26.9.04

PEQUENO DIÁLOGO

- Você me liga? - ela perguntou.
- Para quê? - ele respondeu, direto.
Ela o observou em silêncio e murmurou, não querendo chorar - Nenhuma chance?.
Ele olhou sem qualquer sensibilidade e disse - Precisamos mesmo disto? - e entrou no elevador, sem olhar para ela.
- Eu preciso. Deus, como eu preciso - ela murmurou, agora sem se importar em chorar. Apenas sem se importar.



ASTRONAUTAS

E a cama estava totalmente desfeita. Totalmente. Parecia um formidável cenário pós-guerra.

Manchas, copos sujos, cera de velas derretidas pelo chão, restos de baseados molhados, roupas amassadas e jogadas, discos sem encartes, aparelho de som ligado, nada tocando.

Pós-guerra. Desejo incontido.

E ele estava lá, na sacada do quarto do seu apartamento, apenas olhando o corpo adormecido daquela linda mulher extendido sobre a cama deliciosa e sacanamente desfeita.

Toda nua. Toda molhada e marcada pelo calor do sexo e da noite.

Uma silhueta linda e fugaz. Uma estrela.

E as estrelas pareciam tão diferentes naquela noite.

Tão lindas. Como se pintadas por astronautas românticos.

E ele estava lá, com seu corpo também nu deitado na sacada, apenas observando o seu objeto de desejo adormecido por sobre a cama tão desarrumada.

Objeto não, obra de arte. Toda nua.

Molhada pelo calor do sexo e da noite.

E ele acendeu mais um Marlboro e tragou fundo. Bem fundo.

Lembrou da canção que diz que a solidão é pretensão de quem fica, escondido, fazendo fita.

Sorriu por concordar. Sorriu por as estrelas parecerem tão diferentes naquela noite.

Simplesmente diferentes.

E o barulho das estrelas era tão apaixonante... ele mal acreditou...

21.9.04

NOITES SEM BEIJOS

Um beijo. Apenas um beijo.

Gostoso, afetuoso, molhado, sedutor, quente, úmido, apaixonado, enfim, um puta beijo.

Um beijo, com amor ou sem. Era tudo o que ela mais queria naquela noite de lua e de estrela.

E enquanto tomava o seu ácido e olhava para o céu, ela pôde perceber como o terraço solitário daquele prédio cinza e velho era acolhedor.

Acolhedor como as mãos daquele cara que ela não tinha.

A cidade não descansava debaixo do seu olhar severo e magoado. As buzinas gritavam por amores urgentes, amores perdidos, amores carentes, amores desfeitos, amores satisfeitos, por amores inexistentes, por amores, apenas por amores e ela sorriu ao perceber que ninguém sacava o mesmo.

Poucos têm este dom – ela pensou – O dom divino e maravilhoso de perceber o amor.

E ela lembrou do sorriso lindo e charmoso daquele menino besta que havia lhe dado tchau.

Ao invés de chorar, ela sorriu.

Coisas de noites de lua cheia. Coisas de noites de lua cheia.



17.9.04

...e de todas as coisas mais feias e mais belas do mundo, a única que a fazia sorrir era o mar, pois o reflexo no espelho causava angústia e vontade de chorar... e ele disse "eu não sei fazer poesia, mas que foda". ela concordou com a cabeça e lhe deu um beijo fabuloso, formidável, maravilhoso.

ela chorou, sem saber se de felicidade ou tristeza... apenas sem saber...
VOLTEI...

TAVA COM SAUDADES...