27.4.04

quem se leva a sério demais comete o erro de ser apenas um idiota

presunçoso

um idiota presunçoso

como eu e como qualquer um de nós
são apenas vidros quebrados
são apenas detalhes passados
são apenas letras queimadas
são apenas erros armados
erros cometidos
erros do passado
erros atuais
erros repetidos
erros idiotas

como escrever poesia sem ser poeta
como escrever poesia em guardanapos sujos de papel

only mistakes and cold coffees
Estou em falta com tanta gente e, principalmente, comigo mesmo. Estou em falta com o tempo de viver e creio que nunca vou conseguir parar o relógio e fazer tudo o que quero. Mas espero que tudo esteja bem e todos estejam bem. Eu estou aqui, de volta ao meu maravilhoso mundo de fantasias de Varsóvia...

20.4.04

TORNANDO TUDO MAIS DIFÍCIL

Ele entrou em sua casa com os olhos vermelhos, inchados, desesperados. Jogou o seu casaco imundo em um canto qualquer da sala. Não acendeu a luz. Nenhuma luz. Também, convenhamos, ele nem precisava disso. A cortina daquela sala era tão vagabunda, que praticamente todos os ambientes da porra do apartamento ficavam claros e iluminados com a luz vermelha neon que pulsava do hotelzinho de putas vizinho. Ele tirou as botas tão sujas como o casaco jogado e ficou descalço, pisando no assoalho frio. Frio como ele estava agora. Acendeu um cigarro e ficou andando de um lado para o outro, imaginando o que poderia fazer. Quando se deu conta, estava com os pés sangrando. Tinha esquecido os cacos de vidro do copo americano cheio de conhaque que ele quebrou horas atrás. Estava tão longe, longe de tudo e de qualquer coisa real, que nem se deu conta de que o assoalho frio estava melado de conhaque e infestado de cacos disformes de vidro. Resultado? Seus pés sangravam e incomodavam. Porém, ele estava pouco se fodendo para os seus pés. Apagou o maldito cigarro numa caixa de fita cassete qualquer e sentou-se no assoalho frio, de forma a tentar conter um pouco do sangue e retirar alguns pedaços dos cacos. Ele agradeceu por não serem pequenos. Mais fácil para retirá-los. Muito mais fácil. Aliás, mesmo com todo o sangue, com toda a luz neon, com o cigarro apagado em latas de cervejas, com a jaqueta suja jogada num canto, com aquela porra de sala pequena, enfim, com toda a merda que era a sua vida, nada, mas absolutamente nada podia ser pior do que aquele quarto de hospital em que ele havia estado durante a noite toda. Nada. Aquele quarto de hospital era branco e feio e vazio e triste e claustrofóbico e cruel e rude e muito pesado para ele.

E para ela então? A pessoa que ele havia deixado naquele quarto de hospital branco e feio e vazio e triste e claustrofóbico e cruel e rude e pesado, muito pesado para qualquer um.

Ele deitou no chão melado de conhaque barato e começou a chorar como uma criança. Começou a chorar como alguém desesperado. Como alguém com medo. Ele não entendia a razão e nem o motivo de ela querer fazer tão mal a si própria, mesmo com todo o amor que ele sentia. Com todo aquele universo de amor.

Ele apenas não entendia.

E enquanto ela permanecia com os seus cortes no quarto de hospital, ele gritava querendo obter apenas uma razão. Apenas uma maldita razão.

A vida não é como andar de skate, querido. É muito mais perigosa do que isso. Muito mais. E isso é que me excita...


