20.7.05

O EXATO INSTANTE EM QUE VOCÊ SE TORNA APENAS PASSADO

PASSADO
uma lata vazia
um lençol manchado
um letreiro de um filme
um enterro
uma caixa aberta
um papel rasgado
ela
apenas ela...


...

- E então? Ainda aqui?

A pergunta dele soou dolorida, quase sádica. Uma pergunta perdida em um mar de caos, desordem, dor e desconsolo. Uma pergunta difícil e direcionada a alguém incapaz de saber. Incapaz de responder. E perguntas assim não soam bem. Nunca. Definitivamente não soam como deveriam soar. São perguntas como lascas de pregos enferrujados, repletas de más intenções e vontade de machucar. E, porra, nada tem o direito de ser tão dolorido assim. Ao menos não deveria ter.

E ela continuou deitada e mal levantou a cabeça. Seus cabelos longos e lindos, escuros como o mal, pretos como a noite e descuidados como ela, tentavam, em vão, esconder as lágrimas nas quais os seus maravilhosos olhos azuis se afogavam naquele momento, pois, claro, a pior e mais nojenta coisa a fazer naquele exato instante era se deixar ver chorar por ele. Se deixar ver por ele. Mas não havia como evitar.

E, mesmo deitada, a pergunta cruel continuava no quarto, suspensa no ar como um tiro no escuro.

- E então? - ele insistiu impaciente, ainda mais cruel, ainda mais sádico, ainda mais letal.

Seu corpo cansado e dolorido despertou. Ela levantou-se e insistiu em ofendê-lo uma última vez, deixando, de propósito, de responder àquela maldita pergunta. Agora uma afirmação. Ela calçou as suas botas velhas e rasgadas e nem se preocupou em ajeitar os cabelos arruinados. Acendeu um Marlboro e pegou a velha mochila verde. Abriu o armário ao lado da cama, sem se importar com as dobradiças frouxas. Pegou apenas seu jeans preto e duas ou três de suas camisetas prediletas de bandas. Jogou tudo dentro da tal mochila verde sem o menor cuidado. Pegou seu pequeno estoque de erva e colocou em um dos bolsos da calça. Deixou o resto das suas roupas no armário como se fossem trapos, principalmente as lingeries que agora apenas lhe davam nojo. Olhou para ele com um ódio totalmente incompatível com a cor azul. Olhou para ele como se quisesse matá-lo. Matá-lo de forma lenta, apenas para que ele sentisse dor. Muita dor. Recolheu a meia dúzia de livros e cds e acomodou na mesma mochila, desajeitada. Saiu do quarto, rápida e firme.

Olhou para a sala uma última vez. Antes de abrir a porta da rua, olhou para ele uma última vez.

Não reconheceu aquele garoto lindo parado em frente ao quarto. Não reconheceu nada que pudesse soar como os últimos dois anos. Nem uma sombra, um resquício, nada. Não reconheceu da onde poderia brotar tanta crueldade. Tanta vontade de ferir. Olhou com pena. Muita pena. Pena dela própria e de ter se tornado, assim que saiu daquele apartamento, apenas passado. Passado na vida de alguém.

E chorou com dor e desespero.

Como ninguém jamais chorou antes...

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