12.12.05

O QUE OS OLHOS DEMONSTRAM

Tudo está no olhar. Tudo.

Todos os sentimentos se traduzem e se refletem através do olhar. O amor, a dor, as lágrimas, o medo, o desespero, a angústia, a paixão, alegria, felicidade, o poder, a insegurança, e, principalmente o vazio. O vazio. O maldito vazio pós-paixão. O maldito vazio pós-traição. O maldito vazio da escuridão.

E ele havia fodido com tudo, novamente em sua vida. E os olhos dela eram, de forma inédita, apenas vazio.

Como eu disse, tudo está no olhar. Tudo.

O ódio, o desprezo, o nojo.

E ele sabia que não precisaria receber mais do que um simples olhar dela para perceber isso. Ele simplesmente sabia, depois de todo aquele tempo juntos.

Talvez por isso as palavras fugiram quando o mundo explodiu.

Talvez por isso ele sentiu a navalha do desespero na garganta quando a viu em pé na sala, segurando aquela maldita carta de amor não endereçada a ela e olhando a chuva através da janela.

As palavras fugiram.

O olhar verde e lindo dela era uma sombra do passado. Uma lembrança boa.

Apenas ódio e vazio e decepção.

E ele não disse porra nenhuma, não fez defesa alguma, não criou desculpa alguma. Preferiu o som do silêncio. O som do sim.

E ela também nada disse.

Expressou a decepção através do seu olhar verde.

O seu olhar era e sempre foi verde.

Exceto naquela noite em que ele a viu pela última vez.

Naquela noite o seu olhar era frio, distante, gelado, triste, cruel, puto, maldito, dolorido, machucado.

O olhar da noite em que ele a viu pela última vez...

Tudo está no olhar. Tudo.

Porém, a dor, cruel, acaba sempre preferindo morar em algum lugar mais quente para poder sobreviver por mais e mais tempo. A dor, meus caros, a dor sempre prefere morar no coração.

No maldito coração...

... sempre ele...

21.11.05

FELIZ DE QUEM VÊ ALÉM DOS NEGATIVOS

- Gostei. Gostei mesmo. Você parece pura paz. Serena e bonita - disse ele, enquanto olhava, carinhoso, para a foto colorida dela exposta à sua frente.
- Sério mesmo? - ela perguntou, inquieta - Hmmmm, não sei se quis transmitir exatamente isto na foto. Não sei mesmo. Não me sinto assim. Não sinto toda essa paz e serenidade que você fala. Porra, pensando bem, longe disso. Muito longe disso. Minha alma tá total em outra.
Ele sorriu e disse - Ah, pára. Você não vê porque não quer ver - emendou - Você está bem melhor. Longe dele, perto de você. Feliz - ele disse.
Ela continuou observando o retrato e ficou em dúvida, querendo, de verdade, acreditar que o tempo passou e agora estava feliz. Livre. Em outra.
- Basta perceber uma coisa - ele disse, procurando uma forma de convencê-la.
- O quê? - ela perguntou, curiosa.
- Olhe bem. Veja o seu sorriso - ele respondeu, enquanto os seus dedos amarelos apontavam os contornos do corpo dela, suavemente registrado no retrato jogado na mesa do Clube Varsóvia, entre cinzeiros cheios de passado e copos de vodka vazios.
Ela pegou a foto novamente e a observou com cuidado.
Mexeu os olhos com graça e deixou um sorriso infantil escapar entre os lábios.
Olhou para ele como quem olha para algo/alguém muito querido.
Especial.
Olhou para ele como quem olha para algo que admira muito.
Como quem olha coisas boas.
Preferiu sorrir mais indiscreta ao invés de dizer qualquer coisa. Ao invés de, quem sabe, errar.
- Percebeu? - ele perguntou, também sorrindo, enquanto acendia mais um Marlboro mentolado.
Ela balançou a cabeça e resolveu arriscar - Perceber não percebi, mas gostaria de entender o que você quis dizer. O que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso.
Ele olhou para ela com muito carinho e respondeu, tranqüilo - Não entendi. Como assim "o que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso?"
Ela olhou para ele surpresa e disparou, rindo - Oras, você olhou para esta foto? Tem certeza?
- Claro.
- Mas eu estou apenas quase nua e com uma claridade insana em volta do meu corpo. Não há rosto. Não há sorriso. Há nuances. Apenas isso - ela disse, com um sorriso sincero, querendo realmente entender.
- Posso parecer bobo, infantil, tolo, sei lá. Mas uma coisa é absolutamente sincera, minha querida. Uma coisa é absolutamente verdadeira. A única certeza que tenho quando observo as suas fotos, é a de que você está sempre sorrindo quando as produz. Sorrindo e sorrindo e sorrindo, mesmo que nossos pobres olhos mortais não possam ver, mesmo que você não queira mostrar. Mesmo que você não queira mostrar. Mesmo assim.
Ela olhou para ele em choque. Meio lágrimas, meio sorrisos.
Ficou em silêncio.
Apenas em silêncio.
- Sabe o que é isso? - ele perguntou enquanto fazia um carinho nos seus cabelos - Apenas uma garota feliz. O retrato de uma garota QUERENDO ser feliz. E eu lhe pergunto: existe algo melhor do que isso?

E o abraço que eles deram no Clube Varsovia, entre copos vazios de vodka, cinzeiros cheios de passado e retratos coloridos espalhados pela mesa, foi um dos sorrisos mais verdadeiros e sinceros que aquele clube já viu.

Feliz de que vê além dos negativos dos retratos...

... feliz mesmo

16.11.05

JUST LIKE HONEY

Garrafas geladas de tinto chileno não aliviavam muito aquela altura da madrugada.
Hmmmm ajudavam, claro, mas não aliviavam. Não da forma como ela queria. Não da forma como ela, definitivamente, gostaria.
Apenas o desespero ecoava na noite escura.
E como as garrafas geladas de tinto chileno, nem os cigarros, as pílulas coloridas, as pastilhas acidas, ou mesmo as canções de Jesus and Mary Chain, podiam aliviar alguma coisa.
Não àquela altura da madrugada veloz.
Não àquela altura da madrugada voraz.

just like honey / just like honey

Enfim, nada acalmava os ânimos, as vontades, o suor.
Nem mel em alto teor etílico.
Apenas sonhos em estados criogênicos.
Sonhos congelados esperando viver.
The living dead strikes again.
E enquanto isso, nos seus fones de ouvido

just like honey / just like honey

Porém, nada aliviava o seu corpo da forma como poderia ser.
Da forma como, caralho, deveria ser!
E o pior é que as madrugadas quentes são as que mais sufocam, as que mais ardem, as que mais despertam o desejo, a gula, a vontade, a sede, o pecado.
As madrugadas quentes são devastadoras.
E cruéis.
Insanas.
E absurdas.
Devastadoras.
E enlouquecedoras.

just like honey... just like honey

As janelas abertas não trazem ar refrescante.
As janelas abertas permitem à luz do luar, malvada, invadir e tornar o ambiente ainda mais quente.
Ainda mais demoníaco.
E após garrafas geladas de tinto chileno, nada como dormir e não sonhar...
Nada como dormir e não sonhar...

just like honey / just like honey

14.11.05

QUANDO A SALA DE ESTAR ESTÁ LOTADA DE AMIGOS E SOLIDÃO

E tudo aquilo parecia surreal.

Uma espécie de filme psicodélico dos anos sessenta, recheado de álcool, drogas, cores e canções antigas. E ela se divertia com os compactos de vinil que ele possuía. Amava aqueles pequenos discos velhos, tão cheios de charme e apelo. Adorava cheirar escutando aquelas canções pop, aquelas canções bubble gum, aquelas canções inocentes sobre amores impossíveis e sonhos juvenis. Ela adorava aquilo tudo.

E lá estavam eles novamente na pequena e bacana sala de estar. Ana, Clarice e Heitor, os três amigos inseparáveis, juntos e conversando sobre a amizade que os envolvia, sobre os casos e os descasos, enfim, conversando sobre a vida urgente e apaixonada e desenfreada que levavam.

E tudo aquilo, como sempre para Clarice, parecia surreal.

Um cenário de tranquilidade e amizade, uma madrugada entre amigos, envolta em elevadíssimo teor alcoólico.

E eles conversavam e conversavam e conversavam.

- E o que você fez, Heitor? Ela nua na sua frente, e nada? Nada?...
...
- Então, foi o seguinte. Ele me ligou e disse...
...
- Ah, eu não tenho a menor idéia...
...
- Me passa o isqueiro...
...
- Que haxixe vagabundo este, hein?
...
- O novo DJ do Clube Varsóvia é adoravelmente hard core
...
- Faz tempo que não ouço nada tão legal...
...
- Fiquei triste, mas foda-se...
...


E, entre as palavras, no silêncio mudo da compreensão, eles se amavam como poucos amigos podem se amar.

Não, seus devassos, nao havia sexo entre eles. Claro que não. Havia apenas aquela paixão que se pode sentir entre amigos, entre irmãos, entre pessoas que se gostam, por motivos quaisquer, por motivos quaisquer.

Depois de horas a fio, entre cigarros sem filtro e goles violentos de cachaça e vodka, tudo o que os esperava era um sono reparador.

Mas enquanto Heitor e Ana dormiam no sofá, esparramados e desarranjados como anjos caídos, Clarice permanecia acordada, degustando a sua insônia. Fumando cigarros sem filtro e ouvindo canções de solidão.

Vontades, desejos, arrependimentos, amigos, amores, amantes.

Sua cabeça era tudo ao mesmo tempo.

E tudo aquilo parecia tão surreal.

Alguém tão sozinho na companhia de melhores amigos.

Surreal.

Bem, surreal até o dia em que a solidão será apenas o nome de uma canção antiga...

...uma canção antiga sobre tempos difíceis e amores impossíveis...

E ela decidiu dormir...

Até o sol resolver nascer!

8.11.05

COSMONAUTAS

Ela costumava não acreditar na própria pouca sorte no amor. Ou, em constatações menos gentis, no seu excesso de azar em assuntos desta natureza. Ou, talvez, nem uma coisa nem outra, ela costumava (e preferia isso) não acreditar na sua usual falta de cuidado com pequenos detalhes amorosos.
Mas porra, convenhamos, quebrar o próprio coração jamais pode ser considerado como um "pequeno detalhe".
De qualquer forma, ela nunca acreditou muito nela própria.
Esta sim, a grande verdade.
Também, com tantas mancadas, burrices, com tanto medo, pânico, enfim, com tantos excessos e erros, inevitável se meter em encrencas. Confusões. Decepções.
Bridget Jones piorada. Uma versão real. Desconexa.
Desconcertada.
Puro desleixo ao tratar do próprio coração.
Mesmo diante de situações fáceis, risco baixo, ela sempre preferiu ficar quieta e ir embora.
Chorar o que não fez.
Chorar o que não teve peito de fazer.
Usual desleixo ao tratar do próprio coração.
Grande droga.
Grande erro.
Entretanto, naquela quarta-feira de madrugada, o cenário final era muito diferente.
Lá estava ela.
Sozinha.
Naquela quarta-feira de madrugada, lá estava ela, calada e arrependimentos, ouvindo alguma balada do Lou Reed e pensando não no que não teve peito de fazer, mas sim no que disse e enfrentou.
Apesar do final conhecido, da solidão conhecida, tudo foi diferente.
Brutalmente diferente.
Violentamente diferente.
Ao invés de chorar e chorar e chorar repetidas vezes as suas cansadas lágrimas, desta vez ela não estava desesperada. Desta vez ela não estava aflita, assustada, arrependida ou mesmo arrasada.
Desta vez, pela primeira vez, ela estava apenas...
... pouco se fodendo.

E com as unhas secando no esmalte vermelho, ela, olhando para o teto como uma criança querida, sorriu alto.
Não estava triste por ter perdido o carinha.
Não estava nada triste por tê-lo perdido.
Estava feliz por ter dito, pela primeira vez, o que achava que aquele miserável precisava ouvir.
E se não rolou, oras, não rolou.
Quem sabe da próxima?
Ela percebeu que só iria fazer o que queria e assim, no futuro, ao invés de canções tristes de Lou Reed, talvez sua trilha sonora pudesse ser uma canção de verão dos Beach Boys.
Com sorrisos e afeto.
Com beijos e sexo.
Com sorrisos...
... muitos sorrisos...
...muitos...

