30.11.04

VENUS IN FURS

Uma cena de cinema.

Calor. Quente. Noite. Verão. Nudez. Paixão. Fantasia. Garoto. Garota.

Os dois estão nus, enlaçados sobre o sofá, como se fossem um. Clichê moderno e banal e vulgar, mas convenhamos, plenamente usual. Os dois estão nus, trepando e fodendo e se amando sobre o sofá de veludo. Ambos nus, ambos nus, mas ela, em verdade, menos despida do que ele. Well, ao menos no quesito roupa. Há meia, espartilho, corpete, couro e pele. Sapatos de salto alto. Sem sapatos. Ela menos despida, mas não menos excitada. Sente o calor exalar como chuva ácida dos seus lábios, dos seus poros, dos seus dedos, dos seus seios, do seu sexo. Sexo úmido, molhado e ensopado. Tesão é o que ela sente, e o seu corpo vibra e treme, como um acorde psicodélico lindo, emitido por um violino desorientado, desafinado, drogado, Sonic Youth, divino.

Ela sente muito tesão. Muito.

Ele também.

As fantasias são densas, tensas, trêmulas, chiques, vulgares, deliciosas, amorosas, maravilhosas, apaixonadas.

Tudo é permitido. Tudo.

E os desejos entram com o vento pela janela aberta da sala, e acabam no seu rosto, no seu corpo, nos seus seios, na sua boca, no seu ventre.

Uma cena de cinema.

Calor. Quente. Noite. Verão. Nudez. Paixão. Fantasia. Garoto. Garota.

Filme noir, filme pornô, filme clichê, filme blasé?

Não, apenas um filme de amor, apenas um filme de amor.


25.11.04

BICICLETAS NÃO PRECISAM DE TEMPO

- Andar de bicicleta? – ele perguntou, quase surpreso, quase sorrindo, quase feliz – A esta hora? Às quatro da manhã?
Ela deu um sorriso delicioso e jogou sobre o seu corpo nu apenas uma camiseta surrada do The Clash. Levantou do colchão e disse, baixinho – Exato, mocinho. Bicicleta. Tem hora para isso? – questionou.
- Bem, você sabe, não? A cidade é violenta, a madrugada é sempre uma armadilha, e, pior, está chovendo muito – ele disse, enquanto enchia um copo americano com água gelada.
- Qual o problema? Tem coisas bem piores do que andar de bicicleta na chuva, não?
- E tem coisas bem melhores também, você não acha? – ele insistiu – Como fazer sexo selvagem em cima deste sofá velho.
Ela apenas sorriu.
- Tudo bem, tudo bem, tudo bem – ele repetiu - Com e por você, eu sou capaz de qualquer coisa.
- Vamos lá, então – ela disse, vestindo um casaco e pegando as suas chaves.

...

E nos dias de hoje, passado tanto tempo e tantas lágrimas e tantos discos e tantas canções e tantas vodkas e tantos desencontros daquela distante madrugada, o que ela ainda mais gosta de cultivar e deixar intacto na sua jovem memória é o exato momento em que ele soltou a frase mágica, a frase maravilhosa, a frase encantada, cujas palavras e sílabas pareceram voar sobre o quarto, literalmente, como notas musicais de canções dos Carpenters: “com e por você, eu sou capaz de qualquer coisa”.

Mentiras? Quem precisa delas?

Apenas todos nós.

E ela continua sentada no banco da sua bicicleta, esperando. Apenas esperando a chuva acabar.



It's Going To Take Some Time
(The Carpenters)

"It's going to take some time this time
To get myself in shape
I really feel out-of line this time
I really missed the gate

The birds on the telephone line (next time)
Are cryin' out to me (next time)
And I won't be so blind next time
And I'll find some harmony

But it's going to take some time this time
And I can't make demands
But like the young trees in the wintertime
I'll learn how to bend

After all the tears we've spent
How could we make amends
So it's one more round for experience
And I'm on the road again
And it's going to take some time this time

It's going to take some time this time
No matter what I've planned
But like the young trees in the wintertime
I'll learn how to bend

After all the tears we've spent
How could we make amends
So it's one more round for experience
And I'm on the road again
And it's going to take some time this time
"
espantei o mau agouro
joguei sobre minha cabeça
um copo cheio de conhaque

conhaque velho
conhaque barato

atraí o tédio
atraí o velho
pulei do prédio

prédio velho
como toda a minha vida

16.11.04

ENCONTRANDO MOTIVOS PARA TER UM MOTIVO

Não havia sol, mas aquele finzinho de tarde estava quente e abafado como há tempos ele não lembrava. Apesar disso, de todo aquele calor de verão insuportável, não havia muitas pessoas na praia.

