25.5.04

alguém já quebrou um vidro de perfume?

por querer...?
PERFUMES QUE ESCAPAM (QUANDO SEUS VIDROS SE QUEBRAM)

O bar estava lotado. Bem, na verdade ele estava mais do que lotado, ele estava no limite do suportável. No limite tênue do suportável. Cheio de pessoas, risadas, sorrisos, bebidas, cigarros, sonhos, mentiras, verdades, desejos, frustrações, energias, música, perfumes, perfumes, perfumes, perfumes...

Ele estava encostado no balcão, tomando uma cerveja qualquer. Não era, com certeza, o dia mais feliz da sua vida. Ele estava sozinho e cansado de pensar em todas as besteiras e bobagens que disse e ouviu dela. Todas as besteiras e bobagens que ambos fizeram. Cúmplices num amor descuidado, cheio de rastros, lágrimas, decepções, mas muitos, muitos sorrisos.

Ele olhava a multidão e não sabia direito, a razão de estar encostado no balcão daquela espelunca de bar. Melhor do que ouvir baladas tristes no aparelho de som da sala – ele pensou, sem firmeza.

De repente, em meio a toda aquela vida que girava ao seu redor, ele sentiu um delicado e adorável odor invadindo, penetrando, arruinando a sua vida.

Olhou para todos os lados como desesperado. Sem rumo. Como louco. Queria saber se ele podia ter tanta sorte – ou seria azar? – refletiu. Queria saber se era ela.

Percebeu que o perfume era o mesmo. A garota não...

Pagou a conta com rapidez e foi para casa na carona de lágrimas contidas. Estava pronto para ouvir baladas tristes no aparelho de som da pequena sala do seu apartamento... de preferência, sem nenhum odor. Sem nenhum aroma. Apenas com o sabor do fracasso.

Algo mais do que usual para as suas madrugadas. Mais do que usual...


19.5.04

HOTEL VARSÓVIA

Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e viu o que mais parecia ser um sonho. Um delicioso sonho de inverno. Um delicioso sonho. Adorável e apaixonante.

Isabela estava com o seu corpo esguio e lindo totalmente nu, em pé, ao lado da pequena janela daquele vermelho quarto de hotel, segurando um Gitannes com a mão direita e um copo de vodka com a esquerda, no qual dava suaves e lentos goles com os seus lábios grandes, firmes e vivos, enquanto apreciava Varsóvia.

Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e mal acreditou no que estava acontecendo. O que ela via diante da janela daquele quarto de hotel vermelho era o vulto suave e frágil de uma garota linda. Linda. Linda de verdade.

Não podia ter essa sorte, pensava, pois Vitória era, de fato, apenas simpática, o que, convenhamos, é um adjetivo bastante peculiar e ingrato, utilizado apenas para evitar o constrangimento da utilização da palavra “feia”.

Mas isso em nada impedia o seu sonho e pouco importava naquela manhã fria.

Apesar da falta de clareza dos seus pensamentos, o que Vitória tinha certeza era que o frágil e delicado e lindo vulto de Isabela estava mesmo lá, diante dela, como num delicioso sonho. Adorável e apaixonante.

- Já acordou? – Isabela perguntou com um sorriso, sem desviar os olhos ruivos da pequena janela daquele vermelho quarto de hotel.
Vitória assentiu com um som confortável, porém sem nada responder.
- Não via a hora. O dia está lindo – Isabela completou, apagando o cigarro no cinzeiro do frigobar e virando o copo de vodka.
Vitória se ajeitou na cama e perguntou, tranqüila – Lindo, Isa? Cinza do jeito que está? E frio do jeito que parece estar?
Isabela se aproximou da cama e lhe fez um carinho nos cabelos totalmente desarrumados e desalinhados de Vitória – Está lindo como as coisas mais improváveis que possamos imaginar. Lindo como os seus olhos cinzas.

Vitória apenas sorriu e disse – Estou muito feliz. Muito mesmo. Queria que você soubesse.

Isabela respondeu com um brilho no olhar - Você está há pouco tempo no inverno do planeta. Já viu neve na sua vida, Vi?
- Não – respondeu, como uma criança ansiosa.
- Então levanta. Nevou durante a madrugada. A cidade é só neve.
Vitória levantou rapidamente a sua cabeça e deu um beijo espetacular em Isabela, com todo o amor que há e pode haver nessa vida.