21.10.05

EATING GLASS

E amigos não podem experimentar???

A pergunta ecoou na cabeça dela como um bate-estaca seco, ritmado, perturbador, soando apenas cruel naquele cenário incestuoso entre namorados que nunca se beijaram, entre amigos que nunca questionaram, entre irmãos de escolha própria. Irmãos de afinidade.

E não somos irmãos!!! Somos apenas amigos. E amigos não podem apenas gozar???

A pergunta voltou com insegurança. Mas durou pouco. Sorte dela. A pergunta durou apenas o tempo de ele começar a desabotoar a camisa dela com fúria, com vontade, com desejo, com lúxuria. Suando e tremendo e tentando acertar o toque.

Ela ficou ensopada.

Ele ficou duro.

Eles se beijaram.

E amigos não podem experimentar???

A pergunta já era puro passado e os medos de ambos também. Ela apenas fechou os olhos e os dedos dele, ágeis, alcançaram a entrada da sua calça e invadiram o seu corpo quente, aberto, indefeso, desarmado. Ansioso.

Um a um, os dedos macios e suaves e delicadamente perfumado com aroma de menta e hortelã foram acariciando os seus desejos mais íntimos e suas vontades mais claras.

Ela entrou em êxtase.

Ele também.

Eles se beijaram.

Qualquer pergunta sumiu.

As línguas se misturaram numa sinfonia de desejos. Os corpos se encostaram numa cena de cinema. O surpreendente aconteceu e eles, doces, adoraram cada minuto, cada segundo, cada sentido, cada gemido, cada fluído, cada suspiro.

Me fode, me come, me chupa, enfim, todos os desejos em palavras não foram ouvidos no quarto. Não naquela noite. As palavras foram somente substituídas pelo que um sabia, pelo que um queria, pelo que um era, um para o outro.

E entre os ruídos da cama de molas e o Bloc Party distante zunindo ao fundo, apenas o que se ouviu durante aqueles momentos foi a respiração suada e deliciosa dos dois e o gozo que escorreu entre as pernas.

Nada mais.

E instantes depois, enquanto ele dormia nu sobre o corpo dela seco de gozo, apenas o cheiro dele era o que a fazia respirar.

Nada de perguntas tolas, nada de arrependimentos, nada de medos, nada de amanhãs.

Apenas dois amigos.

Dois corpos nus.

Apenas dois corpos satisfeitos.

E quem já teve a sorte deles?

Quem???

6.10.05

O ENÉSIMO COMEÇO

- Não, eu não sei, definitivamente eu não sei - ela disse relaxada, inteira feliz.
- Tem certeza que não? - ele respondeu, provocante.
- Eu realmente não sei porque você diz isso. Porque diz que gosta de mim. Porque me dá tanta alegria, porque quer tanto e sempre me fazer feliz. Eu não sei. E eu não entendo as suas razões, sabe? Juro que eu não entendo.
- Nem eu as suas. Não entendo tanto pessimismo e tanta vontade por dias cinzas. Você pode me fazer feliz. É só isso o que eu quero. É muito? - ele sorriu.
Ela o encarou com surpresa - Preciso mesmo explicar? Preciso mesmo sempre explicar porque tenho tanto medo?
- Você é quem me diz.
- Não vou dizer. Desta vez não. Não quero. Não quero. Vou apenas viver.
- Sabe que eu prefiro assim? Nada de medos, nada de dramas. Apenas nós e o que sentimos. Prefiro apenas o teu silêncio e este brilho lindo nos teus olhos.
- Te dá prazer né? Me ter desta forma.
- Claro que dá. Você nem imagina o quanto. Me dá um beijo. Agora.

E assim que eles se beijaram, ela gritou e vibrou por dentro com aquela felicidade da paixão que ela adorava. Deixou o medo escondido em alguma gaveta bem trancada. Assim que seus lábios se molharam, ela percebeu que talvez a sua vida não precisasse ser sempre um remake do mesmo filme.

Aquele estranho e dolorido filme de amores perdidos e corações no chão.

O que ela mais queria era um final feliz.

A certeza de um final feliz.

pobre garota amedrontada...

feliz garota apaixonada...

5.10.05

O ENÉSIMO FINAL

- Não, eu não sei, definitivamente eu não sei - ela disse nervosa, quase gritando.
- Óbvio que não - ele respondeu, irritado.
- Eu realmente não sei porque você faz isso. Porque me causa tanta dor, porque quer tanto e sempre me machucar. Eu não sei. E eu não entendo as suas razões, sabe? Juro que eu não entendo.
- Nem eu as suas. Nem eu as suas. Você podia me deixar em paz. É só isso oque eu quero.
- Precisamos mesmo brigar? Precisamos mesmo sempre brigar desta forma idiota, quase insana?
- Você é quem me diz.
- Não vou dizer mais porra nenhuma. Não quero. Não quero.
- E eu prefiro assim. Prefiro apenas teu silêncio. Tua voz me irrita. E estas lágrimas não me incomodam.
- Te dão prazer né, seu filho da puta.
- Vou embora. Tchau.

E assim que ele bateu a porta com uma força incrível, com uma vontade certa de destruir aquele seu passado, ela gritou e chorou com desespero. Com dor. Com medo. Com frustração. Assim que ele bateu aquela idiota porta verde, ela percebeu que todo seu ciúme foi em vão, que todo o seu amor foi em vão e que a sua vida era sempre um remake do mesmo filme.

Um filme de amores perdidos e corações no chão.

Nada de finais felizes.

Nada de finais felizes.

Nunca...

pobre garota triste...

9.9.05

À LUZ AZUL DO MONITOR

Chovia horrores naquela madrugada.

No apartamento, repleto de cinzeiros sujos e cds espalhados, apenas ela e a escuridão e a luz azul fantasmagórica que brotava do monitor do seu computador.

Caralho, isto é apenas um computador, não é real - ela resmungou alto, enquanto lia, atenta e excitada, as palavras que surgiam á sua frente.

Pura insanidade.

- Então, você não me disse o que está vestindo - ele escreveu, esperto, na sua vez de responder àquele chat.
Ela pensou e respondeu, trêmula - Apenas uma camiseta de banda e uma calcinha velha, de dormir. Saca? Aquelas mais gostosas para ficar em casa em noites de chuva .

Ela esperou ansiosa a próxima mensagem.

- Camiseta de banda? Qual banda? - finalmente ele perguntou.
Ela olhou para a camiseta e não acreditou que iria responder a verdade - Motörhead. Era do meu irmão.
- Mas aposto que fica muito melhor em você. Aposto mesmo.

Ela sorriu com o elogio barato e delicioso.
Ele prosseguiu - E a outra peça?

Ela sentiu o estômago apertado, quase na garganta - A calcinha? O que tem a calcinha? É de ficar em casa. Gostosa para isso .
Ele foi rápido - Não é isso que quero saber - jogou, cruel.
- O que quer saber?
- Molhada?
Ela gemeu baixo ao ler as palavras na tela do seu computador. Agora mal conseguia escrever. Só os seus Marlboros a faziam tocar os pés no chão.
- Muito - confessou.

Ele esperou para responder, o suficiente para fazê-la acariciar os seus próprios seios.

- Adoro - ele, finalmente, escreveu.
- Lingeries molhadas? - ela arriscou, provocando.
- Não. Camisetas do Motörhead hahahahaha.
Ela sorriu, aliviando a tensão.
- Na verdade - ele continuou - Adoro é vê-la deste jeito.
- Transtornada? - ela arriscou.
- Não. Excitada. Quase nua, querendo se tocar.
Ela não resistiu e finalmente alcançou o que queria, completamente molhada. Nada respondeu.
- Amanhã nos falamos - ele disse, ainda mais cruel - Melhor pararmos por aqui.
- Tá - ela mal respondeu.
- Boa noite. Dorme bem.
- Você também.

E ela nem se preocupou em desligar o monitor. Ainda lendo aquelas palavras, se ajeitou na cadeira e abriu suas pernas trêmulas. Tirou o pouco que vestia e se tocou e se tocou e se tocou, molhada e excitada.

Chovia horrores ainda no começo da manhã.

No apartamento, cinzeiros sujos e cds espalhados dividiam espaço com camiseta de banda atirada pelo chão.

E ela dormia no sofá. Cansada, exausta e com um sorriso satisfeito nos lábios.

Completamente satisfeito.

2.9.05

ESCOLHAS, APENAS MALDITAS ESCOLHAS

- Então, vamos combinar uma coisa? - ela disse, toda confusa, toda triste, toda encantada, toda decepção.
- O quê - ele perguntou, todo confuso, todo triste, todo encantado, todo decepção.
- Daqui a uns doze, treze, quinze meses, o tempo você me diz agora, nos encontramos aqui, neste bar, neste mesmo horário, que tal?
Ele olhou para os seus olhos pretos, lindos, e emendou, meio sem jeito, sem esperança - Mas, e se eu nem voltar? Você vai apenas esperar sozinha. Não quero isso, apesar de tudo.
Ela odiou aquela crueldade tola e tentou, em vão, esconder as lágrimas que explodiam em seus olhos pretos, lindos, doloridos. Ficou em silêncio.
- Não dá para combinarmos nada. Nada mesmo. Você entende? Apenas posso prometer que vou te escrever.
Ela o olhou com raiva, com dor, como se fosse matá-lo - Não - quase gritou.
- Não? - ele perguntou, surpreso.
- Não. Não quero cartas, cartões postais, palavras escritas de favor. Palavras escritas com pena. Palavras escritas com culpa. Malditas palavras escritas. Prefiro as boas lembranças, prefiro apenas as suas boas lembranças.
Ele entendeu com a cabeça e nada disse. Não quis se defender.
- A melhor combinação entre nós é deixar de combinar qualquer coisa - ela decidiu.
- Então, ficamos como? Apenas assim? Acabados?
- Você decidiu viajar, você decidiu sumir, você decidiu o que quis da sua vida e sequer me perguntou o que eu achava. Então...
- Ei - ele a interrompeu - Isso não é verdade. Você podia ter vindo junto.
- Você não desistiria desta porra de aventura por mim, certo? - ela perguntou.
- Não - ele respondeu, seco e sem enrolar.
- Então, acho que é isto. Melhor ir, acho que daqui a pouco seu vôo parte.

E houve abraços e lágrimas e despedidas e muita, mas muita mágoa e ressentimento.

Momento de adeus.

E enquanto ela andava em direção à saída, amassou e jogou a passagem áerea guardada em seu bolso no cesto de lixo mais próximo.

Colocou seus óculos escuros, acendeu um cigarro e decidiu que estava aliviada por ter escolhido, pela primeira vez em toda a porra da sua vidae ainda que à custa de muita dor, o seu próprio destino.


foto: raquel avani

8.8.05

HER LIFE WAS FULL OF DRAMA (USED TO BE)

O dia estava cinza. Cinza como somente os invernos podem ser. Cinza como somente os seus olhos podem ser. Cinza como somente a neve suja pode ser.

Apenas cinza.

Mas, na verdade, naquela tarde ela pouco se importava com todo aquele cinza. Pouco se importava com todo aquele frio. Pouco se importava com todo aquele cenário de ausência de flores e de primavera.

Ela pouco se importava com o mundo.

Tudo o que ela queria era apenas um copo grande de capuccino quente, cheio de desejo, cheio de esperança, cheio de conforto e um par de cigarros de menta. Nada mais poderia fazê-la feliz.

Naquele café pequeno e fofo, localizado em pleno Parque Central, ela mal acreditava que tinha conseguido ir embora e deixado todos os seus problemas a um oceano de distãncia. Um mundo de distância. Uma vida de distância. Ela mal acrediata que, finalmente, estava feliz.

Naquele café apertado, pequeno e fofo, ela podia, finalmente, rir sozinha de todas as besteiras que havia feito na sua vida, de todas as besteiras e amores desfeitos que havia cometido. Ela podia apenas sorrir.

E ao seu redor havia apenas um dia cinza, cheio de preto e branco como somente os invernos podem ser.

Ao seu redor a sua vida, ao alcance da sua mão o seu capuccino e os seus cigarros de menta, e à sua frente, vários cartões postais.

Decidiu não escrevê-los.

Decidiu ver a vida passar e tentar sorrir ao menos um dia, sem dramas, sem gramas, sem pílulas coloridas e amores incertos.

