar algum cigarro. Entorpecentes. Escutar um disco de jazz antigo, mas jazz, porra, é das coisas mais chatas que existem na vida. Chato, chato, chato. Não que não seja maravilhoso ser Thelonious Monk ou John Coltrane. Neon e fumaça. Não, é chato apenas porque te faz sonhar e flutuar e lembrar do quão medíocre é e sempre será a sua vida. Melhor um punk rock. Nada como um punk rock para te cansar, distrair, pular, beber, fumar e perder ar. Nada como a vida. mas uma vida cheia, não uma vida rasa, uma vida intensa, não uma vida rala, sem sal, insípida. Não. Uma vida gorda, uma vida cheia, uma vida repleta de tudo o que se pode fazer debaixo do sol. Uma vida ilustre. Uma vida bacana. Uma vida que valha a pena contar aos netos, se é que eles existirão. E se não existirem, foda-se. Os enfermeiros estarão lá para isso mesmo. Para trocar o soro que vai te manter vivo e para ouvir toda a sorte de besteiras e mentiras e maldades e passagens e contos que você viveu ou não viveu. Até o último suspiro. Até o último olhar. Não há inspiração alguma. Nenhuma canção que possa invadir os ouvidos e ativar no cérebro cansado e derretido, alguma lembrança memorável. Não. Nenhuma foto e nenhuma visão. Nada. E tem o vídeo de uma canção antiga do REM. Uma canção do século passado, quando imaginávamos que este século sequer existiria. Uma canção antiga e devastadora, uma canção antiga e arrebatadora. It´s the end of the world as we know it (and I feel fine). É o fim do mundo como o conhecemos (e eu me sinto bem). É esta a maldita tradução. De qualquer forma, no vídeo, tem um garoto e uma casa abandonada e semi-destruída. Apenas isso. E o garoto está com seu skate e usa a casa de todas as formas possíveis. Ele dança, ele canta, ele pula, ele manobra, enfim, ele vive. Ele VIVE. Entendem? Conseguem entender? Como se não houvesse nada além do último luar. Como se não houvesse nada além de hoje. E o mundo não acaba no final. Pior para nós. Pior para quem espera e não vive. Não há inspiração alguma. Não. Não mesmo. E no final das contas, o mundo deveria ter mais cupidos. Cúpidos sádicos e cheios de raiva e vontade de usar suas flechas doces e encantadoras. Flechas em corações e cúpidos sádicos. Definitivamente, haveria mais com o que sonhar...

sem dúvida...

BOBAGENS SOBRE CÚPIDOS SÁDICOS

Não há inspiração alguma. Não. Definitivamente não há qualquer inspiração. Nem uma foto, nem um desejo, nem um sorvete, uma dor, uma paixão, uma vida, uma morte. Não. Nada disso. Definitivamente, não há inspiração nesta manha tão cheia de chuva e nuvens chumbo. Pode ser o fim, o começo, o meio, qualquer coisa, mas o caminho parece liso, branco, único. Nada a dizer, nada a declamar, nada pelo que morrer, nada pelo que sonhar. O vazio entediante do espaço explode como uma tragada de nicotina no seu pulmão. E quando o tédio e o vazio são as coisas mais ressonantes em uma vida, ah, aí talvez seja melhor apenas chorar. beber umas tequilas, fumar algum cigarro. Entorpecentes. Escutar um disco de jazz antigo, mas jazz, porra, é das coisas mais chatas que existem na vida. Chato, chato, chato. Não que não seja maravilhoso ser Thelonious Monk ou John Coltrane. Neon e fumaça. Não, é chato apenas porque te faz sonhar e flutuar e lembrar do quão medíocre é e sempre será a sua vida. Melhor um punk rock. Nada como um punk rock para te cansar, distrair, pular, beber, fumar e perder ar. Nada como a vida. mas uma vida cheia, não uma vida rasa, uma vida intensa, não uma vida rala, sem sal, insípida. Não. Uma vida gorda, uma vida cheia, uma vida repleta de tudo o que se pode fazer debaixo do sol. Uma vida ilustre. Uma vida bacana. Uma vida que valha a pena contar aos netos, se é que eles existirão. E se não existirem, foda-se. Os enfermeiros estarão lá para isso mesmo. Para trocar o soro que vai te manter vivo e para ouvir toda a sorte de besteiras e mentiras e maldades e passagens e contos que você viveu ou não viveu. Até o último suspiro. Até o último olhar. Não há inspiração alguma. Nenhuma canção que possa invadir os ouvidos e ativar no cérebro cansado e derretido, alguma lembrança memorável. Não. Nenhuma foto e nenhuma visão. Nada. E tem o vídeo de uma canção antiga do REM. Uma canção do século passado, quando imaginávamos que este século sequer existiria. Uma canção antiga e devastadora, uma canção antiga e arrebatadora. It´s the end of the world as we know it (and I feel fine). É o fim do mundo como o conhecemos (e eu me sinto bem). É esta a maldita tradução. De qualquer forma, no vídeo, tem um garoto e uma casa abandonada e semi-destruída. Apenas isso. E o garoto está com seu skate e usa a casa de todas as formas possíveis. Ele dança, ele canta, ele pula, ele manobra, enfim, ele vive. Ele VIVE. Entendem? Conseguem entender? Como se não houvesse nada além do último luar. Como se não houvesse nada além de hoje. E o mundo não acaba no final. Pior para nós. Pior para quem espera e não vive. Não há inspiração alguma. Não. Não mesmo. E no final das contas, o mundo deveria ter mais cupidos. Cúpidos sádicos e cheios de raiva e vontade de usar suas flechas doces e encantadoras. Flechas em corações e cúpidos sádicos. Definitivamente, haveria mais com o que sonhar...