Estranho – ele pensou. Definitivamente, não havia quase ninguém curtindo a brisa do mar naquela tarde suada.

De qualquer forma, ele era uma destas poucas pessoas e, porra, ele estava muito feliz com isso.

O baseado estava no fim, quase queimando a ponta dos seus dedos. O cd, com as milhares de músicas em mp3 que ele havia baixado, também já estava acabando e o fone de ouvido começava a incomodar. A lata de cerveja jogada na areia, ao seu lado, já era passado há muito tempo. Ele percebeu que mais um dia estava acabando.

Não havia sol e a noite começava a querer invadir, de uma vez por todas, aquele cenário de final de tarde.

Ele sorriu, feliz da vida, lembrando da noite anterior e de tudo o que havia descoberto e sentiu uma imensa falta dela naquele momento. Naquele exato momento em que o seu baseado acabava, o dia morria e a cerveja não mais existia.

- Então? – ela disse
- Então, o quê? – ele respondeu, meio bobo, meio cínico
- Descobriu o que você quer, afinal de contas? – ela insistiu
Ele olhou para o canto da sala, assustado até a morte, com medo de encarar os seus frios e deliciosos olhos verdes e sentenciou, como num drama, como num filme, como num bolero rasgado e antigo, da pior espécie, da pior qualidade – Descobri, afinal, o que eu não quero – e manteve o suspense
- E vai me dizer? – ela perguntou
Ele olhou para a janela e disse – Como se você ainda não soubesse
Ela sorriu – É sempre bom ter certeza. Sempre bom
- Encontrei meus motivos – ele respondeu
- Motivos?
- Exato. Encontrei os meus motivos, as minhas razões. Mais perto do que eu pensava
- Você não tem noção de como eu gosto de ouvir isto. Como eu gosto de ouvir isto
- Para nunca mais deixar de sorrir ou chorar, para nunca mais deixar de ser feliz ou ser só, para nunca mais deixar de viver
Ela o encarou, com muito, mas muito amor mesmo.
- Let´s dance babe? – ele perguntou, brincando
Ela consentiu com a cabeça e esticou seus braços – Claro, meu cavalheiro. Claro que sim


Ele afastou as lembranças e ficou erguido, sentindo a areia escorrer entre seus dedos longos dos pés.

Olhou ao redor e deu um suspiro. Caralho, como ele estava feliz. Estava feliz como há tempos não podia estar.

Quando menos suspeitou, ele decidiu viver.

Boa escolha, diria o sol. Boa escolha...



I Found A Reason
(Velvet Underground)


"Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
I found a reason to keep living
Oh and the reason, dear, is you
I found a reason to keep singing
Oh and the reason, dear, is you
Oh I do believe
If you don't like things you live
For some place you never gone before
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Honey, I found a reason to keep living
And you know the reason, dear it's you
And I've walked down life's lonely highways
Hand in hand with myself
And I realized how many paths have crossed between us
Oh I do believe
You're all what you perceive
What come is better that what came before
Oh I do believe
You're all what you perceive
What come is better that what came before
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
And you'd better come, come come, come to me
Come come, come to me
pa papa papa pa
"

7.11.04

sugestões de canções para contos?

obrigado...
SOMBRA E FUGA

Ela estava cansada. Estava tão cansada como jamais havia imaginado estar. Seus pés doíam, suas mãos tremiam, suas veias eram puro destilado tóxico. Sua cabeça nem parecia mais existir. Seus olhos estavam opacos, sem aquele brilho verde que sempre esteve presente. Seus cabelos estavam sujos.

Ela estava cansada. Tão cansada como jamais imaginou alguém poder ficar. Seus dedos estavam frios e suados. Suas pernas mal apoiavam seu pequeno e outrora delicioso corpo. A caneta tremia e ela não conseguia escrever nenhuma palavra. Nenhuma palavra. A madrugada era alta. Dali a poucos instantes, talvez o sol, talvez a chuva, pouco importa, iria aparecer e matar a noite. Mais um longo dia para ela.

Ela estava cansada. Tão cansada que resolveu sair. Ir embora sem mensagem nenhuma.

Ela abriu a porta e foi embora. De uma vez por todas. Sem saber para onde ir, sem saber do que fugir.

Sem saber?