31.3.05

AZULEJOS LÍQUIDOS

One pill makes you larger
And one pill makes you small,
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.

(white rabbit - jefferson airplane - 1967)

Aquele lugar parecia uma cozinha antiga, anos cinqüenta. As paredes eram forradas de azulejos brancos. Inteiramente forradas. Do teto ao chão. Ele parecia não acreditar. Seus sentidos estavam atormentados, inchados, cansados, tontos. O suor escorria pela testa em gotas gordas, cheias de desejos. O único cenário imutável era o composto pelos azulejos. Seu corpo derretia em cascatas coloridas. Sua pele parecia querer esconder as marcas. Todas as marcas de cortes, provocadas nos momentos de dor. Não havia cor nas paredes azulejadas. A cor estava no seu corpo. Cores desbotadas, cores vivas, cores mortas. Ele queria correr para algum lugar longe dali. Algum lugar muito longe daquele espetáculo de caos e desordem. Nada estava no lugar. Mas, porra, não havia nada para estar arrumado. Ele estava só, nu, no meio de uma sala fria, recheada de azulejos de cerâmica brancos. O suor, antes quente, começou a escorrer de forma fria, congelante, apavorante. A imagem dela correndo para os seus braços ficou ainda mais nítida. Mas ela não o abraçou. Passou direto, sem parar, sem olhar, sem sequer demonstrar que ele estava por perto. Sentiu-se um fantasma. Uma alma penada. Um espectro de nada. Somente a dor e batida sacolejante explodindo em seu cérebro eram perceptíveis. Ele estava sozinho. Num mundo de fantasmas, amores perdidos, drogas sintéticas e azulejos brancos. Ele estava sozinho quando acordou. Ele estava sozinho e o seu mundo ainda era o mesmo de antes do sonho, da viagem, do Primal Scream no estéreo. Os azulejos foram embora e ficaram apenas as fotografias deles e os pôsteres de bandas de rock.

Ao lado da cama, um exemplar de Sandman jogado no chão.

Ao lado do estéreo, um vinil de Jefferson Airplane atirado no chão.

Na sua mente, apenas as lembranças (ela) de todas as coisas que ele buscava esquecer...

Pobre diabo que sequer controla os seus sonhos...

One pill makes you larger
And one pill makes you small,
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.


...

24.3.05

SURPRESAS INDESEJÁVEIS

Nada pode ser tão simples assim. Nada. Nada pode ser tão simples e tão fácil. A vida não é fácil, mas nem fodendo. Quem diz isso ou está com febre ou drogado ou bêbado ou é apenas imbecil. A vida não é, simplesmente, como nós a imaginamos. Digo sobre a vida que desejamos ter. A vida que imaginamos querer. A fumaça que escorre entre os dedos é a fumaça das horas, dos minutos e dos segundos que passam, cruéis, enquanto aguardamos a porra do fim. Os letreiros finais. O começo dos créditos. A trilha sonora. Não importa quantos cigarros ou quantos beijos ou quantos gozos ou quantos copos. Simplesmente não importa. A vida não é, definitivamente, como nós imaginamos. Caralho, dependemos de outros, não só de nós. E é aí que tudo fode. É aí que tudo vai para o espaço. A vida poderia ser um jogo virtual, uma espécie de Pac-Man do avesso, sob nosso total controle. Apenas diversão. Just for fun. Mas a cama em que ela acorda não é cama em que ela quer acordar. A bebida que ele bebe não é a bebida que ele quer beber. A estrela que ela enxerga não é da constelação que ele imagina. As merdas que ele escreve não têm o menor sentido. A sua babaquice tem toda uma razão de ser. Nada pode ser tão simples assim. Nem a chuva, nem a noite, nem as garotas, nem os sonhos. Apenas uma coisa pode ser assim: o silêncio. Talvez a coisa mais simples do mundo e a melhor de todas as desculpas. Ninguém jamais vai me acusar de falar demais. Graças a Deus (se é que ele ainda está alive and kicking).

Nada pode ser tão simples assim.

Ela jamais poderia ter dito que me amava. Jamais.

