29.4.05

NADA

O que você faz quando as luzes apagam?

O que você simplesmente faz, quando as malditas luzes da cidade apagam e suas únicas companhias são os cigarros amassados e as memórias dos seus amores perdidos e fodidos?

O que você faz?

Ela dança (e com medo de enfrentar o espelho)

E ele chora (e com medo de que as luzes voltem... muito medo)

Eu?

Eu apenas escrevo, até que a noite termine e meu coração volte a bater

HEY DJ (para quem não leu no VENUS IN FURS)

Os olhares cruzavam a pista de dança.

Atmosfera impregnada de aromas, cheiros e odores.

Bebidas, cigarros, perfumes, néon, fumaça, enfim, o aroma de todas as coisas preenchia o ambiente. Uma camada densa e espessa de pura rebeldia e diversão.

E entre luzes e cores e incensos, os instintos acordavam espertos. Bastante espertos.

E os olhares que antes apenas cruzavam a pista de dança, agora intimavam. Inevitáveis. Olhares fortes, carregados de volúpia, desejo e vontade.

- Posso escolher uma música, señorita DJ? – pediu, caricata, a garota linda e de cabelos claros que se aproximou da cabine escura escondida no fundo da pista.
A moça que comandava os vinis olhou curiosa, com seus pequenos e lindos e escuros olhos orientais. Emendou, descuidada – Desde que eu conheça, “señorita”, claro que pode - sorriu.
A garota linda de cabelos claros retribuiu o sorriso, primeiro de forma infantil, quase pura, para logo em seguida tornar-se uma adolescente sedenta, cruel, quase devassa – PJ Harvey. Pode ser? É claro que você tem – disse, arrogante.
- PJ Harvey? Hmmm. Tenho, mas não vai dar, desculpe. Não combina com este set – disse, testando limites e provocando. Querendo ser má.
Não houve surpresa. Houve flerte - Não combina? Como assim? Ela combina com tudo. Simplesmente com tudo.
- Com tudo? Não acho. Não combina com agora, por exemplo. Não combina com este set.
A moça linda e de cabelos claros e suados foi rápida – Bem, combina com vontades. Minhas vontades, por acaso – disparou.
A DJ a olhou com um ar de surpresa – Boa resposta. Bem boa, mas eu nem sei quais são as suas vontades, não é mesmo? Então...
... e foi surpreendida por um beijo forte, quente, quase entorpecido. Enlouquecido e inesperado. Seus lábios orientais sentiram o gosto bom e amargo do batom que a garota linda de cabelos claros usava. Suas mãos tremeram e suaram. Seu corpo molhou. Inteiro. Inteiro.

E a pista não entendeu quando uma balada de amor triste de PJ Harvey começou a explodir nas gordas caixas de som.

... mas todos começaram a dançar. De uma forma ou de outra.

20.4.05

Os textos abaixo foram escritos para duas pessoas especiais.

Duas pessoas que são realmente especiais, sem precisar fazer nada em troca.

E eu estava devendo estes textos. Há tempos.

Só isso a dizer.

Espero que gostem... (vocês e elas...)
PARA ISA

SUPERMAN
(Cinerama)
“But you want something that I just can't provide
I'm not a super hero; I just can't find a cloak and change
That sounds more like a job for Superman
Not the lazy slob that you think I am”


Ela gostava de ficar naquela posição.

Deitada de costas, apenas respirando e olhando para o teto do seu quarto amarelo, cheio de folhas com desenhos espalhadas pelo chão. Desenhos feitos à mão. Desenhos feitos de sonhos. Desenhos feitos de desejos. Desenhos feitos por seus dedos finos e deliciosos, que simplesmente adoravam o cheiro do nanquim e as manchas que a tinta deixava. Manchas. Marcas. Manchas. Marcas. E se sua vida tinha alguma espécie de marca ou de mancha, era apenas as manchas de suas vontades e de suas pirações. E as paredes amarelas transformavam-se em pequenos caleidoscópios multicoloridos, como um esboço de algum quadrinista sessentista, hippie gordo, entupido de substâncias lisérgicas. Um quadrinista velho, barbudo, cheio de rugas e cicatrizes na pele enrugada. E ela via o seu rosto aparecer e desaparecer nas paredes amarelas. Como uma luz neon. Um rosto assustador. Psycho killer total. Palhaço assassino. Antítese do amor. E o que a deixava intrigada era que o tal rosto ora era do quadrinista velho e gordo, ora era do seu passado. E ela ameaçava chorar, como não querendo ver, como querendo que as lágrimas escondessem o cenário. Seu coração palpitava e palpitava e palpitava e ela queria ser a personagem dos seus desenhos. “Mas, minha filha, isso não é real. Estes desenhos são absurdos” - a voz de sua mãe ecoou na memória. E ela sorriu como se isso adiantasse. Como se isso adiantasse. Mas, no fundo, tudo o que ela mais queria era apenas que ele estivesse por perto. Perto do seu corpo e do seu coração. Porém, infelizmente, naquele momento e talvez no resto da sua vida, isso era realmente difícil. Um trabalho para super-herói.

E ela não era Clark Kent. Definitivamente.

E, por isso mesmo, ela preferiu apenas ficar na sua posição preferida durante o resto do dia. Deitada de costas e com os dedos sujos de nanquim, esperando o seu coração voltar a bater... apenas esperando o seu coração voltar a bater...


PARA ELISA

CAN´T STAND ME NOW
Libertines
“If you wanna try, If you wanna try
there's no worse you could do (oh oh oh)
I know you lie (I know you lie)
I'm still in love with you (oh oh oh)”


Ela gostava de ficar naquela posição.

