30.6.04

QUAL O MOMENTO CERTO DE ERRAR?

Eles estavam cansados, andando na praia, andando exatamente no melhor lugar do mundo em que se pode estar às cinco e meia da manhã de um dia de verão: no lugar em que as ondas morrem na areia, no lugar em que as ondas terminam a sua deliciosa viagem, no lugar em que as ondas alcançam, finalmente, o seu grande objetivo.

Beira-mar...

- Você não vai acreditar – ela desafiou, sem graça.
- Se você me contar, quem sabe eu consiga – ele retrucou, jogando fora a ponta final que segurava do seu baseado babado.
- Na areia não, sua besta – ela gritou, tipo mãe – Joga essa porra no lixo.
Ele fez uma cara de irritado e apenas resmungou qualquer coisa, enquanto corria em direção a uma cesta de lixo, perto de um bar.

Voltou correndo e disse, quase sem ar – Pronto. Pronto, minha querida Sofia, seu desejo de uma praia limpa já foi atendido, pode continuar o que estava tentando me dizer – ele sorriu.
Ela respirou fundo e pareceu estar escolhendo as palavras – Talvez, pela primeira vez em toda a minha vida, eu creio que estou verdadeiramente apaixonada por alguém – disparou, como se tivesse confessado um crime, uma chacina, um ato de terrorismo.
Ele parou de andar por um instante e a encarou, sério, porém tentando disfarçar.
- É – ela prosseguiu – Talvez meu ritmo não seja muito rápido, não sei, talvez meu espírito não seja dos mais apaixonados, mas o fato é que mesmo demorando, finalmente estou sentindo “essa coisa”, sabe?
- Sei – ele disse, baixo – Vai me dizer quem é o felizardo?
Ela olhou para o mar azul, lindo, que agora, com o sol começando a nascer, estava absolutamente entorpecente.
- Não vai me dizer? – ele insistiu, angustiado.
Ela, sem desviar os seus olhos do mar de verão, perguntou – Você não sabe ou é apenas uma vingança por eu ter te dado aquele fora de “amigo” há uns bons anos?
Ele ficou em silêncio, com o estômago amordaçado, como se tivesse sido nocauteado em cheio no meio do rosto.
- Você não sabe? – ela disse, ainda mais uma vez, agora esquecendo o mar, o lúdico mar azul.

Ele se aproximou e deu um beijo impressionista naquela garota diante dele, um beijo molhado, sensual, amargurado, apaixonado, sufocado, estranho...


E enquanto se beijavam, com o verão de testemunha, ela simplesmente pensou – Sempre é tempo, que bom, que bom...
E enquanto se beijavam, com o céu de testemunha, ele simplesmente pensou – Não te amo mais Sofia... e agora? O que vai ser de mim?


24.6.04

dor de cabeça e excesso de coisas para fazer e ausência de barra de cereais e madrugada no trabalho... enfim, tudo isso rendeu um post longo e delicioso: o de baixo.

Adorei fazê-lo. Enjoy... espero que curtam...
LET´S TALK ABOUT SEX, PAIN AND LOVE...

LET´S TALK ABOUT SEX

Ela adorava provocá-lo. Simplesmente adorava. Adorava deixá-lo com cara de bobo, com cara de paspalho, com cara de idiota, com cara de desejo, com cara de espanto, com cara de tesão, enlouquecido. Ela adorava isso. Ele também.

Ela fazia caras e bocas e mostrava discretamente a ele a sua língua e exibia a sua têmpora ligeiramente molhada de suor e de vontade e de amor e fazia questão que ele percebesse o leve tremor nas suas mãos. Um tremor pós-beijo, um tremor pré-gozo, um tremor leve e gostoso, como deve ser todo bom amor.

E ela adorava fazer cara de menininha perdida, de garota inconseqüente, de mulher perdida, de devassa apaixonada. E ele também, simplesmente adorava tudo isso.

Como num jogo de gato e rato, como num jogo de esconde-esconde, pega-pega, toque de mãos, beijos molhados. Como num jogo de amor. Simplesmente isso. Amor entre dois jovens enlouquecidos e apaixonados.

E o saguão do Hotel Varsóvia parecia uma grande viagem de vinho, entre saias erguidas, calças abertas, beijos molhados e amor, muito amor incontido.



LET´S TALK ABOUT PAIN

Ela detestava brigar. Simplesmente detestava. Odiava deixá-lo com cara de medo, com cara de dor, com cara de idiota, com cara de sofrimento, com cara de espanto, com cara de decepção, enlouquecido. Ela detestava isso. Ele também.