Quebrou todos os meus medos e acabou com minhas desculpas.

Porra...

Maldita seja a sua sinceridade...

16.3.05

DEAD FLOWERS

- O que não te deixa envelhecer por completo é a música. Música. A única coisa que, talvez, você ame de verdade. A única coisa que, talvez, você respeite de modo sincero. A única coisa que, talvez, você queira por perto. De resto, porra, de resto, você é um idiota insensível. Uma flor morta. Entende? Sem brilho, sem cor, sem perfume, sem vida, sem nada, enfim, apenas uma flor morta.

Um playback insano e constante e repetitivo. Insuportável. Verdadeiramente insuportável. As palavras doíam em sua cabeça. Muito. Soavam como um martelo pesado e enferrujado. Tenso. Cada tônica parecia querer perfurar a sua tez até fazer o sangue jorrar e jorrar e jorrar.

E a noite já estava morrendo. O sol insistia em querer nascer. Em querer atormentar aqueles que se alimentam (se escondem?) da escuridão, do silêncio, do vazio, da deliciosa ausência de pessoas e convívios.

As palavras não deixavam a sua cabeça.

Ele apenas olhava através da janela a noite morrer.

Um bando de idiotas e azarados (azarados?) começava a zanzar como baratas ansiosas pelas veias entupidas das cidades: as ruas.

E ele apenas olhava através da janela a noite morrer. E percebia o seu reflexo na mesma janela, triste. Velho. Imbecil.

À sua frente, ao lado do copo de mate gelado e do cinzeiro imundo, descansavam dois bilhetes.

Um dela, mandando ele sumir.

Outro da outra, pedindo para ele ligar.

E ele sabia que não ia fazer nenhuma das duas coisas.

Ele apenas ia observar através do reflexo exibido pela janela, uma flor, vagabunda, morrer e morrer e morrer.

Repetidas vezes. Repetidas vezes...

7.3.05

GUARDANAPOS E QUEBRA-CABEÇAS

- Tudo parece tão irreal, você não acha? – ela perguntou a ele, enquanto brincava com os dedos e uma caneta no seu guardanapo, todo sujo de batom.
- Como assim? – ele questionou, sem saber se não estava entendendo a pergunta por causa do sono, por causa das altas doses de tequila ingeridas ou, simplesmente, porque não fazia a menor questão de entendê-la.
- Parece papo de adolescente babaca, carente, mas é apenas irreal. É estranha esta falta do que ter a dizer para você. Mesmo depois de todo este tempo.
Ele continuou sem entender, mas, no fundo, já sabia o que ela estava tentando dizer.
- Anos e anos e anos que estamos juntos...
- ... que anos e anos? Estamos juntos há dois anos apenas, não? – ele interrompeu sem a menor sensibilidade e cerimônia.
Ela respirou fundo, irritadíssima e entediada, e continuou, ignorando o comentário inoportuno que ele havia feito - ... anos e anos e anos que estamos juntos e parecemos tão distantes. Cada dia mais. Cada maldito dia que passa, parecemos ainda mais distantes.
Ele olhou para ela de um modo extremo. Frio. Sem excitação, sem reação, sem vontade, sem tesão. Sem afeto. Preferiu continuar em silêncio.
- Eu gostava quando ficávamos juntos naquelas nossas tardes frias de outono na praia. Parecia que o tempo era apenas nosso.
Ele acendeu um cigarro e deu uma tragada forte. Soltou a fumaça lento, como se estivesse ganhando tempo. Deu uma nova tragada, desta vez mais fraca. Falou em um tom melancólico, direto, cruel – O frio do outono não combina mais com a nova estação, você não acha? Tempos distantes.
Ela segurou as lágrimas com uma força que não sabia que havia nela. Largou a esferográfica vagabunda sobre a mesa e rasgou de forma desastrada o guardanapo, todo sujo de batom, que estava entre seus dedos. Pegou sua bolsa, levantou e foi embora, sem sequer olhar para ele que ficou lá, assistindo o corpo pequeno daquela garota sumir entre as pessoas.
Ele ficou quieto fumando o seu cigarro e organizando, de modo distraído, as folhas rasgadas do guardanapo que ela deixou, todo sujo de batom.
Pediu a conta logo em seguida e foi embora, deixando para trás apenas a mesa vazia, os copos sujos, os cinzeiros cheios e o guardanapo rasgado.
Não percebeu que ele tinha uma frase escrita de forma nervosa, apaixonada, desesperada. Um quebra-cabeça de amor perfeito. Um desabafo. Uma frase simples escrita por uma garota maravilhosa, momentos antes