sem dúvida...

7.2.06

TANGERINA? NÃO MAIS...

- Você é idiota? - ele perguntou, bravo. Realmente bravo.
Ela apenas o encarou, com os olhos vermelhos, tão cheios de lágrimas, tão cheios de dor, tão cheios de mágoas, tão cheios de adolescência.
- Porra, dá prá deixar o passado em paz? Dá prá deixar o passado não consumado em paz?
Ela novamente o encarou, agora com os olhos ainda mais vermelhos, ainda mais cheios de lágrimas, repletos de dor, de arrependimentos, de mágoas, tão cheios de tudo.
Ele acendeu mais um cigarro e disparou - E foda-se quem você não conseguiu e foda-se quem você não viveu e foda-se carinhas babacas com camisetas de artistas plásticos. Imbecis que não te perceberam. Será que você só quer ser infeliz nesta merda de vida?
Ela "roubou" o cigarro dos seus dedos e virou o copo dele, ainda cheio de vodka, garganta abaixo.
- Ei - ele reclamou - E desconta esta porra toda na minha vodka?
- Eu sou egoísta! - ela disse.
- É lógico que é. E prepotente e arrogante. Acha que o mundo vai parar por sua causa? Ah querida, mas nem fodendo. Dói perceber isso. Dói muito, mas é verdade.
Ela olhou para o DJ do Clube Varsóvia, apenas como fuga. Apenas prá não ter que olhar prá ele e concordar com as desgraçadas das suas palavras.
- Você não sabe como é minha vida. Não sabe nada. E insiste que não quer ser feliz. Que ninguém lhe deu este direito. Chega dessa merda toda.
- Você é um asshole. Imbecil.
- Eu? - ele ironizou, cruel.
Ela pôs as mãos na cabeça tão escassa de cabelos e juízo e começou a chorar e a chorar e a chorar como uma criança.
Ele percebeu que havia ido longe, longe demais. Mas respirou fundo sua nicotina e aliviou. Foi necessário. Colocou as mãos na cabeça dela e fez um carinho maravilhoso. Lindo. De irmão.
- Ei? - ele sussurrou.
Ela apenas o olhou, com os olhos vermelhos DEMAIS.
. Tá vendo aquela janelinha lá? Em cima da cabine do DJ?
- Que tem?
- Vê a noite?
- Que noite? Choveu prá caralho hoje - ela disse, irritada.
- Então, mas parou.
Ela olhou prá ele, entendendo absolutamente tudo.
- Parou de chover, porra - ele gritou, quase gargalhando.
Ela sorriu.
E entre gargalhadas e sorrisos e vodkas e cigarros roubados, dois amigos acabaram a noite consolando um ao outro. UM AO OUTRO. E perceberam, felizes, que nada podia ser melhor do que simplesmente estar com quem se importa...

E a chuva passou... e a tangerina não é mais a fruta da estação...

definitivamente...

3.2.06

INSÔNIA (SONHOS: CANÇÕES DE NINAR DO INFERNO)

- Anne? Anne...

A voz explodiu como uma bomba israelense.

A voz explodiu como uma bomba e invadiu o seu sonho.

Rasgante. Afiada como uma faca.

E ela nem percebeu da onde veio. Acordou assustada. Acordou perturbada. Desesperada.

Gotas gordas de suor escorriam pelo seu rosto. Tez linda. Pálida. Branca como a neve que ela jamais viu.

Olhou para o relógio e não acreditou. Duas e meia.

- Porra. Duas e meia - pensou, querendo morrer.

Havia acabado de deitar. Nem vinte malditos minutos. Nem meia maldita hora. Nada.

Apenas uma voz bastou. Uma maldita lembrança. Mais uma noite em branco. Em claro. Acordada.

Sono? Que sono?