Ela não fazia caras e bocas e tentava não mostrar a ele os seus olhos e a sua têmpora ligeiramente molhada de suor e de vontade e de pavor e fazia questão que ele não percebesse o leve tremor nas suas mãos. Um tremor pós-briga, um tremor pré-choro, um tremor forte e desgostoso, como não deve ocorrer (mas sempre ocorre) em todo bom amor.

E ela detestava a cara dele de menininho perdido, de garoto inconseqüente, de homem confuso, de incompreendido apaixonado. E ele também, simplesmente detestava fazer tudo isso.

Como num jogo de gato e rato, como num jogo de esconde-esconde, pega-pega, empurra empurra de mãos, beijos evitados. Como num jogo de raiva e dor. Simplesmente isso. Raiva e dor entre dois jovens enlouquecidos e (não mais) apaixonados.

E o saguão do Hotel Varsóvia parecia uma grande viagem de tequila barata, entre cabelos arrepiados, fotos rasgadas, beijos esquecidos, e lágrimas, muitas lágrimas incontidas.



LET´S TALK ABOUT LOVE



Precisa falar alguma coisa…?

18.6.04

PERFUME DE CORPOS

Perfume de corpos. Esse era o aroma do quarto, daquele quarto apertado e colorido do pequeno apartamento dela. Mas, na verdade, a dimensão daquele minúsculo quarto era o que menos importava naquele instante para os dois sobre a cama. Naquele momento, as bocas eram intensas, as mordidas eram suaves, os lábios eram vários e a saliva era doce. Naquele momento, o que havia era apenas paixão iluminada à luz de velas e lua. Lua cheia e muita paixão e muita vontade de eles serem apenas felizes. Sem lugar para qualquer outro sentimento. Sem lugar para nada.

O perfume de corpos naquele colorido quarto do apartamento pequeno dela era intenso, vivo, lindo, adorável, doce e apaixonante. Ela o queria. Desesperadamente. Ele a queria. Desesperadamente.

Mãos tocavam peles, tocavam coxas, tocavam nucas, tocavam pelos, tocavam bocas, tocavam pés, tocavam mãos, tocavam lábios, tocavam peitos, tocavam dedos. Mãos suadas. Mãos molhadas. Corpos também.

E no meio do suor e do desejo e do quarto semi-escuro, como se fosse possível, a silhueta do perfume de corpos parecia poder ser visto a olho nu por qualquer mortal apaixonado.

Bastava usar o olhar certo.

O olhar de velas, de luas cheias e de corpos apaixonados...


MAÇÃ...APENAS UMA MAÇÃ...

ela estava sentada em frente ao seu computador
seu pequeno diário
seu pequeno confessionário
ela sentia um misto de tristeza e alegria
um misto de confusão e nostalgia
ela sabia o que queria
e o que não queria
ela estava contendo as lágrimas
como forma de conter o passado
mas sua avó sempre dizia:
"sem passado, no way dearest child, não temos qualquer futuro. Então use isso em seu favor".
e ela deu um leve sorriso quando lembrou disso
um leve e lindo e suave sorriso
cheio de alegria
e então ela decidiu que não iria chorar
olhou para seu pequeno notebook
seu pequeno confessionário
e decidiu começar a escrever o seu futuro
e ela estava linda
não mais triste
comendo uma maçã
doce como ela
doce e forte como ela...
...

15.6.04

QUEM NÃO PRECISA SER COMUM?

Ela trabalhava no Clube Varsóvia há vários meses. Garçonete (ela detestava este termo, mas mesmo em tempos modernos, chatos e politicamente corretos como os de hoje, ainda é assim que são chamadas as mulheres que trabalham como “garçons” ou no exercício de profissão similar).

De qualquer forma, fosse qual fosse a sua “profissão”, o fato é que ela trabalhava no Clube Varsóvia há vários meses e isso era bastante tempo.

Tempo suficiente para perceber como as pessoas são loucas, psicóticas, insanas, anormais, apaixonadas, verborrágicas, caladas, sentimentais, frias, cruéis, verdadeiras, amigas, tolas, fúteis, interessadas, egoístas, generosas, enfim, toda a sorte e espécie de adjetivo que você possa imaginar na nossa língua portuguesa.

E ela adorou ter percebido isso.

A solidão e a porra da insegurança, que sempre a incomodaram, deram lugar a uma espécie de esperança. Isso, esperança... quem diria.

Pode parecer tolo e idiota e vulgar e clichê e novelesco, porém a nossa doce e adorável e amável “garçonete” ganhou esperança.

Esperança de que mesmo ela, uma moça comum, com um cabelo comum, com um olhar comum, um intelecto comum, uma vida comum, tatuagens comuns, hábitos comuns, vícios comuns, coturnos comuns, tudo comum, seria capaz de encontrar um imbecil qualquer que a amasse da forma como ela estava (e sempre esteve) disposta a amar.

