21.11.05

FELIZ DE QUEM VÊ ALÉM DOS NEGATIVOS

- Gostei. Gostei mesmo. Você parece pura paz. Serena e bonita - disse ele, enquanto olhava, carinhoso, para a foto colorida dela exposta à sua frente.
- Sério mesmo? - ela perguntou, inquieta - Hmmmm, não sei se quis transmitir exatamente isto na foto. Não sei mesmo. Não me sinto assim. Não sinto toda essa paz e serenidade que você fala. Porra, pensando bem, longe disso. Muito longe disso. Minha alma tá total em outra.
Ele sorriu e disse - Ah, pára. Você não vê porque não quer ver - emendou - Você está bem melhor. Longe dele, perto de você. Feliz - ele disse.
Ela continuou observando o retrato e ficou em dúvida, querendo, de verdade, acreditar que o tempo passou e agora estava feliz. Livre. Em outra.
- Basta perceber uma coisa - ele disse, procurando uma forma de convencê-la.
- O quê? - ela perguntou, curiosa.
- Olhe bem. Veja o seu sorriso - ele respondeu, enquanto os seus dedos amarelos apontavam os contornos do corpo dela, suavemente registrado no retrato jogado na mesa do Clube Varsóvia, entre cinzeiros cheios de passado e copos de vodka vazios.
Ela pegou a foto novamente e a observou com cuidado.
Mexeu os olhos com graça e deixou um sorriso infantil escapar entre os lábios.
Olhou para ele como quem olha para algo/alguém muito querido.
Especial.
Olhou para ele como quem olha para algo que admira muito.
Como quem olha coisas boas.
Preferiu sorrir mais indiscreta ao invés de dizer qualquer coisa. Ao invés de, quem sabe, errar.
- Percebeu? - ele perguntou, também sorrindo, enquanto acendia mais um Marlboro mentolado.
Ela balançou a cabeça e resolveu arriscar - Perceber não percebi, mas gostaria de entender o que você quis dizer. O que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso.
Ele olhou para ela com muito carinho e respondeu, tranqüilo - Não entendi. Como assim "o que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso?"
Ela olhou para ele surpresa e disparou, rindo - Oras, você olhou para esta foto? Tem certeza?
- Claro.
- Mas eu estou apenas quase nua e com uma claridade insana em volta do meu corpo. Não há rosto. Não há sorriso. Há nuances. Apenas isso - ela disse, com um sorriso sincero, querendo realmente entender.
- Posso parecer bobo, infantil, tolo, sei lá. Mas uma coisa é absolutamente sincera, minha querida. Uma coisa é absolutamente verdadeira. A única certeza que tenho quando observo as suas fotos, é a de que você está sempre sorrindo quando as produz. Sorrindo e sorrindo e sorrindo, mesmo que nossos pobres olhos mortais não possam ver, mesmo que você não queira mostrar. Mesmo que você não queira mostrar. Mesmo assim.
Ela olhou para ele em choque. Meio lágrimas, meio sorrisos.
Ficou em silêncio.
Apenas em silêncio.
- Sabe o que é isso? - ele perguntou enquanto fazia um carinho nos seus cabelos - Apenas uma garota feliz. O retrato de uma garota QUERENDO ser feliz. E eu lhe pergunto: existe algo melhor do que isso?

E o abraço que eles deram no Clube Varsovia, entre copos vazios de vodka, cinzeiros cheios de passado e retratos coloridos espalhados pela mesa, foi um dos sorrisos mais verdadeiros e sinceros que aquele clube já viu.

Feliz de que vê além dos negativos dos retratos...

... feliz mesmo

16.11.05

JUST LIKE HONEY

Garrafas geladas de tinto chileno não aliviavam muito aquela altura da madrugada.
Hmmmm ajudavam, claro, mas não aliviavam. Não da forma como ela queria. Não da forma como ela, definitivamente, gostaria.
Apenas o desespero ecoava na noite escura.
E como as garrafas geladas de tinto chileno, nem os cigarros, as pílulas coloridas, as pastilhas acidas, ou mesmo as canções de Jesus and Mary Chain, podiam aliviar alguma coisa.
Não àquela altura da madrugada veloz.
Não àquela altura da madrugada voraz.

just like honey / just like honey

Enfim, nada acalmava os ânimos, as vontades, o suor.
Nem mel em alto teor etílico.
Apenas sonhos em estados criogênicos.
Sonhos congelados esperando viver.
The living dead strikes again.
E enquanto isso, nos seus fones de ouvido

just like honey / just like honey

Porém, nada aliviava o seu corpo da forma como poderia ser.
Da forma como, caralho, deveria ser!
E o pior é que as madrugadas quentes são as que mais sufocam, as que mais ardem, as que mais despertam o desejo, a gula, a vontade, a sede, o pecado.
As madrugadas quentes são devastadoras.
E cruéis.
Insanas.
E absurdas.
Devastadoras.
E enlouquecedoras.

just like honey... just like honey

As janelas abertas não trazem ar refrescante.
As janelas abertas permitem à luz do luar, malvada, invadir e tornar o ambiente ainda mais quente.
Ainda mais demoníaco.
E após garrafas geladas de tinto chileno, nada como dormir e não sonhar...
Nada como dormir e não sonhar...

just like honey / just like honey

14.11.05

QUANDO A SALA DE ESTAR ESTÁ LOTADA DE AMIGOS E SOLIDÃO

E tudo aquilo parecia surreal.