Apenas ela e aquele dia cinza.

Repleto de cinza, de capuccinos quentes e cigarros de menta. Nada mais... mas alguém precisa de mais???

Claro que não... claro que não...


FOTO: BERNARD PLOSSU
por um fio este site quase acabou

por um fio este blog quase explodiu

por um fio quase desisti

mas ainda não

ainda não é a hora...

fico feliz com isso... muito feliz...

20.7.05

O EXATO INSTANTE EM QUE VOCÊ SE TORNA APENAS PASSADO

PASSADO
uma lata vazia
um lençol manchado
um letreiro de um filme
um enterro
uma caixa aberta
um papel rasgado
ela
apenas ela...


...

- E então? Ainda aqui?

A pergunta dele soou dolorida, quase sádica. Uma pergunta perdida em um mar de caos, desordem, dor e desconsolo. Uma pergunta difícil e direcionada a alguém incapaz de saber. Incapaz de responder. E perguntas assim não soam bem. Nunca. Definitivamente não soam como deveriam soar. São perguntas como lascas de pregos enferrujados, repletas de más intenções e vontade de machucar. E, porra, nada tem o direito de ser tão dolorido assim. Ao menos não deveria ter.

E ela continuou deitada e mal levantou a cabeça. Seus cabelos longos e lindos, escuros como o mal, pretos como a noite e descuidados como ela, tentavam, em vão, esconder as lágrimas nas quais os seus maravilhosos olhos azuis se afogavam naquele momento, pois, claro, a pior e mais nojenta coisa a fazer naquele exato instante era se deixar ver chorar por ele. Se deixar ver por ele. Mas não havia como evitar.

E, mesmo deitada, a pergunta cruel continuava no quarto, suspensa no ar como um tiro no escuro.

- E então? - ele insistiu impaciente, ainda mais cruel, ainda mais sádico, ainda mais letal.

Seu corpo cansado e dolorido despertou. Ela levantou-se e insistiu em ofendê-lo uma última vez, deixando, de propósito, de responder àquela maldita pergunta. Agora uma afirmação. Ela calçou as suas botas velhas e rasgadas e nem se preocupou em ajeitar os cabelos arruinados. Acendeu um Marlboro e pegou a velha mochila verde. Abriu o armário ao lado da cama, sem se importar com as dobradiças frouxas. Pegou apenas seu jeans preto e duas ou três de suas camisetas prediletas de bandas. Jogou tudo dentro da tal mochila verde sem o menor cuidado. Pegou seu pequeno estoque de erva e colocou em um dos bolsos da calça. Deixou o resto das suas roupas no armário como se fossem trapos, principalmente as lingeries que agora apenas lhe davam nojo. Olhou para ele com um ódio totalmente incompatível com a cor azul. Olhou para ele como se quisesse matá-lo. Matá-lo de forma lenta, apenas para que ele sentisse dor. Muita dor. Recolheu a meia dúzia de livros e cds e acomodou na mesma mochila, desajeitada. Saiu do quarto, rápida e firme.

Olhou para a sala uma última vez. Antes de abrir a porta da rua, olhou para ele uma última vez.

Não reconheceu aquele garoto lindo parado em frente ao quarto. Não reconheceu nada que pudesse soar como os últimos dois anos. Nem uma sombra, um resquício, nada. Não reconheceu da onde poderia brotar tanta crueldade. Tanta vontade de ferir. Olhou com pena. Muita pena. Pena dela própria e de ter se tornado, assim que saiu daquele apartamento, apenas passado. Passado na vida de alguém.

E chorou com dor e desespero.

Como ninguém jamais chorou antes...

15.7.05

HORA DE DERRETER

Ela parecia flutuar, muito embora, na real, estivesse totalmente parada e estática naquela cama pequena de solteira. Inerte. Deitada. Imóvel, mas, de alguma forma, livre. Seu corpo parecia querer voar. Simplesmente querer voar para longe dali. Voar para sair daquele quarto pequeno e cheio de tantas lembranças, memórias, medos, receios, drogas, livros, fotos e discos velhos. Ela queria muito sair daquele maldito quarto e ir atrás de algo que realmente valesse a pena. Como a sua própria vida, por exemplo. Não memórias e arrependimentos. A sua vida, perdida e escondida em alguma esquina escura. Deus, como ela queria poder flutuar. Definitivamente ela queria poder voar alto, muito alto. Higher than the Sun. Mais alto do que sol, o céu, o espaço, o infinito. Como num filme de ficção, como num filme de ação. Um filme de arte, um filme pornô, um filme qualquer. Um filme de terror. Um filme B. Um filme fantástico. Um filme real. Mas, enquanto isso, enquanto não era retratada pela película, ela obrigatoriamente tinha que permanecer no seu quarto curto. Deitada e derretendo, esperando a vida acabar como em um trailer claustrofóbico, psicótico e absurdamente real. A única coisa que a fazia lembrar de estar viva era o sangue jorrando por dentro do seu corpo. Sangue ácido derretendo todos os seus glóbulos. Os brancos, os vermelhos, os amarelos ou whatever. Pouco importava toda essa merda. Pouco importava, naquele exato instante, toda essa pequena e inevitável bobagem que era a sua própria vida. Não importava, por ela não entender como era possível derreter deitada, com o coração chorando. Por não entender aquele cenário de caos, dor e perda. Por não entender nada. Não entender a perda dos sentidos, da fala, das lágrimas, das emoções, do coração, do amor. O amor escoado através de um ralo sujo. Ralo de emoções ralas. Todas as substâncias tóxicas e deliciosas estavam fazendo efeito. Há horas e horas e horas. E, apesar de entender tão pouco das coisas, ela compreendia a chuva lá fora e os sons dos romances das noites quentes. A seda. A seda destroçada pela sua saliva a fazia entender isso. E o trem que partia de uma origem desconhecida para um destino ainda mais caótico a fazia chorar de forma quase infantil. E a dor de tudo aquilo era desesperadora. Causada por ele dizendo adeus, poucas horas atrás. Por ele dizendo adeus, para todo o maldito e desgraçado sempre...

Hora de derreter... apenas hora de chorar e derreter. Nada mais do que isso...

13.7.05

QUANDO A CHANCE CAI DO CÉU (OU SEJA, NUNCA SE SABE)

Ele entrou no quarto de forma rápida e desastrada, quase mortal, quase suicida, quase nada. Um trapalhão em um filme noir, um filme escuro, filme antigo, filme preto e branco, filme brutal, um filme odioso, o filme da sua vida. Mas, tanto faz, ele detestava cinema. De qualquer forma, ele entrou cambaleando no seu quarto, como se os pés fossem disformes e o precipício, logo ali. Estava completamente molhado pela tempestade que caía lá fora. Molhado da cabeça aos pés. E bêbado. Ele estava bêbado. Totalmente chapado. Bêbado como um idiota. Um imbecil que, como de hábito, havia feito tudo errado. Sempre e sempre e sempre tudo errado. Caiu assim que a porta abriu. Não conseguiu chegar até a cama desarrumada e desabou, sentindo o gosto do assoalho sujo de poeira e de bitucas de cigarros mal fumados. Não se moveu. Aquele gosto era bem melhor do que aquele que pairava em seus lábios desde o começo da madrugada. Comformou-se em estar no chão. Apenas virou o rosto e deixou os seus olhos dilatados flutuarem sem foco pelo ambiente. Os pôsteres de bandas punk dos anos setenta não adiantavam nada agora. Ele não era, definitivamente, um guitar hero, quem dera soubesse tocar algum instrumento. As fotos de seu passado não serviam para nada agora, exceto lembrá-lo da sua inaptidão para relacionamentos bem sucedidos. Ele sempre fodia tudo. Seu queixo apoiado ao assoalho imundo doía tanto que provocava cãimbras e uma estridente dormência. Nada que abalasse a auto-estima que não tinha. Decidiu continuar imóvel e inerte, como se fosse parte da mobília. Uma parte feia e inútil da mobília do seu quarto. Não podia ir mais fundo que o chão. Não podia. Chorou como uma criança desesperada e indefesa, ao perceber que ela estava longe demais dele agora. Longe demais. Chorou e rezou por qualquer santo que pudesse escutá-lo. Adormeceu infeliz e sem forças, sem notar a velha secretária eletrônica e sua nova mensagem guardada.

Nova mensagem guardada?

Bem, ao menos lhe foi dada uma segunda chance e quando isso acontece, bem... melhor aproveitar... melhor aproveitar...

5.7.05

NAMORADOS QUE NUNCA SE BEIJARAM

Muito tempo se passou. Muito tempo mesmo. Tempo suficiente para deixá-los tristes. Nostálgicos. Com saudades um do outro.
Muito tempo se passou. Tempo suficiente para qualquer mortal. Tempo insuportável para qualquer apaixonado.
Mas, no fim, nem sempre melhores amigos são melhores namorados...

Ela mal acreditou quando o reencontrou por acaso, naquele café charmoso no centro da cidade, com aroma de hortelã e capuccino.

- Você? - perguntou, surpresa, feliz como uma criança, desastrada como sempre ela.
Ele apenas sorriu, revelando também toda a sua felicidade, toda a sua vontade, toda a sua alegria - Oi Nanda. Quem apostaria numa coisa destas, não é mesmo? Depois de todos esses anos, de toda essa vida, de todo esse tempo, um reencontro casual e pouco provável...
- ...porém, extremamente feliz - ela emendou rápida, arrependendo-se imediatamente da resposta apressada.
Ele foi super gentil e sorriu - Claro. E extremamente feliz - ele concordou sincero, deixando-a totalmente à vontade.
- Aceita um café? - ela perguntou, com seus grandes olhos azuis brilhando como nunca.
- E cigarros? - ele respondeu, concordando com a cabeça e ajeitando os seus cabelos já não tão longos e nem dourados, porém ainda extremamente lindos.

E conversaram...

- E então? - ela arriscou - Você está bem? Feliz?
- Se eu estou com alguém? - ele perguntou direto, provocativo, charmoso e adorável, enquanto tomava um gole do seu Irish Coffee.
Ela não sorriu - Nem sempre estar feliz é estar com alguém. Você sabe bem disso. Mas já que tocou no ponto, está? Encontrou, finalmente, alguém?
Ele ficou em silêncio, com um sorriso tímido e breve estampado em seu rosto. Um sorriso lindo e discreto. Um sorriso tão preso à sua memória.
- Não é incrível como podemos passar anos e anos e anos sem falar ou mesmo encontrar uma pessoa e quando isso acontece, parece que dormimos juntos na noite passada? - ele disse.
- Ei, essa sempre foi a minha teoria. E você costumava rir dela. Me achava uma tola, uma criança, uma boba. Mudou de idéia?
- O que aconteceu conosco? - ele perguntou, mudando de assunto - Por que desaparecemos um do outro? Você me conhecia tão bem.
Ela pensou por alguns instantes - Não sei te dizer. Definitivamente não sei te dizer. As coisas não costumam ser assim? - ela perguntou, certa de não estar disfarçando a tristeza.
- Finais felizes - ele disparou.
- Como?
- Finais felizes.
- Como assim?
- As coisas são da forma como são, mas SEMPRE, os finais felizes combinam melhor em filmes de amor.
Ela deu um sorriso - Será que este reencontro não serve exatamente para isto? Reescrever um final. Agora um final feliz?
- Desta vez com um beijo? - ele arriscou - Namorados costumam se beijar. Você nunca me beijou.
Ela sorriu o seu melhor sorriso, o mais sincero, o mais querido, o mais bonito - Well, exceto nós, meu amor, exceto nós. Namorados que nunca se beijaram. E talvez não devam nunca fazê-lo. Nunca.
- Talvez - ele disse - Talvez. Pelo menos por hoje.

... e continuaram a conversa.

Muito tempo se passou. Muito tempo mesmo. Tempo suficiente para deixá-los tristes. Nostálgicos. Com saudades um do outro.
Muito tempo se passou. Tempo suficiente para qualquer mortal. Tempo insuportável para qualquer apaixonado.
Mas, no fim, nem sempre melhores amigos são melhores namorados...
será???


23.6.05

TOTALMENTE DESPIDO E CANSADO

Mais ou menos como um castelo de cartas. Frágil, extremamente frágil e sem
sentido. E, óbvio, para piorar, ele não estava construído sobre qualquer
lugar sólido. Estava construído sobre areia fofa, mole e quente como o sol.

