21.10.05

EATING GLASS

E amigos não podem experimentar???

A pergunta ecoou na cabeça dela como um bate-estaca seco, ritmado, perturbador, soando apenas cruel naquele cenário incestuoso entre namorados que nunca se beijaram, entre amigos que nunca questionaram, entre irmãos de escolha própria. Irmãos de afinidade.

E não somos irmãos!!! Somos apenas amigos. E amigos não podem apenas gozar???

A pergunta voltou com insegurança. Mas durou pouco. Sorte dela. A pergunta durou apenas o tempo de ele começar a desabotoar a camisa dela com fúria, com vontade, com desejo, com lúxuria. Suando e tremendo e tentando acertar o toque.

Ela ficou ensopada.

Ele ficou duro.

Eles se beijaram.

E amigos não podem experimentar???

A pergunta já era puro passado e os medos de ambos também. Ela apenas fechou os olhos e os dedos dele, ágeis, alcançaram a entrada da sua calça e invadiram o seu corpo quente, aberto, indefeso, desarmado. Ansioso.

Um a um, os dedos macios e suaves e delicadamente perfumado com aroma de menta e hortelã foram acariciando os seus desejos mais íntimos e suas vontades mais claras.

Ela entrou em êxtase.

Ele também.

Eles se beijaram.

Qualquer pergunta sumiu.

As línguas se misturaram numa sinfonia de desejos. Os corpos se encostaram numa cena de cinema. O surpreendente aconteceu e eles, doces, adoraram cada minuto, cada segundo, cada sentido, cada gemido, cada fluído, cada suspiro.

Me fode, me come, me chupa, enfim, todos os desejos em palavras não foram ouvidos no quarto. Não naquela noite. As palavras foram somente substituídas pelo que um sabia, pelo que um queria, pelo que um era, um para o outro.

E entre os ruídos da cama de molas e o Bloc Party distante zunindo ao fundo, apenas o que se ouviu durante aqueles momentos foi a respiração suada e deliciosa dos dois e o gozo que escorreu entre as pernas.

Nada mais.

E instantes depois, enquanto ele dormia nu sobre o corpo dela seco de gozo, apenas o cheiro dele era o que a fazia respirar.

Nada de perguntas tolas, nada de arrependimentos, nada de medos, nada de amanhãs.

Apenas dois amigos.

Dois corpos nus.

Apenas dois corpos satisfeitos.

E quem já teve a sorte deles?

Quem???

6.10.05

O ENÉSIMO COMEÇO

- Não, eu não sei, definitivamente eu não sei - ela disse relaxada, inteira feliz.
- Tem certeza que não? - ele respondeu, provocante.
- Eu realmente não sei porque você diz isso. Porque diz que gosta de mim. Porque me dá tanta alegria, porque quer tanto e sempre me fazer feliz. Eu não sei. E eu não entendo as suas razões, sabe? Juro que eu não entendo.
- Nem eu as suas. Não entendo tanto pessimismo e tanta vontade por dias cinzas. Você pode me fazer feliz. É só isso o que eu quero. É muito? - ele sorriu.
Ela o encarou com surpresa - Preciso mesmo explicar? Preciso mesmo sempre explicar porque tenho tanto medo?
- Você é quem me diz.
- Não vou dizer. Desta vez não. Não quero. Não quero. Vou apenas viver.
- Sabe que eu prefiro assim? Nada de medos, nada de dramas. Apenas nós e o que sentimos. Prefiro apenas o teu silêncio e este brilho lindo nos teus olhos.
- Te dá prazer né? Me ter desta forma.
- Claro que dá. Você nem imagina o quanto. Me dá um beijo. Agora.

E assim que eles se beijaram, ela gritou e vibrou por dentro com aquela felicidade da paixão que ela adorava. Deixou o medo escondido em alguma gaveta bem trancada. Assim que seus lábios se molharam, ela percebeu que talvez a sua vida não precisasse ser sempre um remake do mesmo filme.

Aquele estranho e dolorido filme de amores perdidos e corações no chão.

O que ela mais queria era um final feliz.

A certeza de um final feliz.

pobre garota amedrontada...

feliz garota apaixonada...

5.10.05

O ENÉSIMO FINAL

- Não, eu não sei, definitivamente eu não sei - ela disse nervosa, quase gritando.
- Óbvio que não - ele respondeu, irritado.
- Eu realmente não sei porque você faz isso. Porque me causa tanta dor, porque quer tanto e sempre me machucar. Eu não sei. E eu não entendo as suas razões, sabe? Juro que eu não entendo.
- Nem eu as suas. Nem eu as suas. Você podia me deixar em paz. É só isso oque eu quero.
- Precisamos mesmo brigar? Precisamos mesmo sempre brigar desta forma idiota, quase insana?
- Você é quem me diz.
- Não vou dizer mais porra nenhuma. Não quero. Não quero.
- E eu prefiro assim. Prefiro apenas teu silêncio. Tua voz me irrita. E estas lágrimas não me incomodam.
- Te dão prazer né, seu filho da puta.
- Vou embora. Tchau.

E assim que ele bateu a porta com uma força incrível, com uma vontade certa de destruir aquele seu passado, ela gritou e chorou com desespero. Com dor. Com medo. Com frustração. Assim que ele bateu aquela idiota porta verde, ela percebeu que todo seu ciúme foi em vão, que todo o seu amor foi em vão e que a sua vida era sempre um remake do mesmo filme.

Um filme de amores perdidos e corações no chão.

Nada de finais felizes.

Nada de finais felizes.

Nunca...

pobre garota triste...