- Anne? Anne...

Ela olhou ao redor, como querendo entender. Ela olhou ao redor como querendo esquecer.

Esgotada, foi até cozinha.

Copo de água gelada não mata a dor.

Decidiu ir para a sala e ligar o rádio. Péssima idéia. Lovesongs da madrugada são arsênico para corações fodidos. Lullabies malditas.

O silêncio da noite, sem dúvida, era melhor opção.

E enquanto buzinas e putas e carros e viciados e travestis e canalhas e pessoas legais vibravam madrugada além, ela tentava, jogada no sofá velho, apenas dormir.

Apenas dormir...

E conseguiu. Depois de quase uma hora.

Até a voz retornar.

A maldita voz que ela conhecia tão bem.

- Anne? Anne...

... desculpa. Não há amor nenhuma mais. Definitivamente.

Acordou como se estivesse sufocando.

e ela voltou a chorar pela milésima vez nos últimos dias...

...pela milésima vez na última vida...

23.1.06

QUANDO A MELHOR OPÇÃO É ABRIR A JANELA E DEIXAR O CALOR SAIR...

E a noite estava quente. Muito quente. Tão fodidamente quente que ele mal conseguia pensar.

Mal conseguia pensar.

Mal conseguia pensar nos seus erros, mal conseguia pensar nos desejos, mal conseguia pensar em qualquer coisa que não fosse aquele maldito ar abafado, seco, sufocante e desesperador.

Mentira.

Grande mentira.

Uma mentira filha da puta.

Mais uma de suas mentiras.

Tão usuais e presentes na sua vida como a sua própria sombra. Mentiras tão presentes na sua vida como a nicotina, o ãlcool, os entorpecentes, a música e os erros.

Mentiras usuais e presentes.

Porra, e mesmo com todo aquele calor desesperador e cruel de Janeiro, óbvio que ele conseguia pensar direito em tudo o que havia feito, em todas as besteiras que havia dito e no grande erro que havia cometido. Mais um enorme erro dentro do infindável rol de besteiras que ilustrava sua vida.

- Você vai dizer apenas isto - ela perguntou, surpresa diante da porrada, surpresa diante da porrada verbal que havia tomado.
Ele ficou em silêncio e nada disse. Apenas concordou com a cabeça, como um idiota adolescente. Um idiota desarticulado e desvairado.
- Você é um imbecil, saca. Um tremendo imbecil. Um dos maiores imbecis que tive a infelicidade de conhecer. Um desgraçado e maldito imbecil que arruinou um bom pedaço da minha vida. E agora, cruel e sádico, vem e diz que tudo não passou de um grande erro. Um engano. Um engano. Um absoluto engano. Você é um tremendo de um filho da puta - vociferou, como se suas palavras fossem de estilhaços.
E foi embora para todo o sempre.


E depois de anos de beijos e transas e poesias e cartas de amor, certamente é por demais frustrante e decepcionante ouvir desta pessoa que foi - claro que foi - importante, que você é um tremendo de um filho da puta.

A imagem dela deixando o Clube Varsõvia e saindo apressada, deixando para trás as lágrimas e os seus cabelos cor de girassol, por um bom tempo marcará a lista de seus grandes erros.

Tudo porque ele teve medo.

Tudo porque ele teve muito medo.

Medo de ter medo e de mergulhar fundo demais.

Medo de ser um otãrio.

Medo de querer viver com a mesma pessoa pelo resto da sua vida.

Medo de ser uma pessoa normal.

Uma pessoa como todos nõs.

E enquanto estas cenas rodavam e rodavam a sua cabeça, como um torturante e penitente caleidoscõpio de dor e mea-culpas, ele lembrou o quão quente estava aquela noite.

Decidiu esquecer por um tempo, mas sem deixar o cerébro derreter.

Abriu a janela e deixou o vento entrar.

Ao menos de calor não iria morrer...

... apenas de dor.

Muita dor.

Como sempre!

16.1.06

HEY GLAU...

te disse parabéns??

e você, criadora do Varsóvia, precisava do conto abaixo.

e ele é todo seu...

beijos prá quem é de beijos
abraços prá quem é de abraços
O MELHOR DE UMA FESTA SURPRESA ENTRE DOIS AMIGOS (AMIGOS???)

