26.9.04

ASTRONAUTAS

E a cama estava totalmente desfeita. Totalmente. Parecia um formidável cenário pós-guerra.

Manchas, copos sujos, cera de velas derretidas pelo chão, restos de baseados molhados, roupas amassadas e jogadas, discos sem encartes, aparelho de som ligado, nada tocando.

Pós-guerra. Desejo incontido.

E ele estava lá, na sacada do quarto do seu apartamento, apenas olhando o corpo adormecido daquela linda mulher extendido sobre a cama deliciosa e sacanamente desfeita.

Toda nua. Toda molhada e marcada pelo calor do sexo e da noite.

Uma silhueta linda e fugaz. Uma estrela.

E as estrelas pareciam tão diferentes naquela noite.

Tão lindas. Como se pintadas por astronautas românticos.

E ele estava lá, com seu corpo também nu deitado na sacada, apenas observando o seu objeto de desejo adormecido por sobre a cama tão desarrumada.

Objeto não, obra de arte. Toda nua.

Molhada pelo calor do sexo e da noite.

E ele acendeu mais um Marlboro e tragou fundo. Bem fundo.

Lembrou da canção que diz que a solidão é pretensão de quem fica, escondido, fazendo fita.

Sorriu por concordar. Sorriu por as estrelas parecerem tão diferentes naquela noite.

Simplesmente diferentes.

E o barulho das estrelas era tão apaixonante... ele mal acreditou...

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