10.2.04

A CAIXA DE PANDORA

"A caixa era do Gigante Epimeteu, que mantinha bem guardados os elementos que utilizara para preparar a Terra. Pandora, muito curiosa, abriu a caixa e deixou escapar todas as bênçãos que o Gigante guardava com todo o cuidado. Desesperada, ela tentou fechar a caixa, mas somente uma dádiva ficou preservada: a Esperança..."


Chovia muito forte lá fora. Muito forte mesmo. Cada gota parecia um pedregulho quando explodia na janela do seu quarto. Cada gota parecia um diamante lapidado gordo, querendo dura e cruelmente arranhar o vidro. Cada gota parecia uma lágrima produzida por algum divindade triste, que morava no céu furioso, todo cinza, quase chumbo. Não se via nada de azul no céu.

Muito menos no seu coração.

Ela estava sentada no chão, descalça. A cama estava completamente tomada por discos, fotos, livros, cadernos, grafites, poesias, rabiscos e rascunhos. Parecia tudo uma grande colagem de artes plásticas. Uma grande colagem sem pé e nem cabeça, sem começo, sem meio e sem fim.

Chovia muito forte lá fora e ela estava apenas sentada no chão do seu quarto, descalça.

Os dedos das suas mãos estavam sujos de nanquim. Nanquim borrado. Escuro. Os dedos das suas mãos estavam sujos e borrados das cartas mal escritas, dos poemas mal arranjados, dos contos mal resolvidos, da sua vida mal retratada.

Ela pouco se importava com isso. Os dedos sujos provocavam estampas sujas naquelas velhas fotos jogadas na cama, naquelas velhas quinquilharias espalhadas pelo seu quarto.

Quinquilharias? Quinquilharias? Pô, que triste adjetivo para a colagem da minha vida. – ela pensou, triste, enquanto permanecia sentada, descalça, no chão do seu quarto de dormir.

E chovia forte lá fora. E como...

Mas não é que um trovão forte, grosso e espesso, estourou os seus delicados tímpanos acostumados apenas à bossa nova e jazz e fez com que ela acordasse? Fez com que ela despertasse?

Ela decidiu que não queria mais ficar ali sentada descalça, ouvindo o açoite insano da água na maldita janela do seu quarto.

Ela decidiu que não queria ter mais os dedos sujos de nanquim barato.

Ela decidiu que não queria mais ter aquela caixa com “quinquilharias” espalhadas sobre o seu colchão, como uma poça de sangue esvaindo do seu coração.

Ela decidiu que não queria mais chorar por amor. Que não precisava mais daquela caixa, que não precisava mais ficar apenas sentada, descalça, com medo de olhar o céu.

Amontoou tudo desajeitadamente e jogou tudo porta afora, dentro do cesto de lixo do corredor.

Voltou aliviada e ainda descalça ao seu quarto.

Voltou decidida.

Ela decidiu que amaria a ele. Não mais. Não a ele. Não a quem o ferisse. Não a quem não a amasse. Não a quem não estivesse por perto.

Ela olhou através da janela e percebeu que mesmo cinza chumbo, o maldito tinha lampejos de azul...

...talvez fossem os seus olhos. Talvez fosse apenas esperança. Talvez fosse nada. Apenas vontade de mudar e ser feliz. O que, convenhamos, não é pouca coisa, ah, não é mesmo!



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