Frágil e perigoso, Frágil e perigoso.

A qualquer momento, como num passe de mágica e destino, tudo viria abaixo
com uma violência assustadora e, claro, ainda mais uma vez ele iria se
machucar para valer.

E nenhum maldito podia evitar.

Ele detestava aquele cenário de devassidão e ignorância e dor e medo.

Detestava todo aquele cenário rasteiro, vizinho da devastação e solidão
total.

Mas, na verdade, ele simplesmente não podia fugir dele. Ao menos por
enquanto. Porque, por mais que o odiasse agressiva e violentamente, ele
estava preso a este maldito cenário de um modo inexplicável, odioso, raivoso
e cheio de amor.

E nenhum maldito podia ajudar.

13.6.05

NÃO SERIA LEGAL? FAZER PARTE DE UM FILME DE AMOR...

- Beatles? - ela perguntou.
- Não - ele respondeu, rindo.
- Não sei então.
- Vai desistir fácil assim? - ele provocou.
- Claro. Você acha que você vale tanto a pena? - ela disparou com um sorriso, retribuindo a provocação e brincando como uma menina.
- Você é que tem que me responder isso - ele disse.
- É? - ela perguntou.
- Claro.
- Não sei então.
- Não sabe o quê?
- Se você vale tanto a pena assim.
- Achei que eu pudesse valer.
- Nem sei por que estamos discutindo isso - ela disse.
- Nem eu - ele respondeu, desenhando o nada com os pés descalços na areia gelada.
- Deixa eu te dizer uma coisa - ela falou.
- À vontade.
- Existe algo mais sensacional do que este pôr do sol que você está testemunhando aqui nesta praia? Este pôr do sol de um dia de outono. Nem bem frio, nem bem quente, porém, extremamente doce.
- Claro que existe - ele retrucou.
- Ah, existe? Posso saber o quê?
- Se este momento fizesse parte de um filme, de que gênero seria?
- Amor? - ela arriscou.
Os olhos verdes e frios dele brilharam por um instante - Exato. Um filme de amor.
- E nós seríamos o quê neste adorável filme de amor? - ela insistiu - Os protagonistas?
- Depende.
- Do quê?
- Eu não gosto de finais tristes.
- Nem eu.
- Não seria ótimo podermos ficar sempre juntos?
- Ótimo? Seria maravilhoso.
- E quem nos impede?
- Quem nos impede?
- Isso.
- Ninguém.
- Então por quê você não me dá um beijo de cinema neste exato instante.
- Não é mesmo Beatles? - ela insistiu, querendo beijá-lo muito, mas fazendo puro charme.
- Não. Beach Boys - ele respondeu delicado, afastando os longos cabelos castanhos do suave rosto daquela menina.
- Ah, Beach Boys. Adorável.
- Quer saber os versos?
- Claro.
- "Talvez se desejarmos, esperarmos e rezarmos / Isso se torne realidade / Então baby não teria nada que não conseguiríamos fazer / Nós poderíamos casar / E então seríamos felizes / Não seria legal?"

Ela apenas sorriu e seu coração pareceu transbordar de felicidade. Beijaram-se de uma forma suave, linda, apaixonada, cinematográfica, enfim romântica, como só uma tarde de outono numa praia vazia poderia ser, ainda mais ao som imaginário de uma canção de amor dos Beach Boys, recheada de desejos e verdades...

...desejos e puras verdades...



WOULDN´T IT BE NICE?
(Beach Boys)

"Wouldn't it be nice if we were older
Then we wouldn't have to wait so long
And wouldn't it be nice to live together
In the kind of world where we belong

You know it's gonna make it that much better
When we can say goodnight and stay together

Wouldn't it be nice if we could wake up
In the morning when the day is new
And after having spent the day together
Hold each other close the whole night through

Happy times together we've been spending
I wish that every kiss was never ending
Wouldn't it be nice

Maybe if we think and wish and hope and pray
It might come true
Baby then there wouldn't be a single thing we couldn't do
We could be married
And then we'd be happy
Wouldn't it be nice

You know it seems the more we talk about it
It only makes it worse to live without it
But let's talk about it
Wouldn't it be nice"

2.6.05

A BALA AMARELA NO SACO DE JUJUBA

- O mar está tão frio hoje - ela disparou, com os lábios ardendo por vodka.
- Que mar? - ele perguntou, supreso.
- O mar, oras. Qual mar? - ela respondeu irônica - O único que existe. O mar. Ele está muito frio hoje.
- Ótimo. Ele pode estar frio, gelado, congelante, mas ainda bem que está longe de nós. Estamos no Clube Varsóvia. Percebe?
- Você não tem o menor senso de realidade, sabia? Infelizmente. Este é o seu maior problema. Podemos estar no mar, no Varsóvia, na cidade, no campo, em algum inferninho cheio de putas e vagabundas e traficantes, ou mesmo nos alpes suíços. It´s up to us. Depende da sua imaginação. Da nossa imaginação.
- E do grau etìlico e da quantidade de drogas que foi consumida hoje também, não? De qualquer forma, por que o mar está frio?
- Você já viu o céu? Cara, é sábado a tarde e olha lá. Apenas nuvens cinzas, carregadas de inverno. Óbvio que o mar está frio. As lágrimas dos deuses não são quentes. Com toda a certeza.
- Ah, as lágrimas dos deuses agora. Tem razão. Então porque é inverno neste hemisfério, o mar está frio seja aonde for. E pior, porque os deuses choram lá do céu, e suas lágrimas são geladas como dor, toda a água do planeta congelou. Você é ótima, sabia?
- Claro que sei. Sou genial.
- E louca.
- E normal.
- Porém inconstante.
- Sim, e também triste.
- Isto é por sua conta.
- Desconfiada.
- Muito.
- Atraente.
- Pelo menos para mim.
- Interessante.
- Divertida.
- Sonhadora.
- Sonhadora.
- Uma ótima companhia?
- Claro que não.
- Não esquece que sou violenta.
- Eu sei.
- E vingativa.
- Demais.
- Odiosa.
- Nada disso.
- Muito lunática?
- E muito bonita.
- Isso é por sua conta.
- Ainda bem.
- Adoro você, saca?
- Eu também. Saca?
- De qualquer forma, o mar está frio e eu sinto todo este frio cortar minha espinha.
- Coloca um casaco.
- Não adianta.
- Como não?
- Nua. Me sinto nua como esta canção que está atormentando meus ouvidos. E toda a cidade sabe o motivo.
- Qual?
- Olha ele lá. Conversando com ela.
- Filho da puta.
- Bastardo.
- Sou mais você.
- Eu também, mas queria que ele também fosse. Totalmente ligado em mim.
- Não gosto dos olhos dele.
- Por que?
- São frios.
- Como o mar?
- Exato. Dali não sai lágrimas. E como dizia minha avó: "nunca confie em olhos incapazes de chorar".
- Ótima frase.
- Ela nasceu numa cidade próxima ao mar.
- Mar frio?
- Gelado.
- Sabe de uma coisa?
- O quê?
- O pior de tudo?
- Não, diz.
- O mais grave desta porra toda de vida que está desmoronando sob meus pés e coração?
- Fala, vai.
- Eu nunca como a bala amarela do saco de jujuba, sabia? Nunca...

24.5.05

ROCKET MAN ou LAZY MOON

- Hoje é sexta, né?
- Bem, tecnicamente é sábado. Já são quase três da manhã.
- Ah, é um saco isso. Para mim, ainda é noite de sexta.
- Noite de sexta foi ontem. De quinta para sexta. Hoje, de forma correta, já é sábado.
- Odeio estas convenções.
- Você pode odiar o quanto quiser Lu, mas hoje É sábado.
- Como você é irritante, não?
- Nisso você tem razão. Até eu concordo.
- Foda-se isso. Não está linda?
- Linda? O quê?
- A noite. A noite de hoje, seja sábado ou seja sexta ou seja o que for, está absolutamente linda. Olha este céu, porra. Que céu! Tão escuro e tão cheio de estrelas. Maravilhoso.
- Hmmm. É. Você tem razão. Está uma noite bonita hoje. Clara. Mas eu confesso que não tenho muito saco para reparar nisto não. Prefiro ficar aqui, sentado nesta sacada, apenas curtindo.
- E eu não sei? Claro. Você só se preocupa com estas suas drogas, estas suas pílulas, estes baseados vagabundos que você mal sabe enrolar. Pena, você perder o melhor da noite.
- E daí? Qual o problema? Para mim, o melhor da noite é estar aqui, nesta sacada, conversando com você.
- Ok. Vou acreditar. O maior problema é que você deixa de perceber as coisas boas da vida, querido. Este é o problema. Fica concentrado em apenas uma.
- Eu percebo as coisas da vida que merecem minha atenção. Pode estar certa disso, "querida".
- Irônico...
- Como assim?
- Nada. Você adora ser irônico. Isso me enerva.
- Eu não sou sempre irônico. Claro que não. Eu percebo mesmo as coisas que realmente importam.
- Dê um exemplo. E sem pensar muito.
- Você, por exemplo. Eu percebo você.
- Hahahahahahaha. Certo.
- Claro que percebo. Este seu olhar de quem quer me devorar, de quem quer me possuir. Impossível não percebê-lo.
- Hahahahahaha. Você está ficando louco. Todos estes excessos psicotrópicos vão acabar derretendo o seu cérebro mole.
- Tomara. Fritar neurônios. Boa idéia.
- Se você me percebesse mesmo, já tinha me dado um puta beijo, daqueles cinematográficos.
- Aí você não iria querer mais nada comigo.
- Não?
- Não. Preciso te conquistar aos poucos, sabe? De um jeito todo especial, até que você caia de amor por mim, por toda a eternidade.
- Você é um palhaço.
- Eu sei. Mas ainda vou provar que estou certo quando você se apaixonar por mim.
- Amizade entre homem e mulher então, não existe?
- Bem, ao menos da minha parte, Lu, não.
- Hahahahahahaha. Está bem. Vamos esperar para ver.
- Eu queria ser astronauta. Um rocket man, saca?
- Astronauta? Hahahahahahahaha. Toda criança já quis ser astronauta. Só para dançar na lua?
- Deixa eu reformular, eu QUERO ser astronauta. Para tudo o que eu puder. Dançar na lua, gozar na lua, fumar na lua, mas, principalmente, para poder olhar a Terra lá de longe. Lá do alto.
- Sem se envolver?
- Sem me envolver com os problemas daqui. Sem sofrer.
- Seria tão bom se pudéssemos fazer isso.
- Ver a Terra lá de cima?
- Não. Seria tão bom se pudéssemos não sofrer. Ainda mais por amores indesejados.
- Seria bom se todos fôssemos astronautas.
- Muito bom. A noite está mesmo linda, né? Uau.
- É... muito linda! - ele disse - E seria tão melhor se você percebesse o quanto eu te amo, sua idiota - ele pensou enquanto acendia um cigarro, querendo mais do nunca pôr os seus pés na lua que ele jamais alcançará, por mais alto que viaje.

já que não posso mais usar o MSN aqui no office, quem quiser trocar uma idéia com a anta aqui, pode tentar o soulseek (procure soulseek no google). É programa de troca de músicas que permite conversa entre os usuários.

Meu nome de user é guziej. Podem me adicionar.

Thanks...

20.5.05

COMO UMA CANÇÃO DE LAURYN HILL

Então, ela se pergunta, o que aconteceu com todos aqueles momentos? Alguém pode explicar? Alguém pode explicar para essa menina doce, gentil e bem humorada, de que serviu todo aquele amor, aquele desespero, aquela vontade insana e adolescente de querer ficar junto, de querer estar junto, de querer comer junto, viver junto, enfim, morrer junto? Aquele desejo doentio e saudável de viver duas únicas vidas em uma só? Alguém pode explicar essa porra? Porquê, até onde eu sei, não existe um manual de instruções de como proceder em caso de falência múltipla de sentimentos. Não, meu caros amigos, definitivamente não há um manual de instruções que possa ajudar-nos a entender todas as razões sem razão, todos os desejos sem recíproca, todas as cores do universo. Não, mas nem fodendo. As brigas, os momentos de raiva, o medo, desespero, a vontade de fugir, enfim, todos os desequilíbrios da mente não vem com um pequenino, um simples, um maldito manual de instruções. E então, é neste momento, no momento em que a garota percebe este sórdido momento, ela também se dá conta de que tudo flutua sem rumo, sem prumo, sem razão de ser. E ela fica atordoada, em espécie de nocaute técnico. E ele não quer falar sobre isso, mas ela quer. E ela tem toda a razão de querer. Ela o ama. Ele também. Se ela não lutar, ou TENTAR, por ele e por todo o amor que ameaça escorrer por entre os seus dedos, quem vai ser o maldito a fazê-lo?