Deitada de lado, apenas respirando e olhando para a parede do seu quarto lilás, cheio de folhas com contos escritos, espalhadas pelo chão. Contos feitos à mão. Contos feitos de sonhos. Contos escritos com desejo. Contos escritos por seus dedos finos e deliciosos, que simplesmente adoravam o cheiro dos amores perdidos e rasgados que as letras exalavam. Amores. Amores. Amores. Amores. E se sua vida tinha alguma espécie de amor perdido, era apenas os amores que ela insistia em guardar na sua caixa de Pandora. E as paredes lilases transformavam-se em pequenos caleidoscópios multicoloridos, como um esboço de algum conto escrito por um beatnick, entupido de desejos lisérgicos. Um beatnick velho, barbudo, cheio de rugas e cicatrizes na pele enrugada. E ela via o seu rosto aparecer e desaparecer nas paredes lilases. Como uma luz negra. Um rosto assustador. Psycho killer total. Palhaço assassino. Antítese do amor. E o que a deixava intrigada era que o tal rosto ora era do beatnick velho e gordo, ora era do seu passado. E ela ameaçava chorar, como não querendo ver, como querendo que as lágrimas escondessem o cenário. Seu coração palpitava e palpitava e palpitava e ela não queria ser a personagem dos seus contos. “Mas, minha filha, isso não é real. Estes amores perdidos são absurdos” - a voz de sua mãe ecoou na memória. E ela sorriu como se isso adiantasse. Como se adiantasse crer que os amores perdidos fossem irreais. Mas, no fundo, tudo o que ela queria era apenas que ele estivesse por perto. Perto do seu corpo e do seu coração. Porém, infelizmente, naquele momento e talvez no resto da sua vida, isso era realmente difícil. Um trabalho para algum mentiroso.

E ela não sabia mentir. Definitivamente.

E, por isso mesmo, ela preferiu apenas ficar na sua posição preferida durante o resto do dia. Deitada de lado e com os dedos perfumados por cigarros, apenas esperando o seu coração voltar a bater... apenas esperando o seu coração voltar a bater...

18.4.05

APENAS UM MOMENTO TOLO (E APAIXONADO)

- Sabe o que quero? – ele perguntou, enquanto olhava bem para ela.
- Não – ela respondeu, irônica.
- Seus beijos e tudo mais – ele disparou, direto.
Ela sorriu o mais doce dos sorrisos e abriu seus braços, devagar, como o encorajando a beijá-la por horas e horas e horas.
E ele assim o fez. Aproximou-se com desejo e vontade e paixão e beijou aquela garota com toda a saliva e amor do mundo.
E enquanto a beijava, suas mãos percorreram cada milímetro dos seus cabelos, do seu rosto, do seu corpo. E ele a beijou com vida, como se aquele momento fosse um dos mais importantes do mundo para ele.
E não era?
Claro que sim. Claro que era. A grande confirmação do amor para ele. A grande constatação do amor para ela.

E a vida é tão melhor quando se ama assim... como dois adolescentes...

Não concordam???

5.4.05

E QUEM DISSE QUE AS COISAS NÃO PODEM SER ASSIM? APENAS SIMPLES...

- Pára!
Ela ouviu a frase e virou a cabeça rapidamente. Queria saber de quem era aquela voz doce e suave, porém firme e ligeira, que havia dito a tal palavra para ela.
- Pára! Assim – ele repetiu.
Ela encarou o dono da voz com uma certa irritação. Apenas para disfarçar. Ele era lindo. Olhos escuros, cabelos pretos longos, um queixo quase barbado, regular e quadrado, e um sorriso sensacional. Estimulante. Aparentemente sincero e interessante. Ela apenas o encarou em silêncio, agora sem qualquer irritação disfarçada.
Ele sorriu simpático, querendo quebrar o gelo – A posição do seu rosto daria uma foto. Um retrato lindo, sabe? Por isso pedi, quer dizer, quase mandei, né? Você ficar parada. Queria congelar o momento.
Ela segurou um sorriso, apenas para querer parecer ser um pouco mais teimosa. Um pouco mais difícil.
Ele ofereceu uma bebida.
- Não sei o que está bebendo – ela disse – Como posso aceitar?
Ele continuou com o copo estendido – Às vezes podemos arriscar, você não acha? Beber cicuta sem saber. Sabe que pode até fazer bem?
- Beber cicuta? – ela perguntou, irônica e agora sorrindo de verdade, aberta para aquele garoto lindo e atrevido.
- Não. Claro que não. Eu me refiro a arriscar. Faz bem arriscar – ele disse, confiante.
- Talvez. Quem sabe? Depois de tantas porradas e erros, será que ainda tem algo por que valha a pena arriscar? – ela perguntou.
- Claro que sim – ele afirmou, rápido – Claro que sim. Arrisque e seja feliz.
- Quem disse isso? – ela perguntou.
Ele fez um sinal negativo com a cabeça - Algum poeta ou idiota, sei lá.
Ela olhou com simpatia para ele e disparou – Tá bem, eu aceito.
Ele estendeu o copo, ainda mais uma vez, porém ela afastou o mesmo com suas pequenas mãos delicadas. Ele olhou-a confuso, sem entender.
- Eu aceito outra coisa – ela disse.
- Posso saber o quê? – ele perguntou, sinceramente sem entender coisa alguma.
- Um puta beijo teu...

...

Enquanto se beijavam como adolescentes ardentes, a música explodiu no ambiente, tal qual fogos de artifício que celebram reveillons de amor. E, por incrível que pareça, aquele foi o começo de uma história de amor. Assim, de forma simples, de forma rasa, de forma inesperada.

E quem disse que as coisas não podem acontecer assim?

Ah, se eles foram felizes para sempre?

O que você acha???

...