11.3.04

GAROTOS E GAROTAS. MOLEQUES E...

- Então tá – ele disse, ríspido – Faça o que bem entender da sua vida.
Ela apenas o olhou com um ligeiro ar de superioridade – falsa e fugaz superioridade – e disparou, fingindo ser má – Eu sempre fiz o que quis da minha vida. Só que você, idiota, nunca percebeu – finalizou, virando mais um gole de tequila.
Ele a encarou por alguns segundos - Tem razão querida. Tem toda a razão. Eu nunca percebo nada da sua vida, nada do que você faz, nada do que você pensa, nada do que você é, enfim, nada do que se passa ao meu redor – ele disse, agora irônico – Absolutamente nada. Porra nenhuma. Nada, nada e nada!
Ela sorriu, marota - É por isso que você é meu melhor amigo – sentenciou, com um belo e lindo sorriso.
Ele retribuiu o sorriso e falou, com todo o afeto, como o quintal da casa da avó – Você é um doce, sabia? Um doce. De verdade. Um adorável presente. Daquelas pessoas que surgem na nossa vida do nada, apenas para torná-la mais suportável a cada dia, mais confortável a cada briga, mais...mágica. Mais mágica a cada dia.

Ela apenas abaixou os olhos, agora completamente sem graça.

- Olha só. Não precisa ficar sem graça. É sério, querida. Não estou te sacaneando ou coisas afins. Estou dizendo a verdade. Apenas isso. Quer um cigarro?
- Você precisa parar de fumar seu tonto – ela advertiu – Está ficando cada dia mais crônico esse vício.
- Dos poucos vícios que eu tenho, talvez esse seja o menor.
- Poucos vícios? Hahaha, sei – ela gargalhou – Bem, preciso ir. Depois nos falamos, my dearest and beautiful friend. Tchau – ela disse, indo embora do Clube Varsóvia

- Ei? – ele disse, antes de ela partir – Estela.
Ela virou-se e disse – O quê?
- Estela.
- Quem é Estela? – ela perguntou.
- Era o nome dela. Estela. Uma garota adorável, fantástica. Um doce.
- E?
Ele encarou o fundo do copo de tequila, agora vazio, e disse, nostálgico – Uma garota na minha classe do colegial. Nunca vi tanta molecagem e tanta brincadeira e tanta vida e tanta energia naquela garota. Ela sabia de rock, de garotos, de cigarros, de bebidas, de namoros, de brincadeiras, de poesia, de tantas coisas. E estava sempre sorrindo. Sempre. Uma moleca. Uma adorável e irresponsável moleca, mas, porra, quem precisa ser responsável quando se tem a vida toda pela frente?
- E o que aconteceu com ela?
Ele a olhou nos olhos e disse – Não sei. Nunca mais soube dela.
- Mais uma das suas molecagens, então. Sair da sua vida sem avisar.
- Você não vai fazer isso comigo também, né? – ele perguntou, charmoso.

Ela nada disse. Apenas assoprou um beijo, mostrou a língua, deu seu melhor sorriso e começou a ir embora do Varsóvia.

Ele ficou lá sentado por algum tempo, pensando em todas as bobagens da sua vida, quando, do nada, foi interrompido por um garçom com um bilhete na mão.

Claro que não, seu bobo. Claro que não. A minha maior molecagem é estar sempre do seu lado.
Beijos
Ana


E ele sorriu. Feliz por ter e por também não ter a sorte de que tanto precisava. De que tanto precisava.


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