13.4.04

SALTOS ORNAMENTAIS

- Você está triste hoje? – ele perguntou – Algum problema?
Ela sorriu, apenas fazendo um gesto negativo com o seu rosto e balançando os seus longos cabelos.
- Tá bem – ele disse, incrédulo – Você acha que ainda me engana? Depois de todos esses anos, de todo esse tempo, depois dessa vida que vivemos juntos? Não engana não, my dearest friend.
- Amor, amor, amor... por que ele é tão pé no saco? Por que ele irrita e enerva e destrói e deixa marcas e maltrata e tira o sono dos pobre mortais?
Ele apenas riu – Que beleza, hein? Discorrendo sobre absurdos, pensando sobre questões sem resposta, enfim, sendo banal e uma garota clichê. Logo você, querida, a menos garota clichê de todas as que já conheci. E olha que eu já conheci muitas assim.
- Garotas clichê? – ela perguntou.
- Não, garotas apaixonadas. Garotas apaixonadas e perdidas e com um sorriso bobo como esse seu agora. Estampado como uma cicatriz na sua linda e adorável face.
- Eu sou uma idiota mesmo – ela respondeu.
- Por que? Porque ama? Porra, amor não é pecado, amor não é errado, amor não é complicado...
- Não? - ela interrompeu, indignada.
Ele a encarou com simplicidade – Não. Não é complicado não. De forma alguma. É extremamente simples, aliás.
- Sei – ela zombou – Até parece.
- Teve uma garota que eu conheci, há muitos anos, que me disse uma coisa que eu jamais esqueci. Era uma noite linda e eu gostava muito dela. Claro que ela não me dava bola, mas isso pouco importa. Ela era apenas uma amiga. Uma boa amiga. Não ótima amiga como você, mas uma boa amiga. Uma irmã. Naquela noite ela me disse algo adoravelmente simples, adoravelmente simples, mas que realmente se encaixou na minha vida. Óbvio que estávamos completamente bêbados, mas ainda assim me lembro das palavras bêbadas daquela garota. Ela disse que um sentimento que te deixa sem ar, sem fôlego, sem rumo, sem noção, sem sentido, sem chão, sem céu, sem objetivo, sem auto-estima, com medo, com insegurança, com tremor, com nervosismo, com insônia, com pavor, com auto-indulgência, com culpa, com pânico, enfim, com toda a sorte de síndromes e melindres e desesperos que uma pessoa pode conhecer, não pode ser complicado. Esse tipo de sentimento não pode, oh Deus, claro que não, ser apenas complicado.
Ela o encarou, com sarcasmo e perguntou – Não? Não pode ser complicado?
- Nós somos complicados – ele disse, tranqüilo – Nós. A complicação reside aqui – ele fez um carinho nos longos cabelos cacheados dela - O amor não tem nada com isso. Nada. – finalizou, virando um copo de tequila.
- Sabe de uma coisa? – ela disse, serena – Preciso de terapia.
Fazendo um sinal para o garçom daquele velho boteco, ele perguntou – De pinga ou de vodka? Limão ou morango? – e deu um sorriso ... lindo, por sinal, como tudo deve ser.


5.4.04

LET THE SUNSHINE IN

Havia areia dentro dos seus sapatos. Muita areia. E ela já estava irritada com isso. Muito irritada. Cansou de toda aquela merda e de todo aquele incômodo e resolveu sentar na areia e arrancar e jogar para longe os sapatos que a incomodavam demais. A incomodavam muito.

Sentiu-se melhor quando se colocou em pé e sentiu os tornozelos afundarem lentamente na areia fofa e úmida da madrugada. Melhor, muito melhor – ela pensou. Não queria mais sapatos. Definitivamente.

Caminhou assim, descalça, alguns poucos metros e desabou na areia, esgotada.

Completamente esgotada.

Não fisicamente, por óbvio, mas emocionalmente, o que, convenhamos, é MUITO pior.

E ela ficou deitada por vários instantes, sentindo o seu corpo absorver a umidade da areia úmida, sentindo os seus ruivos e longos cabelos crespos misturarem-se com a areia fina, sentindo a ponta dos dedos dos seus pés cansados de tanto andar, sentindo o coração batendo forte, desesperado, aflito, insano. Sentindo medo e frio e dor e vontade de chorar.

Ficou deitada por vários instantes e percebeu que a chuva agora fazia parte do passado e a lua, poderosa, havia voltado a reinar, brilhando no céu, imponente, mesmo sendo tão solitária.

E ela agarrou um punhado da areia que antes machucava os seus pés e deixou-a escorrer por entre os seus dedos. E o que ela mais queria, era ser a lua naquele instante, apenas para poder boiar sozinha no espaço, sem ninguém para incomodar, sem ninguém para reparar, sem ninguém para machucar, sem ninguém para gargalhar e zombar das suas feridas, para esquecer os seus desastrados diálogos.

- Por que vc me machuca assim? – ela perguntou, aflita – Por que você SEMPRE me machuca assim? – insistiu.
Ele permaneceu em silêncio, apenas evitando encarar os seus olhos.
- Não vai me responder? Como sempre você faz?
- Acho melhor você ir – ele disse.
Ela somente chorou...


E quando se deu conta, ela não estava mais em companhia da lua. O sol estava nasceno, vermelho como os seus cabelos, no horizonte distante e intocável. Seu rosto estava inchado e seus olhos ardiam.

Sentou-se e pegou mais um punhado de areia. Dessa vez não deixou escorrer nem um grão por entre os seus delicados dedos.

A areia não vai mais me machucar – pensou, triste e feliz, enquanto procurava os seus sapatos com a ajuda do brilho do sol...