Só assim ela vai ter o que mais deseja... um pouco de bendita paz, como uma canção da Lauryn Hill...

I Gotta Find Peace Of Mind Lyrics
(LAURYN HILL)


"I gotta find peace of mind
I know another cord...
I gotta find peace of mind
See, this what that voice in your head says
When you try to get peace of mind...
I gotta find peace of mind, I gotta find peace of mind
He says it's impossible, but I know it's possible
He says it's impossible, but I know it's possible
He says there's no me without him, please help me forget about him
He takes all my energy, trapped in my memory
Constantly holding me, constantly holding me
I need to tell you all, all the pain he's caused, mmmm
I need to tell I'm, I'm undone because, mmmm
He says it's impossible, but I know it's possible
He says it's impossible without him, but I know it's possible
To finally be in love, and know the real meaning of
A lasting relationship, not based on ownership
I trust every part of you, cuz all that I... All that you say you do
You love me despite myself, sometimes I fight myself
I just can't believe that you, would have anything to do
With someone so insecure, someone so immature
Oh you inspire me, to be the higher me
You made my desire pure, you made my desire pure
Just tell me what to say, I can't find the words to say
Please don't be mad with me, I have no identity
All that I've known is gone, all I was building on
I don't wanna walk with you, how do I talk to you
Touch my mouth with your hands, touch my mouth with your hands
Oh I wanna understand, the meaning of your embrace
I know now I have to face, the temptations of my past
Please don't let me disgrace, where my devotion lays
Now that I know the truth, now that it's no excuse
Keeping me from your love, what was I thinking of?
Holding me from your love, what was I thinking of?
You are my peace of mind, that old me is left behind
You are my peace of mind, that old me is left behind
He says it's impossible, but I know it's possible
He says it's improbable, but I know it's tangeable
He says it's not grabbable, but I know it's haveable
Cuz anything's possible, oh anything is possible
Please come free my mind, please come meet my mind
Can you see my mind, oh
Won't you come free my mind?
Oh I know it's possible
Anything, anything, anything, anything, anything, yeeey
Anything, anything, anything, anything, yeeey
Anything, anything, anything, anything, anything, yeeey
Oh free! Free, free, free your mind
Free, free your mind... free, free your mind
Free, free, free, free your mind
Oh, it's so possible, oh it's so possible
I'm telling you it's possible, I'm telling you it's possible
Free, free... free, free... free, free... get free now
Free, free... free, free, free, free... free, free
You're my peace of mind, that old me is left behind
You're my peace of mind, you're my peace of mind
He's my peace of mind, he's my peace of mind
He's my peace of mind, he's my peace of mind
What a joy it is to be alive
To get another chance, yeah
Everyday's another chance
To get it right this time
Everyday's another chance
Oh what a merciful, merciful, merciful God
Oh what a wonderful, wonderful, wonderful God
[Repeat till fade]
"

17.5.05

DANÇAS DE AMOR SEM TECHNICOLOR

Eles dançavam.

O espaço era pequeno, a sala do apartamento dele era extremamente tímida e o sofá, de tão puído, já nem existia mais. Ótimo - ele gostava de pensar - Assim sobra mais espaço para a dança.

E era exatamente a dança que impregnava a sala naquela noite cheia de estrelas tristes e gente dizendo adeus.

Enquanto isso, eles dançavam.

Ritmo suave e doce, quente e confortável, como um vinho bom. O ruído dos calçados deslizando pelo piso da sala era insinuante e ritmado, constante e adocicado, um tango bom. E eles dançavam felizes. Felizes como há tempos não estavam, como crianças novas, descobrindo amor.

Lá fora a cidade era pura madrugada e testemunha. Apaixonada. Era a própria noite veloz que sabia do seu fim, do seu destino triste, da sua morte prematura e repetitiva provocada pela manhã implacável que sempre insiste em nascer, para desespero dos boêmios, para desespero dos amantes, para desespero dos jovens e velhos, daqueles que sabem viver. Mas, assim como a dança de todos eles, a madrugada não sairia de cena tão fácil assim. Antes, ela aproveitaria cada minuto, cada momento, cada beijo, cada gemido que pudesse provocar.

E eles dançavam.

Os raios prata do luar invadiam as janelas sem cortinas daquele pequeno cenário de dança e tocavam, de modo incrivelmente erótico e sutil, os corpos ligados dos dois. Ele tinha mãos fortes, grossas, impregnadas de cigarro. Ela, por sua vez, tinha mãos doces, delicadas, impregnadas de perfume barato. Perfume bom.

A música explodia nas caixas de som. O amor explodia nos olhos. A tensão explodia no ambiente. Eles dançavam. Se amavam. Estavam felizes.

- Você... - ele tentou falar, quando foi delicadamente interrompido por ela.
- Não diga nada, por favor - ela pediu.
- Mas eu preciso dizer - ele insistiu.
Ela fechou os olhos e mergulhou na música que levava o seu corpo quase dormente, quase molhado e disse - Você já está dizendo. Pode ter certeza. Você já está dizendo tudo o que eu mais preciso ouvir.

E apenas os raios de um luar brilhante que invadia a sala e uma garrafa de conhaque tombada no tapete serviram de testemunha para um dos beijos mais espetaculares de todos os tempos. Um beijo como os lábios dele jamais sentiram. Um nada simples e devastador beijo de amor.

Como nos tempos antigos. Películas delicadas em P&B...

Filmes de amor sem technicolor...

12.5.05

SO FAR AWAY... (COMO UMA CANÇÃO)

Seus olhos parecem duas grandes bolas verdes de cristal. Lindos. Coloridos como poucas coisas podem ser. E é estranho perceber toda a aflição que inunda estes dois olhos grandes, coloridos, lindos.

É amor.

Amor distante. Amor que ela sente por alguém que está fora do alcance das suas mãos, fora do alcance do seu toque, fora do alcance da sua visão, fora do alcance do seu corpo. Ela quer sentir o seu cheiro, o seu perfume, quer tocar seu cabelo, seu corpo, seu rosto, quer olhar por horas e horas e horas o seu rosto infantil, lindo, sutil, perfeito.

Ela quer poder abraçá-lo com força, com muita força, abraçá-lo de forma que ele perceba o quanto ela quer ele dentro do seu corpo, da sua alma, da sua mente, do seu coração.

É amor.

Seus olhos vivos e coloridos, que parecem duas grandes bolas verdes de cristal, expressam toda essa ausência que corrói. Todo medo e a vontade insana de rasgar o mapa para unir os seus dois destinos.

Tudo o que ela quer, é tê-lo por perto, ainda mais uma vez. Tudo o que ela quer, é estar na mesma cidade que ele, ainda mais uma vez. Tudo o que ela quer, é poder ficar horas e horas e horas admirando a sua beleza rara. Tudo o que ela quer, é estar perto dele, ainda que para ficar em silêncio.

Se isso não é amor, então, porra, ninguém mais pode me dizer o que é este sentimento que dói, que arde, que rasga, que machuca, que excita, que diverte, que perturba, que alegra, que molha, que enlouquece.

E talvez, se ela tiver coragem e decidir quebrar o silêncio de toda aquela angústia com a sua voz, com o seu grito, com o seu amor, talvez ele possa escutar e responder, ainda que milhas e milhas distante.

Tudo o que ela quer é estar perto dele.

E se isso não é amor, então eu simplesmente lamento, pois toda a minha crença acabará... simplesmente acabará...

...


"I break the silence with my voice
and everyone turns around
to see the source of all the noise
and here i stand
"
(Dunce / Voltaire)

9.5.05

APENAS UMA TRANSMISSÃO DE RÁDIO...

E agora, vinte e duas horas e treze minutos. Com vocês, Losing My Religion

Oh, life is bigger
It's bigger than you

And you are not me

Ele acendeu um cigarro antes de abrir o velho álbum de fotos repleto de retratos deles. Malditos retratos de momentos felizes.

The lengths that I will go to
The distance in your eyes
Oh no I've said too much
I set it up.


Ela não resistiu e abriu mais um botão da sua camisa, desligou o rádio, deu uma última olhada no espelho e desceu as escadas correndo, apenas porque ele já estava esperando e ela mal podia esperar para sentí-lo.

That's me in the corner

Assim que percebeu que música era, ele mudou a estação do rádio do carro.

That's me in the spotlight

Eles deram o seu primeiro beijo, cheio de dedos, tensão e vontade

Losing my religion
Trying to keep up with you


Ela atendeu o telefone, esperando que fosse ele.

And I don't know if I can do it

Ele ligou e lamentou, pois estava ocupado.

Oh no I've said too much
I haven't said enough


Ela começou a chorar ao ver as coloridas flores do campo nas mãos dele.

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try


Ele desligou o chuveiro e começou a chorar. Cheio de saudades dela.

Every whisper
Of every waking hour I'm


Ela tomou mais um gole daquele gim vagabundo.

Choosing my confessions

Eles começaram a dançar, como se fossem duas crianças.

Trying to keep an eye on you
Like a hurt lost and blinded fool, fool.


Ela começou a rezar. Desesperada.

Oh no I've said too much
I set it up.


Ela acabou o livro. Feliz da vida e decidiu dormir.

Consider this. Consider this
The hint of the century


Ele ligou novamente, ainda ocupado.

Consider this
The slip that brought me


Ela quis desligar. Ele poderia ligar.

To my knees failed
What if all these fantasies


Ele desistiu de ligar.

Come flailing around
Now I've said too much


Ele acendeu outro.

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try


Ela pensou em reatar.

But that was just a dream
That was just a dream


Ele pensou em perdoar.

That's me in the corner.
That's me in the spotlight
Losing my religion.


Ele desligou o rádio e começou a escrever uma carta de amor que jamais seria remetida.

Trying to keep up with you.
And I don't know if I can do it.
Oh no, I've said too much.


Ele se arrependeu de ter escolhido aquela camisa.

I haven't said enough.

Ela quis mudar o batom.

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing.


Ele tentou beijá-la. Ela não tentou evitar.

I think I thought I saw you try.
That was just a dream.


Ela bocejou. Ele quis ser mais feliz.

Try. Cry. Fly. Try.

E tudo aconteceu ao mesmo tempo, naquela noite. Ao mesmo tempo e em diversos lugares. Encontros desencontrados. Pessoas que sequer se conhecem. Apenas uma transmissão em comum. Uma transmissão de rádio.

But that was just a dream, just a dream, just a dream, dream

Vinte e duas horas e dezoito minutos deste sábado insano. Vocês acabaram de ouvir REM aqui na sua 148,7. Permaneçam ligados...

5.5.05

O PRÓXIMO, POR FAVOR...

- Por que você não se leva a sério? - ela perguntou direta, tentando entendê-lo, ao menos uma vez.

Ele permaneceu onde estava, deitado no sofá e esforçando-se para continuar quieto. Não queria todo aquele peso. Não aquela noite.

Ela suspirou com força, querendo deixar claro o quão puta estava com ele e insistiu - Será que é tão difícil responder? É tão difícil para você se respeitar?

Ele jogou o Marlboro dentro da lata vazia de cerveja e a arremessou na parede suja do seu quarto. Pulou do sofá com muita raiva e disparou, com o saco cheio. Muito cheio - Porque eu preciso não me levar a sério, sabe? Eu preciso não me levar a sério. É a única forma de eu entender a razão de tudo isso que está acontecendo entre a gente. Eu preciso ser insano, pois, do contrário, vou ficar igual a você. Com estas suas neuroses, medos, paranóias, com todo este seu ressentimento e dor e culpa. Com essa sua "normalidade" demente. Uma garota mimada que não sabe ser feliz, pois sempre sente culpa em amar alguém. Sente raiva por amar alguém tão fodido como eu, que sequer tem grana para comprar uma droga de uma pizza num sábado à noite. O problema nesta sua infelicidade, nesta sua merda, não sou eu, será que você não percebe? - ele gritou, querendo socar o mundo, querendo ser cruel e atingí-la aonde a dor fosse mais forte, aonde a tristeza fosse mais amarga, aonde sangrasse mais.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas ela não chorou. Sabia que ele queria ver isso. Ver lágrimas e dor. Foi forte o bastante para não ceder a este capricho dele. Este último capricho filho da puta.