- Então tá - ele disse, com sua sempre igual e adorável cara de cínico, que ela conhecia tão bem e há tanto.
- Então tá? Só isso? - ela perguntou, irritada diante dele. Irritada por sempre cair no papo dele. Irritada por gostar tanto e tanto e tanto dele. Irritada por ser AMIGA dele - Você esquece o meu aniversário, eu não aguento, reclamo com você, peço carinho e você apenas pede desculpas?
- Oras, o que mais você queria? - ele se defendeu, tentando ter a situação sob controle. Tentando parecer apenas ele.
- Talvez eu merecesse mais.
- E eu não te dou sempre mais? - ele perguntou, esboçando um sorriso e acendendo um cigarro - Vamos dançar?
Ela o olhou de forma inacreditável. Com um misto de surpresa e raiva, de amor e ódio, de fúria e decepção, de paixão e paixão.
Apenas balançou a cabeça.
- Porra, hoje é meu anivresário e você, além de esquecer, me traz aqui no Clube Varsóvia. Lugar nada especial.
- Pô - ele quase gritou - Como assim "lugar nada especial". Foi aqui que eu te conheci.
Ela sorriu com desdém, feliz com seu sarcasmo, feliz com sua ironia, feliz por ter acertado o alvo. Em cheio - É mesmo? Eu não lembrava.
Ele percebeu o descaso e apenas retribuiu o sorriso - Olha, deixa eu dizer uma coisa. Não foi à toa que eu te trouxe aqui.
Os olhos dele brilharam. Agora estava ansiosa - Não?
- Não. Deixa eu te dizer uma coisa.
- O quê? - ela perguntou, agora rápida e ansiosa.

Ele fez um sinal com a cabeça e o dj mandou uma canção antiga, uma balada, uma canção cheia de idas e vindas. Uma canção deles.

- Somos amigos ou não? - ele perguntou.
Ela sorriu com a cabeça - Somos né?

Quando a gente conversa / Contando casos, besteiras

- Eu quero mais que isso.

Tanta coisa em comum / Deixando escapar segredos

Ela o encarou de uma forma surpresa - Como? Não entendi.

E eu não sei que hora dizer / Me dá um medo

- Porque você não ouve de vez em quando?

que medo

Ela levou a mão a boca, tentando disfarçar o sorriso, tentando disfarçar a alegria, tentando mostrar o amor e conter as lágrimas - Não estou entendendo - ela disse, não querendo acreditar.

Eu preciso dizer que eu te amo / Te ganhar ou perder sem engano

- Eu te amo, porra!

Eu preciso dizer que eu te amo

E o beijo que a pista presenciou foi absolutamente lindo, lindo, lindo. Dois amigos, uma história de amor. Um empurrãozinho para a confissão, o medo deixado de lado.

...tanto

E eu, pobre diabo, assisti naquela noite a tudo isso, largado no balcão do Clube Varsóvia, tomando minha vodka gelada e vagabunda e fumando meus Marlboros nada light.

E sorri como um tolo, feliz por, novamente, presenciar o amor, em sua mais simples e ingênua forma, porém a mais verdadeira...

... e agora não posso deixar de contar a vocês que o amor ainda existe...

... sorte nossa...

... toda nossa!

12.1.06

APENAS UM FECHO...

Pele com pele. Lábios com lábios. Toques com toques.

Apenas um fecho entre os colos...

Toques, dedos, texturas, sonhos, desejos, vontades, cheiros, pele.

Pele com pele. Lábios com lábios. Toques com toques.

Apenas um dedo entre os sexos...

Dedos macios, dedos suaves, dedos sutis, dedos, bocas, beijos, desejos.

Pele com pele. Lábios com lábios. Toques com toques.

Apenas um segundo entre os gostos...

E os gostos e os lábios pareciam querer ser um só. Surgidos da mesma saliva. Da mesma fonte, fonte de distintas nascentes.

E o peito parecia querer explodir. Explodir e surgir para brigar com a respiração ofegante, trêmula, insana, apaixonada. Escola de samba ritmada. Fogos de artificío ensurdecedores.

E o peito parecia querer apenas surgir. Bronzear sob a luz do luar. Bronzear sob a luz amarela do luar. Linda. Dos amantes.

Corpos unidos.

Beijos e toques e dedos e pele.

Apenas um fecho...

Os vidros do carro eram estilhaços de imagens, estilhaços repletos de desenhos e figuras distorcidas pelo ar embaçado.

Imagens de dois jovens apaixonados.

Pele com pele. Lábios com Lábios. Dedos com dedos.

Olhares trêmulos.

Ela estava quase despida, quase nua, quase em transe, porém TODA tesão, toda molhada, toda excitação.

Ele estava quase vestido, quase louco, quase em transe, porém TODO tesão, todo duro, todo excitação. Seus dedos a um clique de tudo.

A um clique dos seios.

Apenas um fecho...

Nada mais quando ele o abriu...

... apenas os seus seios...

apenas os seus seios e os desejos loucos de dois jovens apaixonados...

apenas um fecho...

11.1.06

EY, EU VOLTEI...

e queria dizer que estou CHEIO de idéias e feliz.

e com vontade de agradecer e desejar um FELIZ 2006 A TODOS

see you...