- Realmente, o dia está lindo... – finalizou, ansiosa pela neve.


18.5.04

VOLÚPIA (AINDA EXISTE ESSA PALAVRA?)

- Você viu? - ela perguntou, apontando para o céu.
- O quê? - ele disse, curioso.
- Uma estrela cadente.
Ele procurou pelo céu, mas não viu nada.
- Já sumiu, seu bobo - ela disse.
- Fez um pedido? - ele perguntou.
Ela sorriu e lhe deu um beijo enorme, molhado, cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra) - Fiz sim.
- Será que vai ser atendida? - ele provocou.
- Depende de mim - ela retrucou e sorriu e lhe deu um outro beijo enorme, ainda mais molhado, mais cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra)...

13.5.04

RISCANDO CALENDÁRIOS VELHOS, GRUDADOS COM DUREX EM PAREDES ENGORDURADAS DE COZINHAS SUJAS

Ele estava furioso. Furioso como ninguém nunca o viu antes. Furioso como nem ele próprio acreditava que pudesse ficar. Furioso com todas as merdas que havia feito. Furioso com a falta de cigarros em casa. Furioso com a falta de dinheiro no bolso. Furioso com a tequila barata que restava no fundo da garrafa. Furioso com o maldito cheiro do incenso que invadia as suas narinas, vindo do pardieiro em que sua vizinha morava. Furioso com a falta de perspectivas. Furioso com a falta de emprego. Furioso com o tédio. Furioso com sua idade avançada. Furioso com todos os seus fracassos. Furioso com a ausência dela. Furioso com ele.

E, assim, de repente, ele deixou de lado toda aquela “fúria”, apenas para sentar no chão sujo da sua casa e sussurrar baixinho uma canção de amor. Love Kills. Canção de bêbados e de vagabundos e de notívagos sorrateiros, que amam mais do que podem suportar.

Sussurrar a canção imbecil e rasgar algumas fotos foi o bastante para ele dormir um pouco, ainda que completamente bêbado e jogado no chão.

Quando o sol da manhã arrombou a janela e rasgou os seus olhos sujos, acordando-o sem o menor arrependimento, ele pôde, inerte, perceber o maldito calendário velho, por ele todo riscado, grudado com durex na parede engordurada da sua cozinha suja.

Foi o bastante para ele perceber que a fúria, a famosa “fúria”, de nada adiantou. A sua vida era a mesma porra de vida da noite anterior.

Depois da segunda, sempre vem a terça, a quarta, a quinta... e nada muda... nada... simplesmente nada


ANA/RAFA

- Tomei uma decisão – ela disse, feliz, encarando-o com seus olhos claros e com seus sorrisos todos.
- Qual? – ele arriscou, com medo.
- Te beijar – ela disse, deixando todo o medo de lado e fazendo o que mais queria, desde aquele dia.

10.5.04

ANALGÉSICOS PARA... QUALQUER TIPO DE DOR

- Você acredita em Deus? – Olívia perguntou à Sofia.
- Deveria? – a amiga respondeu.
- Não sei. Não sei mesmo. Não sei se esse tipo de coisa resolve nesse momento. Não mesmo. Aliás, não sei e nem tenho a mínima idéia do que pode ser analgésico nessas horas.
Sofia encarou Olívia e disparou, rápida – Talvez o barulho das ondas do mar. Que pensa?
- Agora, querida? – Olívia perguntou.
- Já!
- Então...

...e saíram daquele quarto fechado, deixando para trás cigarros apagados, fotos rasgadas e memórias embaraçadas. Memórias de amores impossíveis, de garrafas quebradas e de assuntos de meninas.


6.5.04

CORES (AZUL, AMARELO, VERMELHO, VERDE...)

A sensação de calor e tédio predominava naquela sala de aula. Calor insano. Tédio insano. Noite insana. As palavras da pessoa em pé diante de todos aqueles alunos soavam como nada aos seus ouvidos. Soavam tão interessantes quanto nada. A sensação de calor e tédio que predominava naquela sala de aula era insana e desumana. Mas ela estava lá. Como sempre, como todos os dias.