Ele parou de falar e olhou para ela e teve vontade de morrer. Teve vontade de morrer ali mesmo, naquela sala ridícula. Aquela garota frágil era tudo para ele. Tudo. Arrependeu-se de todas as palavras erradas que havia dito e ajoelhou-se à frente dela, querendo voltar no tempo.

Após instantes de cinema, ela suspirou aliviada e pôs-se a acariciar os longos cabelos dourados e sujos dele.Ele permaneceu ali, ajoelhado e com a sua cabeça por entre as lindas pernas dela.

- Por que você se leva tão a sério? - ele perguntou, com a voz rasa, cheia de fagulhas.

Ela sorriu, aliviada - Eu levo a sério você, idiota. Eu levo a sério nós dois...

E foi a última noite em que eles brigaram, pois, afinal, foi a última noite em que se viram.

Viva o amor acabado. Triste amor enterrado.

O próximo, por favor...

hey, ninguém quer me fazer um template novo, não?

isso que dá não saber nada de computadores...

29.4.05

NADA

O que você faz quando as luzes apagam?

O que você simplesmente faz, quando as malditas luzes da cidade apagam e suas únicas companhias são os cigarros amassados e as memórias dos seus amores perdidos e fodidos?

O que você faz?

Ela dança (e com medo de enfrentar o espelho)

E ele chora (e com medo de que as luzes voltem... muito medo)

Eu?

Eu apenas escrevo, até que a noite termine e meu coração volte a bater

HEY DJ (para quem não leu no VENUS IN FURS)

Os olhares cruzavam a pista de dança.

Atmosfera impregnada de aromas, cheiros e odores.

Bebidas, cigarros, perfumes, néon, fumaça, enfim, o aroma de todas as coisas preenchia o ambiente. Uma camada densa e espessa de pura rebeldia e diversão.

E entre luzes e cores e incensos, os instintos acordavam espertos. Bastante espertos.

E os olhares que antes apenas cruzavam a pista de dança, agora intimavam. Inevitáveis. Olhares fortes, carregados de volúpia, desejo e vontade.

- Posso escolher uma música, señorita DJ? – pediu, caricata, a garota linda e de cabelos claros que se aproximou da cabine escura escondida no fundo da pista.
A moça que comandava os vinis olhou curiosa, com seus pequenos e lindos e escuros olhos orientais. Emendou, descuidada – Desde que eu conheça, “señorita”, claro que pode - sorriu.
A garota linda de cabelos claros retribuiu o sorriso, primeiro de forma infantil, quase pura, para logo em seguida tornar-se uma adolescente sedenta, cruel, quase devassa – PJ Harvey. Pode ser? É claro que você tem – disse, arrogante.
- PJ Harvey? Hmmm. Tenho, mas não vai dar, desculpe. Não combina com este set – disse, testando limites e provocando. Querendo ser má.
Não houve surpresa. Houve flerte - Não combina? Como assim? Ela combina com tudo. Simplesmente com tudo.
- Com tudo? Não acho. Não combina com agora, por exemplo. Não combina com este set.
A moça linda e de cabelos claros e suados foi rápida – Bem, combina com vontades. Minhas vontades, por acaso – disparou.
A DJ a olhou com um ar de surpresa – Boa resposta. Bem boa, mas eu nem sei quais são as suas vontades, não é mesmo? Então...
... e foi surpreendida por um beijo forte, quente, quase entorpecido. Enlouquecido e inesperado. Seus lábios orientais sentiram o gosto bom e amargo do batom que a garota linda de cabelos claros usava. Suas mãos tremeram e suaram. Seu corpo molhou. Inteiro. Inteiro.

E a pista não entendeu quando uma balada de amor triste de PJ Harvey começou a explodir nas gordas caixas de som.

... mas todos começaram a dançar. De uma forma ou de outra.

20.4.05

Os textos abaixo foram escritos para duas pessoas especiais.

Duas pessoas que são realmente especiais, sem precisar fazer nada em troca.

E eu estava devendo estes textos. Há tempos.

Só isso a dizer.

Espero que gostem... (vocês e elas...)
PARA ISA

SUPERMAN
(Cinerama)
“But you want something that I just can't provide
I'm not a super hero; I just can't find a cloak and change
That sounds more like a job for Superman
Not the lazy slob that you think I am”


Ela gostava de ficar naquela posição.

Deitada de costas, apenas respirando e olhando para o teto do seu quarto amarelo, cheio de folhas com desenhos espalhadas pelo chão. Desenhos feitos à mão. Desenhos feitos de sonhos. Desenhos feitos de desejos. Desenhos feitos por seus dedos finos e deliciosos, que simplesmente adoravam o cheiro do nanquim e as manchas que a tinta deixava. Manchas. Marcas. Manchas. Marcas. E se sua vida tinha alguma espécie de marca ou de mancha, era apenas as manchas de suas vontades e de suas pirações. E as paredes amarelas transformavam-se em pequenos caleidoscópios multicoloridos, como um esboço de algum quadrinista sessentista, hippie gordo, entupido de substâncias lisérgicas. Um quadrinista velho, barbudo, cheio de rugas e cicatrizes na pele enrugada. E ela via o seu rosto aparecer e desaparecer nas paredes amarelas. Como uma luz neon. Um rosto assustador. Psycho killer total. Palhaço assassino. Antítese do amor. E o que a deixava intrigada era que o tal rosto ora era do quadrinista velho e gordo, ora era do seu passado. E ela ameaçava chorar, como não querendo ver, como querendo que as lágrimas escondessem o cenário. Seu coração palpitava e palpitava e palpitava e ela queria ser a personagem dos seus desenhos. “Mas, minha filha, isso não é real. Estes desenhos são absurdos” - a voz de sua mãe ecoou na memória. E ela sorriu como se isso adiantasse. Como se isso adiantasse. Mas, no fundo, tudo o que ela mais queria era apenas que ele estivesse por perto. Perto do seu corpo e do seu coração. Porém, infelizmente, naquele momento e talvez no resto da sua vida, isso era realmente difícil. Um trabalho para super-herói.

E ela não era Clark Kent. Definitivamente.

E, por isso mesmo, ela preferiu apenas ficar na sua posição preferida durante o resto do dia. Deitada de costas e com os dedos sujos de nanquim, esperando o seu coração voltar a bater... apenas esperando o seu coração voltar a bater...


PARA ELISA

CAN´T STAND ME NOW
Libertines
“If you wanna try, If you wanna try
there's no worse you could do (oh oh oh)
I know you lie (I know you lie)
I'm still in love with you (oh oh oh)”


Ela gostava de ficar naquela posição.

Deitada de lado, apenas respirando e olhando para a parede do seu quarto lilás, cheio de folhas com contos escritos, espalhadas pelo chão. Contos feitos à mão. Contos feitos de sonhos. Contos escritos com desejo. Contos escritos por seus dedos finos e deliciosos, que simplesmente adoravam o cheiro dos amores perdidos e rasgados que as letras exalavam. Amores. Amores. Amores. Amores. E se sua vida tinha alguma espécie de amor perdido, era apenas os amores que ela insistia em guardar na sua caixa de Pandora. E as paredes lilases transformavam-se em pequenos caleidoscópios multicoloridos, como um esboço de algum conto escrito por um beatnick, entupido de desejos lisérgicos. Um beatnick velho, barbudo, cheio de rugas e cicatrizes na pele enrugada. E ela via o seu rosto aparecer e desaparecer nas paredes lilases. Como uma luz negra. Um rosto assustador. Psycho killer total. Palhaço assassino. Antítese do amor. E o que a deixava intrigada era que o tal rosto ora era do beatnick velho e gordo, ora era do seu passado. E ela ameaçava chorar, como não querendo ver, como querendo que as lágrimas escondessem o cenário. Seu coração palpitava e palpitava e palpitava e ela não queria ser a personagem dos seus contos. “Mas, minha filha, isso não é real. Estes amores perdidos são absurdos” - a voz de sua mãe ecoou na memória. E ela sorriu como se isso adiantasse. Como se adiantasse crer que os amores perdidos fossem irreais. Mas, no fundo, tudo o que ela queria era apenas que ele estivesse por perto. Perto do seu corpo e do seu coração. Porém, infelizmente, naquele momento e talvez no resto da sua vida, isso era realmente difícil. Um trabalho para algum mentiroso.

E ela não sabia mentir. Definitivamente.

E, por isso mesmo, ela preferiu apenas ficar na sua posição preferida durante o resto do dia. Deitada de lado e com os dedos perfumados por cigarros, apenas esperando o seu coração voltar a bater... apenas esperando o seu coração voltar a bater...

18.4.05

APENAS UM MOMENTO TOLO (E APAIXONADO)

- Sabe o que quero? – ele perguntou, enquanto olhava bem para ela.
- Não – ela respondeu, irônica.
- Seus beijos e tudo mais – ele disparou, direto.
Ela sorriu o mais doce dos sorrisos e abriu seus braços, devagar, como o encorajando a beijá-la por horas e horas e horas.
E ele assim o fez. Aproximou-se com desejo e vontade e paixão e beijou aquela garota com toda a saliva e amor do mundo.
E enquanto a beijava, suas mãos percorreram cada milímetro dos seus cabelos, do seu rosto, do seu corpo. E ele a beijou com vida, como se aquele momento fosse um dos mais importantes do mundo para ele.
E não era?
Claro que sim. Claro que era. A grande confirmação do amor para ele. A grande constatação do amor para ela.

E a vida é tão melhor quando se ama assim... como dois adolescentes...

Não concordam???

5.4.05

E QUEM DISSE QUE AS COISAS NÃO PODEM SER ASSIM? APENAS SIMPLES...

- Pára!
Ela ouviu a frase e virou a cabeça rapidamente. Queria saber de quem era aquela voz doce e suave, porém firme e ligeira, que havia dito a tal palavra para ela.
- Pára! Assim – ele repetiu.
Ela encarou o dono da voz com uma certa irritação. Apenas para disfarçar. Ele era lindo. Olhos escuros, cabelos pretos longos, um queixo quase barbado, regular e quadrado, e um sorriso sensacional. Estimulante. Aparentemente sincero e interessante. Ela apenas o encarou em silêncio, agora sem qualquer irritação disfarçada.
Ele sorriu simpático, querendo quebrar o gelo – A posição do seu rosto daria uma foto. Um retrato lindo, sabe? Por isso pedi, quer dizer, quase mandei, né? Você ficar parada. Queria congelar o momento.
Ela segurou um sorriso, apenas para querer parecer ser um pouco mais teimosa. Um pouco mais difícil.
Ele ofereceu uma bebida.
- Não sei o que está bebendo – ela disse – Como posso aceitar?
Ele continuou com o copo estendido – Às vezes podemos arriscar, você não acha? Beber cicuta sem saber. Sabe que pode até fazer bem?
- Beber cicuta? – ela perguntou, irônica e agora sorrindo de verdade, aberta para aquele garoto lindo e atrevido.
- Não. Claro que não. Eu me refiro a arriscar. Faz bem arriscar – ele disse, confiante.
- Talvez. Quem sabe? Depois de tantas porradas e erros, será que ainda tem algo por que valha a pena arriscar? – ela perguntou.
- Claro que sim – ele afirmou, rápido – Claro que sim. Arrisque e seja feliz.
- Quem disse isso? – ela perguntou.
Ele fez um sinal negativo com a cabeça - Algum poeta ou idiota, sei lá.
Ela olhou com simpatia para ele e disparou – Tá bem, eu aceito.
Ele estendeu o copo, ainda mais uma vez, porém ela afastou o mesmo com suas pequenas mãos delicadas. Ele olhou-a confuso, sem entender.
- Eu aceito outra coisa – ela disse.
- Posso saber o quê? – ele perguntou, sinceramente sem entender coisa alguma.
- Um puta beijo teu...

...

Enquanto se beijavam como adolescentes ardentes, a música explodiu no ambiente, tal qual fogos de artifício que celebram reveillons de amor. E, por incrível que pareça, aquele foi o começo de uma história de amor. Assim, de forma simples, de forma rasa, de forma inesperada.