– eu te amo caralho. e vou ficar com você até o fim. só não seja cruel...

...

Mas ele foi. Azar do amor... azar...

1.3.05

ÁLBUNS DE FOTOGRAFIAS E RUAS ERRADAS

- Não acredito! - ele disse, verdadeiramente surpreso, meio alegre, meio constrangido.
Ela olhou-o como se mal pudesse acreditar que fosse ele. Viu primeiro um fantasma do passado, um espectro, assombração. Um sonho. Um pesadelo. Ela disfarçou e apenas sorriu.
- Estela? Estela? Ah, não creio. Quantos anos menina... - ele relembrou, aproximando-se para lhe dar um abraço carinhoso.
- Oi Edu. Muito tempo, né? - ela respondeu com a pergunta, permitindo o abraço e sentindo o calor daquele corpo tão estranho, tão conhecido.
Ele concordou com a cabeça - Mais tempo do que jamais pensamos que fosse nos separar. Muito mais tempo mesmo - ele afirmou, deixando a tristeza escapar, breve, por entre os dentes, por entre as vogais.
- Como você está? - ela perguntou, agora interessada, sincera.
Ele pensou antes de responder. Não muito, mas pensou sim - Bem. Estou bem - disse.
- Dá para ver - ela concordou - Não parece tão detonado - sorriu - Ainda é um belo homem - sorriu mais alto.
Ele ficou sem jeito e negou com a cabeça - De forma alguma minha querida. De forma alguma. Sou o Edu de sempre. O Edu.
Ela o encarou com seus olhos grandes e pretos. Lindos - O mesmo Edu de sempre? O MESMO? - frisou.
Ele desviou o olhar para a rua, para um ônibus qualquer que atravessava a avenida, rápido e ligeiro.
Ela continuou encarando-o, esperando uma resposta.
- Eu ainda estou naquele mural velho de cortiça que você tinha no seu quarto? - ele perguntou, ainda olhando para o ônibus que agora sumia no cenário.
Ela abriu a sua bolsa violeta e pegou um Marlboro mentolado, mesmo lembrando que ele odiava (e ainda devia odiar) aromas mentolados.
- Então? - ele insistiu.
Ela acendeu o Marlboro e respondeu, sem entusiasmo - Não tenho mais aquele mural.
Ele voltou a olhar dentro dos olhos negros e lindos de Estela e tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa. Em vão.
- Foi bom te ver - mentiu - Bom, mas preciso ir. A gente se vê por aí - ela disse, enquanto despedia-se com um beijo e um abraço frio, entre dedos de cigarro e bolsas violeta.
Ele não disse nada, certo de que sua voz de lágrimas e embaraço iriam foder com tudo.
Ela virou e decidiu atravessar a rua. Sem olhar para trás. Para ele.
- Mas e se você ganhasse um outro mural? - ele gritou, imediatamente arrependendo-se da pergunta imbecil.
Ela virou e fez um gesto de impossibilidade com os seus braços magros e lindos e recheados de tatuagens coloridas e alegres. Respondeu com um sorriso de alívio por estar do outro lado da rua - Prefiro você onde está hoje, Edu. Em álbuns antigos e memórias bem guardadas. Lugares que posso controlar melhor do que a visão. Um beijo, querido. Um beijo - disse, enquanto assoprava beijos mímicos para ele.
Ele chorou. Nem tentou evitar.

E, no fim, quem disse que álbuns antigos são melhores do que fotos rasgadas, dilaceradas no auge da paixão? No auge da dor da paixão. No auge da dor...

...