11.1.05

NADA DEMAIS PARA A CIDADE DEBAIXO DELE

E de todas as coisas boas dos sonhos e de todos os seus desejos escondidos, o que ele mais desejava naquela noite era sentir, ainda mais uma vez, o perfume suave dela. O suave e gentil perfume grafite que exalava do seu pescoço fino e magro, porém delicioso, que ele adorava morder e mordiscar. E de todas as coisas boas dos sonhos e de todos os seus desejos escondidos, o que ele mais desejava naquela noite era sentir, ainda mais uma vez, o perfume suave do seu corpo todo. Corpo lindo, corpo lindo, que ele adorava beijar, arranhar, gozar, gemer. O corpo com o qual ele adorava trepar e fazer amor. O corpo da sua maior e mais devastadora e mais verdadeira paixão. Paixão para poucos.

E naquele apartamento velho, sentado sobre o chão de madeira podre cheirando a memórias inexpressivas de fantasmas já enterrados, tudo o que ele podia fazer era observar, através da sua janela, a paixão dos outros, a paixão da cidade. As luzes, os carros, os anseios, os medos, os raios, os contornos e os desejos da madrugada. A paixão dos outros. A paixão de poucos.

E seus dedos cheiravam a cigarro mentolado.

E seus lábios cheiravam a vodka barata.

E seus rins destilavam arrependimento.

E seus medos eram verdadeiros.

E ele não podia fazer mais nada, exceto lembrar e esquecer as besteiras que fez.

E seus olhos eram apenas lágrimas.

Nada demais para a cidade debaixo dele...


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