E quem disse que as coisas não podem acontecer assim?

Ah, se eles foram felizes para sempre?

O que você acha???

...


31.3.05

AZULEJOS LÍQUIDOS

One pill makes you larger
And one pill makes you small,
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.

(white rabbit - jefferson airplane - 1967)

Aquele lugar parecia uma cozinha antiga, anos cinqüenta. As paredes eram forradas de azulejos brancos. Inteiramente forradas. Do teto ao chão. Ele parecia não acreditar. Seus sentidos estavam atormentados, inchados, cansados, tontos. O suor escorria pela testa em gotas gordas, cheias de desejos. O único cenário imutável era o composto pelos azulejos. Seu corpo derretia em cascatas coloridas. Sua pele parecia querer esconder as marcas. Todas as marcas de cortes, provocadas nos momentos de dor. Não havia cor nas paredes azulejadas. A cor estava no seu corpo. Cores desbotadas, cores vivas, cores mortas. Ele queria correr para algum lugar longe dali. Algum lugar muito longe daquele espetáculo de caos e desordem. Nada estava no lugar. Mas, porra, não havia nada para estar arrumado. Ele estava só, nu, no meio de uma sala fria, recheada de azulejos de cerâmica brancos. O suor, antes quente, começou a escorrer de forma fria, congelante, apavorante. A imagem dela correndo para os seus braços ficou ainda mais nítida. Mas ela não o abraçou. Passou direto, sem parar, sem olhar, sem sequer demonstrar que ele estava por perto. Sentiu-se um fantasma. Uma alma penada. Um espectro de nada. Somente a dor e batida sacolejante explodindo em seu cérebro eram perceptíveis. Ele estava sozinho. Num mundo de fantasmas, amores perdidos, drogas sintéticas e azulejos brancos. Ele estava sozinho quando acordou. Ele estava sozinho e o seu mundo ainda era o mesmo de antes do sonho, da viagem, do Primal Scream no estéreo. Os azulejos foram embora e ficaram apenas as fotografias deles e os pôsteres de bandas de rock.

Ao lado da cama, um exemplar de Sandman jogado no chão.

Ao lado do estéreo, um vinil de Jefferson Airplane atirado no chão.

Na sua mente, apenas as lembranças (ela) de todas as coisas que ele buscava esquecer...

Pobre diabo que sequer controla os seus sonhos...

One pill makes you larger
And one pill makes you small,
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.


...

24.3.05

SURPRESAS INDESEJÁVEIS

Nada pode ser tão simples assim. Nada. Nada pode ser tão simples e tão fácil. A vida não é fácil, mas nem fodendo. Quem diz isso ou está com febre ou drogado ou bêbado ou é apenas imbecil. A vida não é, simplesmente, como nós a imaginamos. Digo sobre a vida que desejamos ter. A vida que imaginamos querer. A fumaça que escorre entre os dedos é a fumaça das horas, dos minutos e dos segundos que passam, cruéis, enquanto aguardamos a porra do fim. Os letreiros finais. O começo dos créditos. A trilha sonora. Não importa quantos cigarros ou quantos beijos ou quantos gozos ou quantos copos. Simplesmente não importa. A vida não é, definitivamente, como nós imaginamos. Caralho, dependemos de outros, não só de nós. E é aí que tudo fode. É aí que tudo vai para o espaço. A vida poderia ser um jogo virtual, uma espécie de Pac-Man do avesso, sob nosso total controle. Apenas diversão. Just for fun. Mas a cama em que ela acorda não é cama em que ela quer acordar. A bebida que ele bebe não é a bebida que ele quer beber. A estrela que ela enxerga não é da constelação que ele imagina. As merdas que ele escreve não têm o menor sentido. A sua babaquice tem toda uma razão de ser. Nada pode ser tão simples assim. Nem a chuva, nem a noite, nem as garotas, nem os sonhos. Apenas uma coisa pode ser assim: o silêncio. Talvez a coisa mais simples do mundo e a melhor de todas as desculpas. Ninguém jamais vai me acusar de falar demais. Graças a Deus (se é que ele ainda está alive and kicking).

Nada pode ser tão simples assim.

Ela jamais poderia ter dito que me amava. Jamais.

Quebrou todos os meus medos e acabou com minhas desculpas.

Porra...

Maldita seja a sua sinceridade...

16.3.05

DEAD FLOWERS

- O que não te deixa envelhecer por completo é a música. Música. A única coisa que, talvez, você ame de verdade. A única coisa que, talvez, você respeite de modo sincero. A única coisa que, talvez, você queira por perto. De resto, porra, de resto, você é um idiota insensível. Uma flor morta. Entende? Sem brilho, sem cor, sem perfume, sem vida, sem nada, enfim, apenas uma flor morta.

Um playback insano e constante e repetitivo. Insuportável. Verdadeiramente insuportável. As palavras doíam em sua cabeça. Muito. Soavam como um martelo pesado e enferrujado. Tenso. Cada tônica parecia querer perfurar a sua tez até fazer o sangue jorrar e jorrar e jorrar.

E a noite já estava morrendo. O sol insistia em querer nascer. Em querer atormentar aqueles que se alimentam (se escondem?) da escuridão, do silêncio, do vazio, da deliciosa ausência de pessoas e convívios.

As palavras não deixavam a sua cabeça.

Ele apenas olhava através da janela a noite morrer.

Um bando de idiotas e azarados (azarados?) começava a zanzar como baratas ansiosas pelas veias entupidas das cidades: as ruas.

E ele apenas olhava através da janela a noite morrer. E percebia o seu reflexo na mesma janela, triste. Velho. Imbecil.

À sua frente, ao lado do copo de mate gelado e do cinzeiro imundo, descansavam dois bilhetes.

Um dela, mandando ele sumir.

Outro da outra, pedindo para ele ligar.

E ele sabia que não ia fazer nenhuma das duas coisas.

Ele apenas ia observar através do reflexo exibido pela janela, uma flor, vagabunda, morrer e morrer e morrer.

Repetidas vezes. Repetidas vezes...

7.3.05

GUARDANAPOS E QUEBRA-CABEÇAS

- Tudo parece tão irreal, você não acha? – ela perguntou a ele, enquanto brincava com os dedos e uma caneta no seu guardanapo, todo sujo de batom.
- Como assim? – ele questionou, sem saber se não estava entendendo a pergunta por causa do sono, por causa das altas doses de tequila ingeridas ou, simplesmente, porque não fazia a menor questão de entendê-la.
- Parece papo de adolescente babaca, carente, mas é apenas irreal. É estranha esta falta do que ter a dizer para você. Mesmo depois de todo este tempo.
Ele continuou sem entender, mas, no fundo, já sabia o que ela estava tentando dizer.
- Anos e anos e anos que estamos juntos...
- ... que anos e anos? Estamos juntos há dois anos apenas, não? – ele interrompeu sem a menor sensibilidade e cerimônia.
Ela respirou fundo, irritadíssima e entediada, e continuou, ignorando o comentário inoportuno que ele havia feito - ... anos e anos e anos que estamos juntos e parecemos tão distantes. Cada dia mais. Cada maldito dia que passa, parecemos ainda mais distantes.
Ele olhou para ela de um modo extremo. Frio. Sem excitação, sem reação, sem vontade, sem tesão. Sem afeto. Preferiu continuar em silêncio.
- Eu gostava quando ficávamos juntos naquelas nossas tardes frias de outono na praia. Parecia que o tempo era apenas nosso.
Ele acendeu um cigarro e deu uma tragada forte. Soltou a fumaça lento, como se estivesse ganhando tempo. Deu uma nova tragada, desta vez mais fraca. Falou em um tom melancólico, direto, cruel – O frio do outono não combina mais com a nova estação, você não acha? Tempos distantes.
Ela segurou as lágrimas com uma força que não sabia que havia nela. Largou a esferográfica vagabunda sobre a mesa e rasgou de forma desastrada o guardanapo, todo sujo de batom, que estava entre seus dedos. Pegou sua bolsa, levantou e foi embora, sem sequer olhar para ele que ficou lá, assistindo o corpo pequeno daquela garota sumir entre as pessoas.
Ele ficou quieto fumando o seu cigarro e organizando, de modo distraído, as folhas rasgadas do guardanapo que ela deixou, todo sujo de batom.
Pediu a conta logo em seguida e foi embora, deixando para trás apenas a mesa vazia, os copos sujos, os cinzeiros cheios e o guardanapo rasgado.
Não percebeu que ele tinha uma frase escrita de forma nervosa, apaixonada, desesperada. Um quebra-cabeça de amor perfeito. Um desabafo. Uma frase simples escrita por uma garota maravilhosa, momentos antes

– eu te amo caralho. e vou ficar com você até o fim. só não seja cruel...

...

Mas ele foi. Azar do amor... azar...

1.3.05

ÁLBUNS DE FOTOGRAFIAS E RUAS ERRADAS

- Não acredito! - ele disse, verdadeiramente surpreso, meio alegre, meio constrangido.
Ela olhou-o como se mal pudesse acreditar que fosse ele. Viu primeiro um fantasma do passado, um espectro, assombração. Um sonho. Um pesadelo. Ela disfarçou e apenas sorriu.
- Estela? Estela? Ah, não creio. Quantos anos menina... - ele relembrou, aproximando-se para lhe dar um abraço carinhoso.
- Oi Edu. Muito tempo, né? - ela respondeu com a pergunta, permitindo o abraço e sentindo o calor daquele corpo tão estranho, tão conhecido.
Ele concordou com a cabeça - Mais tempo do que jamais pensamos que fosse nos separar. Muito mais tempo mesmo - ele afirmou, deixando a tristeza escapar, breve, por entre os dentes, por entre as vogais.
- Como você está? - ela perguntou, agora interessada, sincera.
Ele pensou antes de responder. Não muito, mas pensou sim - Bem. Estou bem - disse.
- Dá para ver - ela concordou - Não parece tão detonado - sorriu - Ainda é um belo homem - sorriu mais alto.
Ele ficou sem jeito e negou com a cabeça - De forma alguma minha querida. De forma alguma. Sou o Edu de sempre. O Edu.
Ela o encarou com seus olhos grandes e pretos. Lindos - O mesmo Edu de sempre? O MESMO? - frisou.
Ele desviou o olhar para a rua, para um ônibus qualquer que atravessava a avenida, rápido e ligeiro.
Ela continuou encarando-o, esperando uma resposta.
- Eu ainda estou naquele mural velho de cortiça que você tinha no seu quarto? - ele perguntou, ainda olhando para o ônibus que agora sumia no cenário.
Ela abriu a sua bolsa violeta e pegou um Marlboro mentolado, mesmo lembrando que ele odiava (e ainda devia odiar) aromas mentolados.
- Então? - ele insistiu.
Ela acendeu o Marlboro e respondeu, sem entusiasmo - Não tenho mais aquele mural.
Ele voltou a olhar dentro dos olhos negros e lindos de Estela e tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa. Em vão.
- Foi bom te ver - mentiu - Bom, mas preciso ir. A gente se vê por aí - ela disse, enquanto despedia-se com um beijo e um abraço frio, entre dedos de cigarro e bolsas violeta.
Ele não disse nada, certo de que sua voz de lágrimas e embaraço iriam foder com tudo.
Ela virou e decidiu atravessar a rua. Sem olhar para trás. Para ele.
- Mas e se você ganhasse um outro mural? - ele gritou, imediatamente arrependendo-se da pergunta imbecil.
Ela virou e fez um gesto de impossibilidade com os seus braços magros e lindos e recheados de tatuagens coloridas e alegres. Respondeu com um sorriso de alívio por estar do outro lado da rua - Prefiro você onde está hoje, Edu. Em álbuns antigos e memórias bem guardadas. Lugares que posso controlar melhor do que a visão. Um beijo, querido. Um beijo - disse, enquanto assoprava beijos mímicos para ele.
Ele chorou. Nem tentou evitar.

E, no fim, quem disse que álbuns antigos são melhores do que fotos rasgadas, dilaceradas no auge da paixão? No auge da dor da paixão. No auge da dor...

...

25.2.05

E QUEM QUER SER AUDREY HEPBURN?

- A "minha" Audrey Hepburn - ele disse a ela com um sorriso, enquanto saíam do cinema e momentos antes de beijarem-se com amor. Muito amor.