Mas, óbvio, esperança nunca é o bastante. Nunca mesmo. É necessário agir, atuar, procurar, fazer o verbo rolar, estar sempre “alive and kicking” (como seu amigo Zé Edu usualmente costumava pregar), e, sobretudo, ter sorte, muita sorte. E, neste último aspecto, (thanks God!), o acaso conspira – mesmo em favor de “garçonetes” solitárias.

E naquela noite, ele conspirou...

Perdida entre copos com marcas vagabundas de batom, cinzeiros sujos, chão molhado, toalhas engorduradas, mesas imundas e um barulho irritante produzido por um DJ incompetente, ela encontrou, naquela noite, apenas um garoto lindo dentre uma multidão de pessoas desconhecidas.

Um garoto lindo e simpático e com um cabelo comum, com um olhar comum, um intelecto comum, uma vida comum, tatuagens comuns, hábitos comuns, vícios comuns, coturnos comuns, tudo comum.

Comum a ela.

E eles passaram a manhã toda – fim de expediente para ela – conversando no boteco em frente ao Clube Varsóvia.

Felizes e comuns.

Como qualquer começo de amor deve ser.


14.6.04

PARA GARRAFAS QUEBRADAS, NADA COMO LUVAS DE VELUDO

- Então, tá! – ele disse, com a voz delirante, quase todo chapado pelas doses cavalares de vodka, por ele ingeridas naquele boteco cravado no centro da cidade – Então, tá! – ele continuou - Vamos imaginar tudo isso como um grande engano, um grande, um enorme, um monstruoso erro de cálculo. Um mal entendido. Que acha? Vamos encarar as coisas dessa forma? Tudo fica mais fácil.
- Para quem? – ela perguntou, incrédula – Fica tudo mais fácil para quem? – perguntou com os olhos frios, enquanto acendia o seu inseparável Marlboro Light.
Ele a olhou com espanto, não podia acreditar em tudo aquilo. Não podia mesmo – Talvez para nós dois. Talvez para nossa amizade. Talvez para o mundo – ele exagerou.
Ela deu uma tragada forte e profunda no seu cigarro, e disparou com a sua voz rouca e penetrante – Não posso acreditar que você vai negar isso a nós. Não posso mesmo. Porra cara, jamais pensei que você fosse este tipo de babaca, de covarde, de bundão, de idiota. Declarações de amor são o que para você? – ela perguntou.
Ele suspirou em desespero e disse, quase sem voz – Declarações de amor de amigas queridas, de pessoas que eu adoro, de pessoas que são a minha própria vida, de pessoas adoráveis e lindas como você, são como cacos de garrafas quebradas, podem machucar para caralho. – ele argumentou, arrasado.
- E não vale a pena? – ela perguntou, cruel.
Ele encarou o chão, com muito cuidado para não esbarrar nos olhos pretos daquela moça linda sentada à sua frente. Encarou o chão e ficou em silêncio, enquanto escolhia cuidadosamente as melhores palavras a dizer, sem machucar. Não foi necessário.
- Tudo bem – ela disse – Tudo bem. Não precisa dizer nada. Mais nada. Quer mais vodka?
Ele concordou com a cabeça e disse, aliviado – Eu te amo amiga.
Ela apenas apagou o cigarro e deu um sorriso, feliz e infeliz por tudo estar de volta ao seu lugar. Como era antes. Como era antes daquela semana começar...


11.6.04

estou em falta várias pessoas... e-mails, textos, enfim, porradas de coisas.

segunda volto à atividade normal...podem apostar...

9.6.04

VOCÊ AINDA ACHA POUCO?

O cheiro no quarto era de tempestade e suor. Cheiro de chuva e suor. Cheiro de cinza e garoa e suor. Já sentiram isso? Já sentiram? Já sentiram essa porra de mistura de odores?

Ela já...

...

Constantemente...

E enquanto tais aromas inundavam o seu quarto, ela permanecia quieta, calada, impassível, insana, impossível. Sentada no canto do quarto como uma criança. Uma miserável criança abandonada.

Ela detestava sentir assim. Ela simplesmente detestava estar vulnerável, fraca, cansada, amarga, enfadonha, estressada, desinteressada, enfim, triste, vulgar e comum.

E tudo por causa de um coração partido.

Vocês acham pouco?

E a paisagem que se podia ver através da janela para fora daquele maldito quarto, era a de um fim de tarde cinza, chuvoso e molhado, triste e nada incomum.

E a paisagem que se podia ver através da janela para dentro daquele maldito quarto, era a de uma menina cinza, apaixonada, quebrada, triste e nada, definitivamente, nada incomum.

E tudo por causa de um coração partido.

Vocês ainda acham pouco?


falta de computadores por perto...

td bem agora!