Ela observava, curiosa, aquele garoto lindo de morrer que estava sentado próximo a ela, na última fila. Ela observava com muita curiosidade o movimento das suas mãos. Eram mãos firmes, jovens, lindas, rápidas, que faziam a caneta deslizar por sobre o caderno velho, como se fosse Fred Astaire. Ele desenhava a paixão. Ele desenhava o amor. Ele desenhava como se fosse possível uma caneta dançar uma linda canção de amor.

Ela não imaginava o que ele estava desenhando. Não, ela não imaginava. Mas estava curiosa. Muito curiosa.

Seus olhos não desgrudavam daquelas mãos, por um segundo que fosse, por um instante sequer. Seus olhos não desgrudavam daquelas mãos, nem para que ela pudesse admirar por poucos segundos aquele garoto lindo, tão lindo, tão jovem, tão adorável, com cabelos propositadamente descuidados, propositadamente apaixonantes.

De repente, ele parou de desenhar, rasgou o papel com firmeza e olhou na sua direção. Deu um sorriso confortável, divino, e abriu a folha semi rasgada, semi amassada, em direção a ela e ela, menina, parou de existir por um instante.

Um coração. Um coração colorido de azul e amarelo. Um coração estilizado. Um coração lindo. Dele, para ela.

Ela pensou em dizer alguma coisa, mas ficou em silêncio. Ele pensou em desenhar alguma coisa, mas suas mãos tremiam.

Ele? Azul. Ela? Amarelo.

Quem pode dizer, com toda a certeza, quantas cores existem num arco-íris e se o pote de ouro está mesmo lá. No seu final. Pronto para ser resgatado.

Apenas eles... apenas os dois. O azul e o amarelo...



BLUE AND YELLOW
(The Used)

"and it's all in how you mix the two
and it starts just where the light exists
it's a feeling that you cannot miss
and it burns a hole
through everyone that feels it

well your never gonna find it
if your looking for it
won't come your way
well you'll never find it
if your looking for it

should've done something but I've done it enough
by the way your hands were shaking
rather waste some time with you

and you never would have though in the end
how amazing it feels just to live again
it's a feeling that you cannot miss
it burns a hole through everyone that feels it

should've said something but I've said it enough
by the way my words were faded
rather waste some time with you
"

DEPRESSA, DEPRESSA

Ela estava tão entretida, pedalando a sua bicicleta amarela, e também, distraída e distante e longe com os seus pensamentos e com os seus delírios habituais, que sequer teve como perceber o céu se tornar repleto de nuvens. Nuvens pesadas, de cor grafite, cinzas, distorcidas, lentas e prontas para desabar. Prontas para derramar toda a dor dos anjos.

Ela estava tão entretida na sua própria tristeza.

Quando as primeiras gotas começaram a cair sobre os seus longos cabelos ruivos, só então ela percebeu a tempestade.

Inútil, pois já estava completamente ensopada, ela procurou um abrigo. A cidade estava deserta, como em uma espécie de delírio psicotrópico e, portanto, não foi difícil se ajeitar sob uma velha cabine telefônica, no melhor estilo Audrey Hepburn.

Ela sorriu da própria ironia. Parada em frente a um telefone, sem ter para onde ir, sem ter para quem ligar. Pensou nele com muita tristeza. Sabia o número de cor. Sabia o maldito número de cor e salteado. Olhou para o céu negro como a noite e sentiu as gotas enormes da chuva desabarem em seus olhos pretos e lindos “agora não são mais lágrimas, é apenas chuva” – pensou, confusa no seu próprio medo.

Decidiu que não faria a ligação. De maneira alguma. Ele não teria mais a sua submissão. “amar e perdoar tanto assim é ser submissa?” – ela pensou, inquieta.

Subiu em sua bicicleta rapidamente e decidiu sair daquela cabine telefônica o mais depressa possível. Não queria pensar e nem tomar mais decisões na sua vida e tampouco chorar por quem não a queria (não?).

Correu o mais depressa que pôde com a sua bicicleta, enquanto chorava como nunca jamais chorou.

Por mais depressa que fosse, ela não conseguia ser mais rápida do que a tempestade.

E algum maldito consegue ser?


4.5.04

lampejos de criatividade
lágrimas
lascas de cinzas caídas no blusão
chuva
lampejos provocados pelos raios
raios provocados pela raiva
raiva provocada pelas lágrimas
lágrimas provocadas pela dor

quem dera fosse eu o Todo-Poderoso para brecar a dor...

quem dera...

e o papel? continua em branco