23.6.05

TOTALMENTE DESPIDO E CANSADO

Mais ou menos como um castelo de cartas. Frágil, extremamente frágil e sem
sentido. E, óbvio, para piorar, ele não estava construído sobre qualquer
lugar sólido. Estava construído sobre areia fofa, mole e quente como o sol.

Frágil e perigoso, Frágil e perigoso.

A qualquer momento, como num passe de mágica e destino, tudo viria abaixo
com uma violência assustadora e, claro, ainda mais uma vez ele iria se
machucar para valer.

E nenhum maldito podia evitar.

Ele detestava aquele cenário de devassidão e ignorância e dor e medo.

Detestava todo aquele cenário rasteiro, vizinho da devastação e solidão
total.

Mas, na verdade, ele simplesmente não podia fugir dele. Ao menos por
enquanto. Porque, por mais que o odiasse agressiva e violentamente, ele
estava preso a este maldito cenário de um modo inexplicável, odioso, raivoso
e cheio de amor.

E nenhum maldito podia ajudar.

13.6.05

NÃO SERIA LEGAL? FAZER PARTE DE UM FILME DE AMOR...

- Beatles? - ela perguntou.
- Não - ele respondeu, rindo.
- Não sei então.
- Vai desistir fácil assim? - ele provocou.
- Claro. Você acha que você vale tanto a pena? - ela disparou com um sorriso, retribuindo a provocação e brincando como uma menina.
- Você é que tem que me responder isso - ele disse.
- É? - ela perguntou.
- Claro.
- Não sei então.
- Não sabe o quê?
- Se você vale tanto a pena assim.
- Achei que eu pudesse valer.
- Nem sei por que estamos discutindo isso - ela disse.
- Nem eu - ele respondeu, desenhando o nada com os pés descalços na areia gelada.
- Deixa eu te dizer uma coisa - ela falou.
- À vontade.
- Existe algo mais sensacional do que este pôr do sol que você está testemunhando aqui nesta praia? Este pôr do sol de um dia de outono. Nem bem frio, nem bem quente, porém, extremamente doce.
- Claro que existe - ele retrucou.
- Ah, existe? Posso saber o quê?
- Se este momento fizesse parte de um filme, de que gênero seria?
- Amor? - ela arriscou.
Os olhos verdes e frios dele brilharam por um instante - Exato. Um filme de amor.
- E nós seríamos o quê neste adorável filme de amor? - ela insistiu - Os protagonistas?
- Depende.
- Do quê?
- Eu não gosto de finais tristes.
- Nem eu.
- Não seria ótimo podermos ficar sempre juntos?
- Ótimo? Seria maravilhoso.
- E quem nos impede?
- Quem nos impede?
- Isso.
- Ninguém.
- Então por quê você não me dá um beijo de cinema neste exato instante.
- Não é mesmo Beatles? - ela insistiu, querendo beijá-lo muito, mas fazendo puro charme.
- Não. Beach Boys - ele respondeu delicado, afastando os longos cabelos castanhos do suave rosto daquela menina.
- Ah, Beach Boys. Adorável.
- Quer saber os versos?
- Claro.
- "Talvez se desejarmos, esperarmos e rezarmos / Isso se torne realidade / Então baby não teria nada que não conseguiríamos fazer / Nós poderíamos casar / E então seríamos felizes / Não seria legal?"

Ela apenas sorriu e seu coração pareceu transbordar de felicidade. Beijaram-se de uma forma suave, linda, apaixonada, cinematográfica, enfim romântica, como só uma tarde de outono numa praia vazia poderia ser, ainda mais ao som imaginário de uma canção de amor dos Beach Boys, recheada de desejos e verdades...

...desejos e puras verdades...



WOULDN´T IT BE NICE?
(Beach Boys)

"Wouldn't it be nice if we were older
Then we wouldn't have to wait so long
And wouldn't it be nice to live together
In the kind of world where we belong

You know it's gonna make it that much better
When we can say goodnight and stay together

Wouldn't it be nice if we could wake up
In the morning when the day is new
And after having spent the day together
Hold each other close the whole night through

Happy times together we've been spending
I wish that every kiss was never ending
Wouldn't it be nice

Maybe if we think and wish and hope and pray
It might come true
Baby then there wouldn't be a single thing we couldn't do
We could be married
And then we'd be happy
Wouldn't it be nice

You know it seems the more we talk about it
It only makes it worse to live without it
But let's talk about it
Wouldn't it be nice"

2.6.05

A BALA AMARELA NO SACO DE JUJUBA

- O mar está tão frio hoje - ela disparou, com os lábios ardendo por vodka.
- Que mar? - ele perguntou, supreso.
- O mar, oras. Qual mar? - ela respondeu irônica - O único que existe. O mar. Ele está muito frio hoje.
- Ótimo. Ele pode estar frio, gelado, congelante, mas ainda bem que está longe de nós. Estamos no Clube Varsóvia. Percebe?
- Você não tem o menor senso de realidade, sabia? Infelizmente. Este é o seu maior problema. Podemos estar no mar, no Varsóvia, na cidade, no campo, em algum inferninho cheio de putas e vagabundas e traficantes, ou mesmo nos alpes suíços. It´s up to us. Depende da sua imaginação. Da nossa imaginação.
- E do grau etìlico e da quantidade de drogas que foi consumida hoje também, não? De qualquer forma, por que o mar está frio?
- Você já viu o céu? Cara, é sábado a tarde e olha lá. Apenas nuvens cinzas, carregadas de inverno. Óbvio que o mar está frio. As lágrimas dos deuses não são quentes. Com toda a certeza.
- Ah, as lágrimas dos deuses agora. Tem razão. Então porque é inverno neste hemisfério, o mar está frio seja aonde for. E pior, porque os deuses choram lá do céu, e suas lágrimas são geladas como dor, toda a água do planeta congelou. Você é ótima, sabia?
- Claro que sei. Sou genial.
- E louca.
- E normal.
- Porém inconstante.
- Sim, e também triste.
- Isto é por sua conta.
- Desconfiada.
- Muito.
- Atraente.
- Pelo menos para mim.
- Interessante.
- Divertida.
- Sonhadora.
- Sonhadora.
- Uma ótima companhia?
- Claro que não.
- Não esquece que sou violenta.
- Eu sei.
- E vingativa.
- Demais.
- Odiosa.
- Nada disso.
- Muito lunática?
- E muito bonita.
- Isso é por sua conta.
- Ainda bem.
- Adoro você, saca?
- Eu também. Saca?
- De qualquer forma, o mar está frio e eu sinto todo este frio cortar minha espinha.
- Coloca um casaco.
- Não adianta.
- Como não?
- Nua. Me sinto nua como esta canção que está atormentando meus ouvidos. E toda a cidade sabe o motivo.
- Qual?
- Olha ele lá. Conversando com ela.
- Filho da puta.
- Bastardo.
- Sou mais você.
- Eu também, mas queria que ele também fosse. Totalmente ligado em mim.
- Não gosto dos olhos dele.
- Por que?
- São frios.
- Como o mar?
- Exato. Dali não sai lágrimas. E como dizia minha avó: "nunca confie em olhos incapazes de chorar".
- Ótima frase.
- Ela nasceu numa cidade próxima ao mar.
- Mar frio?
- Gelado.
- Sabe de uma coisa?
- O quê?
- O pior de tudo?
- Não, diz.
- O mais grave desta porra toda de vida que está desmoronando sob meus pés e coração?
- Fala, vai.
- Eu nunca como a bala amarela do saco de jujuba, sabia? Nunca...