2.9.05

ESCOLHAS, APENAS MALDITAS ESCOLHAS

- Então, vamos combinar uma coisa? - ela disse, toda confusa, toda triste, toda encantada, toda decepção.
- O quê - ele perguntou, todo confuso, todo triste, todo encantado, todo decepção.
- Daqui a uns doze, treze, quinze meses, o tempo você me diz agora, nos encontramos aqui, neste bar, neste mesmo horário, que tal?
Ele olhou para os seus olhos pretos, lindos, e emendou, meio sem jeito, sem esperança - Mas, e se eu nem voltar? Você vai apenas esperar sozinha. Não quero isso, apesar de tudo.
Ela odiou aquela crueldade tola e tentou, em vão, esconder as lágrimas que explodiam em seus olhos pretos, lindos, doloridos. Ficou em silêncio.
- Não dá para combinarmos nada. Nada mesmo. Você entende? Apenas posso prometer que vou te escrever.
Ela o olhou com raiva, com dor, como se fosse matá-lo - Não - quase gritou.
- Não? - ele perguntou, surpreso.
- Não. Não quero cartas, cartões postais, palavras escritas de favor. Palavras escritas com pena. Palavras escritas com culpa. Malditas palavras escritas. Prefiro as boas lembranças, prefiro apenas as suas boas lembranças.
Ele entendeu com a cabeça e nada disse. Não quis se defender.
- A melhor combinação entre nós é deixar de combinar qualquer coisa - ela decidiu.
- Então, ficamos como? Apenas assim? Acabados?
- Você decidiu viajar, você decidiu sumir, você decidiu o que quis da sua vida e sequer me perguntou o que eu achava. Então...
- Ei - ele a interrompeu - Isso não é verdade. Você podia ter vindo junto.
- Você não desistiria desta porra de aventura por mim, certo? - ela perguntou.
- Não - ele respondeu, seco e sem enrolar.
- Então, acho que é isto. Melhor ir, acho que daqui a pouco seu vôo parte.

E houve abraços e lágrimas e despedidas e muita, mas muita mágoa e ressentimento.

Momento de adeus.

E enquanto ela andava em direção à saída, amassou e jogou a passagem áerea guardada em seu bolso no cesto de lixo mais próximo.

Colocou seus óculos escuros, acendeu um cigarro e decidiu que estava aliviada por ter escolhido, pela primeira vez em toda a porra da sua vidae ainda que à custa de muita dor, o seu próprio destino.


foto: raquel avani

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