...

E, tempos depois, em uma noite qualquer, o mais assustador não era o escuro do céu, nem a chuva que desabava pesada e cheia de raiva e cheia de risos, e nem tampouco os trovões que explodiam de minutos em minutos em um brilho de luz negra sinistro, sádico, ilustrativo de todo o seu poder devastador.

E o mais assustador naquela noite qualquer de chuva e tempestade, não era os pobres diabos mortais que vagavam de bar em bar, de corpo em corpo, de cigarro em cigarro, de batom em batom, de banheiro em banheiro, de latrina em latrina, durante toda a madrugada, apenas buscando um refúgio sobressalente e adicional à vida.

O mais assustador naquilo tudo, naquele quadro de madrugada barata, de madrugada perversa, de madrugada perdida, naquele cenário de vazio e desespero e medo e solidão, era que ela estava pouco se importando com qualquer coisa que não fosse o seu baseado babado e melado de saliva e sua tequila pobre e podre.

O mais devastador era que ela permanecia sentada em um lugar qualquer daquele boteco encardido e imundo, alheia a tudo, apenas fumando e bebendo e pouco se importando com a tempestade que açoitava a noite, com os bêbados que maltratavam os fígados, com as putas que vilipendiavam os corpos, com as drogas que iludiam as vidas e com os cheiros que azedavam as esquinas.

Tudo o que ela queria além das drogas e do álcool naquela merda de noite, era difícil demais. Dolorido demais. Insuportável demais.

Tudo o que ela queria era esquecer que, um dia, já foi Audrey Hepburn.

... apenas isso e os créditos finais.

21.2.05

DESEQUILÍBRIO OU DESENCONTRO?

Talvez o que ela mais queira é apenas um pouco de paz, tranqülidade, carinho e amor.

É pedir muito?

Talvez o que ele mais queira é apenas um pouco de paz, tranqüilidade, carinho e amor.

É pedir muito?

Talvez eles precisem apenas se encontrar em uma esquina, em um bar, boteco, em uma balada, em uma noite, em um encontro.

Ao acaso, uma brincadeira do amor.

E este momento pode acontecer a qualquer momento. Agora, daqui a pouco, daqui a duas horas, dois dias, dois anos.

E tenham certeza que é pedir muito, nesta hora, para que eles percebam.

Que eles percebam o seu momento ideal.

Pedir muito?

É, mas não custa sonhar...

15.2.05

blog novo...

eu e a querida lalyil estamos escrevendo nossos contos em outro endereço...

aqui: no VENUS IN FURS

fetiches, desejos, sonhos, enfim, coisas boas...

espero que gostem...

MAS O VARSÓVIA CONTINUA AQUI... (pelo menos por enquanto hehehehe)
CANÇÃO DO AMOR ADOLESCENTE

- Faz uma canção de amor para mim? - ela pediu, enquanto ele brincava com o piano.
Ele sorriu apenas com o olhar - ele adorava fazer isso - e ficou em silêncio.
- Faz? - ela insistiu, sentando ao seu lado no banquinho ruivo do piano.

Ele desviou o olhar daquela garota linda sentada ao seu lado e encarou o instrumento à sua frente. Começou a dedilhar alguns acordes, a brincar com as teclas.

Brancas, pretas, pretas, brancas, todas as teclas do piano.

Seus dedos finos, suaves, firmes e marcantes iam e vinham, como num toque de seda.

Ele interrompeu a brincadeira, antes que o conjunto virasse canção.

Ela olhou para ele meio surpresa, meio divertida - Estava lindo. Não quer? - perguntou, alisando os cabelos longos e pretos dele.
- A canção já está feita - ele respondeu - Basta olhar para nós neste exato momento. Não é uma bela canção de amor?

Um puta beijo foi o grande acorde final...

10.2.05

COMEÇO DE FESTA

Ela estava feliz. Toda feliz. Exceto ela e sua tequila, não havia mais ninguém na pista do Clube Varsóvia. Nenhum cliente, apenas os garçons que arrumavam, lentamente, o ambiente. Ela estava feliz. Toda feliz. O sol ameaçava nascer por entre as frestas da janela, mas ela nem pensava em ir para casa. Era apenas sorriso.

- Gostou da festa, querida? - perguntou Justo, um moreno alto, forte, antigo garçom do Varsóvia e seu amigo de longa data - Foi um dos melhores aniversários do Varsóvia.
Ela sorriu grande, mostrando os dentes perfeitos sem nem tentar esconder toda a sua felicidade.
- Fico muito contente - emendou Justo - Você merece. Foi um sucesso a noite. Foi um sucesso. Pena que já acabou.
Ela fez um sinal negativo com a cabeça, enquanto virava o último gole da tequila - Não Justo, de forma alguma, está tudo apenas começando. Tudo começando.
Ele sorriu e disse, verdadeiramente feliz e moleque - É mesmo. Eu bem vi vocês dois juntinhos, juntinhos.
Ela deu uma gargalhada e despediu-se do amigo com um forte abraço.
Saiu do Varsóvia não como entrou no começo da noite.

Saiu com menos batom, com menos perfume, com mais idade, porém muito mais feliz e com um coração pulando de paixão.

Como num conto de amor... como num conto de amor...

E a canção não saía de sua cabeça - minha mente não esquece você / minha mente não esquece você / até eu encontrar um novo alguém

Ela sorriu por já ter encontrado...


31.1.05

HOUDINI FAZIA IOGA

Suas unhas longas e bordadas com esmalte preto pareciam querer rasgar o velho colchão de molas do Hotel Varsóvia, tão forte e descontrolada era a pressão que ela exercia sobre o lençol com os seus dedos longos, finos e bonitos, sempre cheirando a cigarro mentolado. Seus cabelos de cor girassol estavam invertidos, em negativo, bagunçados, amassados e completamente ensopados de tanto suor, de tanto tesão, de tanta saliva. Os lábios daquele garoto eram infernais. Feitos para o pecado, feitos para o paraíso. Simples assim. Grossos, carnudos, pálidos, os lábios dele percorriam sem pressa cada centímetro do seu corpo, da sua esquina, da sua pele, das suas dobras, do seu sabor, do seu gosto. Os lábios daquele garoto exploravam e exploravam e exploravam cada detalhe das suas entranhas, da sua carne, dos seus pontos. Cada detalhe do seu corpo. Corpo aberto, explorado, indefeso e molhado. Ele sorvia cada gota de tesão escapava por entre as suas pernas, cada gota de amor que escapava por entre os seus gritos, gemidos, suspiros e declarações de amor. Os corpos entrelaçados pela língua suave formavam uma deliciosa e pagã escultura. Lasciva, ardente, apaixonada. Uma escultura de um casal fazendo amor, trepando, gozando, fodendo. Um casal fazendo mágica, um casal fazendo ioga, um casal sendo feliz. Raro? Não, apenas importante...


27.1.05

DAVID BOWIE EM OPOSTOS

ÓPERA ROCK

- Alô? – ele perguntou, impaciente.

Do outro lado, apenas silêncio.

- Alô, porra. Quem é? Isa? É você? – ele agora gritou, com a paciência toda para lá de Saturno.

Do outro lado, apenas nada.

- Preciso repetir? Preciso dizer todas aquelas coisas que nos machucam de novo? Preciso mesmo? Preciso, puta que o pariu? Por quê raios você insiste em me atormentar? Por quê? Por quê? Já não fizemos o suficiente um ao outro?

Do outro lado, apenas dor.

Ele calou a maldita boca e ficou em silêncio, apenas segurando o telefone e ouvindo a respiração dela, a respiração tão angustiada e fodidamente familiar.

Do outro lado, um murmúrio – Você ia acreditar se eu dissesse que quero tentar? Somente tentar?

Como resposta um grito, um murro imbecil na parede e um quadro quebrado – Voltar? Voltar? VOLTAR? – ele urrou – Como assim, simplesmente voltar?

Do outro lado, apenas angústia e arrependimento.

- Você sabe tudo o que aconteceu entre nós? Você percebeu? Você sentiu? Sentiu?

Ela ficou em silêncio e foi a última vez que ouviu o som doce da sua voz, um tom de ópera rock como David Bowie jamais cantou...

CANÇÃO DE AMOR

- Alô? – ele perguntou, calmo.

Do outro lado, apenas sorrisos.

- Alô. Quem é? Isa? É você? – ele agora disse sereno, como se fosse de hortelã.

Do outro lado, apenas medos bobos.

- Preciso repetir? Preciso dizer tudo aquilo de novo? Preciso mesmo? Preciso? Por quê você insiste em duvidar? Por quê? Por quê? Já não fiz o suficiente? – ele disse, doce.

Do outro lado, apenas alívio.

Ele calou a boca e ficou em silêncio, apenas segurando o telefone e ouvindo a respiração dela, a respiração que ele queria tão próxima.

Do outro lado, uma confissão – Você ia acreditar se eu dissesse que quero tentar? Somente tentar?

Como resposta um grito de alegria, um murro imbecil na parede e um quadro quebrado – Tentar? Tentar? Tentar? – ele urrou de prazer – Somente tentar? Eu quero isto e tudo o mais.

Do outro lado, apenas constrangimento feliz, como adolescente excitada.

- Você sabe tudo o que aconteceu entre nós ontem, né? Você percebeu? Você sentiu? Sentiu? Te amo, porra – ele emendou – E você sabe disso, sempre soube.

E ela ficou em silêncio desajeitada, sorrindo por ter descoberto o amor e feliz por ter percebido o som doce da sua voz, num tom de canção de amor como David Bowie jamais cantou...

17.1.05

CARTÕES POSTAIS EM BRANCO

- Você nunca sabe? – ela perguntou, aflita.
Ele a olhou como se o melhor fosse não dar resposta. Nenhuma resposta. Ficou em silêncio.
- Não? Nunca sabe? Responde caralho. Nunca sabe porra nenhuma? É isto? Ou é apenas um garoto amedrontado e cheio de frescuras, cheio de medos, cheio de dedos, que não gosta de se arriscar? – ela disse firme, fazendo uma força tremenda para não gritar e chamar toda a atenção do Clube Varsóvia para eles.
- Eu não sei o que devo dizer – ele arriscou, sabendo que estava jogando fora os seus últimos argumentos e as suas últimas chances.
Ela sorriu com ironia, com desprezo, com raiva – Não posso acreditar, sabe? Não mesmo. Não sabe o que dizer? Neste momento?
Ele assentiu com a cabeça, enquanto virava o resto da cerveja quente que sobrou em seu copo.
- Que tal dizer a verdade? – ela sugeriu – Que tal dizer a verdade ao menos uma vez.
Ele a encarou, agora furioso, praticamente fora de controle - O que muda? – perguntou – O que muda na merda da sua vida qualquer resposta que eu possa te dar? Você vai deixar de viajar com ele? Você vai deixar os seus planos de ir estudar naquele fim de mundo que chamam de Europa? Você vai abandonar a porra da bolsa que conseguiu? Você vai dar um pulo de alegria? Você vai arriscar os seus planos, os seus sonhos, as suas vontades? – É isso? Por causa de um beijo? Por causa de uma noite?
Ela desviou os olhos dele, rápido. Não queria, de forma alguma, que ele notasse e percebesse como eles estavam ficando molhados. Tristes. Sem cor. Ela ficou quieta por alguns instantes. Ele também. Ficaram apenas ouvindo a música que gritava nos alto falantes do Varsóvia.

- Há quantos anos nos conhecemos? – ela perguntou, finalmente quebrando o silêncio dos dois.
Ele franziu a testa e respondeu, sem a menor dúvida – Nove anos.
- Caralho – ela exclamou – Uma vida, não?
- Uma vida – ele concordou – Longa e feliz, né? Vai me escrever postais? – disse após acender um cigarro.
Ela sorriu, carinhosa – Claro que sim. Rabiscar postais, mandar fotos e escrever cartas. Vou aproveitar os cafés parisienses querido, pode apostar.
- Eu sei que você vai deixá-los em branco. Eu apenas sei. Mas, aproveite para ser feliz menina. É isto o que mais quero de você, sabia? – ele finalizou, num tom bossa nova, num tom triste.
Ela corou e sorriu e apenas ergueu o seu copo como numa espécie de celebração de adeus.
- Aos nossos próximos e distantes nove anos – ela gritou.
- Aos nossos passados e tão nossos nove anos – ele concordou.