Uma espécie de filme psicodélico dos anos sessenta, recheado de álcool, drogas, cores e canções antigas. E ela se divertia com os compactos de vinil que ele possuía. Amava aqueles pequenos discos velhos, tão cheios de charme e apelo. Adorava cheirar escutando aquelas canções pop, aquelas canções bubble gum, aquelas canções inocentes sobre amores impossíveis e sonhos juvenis. Ela adorava aquilo tudo.

E lá estavam eles novamente na pequena e bacana sala de estar. Ana, Clarice e Heitor, os três amigos inseparáveis, juntos e conversando sobre a amizade que os envolvia, sobre os casos e os descasos, enfim, conversando sobre a vida urgente e apaixonada e desenfreada que levavam.

E tudo aquilo, como sempre para Clarice, parecia surreal.

Um cenário de tranquilidade e amizade, uma madrugada entre amigos, envolta em elevadíssimo teor alcoólico.

E eles conversavam e conversavam e conversavam.

- E o que você fez, Heitor? Ela nua na sua frente, e nada? Nada?...
...
- Então, foi o seguinte. Ele me ligou e disse...
...
- Ah, eu não tenho a menor idéia...
...
- Me passa o isqueiro...
...
- Que haxixe vagabundo este, hein?
...
- O novo DJ do Clube Varsóvia é adoravelmente hard core
...
- Faz tempo que não ouço nada tão legal...
...
- Fiquei triste, mas foda-se...
...


E, entre as palavras, no silêncio mudo da compreensão, eles se amavam como poucos amigos podem se amar.

Não, seus devassos, nao havia sexo entre eles. Claro que não. Havia apenas aquela paixão que se pode sentir entre amigos, entre irmãos, entre pessoas que se gostam, por motivos quaisquer, por motivos quaisquer.

Depois de horas a fio, entre cigarros sem filtro e goles violentos de cachaça e vodka, tudo o que os esperava era um sono reparador.

Mas enquanto Heitor e Ana dormiam no sofá, esparramados e desarranjados como anjos caídos, Clarice permanecia acordada, degustando a sua insônia. Fumando cigarros sem filtro e ouvindo canções de solidão.

Vontades, desejos, arrependimentos, amigos, amores, amantes.

Sua cabeça era tudo ao mesmo tempo.

E tudo aquilo parecia tão surreal.

Alguém tão sozinho na companhia de melhores amigos.

Surreal.

Bem, surreal até o dia em que a solidão será apenas o nome de uma canção antiga...

...uma canção antiga sobre tempos difíceis e amores impossíveis...

E ela decidiu dormir...

Até o sol resolver nascer!

8.11.05

COSMONAUTAS

Ela costumava não acreditar na própria pouca sorte no amor. Ou, em constatações menos gentis, no seu excesso de azar em assuntos desta natureza. Ou, talvez, nem uma coisa nem outra, ela costumava (e preferia isso) não acreditar na sua usual falta de cuidado com pequenos detalhes amorosos.
Mas porra, convenhamos, quebrar o próprio coração jamais pode ser considerado como um "pequeno detalhe".
De qualquer forma, ela nunca acreditou muito nela própria.
Esta sim, a grande verdade.
Também, com tantas mancadas, burrices, com tanto medo, pânico, enfim, com tantos excessos e erros, inevitável se meter em encrencas. Confusões. Decepções.
Bridget Jones piorada. Uma versão real. Desconexa.
Desconcertada.
Puro desleixo ao tratar do próprio coração.
Mesmo diante de situações fáceis, risco baixo, ela sempre preferiu ficar quieta e ir embora.
Chorar o que não fez.
Chorar o que não teve peito de fazer.
Usual desleixo ao tratar do próprio coração.
Grande droga.
Grande erro.
Entretanto, naquela quarta-feira de madrugada, o cenário final era muito diferente.
Lá estava ela.
Sozinha.
Naquela quarta-feira de madrugada, lá estava ela, calada e arrependimentos, ouvindo alguma balada do Lou Reed e pensando não no que não teve peito de fazer, mas sim no que disse e enfrentou.
Apesar do final conhecido, da solidão conhecida, tudo foi diferente.
Brutalmente diferente.
Violentamente diferente.
Ao invés de chorar e chorar e chorar repetidas vezes as suas cansadas lágrimas, desta vez ela não estava desesperada. Desta vez ela não estava aflita, assustada, arrependida ou mesmo arrasada.
Desta vez, pela primeira vez, ela estava apenas...
... pouco se fodendo.

E com as unhas secando no esmalte vermelho, ela, olhando para o teto como uma criança querida, sorriu alto.
Não estava triste por ter perdido o carinha.
Não estava nada triste por tê-lo perdido.
Estava feliz por ter dito, pela primeira vez, o que achava que aquele miserável precisava ouvir.
E se não rolou, oras, não rolou.
Quem sabe da próxima?
Ela percebeu que só iria fazer o que queria e assim, no futuro, ao invés de canções tristes de Lou Reed, talvez sua trilha sonora pudesse ser uma canção de verão dos Beach Boys.
Com sorrisos e afeto.
Com beijos e sexo.
Com sorrisos...
... muitos sorrisos...
...muitos...